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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vitamin - Um mangá sobre bullying

Qual a vitamina capaz de fazer
uma adolescente suportar um
sofrimento interminável na escola?
Sawako Yarimizu é uma adolescente normal que vive um momento muito especial em sua vida. Aos 15 anos, está no último ano do ginásio e seu desempenho escolar será decisivo para a entrada no colegial em uma boa escola. Além disso, ela é a única de sua classe a ter um namorado, o belo e inteligente Kouta Arii. Sawako mal pode imaginar que está prestes a viver um inferno que a marcará para sempre. 

O jovem casal tem uma vida sexual bastante ativa, mas é devido à personalidade frágil da menina, que não sabe dizer não ou resistir às investidas do amado. Assim, acabam fazendo sexo em qualquer lugar, ao gosto do rapaz, o que acaba sendo o maior erro de sua vida. 

Um dia, quando se veem a sós em uma sala de aula vazia, ela acaba cedendo novamente ao Kouta e, enquanto estavam transando, um garoto abre a porta de repente e presencia a cena. Rapidamente, a história se espalha e o resultado é desastroso. Taxada de prostituta e vagabunda, é humilhada pela classe inteira, sofrendo agressões físicas e um tormento psicológico sem fim. Seus outrora colegas passam a ser seus algozes, agindo coordenadamente para ferir a menina de todas as maneiras possíveis. A crueldade do grupo é perturbadora.

Sawako: Vítima da hipocrisia social e de um
sistema escolar incapaz de reprimir o bullying,
uma das maiores causas de suicídio
entre crianças e adolescentes no Japão.
Com o rapaz, que se mostra um covarde sem caráter, nada acontece. O professor no qual ela mais confia também a decepciona e a escola passa a ser um lugar de dor e sofrimento para Sawako. Num primeiro momento, nem com os pais ela pode contar, mas é o apoio deles que a impede de desmoronar por completo. 

Em um certo momento, ela também redescobre o prazer de um antigo hobby, que passa a ser um ideal de vida, uma tentativa de dar um outro rumo para sua existência além do que a sociedade espera. Esse fio de esperança passa a ser sua "vitamina" para encarar a reta final de sua vida no ginásio e seu tormento infinito. 

O bullying é uma presença muito forte na vida escolar japonesa, tendo um nome local próprio: iijime, os maus tratos entre estudantes. O problema é sério e é uma das causas do grande número de suicídios entre crianças e adolescentes no Japão, além de contribuir para o aumento de pessoas com fobia social. Polêmico e geralmente tratado com discrição e panos quentes pela sociedade, já foi inúmeras vezes retratado em mangás, animês, filmes, novelas, livros e seriados. Mas geralmente não com a crueza e impacto encontrados em Vitamin, obra publicada corajosamente pela tradicional editora Kodansha em uma revista voltada para adolescentes, a Bessatsu ("Almanaque") Friend. Aqui a indicação é para maiores de 18 anos por seu conteúdo forte, mas no Japão a obra foi lida por adolescentes, o público-alvo das mensagens da autora. 

Publicada originalmente em três edições da revista mensal Bessatsu Friend em 2001, foi compilada em um volume fechado no mesmo ano. A arte de Keiko Suenobu, uma inciante na época, já tinha certa maturidade de traço, mostrando bom domínio de anatomia e muita clareza nas composições visuais. Sua narrativa é direta, como um soco na cara do leitor, extraindo expressões profundas e conseguindo representar toda a maldade e o sofrimento presentes na história. 

Comovente e impactante, mostra não apenas a hipocrisia que existe em uma sociedade que busca a uniformidade de comportamentos, mas também até que ponto pode chegar a crueldade de indivíduos covardes agindo em grupo. Leitura obrigatória. 

- Confira aqui um preview do mangá. 
Vitamin: O trabalho
de estreia de uma
autora de grande talento
e sensibilidade


Sobre a autora:

A roteirista e desenhista japonesa Keiko Suenobu nasceu em 23 de março de 1979 e é formada em Arte e Design pela Universidade de Tsukuba, com especialização em escultura.

Vitamin foi seu trabalho de estreia em 2001 e sua obra seguinte, Life (2002), uma série em 20 volumes, venceu na categoria mangá feminino o Kodansha Manga Award, premiação de uma das mais importantes editoras do Japão. Sua aclamada série Limit (2009) também foi publicada pela Editora JBC

O bullying é um tema recorrente em seus trabalhos e poucos autores já abordaram o tema de modo tão contundente e verdadeiro. 

Vitamin

Roteiro e arte: Keiko Suenobu
Editora: JBC
Formato: 13,5 x 20,5 cm, com 206 páginas
Edição única
Lançamento: dezembro de 2015 

Preço de capa: R$ 14,90
- Classificação indicativa: Para maiores de 18 anos.


12 comentários:

Stefano Barbosa disse...

Curiosidade: Bullying não cometido apenas por estudantes, mas também por familiares. Ex: Michael Jackson sofreu muito nas mãos do pai.
As vezes... alunos "bully" são maltratados pelos pais e descontam nos colegas.. a violência é 1 círculo vicioso.
Pior que o bullying escolar é a omissão da escola...

Bruno Seidel disse...

Olha... a analisar pela resenha, me parece uma leitura bem "pesada". Existe algum tipo de censura que restringe a faixa etária?

Não quero entrar na delicadeza do tema "bullying", que renderia uma longa discussão à parte. Ao que me parece, o mangá também aprofunda bastante a discussão sobre o machismo que ainda está muito presente em diversas esferas da sociedade.

Um outro mangá/anime bem interessante que trata do tema "bullying" (de forma bem leve) é o famoso Great Teacher Onizuka (GTO).

Usys 222 disse...

Esse eu quis comprar e ler antes de comentar alguma coisa.
Para começar, mais uma vez um excelente resumo, objetivo e que não revela os rumos da história. É de se esperar de alguém que já trabalha no ramo há tanto tempo.

A arte segue o estilo usado no bom e velho Shoujo Friend, o que me trouxe boas lembranças. E também me lembro de outras obras que abordam o(s) tema(s) de Vitamin. Digo isso, pois me pareceu que o "ijime", apesar de ser o principal, não é o único tópico da história.

Vejo o "ijime" como um meio de se afastar um "corpo estranho", seja por ter cometido um erro ou por ter algo de diferente. Talvez por isso seja feita essa vista grossa. E digo que o "ijime" mostrado em Vitamin é bem aquilo mesmo. Uma execração sistemática, coletiva, cruel e covarde que acua a pessoa até que ela saia do grupo e até mesmo deixe de existir, cometendo suicídio.

Eu ouso dizer que a execração pública no Japão (de artistas, por exemplo) é algo que se aprende na escola, com o "ijime". E esse é realmente um problema difícil de se lidar devido a elementos arraigados no modo de pensar dos japoneses. Lá se diz que "um prego que se sobressai é batido (até se adequar)". Ou seja, qualquer coisa que quebre a uniformidade deve ser "corrigido" e até eliminado, vide antigamente o problema dos canhotos. E é esse o outro tema que vi em Vitamin, pois Sawako faz uma escolha em sua vida que sai do convencional (que também não conto o que é). Mas é aí que ela se realiza e dá a volta por cima.

Eis uma obra que deve ser lida, não só por adolescentes, como também por pais. A mensagem é contundente e tem de ser espalhada. Excelente indicação!

Ale Nagado disse...

Stefano, tem razão. A omissão da escola é ainda pior que as agressões dos estudantes, pois a escola deveria zelar pela integridade de seus alunos. Curiosamente, nesta mesma semana a Presidente Dilma sancionou uma lei sobre bullying, exigindo mais posicionamento da sociedade. Isso é que é sincronicidade.

Bruno, a leitura é pesada, mas muito necessária para jovens, pais e educadores. Indicar este título proporcionou um daqueles momentos onde este blog transcende o simples entretenimento e usa a cultura pop para comentar questões mais sérias. Aqui, não existe censura, mas um tipo de autorregulamentação baseada em indicações de faixa etária adequada. Por seu conteúdo forte, ficou para maiores de idade, mas isso é uma questão cultural, já que no Japão foi lida por adolescentes da faixa etária da personagem da história ou mais novas até.

Usys, valeu pela contribuição e apoio! Realmente, você fez uma observação brilhante ao relacionar o bullying como a forma que a sociedade japonesa trata artistas que caíram em algum erro. Como o caso ASKA, que teve cobertura no Sushi POP. Realmente, o iijime se aprende na escola e ecoa em toda a sociedade japonesa.

Abraços a todos!

Eduardo disse...

Assim que eu soube do tema do mangá, resolvi comprá-lo. Quando eu li, as partes em que a Sawako é humilhada e ridicularizada me causaram mal-estar. O bullying, seja em que país for, seja que nome tiver, é uma prática horrível e cruel e tem que ser combatida com rigor pelas escolas. Por coincidência eu estava vendo um filme americano famoso que tratava desse tema bem antes dele estar em voga: "Carrie, a estranha". A cena em que a Carrie tem sua primeira menstruação e é humilhada me causou indignação e revolta.

Eu também sofri disso, embora de uma forma mais "leve". Num colégio que eu estudei, tinha um garoto que me zoava por causa do meu jeito de falar. Eu obviamente não gostava e ficava triste.

O que é pior é que ainda existe uma corrente que acha que não tem problema nenhum nisso. Que as pessoas precisam saber que o mundo não é um mar de rosas e que as crianças e adolescentes de hoje são superprotegidas. Toda vez que ouço alguém falar isso, eu perco a esperança na humanidade... Tudo bem, eu sei que o mundo não é mesmo um mar de rosas, mas ninguém precisa sofrer para saber disso. E quanto à questão da superproteção, ela é realmente um mal de hoje, mas não no caso do bullying. Inclusive porque eu acho que quem é superprotegido e mimado são os valentões, que em muitos casos tem pais permissivos, que deixam eles fazerem o que quiserem. A única coisa que eu concordo é que os pais devem ensinar as crianças a se defender, embora eu sei que só isso não basta para acabar com a perseguição.

Enfim, esse mangá é dedicado a pais e filhos, que devem conversar sobre esse assunto, principalmente se o filho estiver sofrendo com isso. Nenhum ser humano merece ser humilhado e ridicularizado a vida inteira.

Ótima indicação, Nagado!
Abraços!

Synbios disse...

Bullying é terrível sem dúvida. Falando nisso, existem mangás sobre os trotes em universidades, que é algo tão terrível quanto? Ou eles não existem no Japão.

Ale Nagado disse...

Eduardo, obrigado por sua contribuição bastante esclarecida e abrangente. A questão é séria e achei fantástico que a história tenha sido publicada numa revista para adolescentes, com toda sua crueza e polêmica.

Apareça mais!
Abraço!

Ale Nagado disse...

Synsbios, obrigado pela participação.

Não tenho informação sobre trotes nas universidades japonesas. Porém, como o sistema escolar lá é bastante austero, creio que não exista. Talvez eles tenham algum tipo de iniciação aos novatos, mas nada que se compare ao trote violento como nós conhecemos por aqui, com "bichos" de cabeça raspada mendigando dinheiro para veteranos gastarem com bebida ou sendo embriagados à força em festas sem limites.

O que pega lá é mesmo o bullying, praticamente uma instituição escolar japonesa jogada, como muita coisa lá, para debaixo do tapete e tratada com discrição, quase como se não existisse. Ainda bem que existe gente como a autora Keiko Suenobu, que lida magistralmente com o tema.

Abraço!

Stefano Barbosa disse...

Nagado, o pior é isso... as vítimas se matam as vezes... por não suportarem mais ! Não sei "por que milagre" não rolou um massacre estilo Columbine no Japão

Ale Nagado disse...

Stefano, no Japão é proibida a venda de armas de fogo a civis, salvo casos muito específicos. Já nos EUA, qualquer um pode comprar um revólver ou um rifle junto com munição pra uma chacina. E isso é um pilar fundamental da cultura americana, por mais insensato que soe para pessoas pacifistas.

Acredito que isso tenha um peso importante, mas pela cultura japonesa, é mais comum a pessoa pensar em suicídio em casos extremos do que em descarregar sua frustração matando outras pessoas. De qualquer forma, é algo terrível de se imaginar.

Valeu pela participação.
Abraço!

Stefano Barbosa disse...

Diria que é a "Cowboy culture"....

Eduardo disse...

Eu queria comentar mais uma coisa. Eu sei que o tema do post, por falar de um mangá, é sobre o bullying específico japonês. Mas mesmo com o sucesso dos animes e mangás, a cultura americana ainda é a mais proeminente. Com isso, eu queria falar do bullying americano. Eu detesto a cultura escolar americana, que não só reproduz a competição desenfreada para ver quem é "winner e quem é loser" como ainda por cima valorizam nas escolas de lá os "winners" errados! (no caso os chamados "jocks" - jogadores de futebol americano por exemplo, e as cheerladers, aquelas patricinhas fúteis.
O que é pior dessa cultura escolar é a perseguição aos nerds, ou seja, estudantes com inteligência acima da média, que são vistos como "perdedores", o que demonstra uma completa inversão de valores. Aliás, a sociedade americana, assim como a brasileira e ao contrário da japonesa, não valoriza a educação, não premia o estudioso. Não é à toa que cada vez mais tem estrangeiros nos centros de ciência por lá.
Eu quis fazer um desabafo pois eu realmente detesto essa cultura de desvalorização dos estudiosos que infelizmente o Brasil também possui, embora eu ache que nos EUA seja pior. Nerds deveriam ser vistos como exemplo e não mal-vistos.