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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ismael dos Santos, Mestre dos Quadrinhos

Mestre Ismael e eu, em algum ponto do início dos anos 2000,
no Núcleo de Arte, minha segunda casa.
Olá, saudações! Peço licença aos leitores habituais deste blog para uma postagem extremamente pessoal. Na semana passada, perdi uma pessoa muito importante em minha vida. Seu nome era Ismael dos Santos. Cartunista, quadrinhista, artista plástico, escritor e, acima de tudo, um professor na mais pura e completa definição. Um mestre. E é sobre ele que falarei agora.



Capa de um folder promocional
do estúdio-escola Núcleo de Arte.
Quem estudou lá foi privilegiado.
Aos 15 anos, fui estudar desenho com o Ismael, em seu estúdio-escola Núcleo de Arte, que ficava no Alto da Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo, capital. Lá, aprendi o método de articulação modular do Ismael, que ajudou a contornar minhas limitações artísticas e a explorar meu potencial para ser um profissional de criação e desenho. Porém, o Ismael não ensinava apenas técnicas de desenho. 

Ele ensinava sobre comprometimento, lealdade, ética e uma entrega apaixonada à arte como ofício. Era algo quase sacerdotal sua visão do ensino de arte. Ele também acolhia pessoas que, com condição financeira precária, estudavam de graça e até faziam refeições em sua casa. Só paguei mensalidade no meu primeiro ano lá. Depois, virei colaborador e ia quase todo dia. O Núcleo era minha segunda casa e ele era um paizão pra muita gente. 

Seguidor e divulgador do espiritismo, tomava o cuidado de sempre ser conciliador e nunca criar constrangimentos para seguidores de qualquer tipo de religião. Ele sempre encontrava o denominador comum para unir as pessoas que têm uma crença religiosa ou, caso fosse ateu, que acreditasse no progresso humano e na fraternidade. Mas ele também era um tirador de sarro, vivia falando bobagens e tinha um jeito carinhosamente casca-grossa de lidar com alguns alunos: "Ô seu filho dum cão maldito desdentado, esse desenho tá uma merda!" Ouvi isso um bom par de vezes. E foi ótimo, claro. É bom levar um chacoalhada de quem se importa com a gente :-P

Ele nunca se preocupou com fama, fortuna ou reconhecimento. Foi diretor de arte na TV Cultura, onde também apresentou um quadro de aulas de desenho no programa História do Desenho Animado. Além disso, também foi chefe de arte na Editora Abril, colaborou com grandes agências e lançou um livro fabuloso sobre ensino de desenho para comunicação, ainda nos anos 1970. Já nos anos 1980 em diante, Ismael se dedicou totalmente a seu estúdio-escola, que já existia muito antes dele, mas que se consolidou com seu trabalho. Tive a honra de dar muitas aulas e participar de várias palestras lá, pois ele sempre me incentivava e apoiava muito.


Mestre Ismael, em 1995
(Foto: Dario Chaves)
Agregando pessoas dos mais diversos interesses e origens, o Ismael fez do Núcleo de Arte um centro de criatividade e camaradagem. Lá, conheci pessoas talentosas, honestas, generosas e que absorviam a filosofia do Ismael e compartilhavam experiências e conhecimentos. 

Amigos como Luis Cruz, Alcir Rafael, Gregório, Sthar-Mar, Caio Borges, Daniel Caballero, Rodrigo Leão, Valdir Gamboa, Alexandre Benitez, Luis "Poesia", Nair, Lurdes, Renato Jairo, Sidnei, Francisco Costa, Rodiclay, Consuelo, Emerson Abreu, Spacca, Brasílio, Sheila, Sonia, Richard, Marcelo Ishida e também o saudoso amigo João Pacheco, que deixou este mundo em 1995... É tanta gente bacana com quem pude conviver lá que já peço desculpas aos muitos que esqueci de mencionar. 

Com o Ismael, dei meus primeiros passos profissionais, seja desenhando caricaturas ao vivo ou fazendo quadrinhos. Trabalhamos juntos em muitos gibis institucionais, oficinas de HQ, eventos com caricaturas e uma infinidade de projetos. Ele criou uma família de personagens para campanhas ecológicas e participei ativamente dessa época. E até fizemos um gibi experimental para o grupo Negritude Júnior, em 1996. 

Ele não tinha afinidade alguma com mangá, mas me ensinou a analisar, entender e buscar o melhor de cada estilo de quadrinhos. Estudar lá e fazer a transição de aluno a profissional foi um período marcante em minha vida. Na verdade, com ele aprendi a nunca perder a visão de aluno, que é a vontade de querer aprender e melhorar sempre mais. 


Em 1992, Ismael foi homenageado pela AQC-SP (Associação dos Caricaturistas e Quadrinhistas de São Paulo) como Mestre do Quadrinho Nacional. Tive a honra de entregar-lhe em mãos o troféu, em cerimônia realizada na Gibiteca Henfil, quando esta era localizada no bairro da Vila Mariana, junto à Biblioteca Viriato Corrêa, na zona sul da capital. Naquele momento, ele estava recebendo um pequeno agradecimento não só pelo seu trabalho no ensino de arte, mas pelas dezenas de pessoas e famílias que ajudou e continuaria ajudando. Tem coisas que deveriam durar pra sempre. 
Anúncio produzido pelo Núcleo
nos anos 80 e veiculado em gibis
da Editora Abril. A belíssima
pintura (mal reproduzida aqui) trazia
a marca do Ismael, com um
colorido vibrante. 

Mas o tempo passou, mudei da capital e toquei minha vida, mas nunca deixei de manter contato com o Ismael e sempre que possível, ia visitá-lo. E foi isso que manteve meu coração sereno quando as  notícias se tornaram preocupantes e o tempo foi se esvaindo. 

A saúde dele decaiu bastante nos últimos anos e, neste mês, ele enfrentou grande sofrimento físico. Rapidamente entrou em estado terminal devido a um câncer com metástase. 

Quando fui informado sobre sua internação, corri para São Paulo, mas quando fui visitá-lo, já estava quase inconsciente e irreconhecível para quem o conhecera sempre motivado e cheio de energia criativa. Segurei sua mão e falei algumas palavras de sincero agradecimento. Quero crer que ao menos ele ouviu o que foi dito. Sua chama, que antes parecia eterna, estava se apagando.

Na noite seguinte, o telefone tocou e fui informado. Ele havia partido. 

Em 19 de novembro de 2015, o mestre Ismael dos Santos encerrou sua linda jornada por este mundo, aos 85 anos de idade. No velório, reencontrei amigos queridos, alguns que não via há muitos anos. Nos abraçamos, relembramos histórias, nos emocionamos e mostramos ao Ismael que suas sementes geraram frutos, sendo o maior deles a gratidão que nos unia. Como ele tinha orgulho de seus alunos! Para ele, éramos quase como filhos. E seus quatro filhos de sangue lá estavam, cientes do quão especial seu pai havia sido para fazer a diferença na vida de muita gente. O Céu deve ter ficado em festa com sua chegada. 

Por tudo isso, achei que devia registrar aqui a influência que o Ismael teve em mim. E além de ter me ensinado sobre desenho e arte, também fui incentivado por ele a escrever. Me tornei roteirista graças à ele, que reconheceu em mim a facilidade de comunicação com palavras. Os roteiros me levaram a outras formas de escrita profissional, o que deu origem a meu trabalho como redator. Ou seja, sem o Ismael, talvez este blog não existisse. 

A meu Mestre Ismael dos Santos, obrigado por tudo. Pessoas como ele sempre fazem a diferença na vida de muitas pessoas. E continuam fazendo, através dos exemplos dignos e fraternos que deixou. 


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EXTRA:

Uma videoaula do Ismael sobre a percepção de formas básicas no desenho. É algo muito útil no ensino de artes para crianças e possui aplicações múltiplas. Ano: 2009

13 comentários:

SPACCA É... disse...

muito bom, Nagado.
abração
sp

Usys 222 disse...

Um relato bem comovente. Deu para ver nessas linhas que ele realmente tinha paixão pelo que fazia. E isso transparece também na vídeo-aula, em que ele brinca com as formas e diz coisas que são bem inspiradoras, com uma tremenda naturalidade. Um sábio mesmo.

Bruno Seidel disse...

Achei justíssima a homenagem! Soube do falecimento do Ismael através do seu Twitter e, mesmo não o conhecendo tão bem, lamentei profundamente. Na verdade, eu só o conhecia pelas suas constantes menções a ele. Toda vez que você dava uma entrevista sobre seu trabalho ou comentava algo relacionado a ilustrações, mencionava o nome de Ismael dos Santos. E sempre se referindo a ele como um mestre. Logo, imagino que essa perda represente algo muito forte pra você.
Tenho uma visão bem peculiar e inconformada sobre a morte. Eu simplesmente me nego a aceitá-la, principalmente quando é uma "morte matada" ao invés da "morte morrida". No caso do Ismael, pelo visto, seu falecimento ocorreu de uma forma menos traumática e repentina. Ele já estava numa idade bem avançada e já tinha deixado um legado digno e louvável, apesar desse tipo de consolo normalmente me incomodar um pouco. Mas, claro, essa é só uma visão particular.
Achei muito bacana esse vídeo em que ele dá uma rápida explicação sobre desenhos através de ilustrações bem simples e diálogo agradável. Isso me leva a pensar que as aulas com ele deviam ser uma coisa muito divertida e prazerosa. Aquelas aulas que você não vê o tempo passar.
Ah! E não seria exagero nenhum dizer que ele foi o "mestre de um mestre". Se você só é o que é por causa dele, olha quantas pessoas são o que são por sua causa. Olha quanta gente passou a apreciar cultura pop japonesa, virar jornalista ou cultivar esse tipo de interesse por sua causa. Eu me incluo nesse meio. Então, acho que devo muito ao Ismael dos Santos também, mesmo sem nunca ter tido nenhuma espécie de contato com ele. Acredito mesmo que, se não fosse pela relação entre vocês, esse blog não existiria e você estaria fazendo outra coisa agora ao invés de ler esse comentário.

Nair Botiquio disse...

Muito linda homenagem! Vc traduziu muito bem em palavras, o que é o Núcleo de Arte e quem é o nosso Ismael. Adorei também o vídeo! Tudo me trouxe muita emoção! Feliz por ter convivido com Ismael e ter feito parte de tudo isso. Obrigada, Nagado!

Stefano disse...

você não ficou chocado com o jeito casca grossa dele ?
ah... Ele conhecia pessoalmente algum quadrinista famoso ?( Angeli, Mauricio de Sousa etc.)

Ale Nagado disse...

Spacca e Nair: Bom ler vocês por aqui. Nós fomos privilegiados por termos convivido com o Ismael.

Usys e Bruno: Obrigado por terem compreendido a importância do trabalho desse meu mestre e amigo. E fico feliz por ter conseguido passar um pouco de sua importância.

Stefano: O jeito dele nunca me chocou, mas alguns chacoalhões foram fundamentais para minha vida. Se você assistiu os filmes do Rocky Balboa, vai entender um pouco sobre ter um estilo mais direto na hora de ensinar. E sim, ele conhecia muita gente famosa, mas da geração dele, como Jayme Cortez, Inácio Justo, Gedeone Malagola e outros. O Mauricio ele conheceu antes dele se tornar o empresário multimídia que é atualmente.

Abraços a todos!

Marisa Furtado disse...

Caros, todos vocês fizeram a alegria da vida do meu sogro, a razão de seu viver!!! Celebremos, agora ele está inteiro no que sempre sonhou: o plano espiritual! bjs

Gregório Moreira disse...

Belo relato, Nagado! De uma forma ou de outra, Ismael influenciou a vida de todos que passaram por ali. Sempre vou carregar comigo as boas lembranças do tempo em que frequentei o Núcleo de Arte, do que aprendi ali e as amizades que fiz.

Ale Nagado disse...

Oi, Marisa.
A gente sentia - e sente - orgulho de fazer parte daquela agitação toda que o Ismael criava. E tenho certeza que o plano espiritual está mais movimentado e animado depois que ele chegou por lá. Abraços pra toda sua família!!

Fala, Greg.
Nos anos todos que passei frequentando o Núcleo várias vezes por semana, acho que o que eu mais gostava era conviver com gente criativa. Tudo aquilo inspirava demais. E aqueles montes de quadrinhos que a gente fuçava por lá? Mortadelo e Salaminho (meus favoritos), Asterix, Cimoc, El Víbora e tantos outros? Abriu minha mente pra muita coisa.
Somos privilegiados por termos essas lembranças.
Grande abraço!! E mantenha contato!

Gabriel Silva disse...

Fala, Nagado.

É realmente uma raridade encontrar gente desse tipo, um mestre no sentido mais elevado da palavra. Acredito que poucas pessoas nascem com esta vocação tão nobre e, por isso mesmo, concordo quando você diz que foi privilegiado por ter tido um professor assim, do tipo que se importa verdadeiramente com a formação dos alunos e, por isso mesmo, faz muito mais por eles do que um professor comum ousaria fazer. Apesar da notícia triste, fico feliz por alguém como ele ter existido nesse mundo e tido a oportunidade de ajudar na formação ética e profissional de tantas pessoas de valor.

Que ele descanse em paz. E meus sentimentos a todos os amigos e família.

Bira disse...

Puxa vida, ainda ontem estava falando do Ismael dos Santos com o Alexandre Silva e o Marcos Venceslau (enquanto íamos pro aniversario de 23 anos da Gibiteca de Santos)! Eu conheci o Ismael quando fui assistente do Eduardo Vetillo em 79, que dividia estúdio com o Walter Cordeiro e o Ismael dos Santos na r. Pontaporã (Lapa). Eles eram muito amigos! E o pouco que convivi com o Ismael me fez gostar muito dele, um cara carismático. Ganhei dele um livro, um manual de desenho muito bacana, que tinha as lições dle e alguns trabalhos especiais de alunos, como um cachorro do João Spacca se coçando. Ele falava da expontaneidade e movimento do traço do João, que ia se animar logo, logo, como de fato se animou. Puxa que pena. E dia 10/12 faleceu o mestre Paulo Hamasaki.

Alexandre Silva disse...

OI Ale...só agora pesquisando sobre o falecimento do Ismael, que li seu texto. Bela materia para esse grande batalhador dos quadrinhos. Fiz um curso de roteiro rápido com ele. me lembro de sua didática e de seu bom humor. Uma pena! Faremos uma homenagem a ele no IN MEMORIAM do 32º Trofeu Angelo aGOSTINI no proximo sabado, dia 30.
Me permita usar suas fotos aqui dessa materia para homenageá-lo?
Abraços

Ale Nagado disse...

Olá, meu amigo. Sim, pode usar o que achar conveniente. Infelizmente não conseguirei estar em São Paulo para o evento.

Mantenha contato.
Grande abraço!