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O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, Katokutai, Pinóquio de Osamu Tezuka, Danger 3, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

CoCo - Idols com alma e talento

CoCo: Delicadas harmonias vocais e um pop singelo e honesto
Conheça a história do grupo CoCo, um grupo idol do final dos anos 80, com garotas talentosas e carismáticas. Sua trajetória foi típica para um grupo idol, mas fizeram um trabalho que tinha qualidade musical, com integrantes que se mostraram boas intérpretes. De quebra, saiba um pouco sobre o funcionamento dessa indústria de entretenimento das idols, um fenômeno cultural japonês.

Da esquerda para a direita:
Rieko, Erika, Azusa, Mikiyo e Maki
CoCo surgiu em 1989, planejado pela gravadora Pony Canyon. As cinco garotas, todas tendo entre 15 e 16 anos, eram Azusa Senou, Rieko Miura, Maki Miyamae, Mikiyo Ono e Erica Haneda. Todas foram selecionadas a partir de um programa da TV Fuji chamado Paradise GoGo!!, que por sua vez tinha um grande grupo musical, chamado Otomejuku. Várias artistas do início dos anos 1990 saíram desse programa, sendo que uma conhecida no Brasil foi Yuko Hanashima, da série de tokusatsu cômico Patrine (1990). 

A estreia de CoCo foi com o single "Equal Romance", o segundo tema de encerramento do animê Ranma 1/2, criação de Rumiko Takahashi. Ainda gravariam em 1991 outro tema para Ranma 1/2, a canção "Omoide ga ippai", usado como terceira abertura da série de TV. E o primeiro single solo de Azusa, "Mou nakanaide" ("Não chore mais"), seria usada como a quinta abertura do mesmo animê. 

Seu público mais fiel era composto por rapazes, que se comportavam parecendo uma torcida organizada que ia nos shows para babar pelas meninas e urrar, não para ouvir sua música. Porém, elas não dependiam somente desse público otaku de nicho, pois suas canções vendiam bem perante o grande público.  
Vestidas como bonecas, tendo como público-alvo não
meninas adolescentes, mas homens solitários
A maioria dos singles de CoCo chegou ao cobiçado top 10 da parada de sucessos da Oricon, a entidade que atesta as vendagens da indústria de entretenimento, sendo um dos grupos idol de maior sucesso da época. E apesar da padronização musical exigida nessa área, elas tinham uma identidade sonora própria. 

O grupo não cantava somente em uníssono (todas na mesma nota, sem que uma voz se destaque), que é algo bem comum com grupos de idols. Cada uma cantava solo em partes da música e faziam diferentes combinações de harmonias vocais entre elas. Azusa, Mikiyo e Erica possuíam voz mais encorpada e faziam a diferença. Em pouco tempo, todas teriam lançamentos solo, mas sem deixar o conjunto, com exceção de uma delas. 


["Yume dake miteru" (ou "Enxergando apenas um sonho")]


"Crystal eyes", álbum de
estreia de Azusa como
cantora solo, em 1992.
Azusa saiu do CoCo em 1992, para se concentrar totalmente em sua carreira solo. Na época, correu o boato de que ela estaria saindo obrigada pela gravadora, que queria investir nela como cantora solo. Em seu show de despedida, a emoção tomou conta do grupo e lá estavam cinco meninas que estavam dando tudo de si pelo sonho da carreira artística, mas com muito companheirismo também. (Confira o vídeo no fim da postagem.)

Inicialmente, como é de praxe após a saída de uma idol de grupo, pensou-se em fazer um concurso ou audição para substituí-la. Por algum motivo - talvez pressão dos fãs ou do próprio grupo - a ideia foi engavetada e Azusa nunca foi substituída. Sua carreira solo começou bem, e seu segundo álbum solo, "Horizon", foi quase todo composto e produzido pelo renomado guitarrista Takamiy, da banda The Alfee. Mas o sonho durou pouco e ela saiu da área artística em 1995, apesar da boa voz e uma opção para um pop mais maduro no trabalho solo.

CoCo: Um exemplo bem-sucedido de trajetória de um grupo idol.
Em 1994, fizeram uma parceria com o time de beisebol Yokohama BayStars. Os jogadores fizeram uma pequena (pequena mesmo) participação gravando vocais no coro. O single duplo tinha "Yokohama Boy Style" e "Winning" e foi um dos últimos sucessos do grupo. Em uma coletiva de imprensa, CoCo cantou "Winning" com os grandalhões do time atrás, mais constrangidos do que nunca em seu forçado papel de cantores de apoio. 

O CoCo continuou por pouco tempo mais e encerrou atividades em 1994, após 14 singles e 6 álbuns originais, com todas saindo para trabalhos solo e tentando emplacar como atrizes. Eventualmente, a maioria delas precisou apelar para ensaios fotográficos sensuais ou eróticos para se manter em evidência em algum momento. Nisso, as carreiras delas mostram a trajetória típica de uma ex-idol. Ou de idols em geral, visto que no atual mercado dominado pelo "universo AKB48", a erotização é cada vez mais precoce e obrigatória. 
Rieko Miura, a mais bem-sucedida ex-integrante do CoCo
Rieko Miura, de voz bem infantil (e de padrão mais comum entre idols) acabou tendo uma carreira solo mais longeva que suas amigas, tendo se tornado também uma atriz respeitada e modelo fotográfica. 
Maki Miyamae fazendo
cosplay de Chun Li
na capa do single
"Yume e no position"
Maki Miyamae gravou em 1992 "Yume e no position", seu único single solo, uma música sobre a personagem Chun Li, do game Street Fighter IIAlém disso, Maki e Erica eventualmente voltariam a cantar juntas, com um projeto de curtição chamado Psychogalvanometer

Mikiyo Oono lançou dois singles e um álbum solo e, como a maioria de suas colegas, ficou mais conhecida como atriz. Quatro anos depois do fim de CoCo, tornou-se vocalista da banda Love Trace. Atualmente todas elas estão meio sumidas da mídia, com exceção talvez de Rieko, a mais popular e bem-sucedida. 

CoCo talvez tenha sido apenas mais um entre centenas de grupos idol que já surgiram no Japão. Mas tendo ligação com o animê Ranma 1/2, e com vocais de qualidade, ganhou um lugar de destaque no universo idol. E ainda mostraram, em mais de uma ocasião, que sob aquela identidade fabricada de idols, havia um grupo de pessoas de verdade, com sentimento, talento e autenticidade. 

Idols - Vendedoras de sonhos

O fenômeno idol é algo genuinamente japonês e seu significado transcende a simples tradução para "ídolo". Cantoras ou grupos delas povoam o imaginário de parcela considerável do público nipônico. Possuem vozes geralmente infantis, dançam coreografias fofas, fazem carinhas de anjo inocente e há uma exploração desenfreada de consumo envolvendo a imagem dessas meninas. Por trás, gravadoras e empresários com contratos rigorosos que as proíbem de namorar e ter vida social, preservando a aura de virgem intocada a povoar os sonhos de rapazes e senhores solitários, que se apaixonam por elas e compram tudo o que leva estampado suas imagens. 

Esse idol system movimenta milhões e anualmente lança dezenas - talvez centenas - de candidatas ao estrelato, sonhando em serem artistas multimídia, pois uma idol deve ser fotogênica, saber dançar, cantar (nem sempre), interpretar, fazer caras e bocas, dublar animês e o que mais pintar. Da mesma forma, essa indústria vai descartando aquelas que vão perdendo o jeitinho de adolescente, levando muitas à depressão, suicídio ou ao mercado pornográfico. 

Otomejuku (ou "Escola de Donzelas"),
uma verdadeira fábrica de idols

Essa substituição de integrantes em um grupo idol é tão comum que existe até o termo "graduation" (de graduação, formatura), um eufemismo usado como se ser idol fosse um aprendizado para depois se tornar uma artista "madura". Mas que, em muitos casos, significa mesmo que a menina já não é tão popular e precisa ser substituída. 

As que ficam um tempo nesse mundo idol, aprendem a conviver com as pesadas pressões dos empresários e fãs, com sua idolatria quase doentia em muitos casos. (Nota: Sobre isso, veja o artigo "Idolatria e perseguição no mundo otaku.")


O mercado de idols começou timidamente na década de 1970, mas ficou bastante agitado nos anos 80. Adolescente bonitinhas (sem serem exuberantes) com vozes infantis tendo como público-alvo rapazes (e senhores) solitários foram o padrão de muitas artistas da época. Há os idols masculinos, mas eles existem em menor número e com carreiras bem mais longevas, sem as mesmas pressões de mostrar um olhar inocente. 



Atualmente, o mundo idol  atrai milhões de fãs no Japão e fora dele, eternamente explorando a juventude e suposta pureza de suas estrelas. Mas com o passar do tempo, as situações que exploram a imagem das meninas vão ficando cada vez mais erotizadas, bem como a rigidez do controle sobre suas vidas. Tanta cobrança para depois descartá-las, em uma fórmula que não dá sinais de desgaste. 

::: E X T R A S :::

1) Despedida de Azusa Senou, a melhor voz do grupo, que estava saindo em carreira solo. Antes de serem idols e artistas profissionais, lá estavam cinco companheiras vivendo um momento inesquecível. A performance emocionada de Azusa contagiou todo mundo. A música é "Mou nakanaide" ("Não chore mais"), da carreira solo de Azusa, lançada um ano antes.


2) "Omoide ga ippai" (ou "Memórias completas"), a 3a abertura do animê Ranma 1/2. 



3) "Yokohama Boy Style", um dos últimos sucessos do grupo, em 1994.

7 comentários:

Usys222 disse...

Idol não é a minha praia, tanto pessoas reais quanto desenhos, mas lembro dessas do desenho do Ranma 1/2. Se bem que prefiro as versões cantadas pelo DoCo (grupo formado pelas dubladoras do desenho), com um arranjo mais "achinesado". E tenho tendência a achar mais bonitas as vozes das dubladoras. Sinto que elas botam um pouco mais de espírito.

Equal Romance deve ser conhecido por quem via a Locomotion. Foi um dos temas de encerramento de Di Gi Chatat Nyo.

Hum... Acabei falando mais de Ranma 1/2 do que de CoCo. Mas isso é o que me lembro.

Anônimo disse...

Aqui tem a discografia delas. Deve ter tudo ou quase tudo. ;-)

http://jpop80ss.blogspot.com.br/search/label/COCO

Ale Nagado disse...

Fala, Usys!

Eu vi a DoCo. O nome, obviamente, era uma referência bem-humorada ao CoCo.
Por serem as vozes do desenho, acredito que os fãs do animê gostem mais da versão da DoCo mesmo. Os temas de Ranma eu só descobri depois. A primeira música delas que ouvi foi Winning, acho que numa coletânea aleatória. E por muitos anos só tive essa música delas, fora umas fotos que tinha numa revista Myojo de 1993. Mas eu tinha comprado em sebo, em 1995. Ou seja, eu descobri o rosto delas quando a banda já tinha acabado. Levaria anos mais para ver elas cantando em vídeo. CoCo tem um lugar especial entre meus artistas J-pop favoritos.


Abraço!

Basara Nekki disse...

Olá Nagado,

Também conheci esse grupo por causa das músicas de Ranma 1/2, mas como na época não havia internet para fazer uma pesquisa, não saberia dizer a exata diferença entre "CoCo" e "DoCo", qual veio antes, qual a relação com o anime, etc (simplesmente falava-se: "é música de Ranma 1/2"). Hoje é fácil!

Não fiquei fã do grupo, até porque lá pelo meio da década de 90, além das músicas diretamente relacionadas com algum anime ou tokusatsu, eu escutava mais Namie Amuro, Hikaru Utada, Speed, Max, X Japan, L'Arc~en~Ciel, e deve ter mais alguns, mas não me lembro (só sei que alugava os CDs lá na Haikai).

Sobre a "indústria das idols", eu não acho que os métodos adotados sejam totalmente ruins. Se não fosse essa questão da falta de liberdade individual e da "descartabilidade", acho que seria um exemplo a ser seguido por outros países, principalmente aqui no Brasil, onde quase não se revelam novos cantores (somando os bons e os ruins), e a indústria fonográfica sobrevive apenas dos artistas de longa carreira. Mas alguém pode chegar e dizer: "o Brasil revela vários cantores todos os anos". E aí eu digo: "sim, mas a maioria some da mídia tão rápido quanto apareceu". Sendo assim, mal dá pra contar que "aquele" artista "existiu" (ou que teve uma carreira). No Japão pelo menos os artistas são "multimídia", atuam em diversas áreas, e quando não dá certo em uma, vai para outro ramo artístico. Por aqui isso não acontece.

No quesito qualidade, aí eu já acho que é mais uma questão pessoal ("gosto"). Da forma como você escreveu, ficou análogo a um comentário que eu vi na TV, de um produtor musical, ao elogiar algumas cantoras famosas, dizendo que elas tinham uma voz "madura" e "aveludada", e que por isso eram melhores que as demais. Todas elas tinham o tom de voz grave ou muito grave (tipo uma que só faltava chegar no palco e falar: "e aí mano, tá ligado"). Particularmente falando, eu gosto dos tons mais agudos, extremamente comuns no cenário japonês.

Ainda nesse tema, sobre as músicas utilizadas nos animes (tema que você abordou em um texto anterior), acho que está bom do jeito que é hoje. Há mais de 20 anos que alguns animes são usados apenas para se divulgar novos talentos, ou mesmo uma nova música de algum artista ou banda. Ainda assim existem muitas músicas que são criadas exclusivamente para o anime, e que em geral são cantadas pelos próprios dubladores e dubladoras. E se você pensar na enorme quantidade de títulos lançados a cada ano, tem espaço de sobra para todos. Se qualidade fosse o primeiro critério na escolha dos cantores, teríamos poucos cantando quase todas as músicas (seria algo do tipo Ichiro Mizuki nos anos 70). Mesmo gostando do JAM Project, eu não acharia legal eles cantando em uns 10 animes a cada temporada (3 meses).

Feliz ou infelizmente estamos falando de uma indústria, e como tal ela sempre visa primeiro o lucro. Isso vale para todo o cenário musical, para os animes, os filmes, e até jogos. Um típico exemplo está aqui no Brasil, onde os shows de funk ficam lotados e a todo momento esses artistas aparecem na mídia, enquanto que ocorre o inverso com os cantores de MPB. Nos cinemas, um drama vencedor de Oscar não arrecada nem 20% de algum filme de ação "blockbuster". E no cenário musical japonês, enquanto alguns discos do JAM Project não conseguem nem chegar a 10.000 cópias vendidas, qualquer disco da franquia de The iDOLM@STER passa facilmente das 15.000.

Até mais.

PS: Eu acho que tenho uma revista (não lembro qual) com as integrantes do CoCo, de biquini. Os nomes delas não me são estranhos.

Gabriel Silva disse...

Ótimo post, Nagado, e que pena eu não ter tido tempo de ler antes. Seja como for, acabo de me dar conta do quão desinformado eu sou a respeito da música pop japonesa. Sério, gosto muito de Ranma 1/2, adoro as músicas de abertura/encerramento, mas nem fazia idéia de quem as interpretava. Em parte, é por causa do costume de ir no YouTube e pesquisar "tema ranma 1/2" em vez de procurar saber o nome do artista. Mas o fato é que, de maneira geral, eu não tenho muita paciência para pesquisar informações sobre a música pop de lá, mesmo. Têm alguns artistas/bandas japonesas que sou grande fã, mas a maioria não desperta muito meu interesse.

Outra coisa que me chamou atenção nesse post é o fato de que, desde aquela época, já existiam os otakus babões obcecados com essas idols. Na verdade, têm vários detalhes sórdidos sobre a cultura otaku que eu penso serem tendências recentes mas aí acabo descobrindo que já vêm de longa data. É a bizarrice que ultrapassa gerações dentro desse nicho :)

Ale Nagado disse...

Oi, Basara Nekki!
Obrigado por suas contribuições aqui, cheias de conteúdo e opinião embasada. As integrantes do CoCo viraram celebridades da mídia por um tempo e seus nomes ficaram muito conhecidos nos anos 1990. Gosto de diversidade musical. E por mais que eu goste de vários cantores especializados em anime songs, os picos de venda só acontecem quando cantores J-pop gravam temas. Acaba sendo bom para o mercado em geral.

Gabriel, que bom que descobriu coisas novas aqui no blog.
Sobre os otakus "babões", essa categoria tem até nome: são os otakus idólatras. Eles sempre existiram, mas acho que a coisa pegou fogo mesmo com o Onyanko Club, primeiro grande projeto de Atsushi Akimoto, o midas do Universo AKB48. Isso foi mais para o começo dos anos 1980. Quando CoCo surgiu, já havia uma multidão de fãs desse gênero. Não deixa de ser curioso. Vamos fazer um exercício de comparação e imaginar as Paquitas (aquelas da Xuxa) como um similar brasileiro. Pois bem, imagine um show das Paquitas nos anos 90 para uma platéia essencialmente masculina e adulta, com elas cantando músicas infanto-juvenis. É assim que acontece com muitas idols.

Abraços a todos!!

Anônimo disse...

Olha o segundo disco solo da Azusa aqui:
http://jpop80ss.blogspot.com.br/search/label/SENOU%20AZUSA

Tem músicas que lembram mesmo The Alfee, especialmente a primeira. ;-)