sábado, 28 de novembro de 2015

Bate-papo: Nostalgia e a questão "Passado vs. Presente"

Comparando gerações: Os dois volumes da coleção
Ultraman Hit Song History apresentaram
músicas e cenas dos Ultras de várias gerações.
Ás vezes me pergunto se estou ficando já cansado e chato pois não consigo acompanhar com entusiasmo as séries tokusatsu mais novas! Sempre vejo algo que me faz perder o interesse, seja a computação gráfica absurda, roteiros fracos, atores sem graça e etc... Mas quando assisto uma série mais antiga, por exemplo: UltramanUltraseven e outros dessa época, me empolgo muito e acabo por valorizar mais essas do passado do que as do presente. Até tento ver alguma série atual, mas desanimo... Muitos acham que isso é viver de passado, mente fechada etc... 

Gostaria de outras opiniões! Será que com a idade vamos ficando, digamos assim, enjoados? Gosto de nostalgia, me traz boas recordações, mas quero ainda ter outras lembranças de outras séries, mas está difícil... O tokusatsu teve suas perdas em roteiros e outros itens?
UltraAceJack (Jamil)

Olá, Mr. Jamil. É uma pergunta complexa e com muitos desdobramentos, mas vamos lá: Eu sou de 1971, assisti os grandes clássicos (Ultras, Robô Gigante, etc...) ainda criança. Quando o material da geração Jaspion e Changeman veio  para o Brasil, eu já era adulto e vi muita gente reclamando desses seriados da Toei, dizendo que não tinham o carisma dos antigos. E para os garotos de hoje, os antigos podem soar como "paradões" e "sem graça", sem "carisma". Bom, identificar o tal carisma é uma percepção muito pessoal, e até escrevi um artigo sobre isso intitulado "Sobre carisma e as armadilhas do pensamento nostálgico". 

Choque de gerações levado às vias de fato:
O filme Kamen Rider Taisen colocou
dois grupos distintos de Kamen Riders
em confronto direto. 
Mas existem mudanças estruturais que podem ser percebidas e analisadas. Se pegar roteiros de séries tokusatsu antigas, há um maior espaço para desenvolvimento de situações do que as produções mais modernas. Claro que isso tem exceções, não vamos generalizar coisa alguma. 

Mas se formos analisar séries de super-heróis principalmente a partir dos anos 1980, veremos uma profusão de cenas repetidas, como longas transformações de heróis e veículos. E no caso de robôs e naves, essas cenas geralmente serviam apenas para mostrar brinquedos que podiam ser adquiridos em lojas. Cenas repetidas também vão "comendo" o tempo de duração do episódio, na mesma medida em que vão barateando custos. E também houve a necessidade de inserir mais cenas de ação para prender mais a atenção das crianças, o público-alvo da maioria das produções. Como resultado, as histórias devem ser mais ligeiras e acabam sendo, geralmente, mais superficiais (mas nem sempre). 

Um outro ponto interessante sobre tokusatsu é que seriados antigos também eram voltados para crianças, mas com capacidade de chamar a atenção de pessoas mais velhas. Havia muitas vezes um subtexto ou um ponto de reflexão que podiam passar batido para as crianças, mas que tornavam o trabalho interessante para pessoas mais velhas. 

Um episódio de O Regresso de Ultraman  (1971) trazia um monstro que havia engolido um estoque de gás venenoso desenvolvido pelo Japão na Segunda Guerra Mundial. Daí, um oficial do grupo GAM, que era neto de um militar envolvido com a criação dessa arma proibida, assume o fato como algo pessoal e luta para limpar a honra da família. Para os mais velhos, isso lidava com um assunto espinhoso, que era o uso de armas de destruição em massa, uma possível alusão a crimes de guerra cometidos pelo Japão, o que é um tabu no país. E o episódio começava com um grupo de teatro que estava num ensaio morrendo vítima desse gás. Em Lion Man, um episódio questionava a morte pela honra, contrariando a lógica do violento mundo dos samurais. Os exemplos são muitos, mas algumas séries mais recentes não deixaram isso totalmente de lado. 
Gokaiger vs Gavan: Os heróis do
passado são mais implacáveis se
comparados aos do presente?

Em animês de ação também aconteceram mudanças na estrutura dos roteiros. Em Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z (entre outros), há combates que duram mais de um episódio, com longos flashbacks e muito sofrimento e melodrama que se arrastam por longos períodos. Já em produções antigas (anos 1960 e 70, por exemplo), isso quase nunca acontecia e as lutas começavam e terminavam num mesmo episódio. Nos grandes animês de ação, os arcos de história são longos, enquanto antigamente a história auto-contida era a regra. Com mais episódios e mais espaço (leia "tempo") é possível desenvolver mais personagens e situações, mas também dá pra enrolar mais, o que vai depender do talento dos envolvidos na produção. A conclusão é que não é só o jeito de contar histórias de tokusatsu que mudou. 


É certo que o tempo muda a forma como as histórias são contadas, pois muda a percepção do público e a percepção de mercado dos produtores e seus influentes patrocinadores. Hoje é preciso uma dinâmica maior para prender a atenção do público, que consome muita coisa simultaneamente, tamanha é a oferta de entretenimento que existe. Mas como sempre, há roteiristas que trabalham bem o tempo, enquanto outros não. Porém, acima de tudo, talvez certas caracterizações atuais e modernas o incomodem a ponto de não conseguir apreciar os pontos positivos. O que também não tem nada de mais, pois ninguém é obrigado a gostar do que faz sucesso atualmente. 


O fato é que gostos e estilos mudam a cada tempo e nem todos conseguem se identificar com isso. Eu sou daqueles que preferem produções antigas do que as atuais, mas consigo apreciar boas histórias e personagens de estilos diferentes do que eu gostava quando garoto. É isso. 
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6 comentários:

Basara Nekki disse...

Olá Nagado (e Jamil também),

Eu acho que tudo isso se resume basicamente ao saudosismo e a um conflito de gerações (podemos simplificar uma geração como sendo o período de 5 anos). E como a grande maioria das pessoas tem a tendência natural de fazer comparações para tudo, surgem daí esses conflitos entre o antigo e o atual. Pessoalmente falando, acho que sou uma dessas raras pessoas que não sofrem desse "mal".

No caso específico dos tokusatsus, essa questão das comparações já era bem evidente nos anos 90 e início dos anos 2000. Nessa época, os roteiros foram ficando mais infantis e cômicos, deixando a tragédia e o drama de lado (o mesmo ocorreu com os animes). Isso fica evidente pela redução drástica no número de "mortos" ao longo de uma série, e ao longo dos anos. Como a sociedade como um todo foi mudando com o passar do tempo, os comportamentos e costumes (valores) também mudaram bastante. Hoje seria impensável, mesmo que a obra não seja para crianças (seria tipo um "seinen"), ter cenas como a do "Regresso de Ultraman" em que os inimigos matam o melhor amigo e a namorada do personagem principal; ou como em "Zubat", onde invadem um hospital e saem matando todo mundo.

O engraçado é que com os "Kamen Riders" os roteiros foram ficando mais complexos (nem parece que é para criança), sem aquela coisa simplista da luta contra um típico império do mal, mas o visual e os atores não agradam ao pessoal "das antigas".

No caso dos animes, hoje o desenvolvimento da história e dos personagem acaba ficando prejudicada por causa do pequeno número de episódios das atuais séries (10 a 13), comparado aos antigos (em média uns 50). Além disso, atualmente os animes em geral não passam de meras ferramentas de propaganda para o "material original" (mangá, light novel, game), ou então para vender outros produtos de merchandising. Por isso cada vez mais as pessoas que já acompanham animes há mais de 7 ou 10 anos acabam por achar que os antigos eram melhores. Algumas pessoas chegam a procurar por produções de 20 ou mais anos para assistir (isso é bom, pois expande o leque de opções dela).

Voltando a questão do conflito de gerações, isso vai existir sempre pois a cada nova geração, as pessoas crescem vendo coisas diferentes (o que influencia na sua formação de opinião). Eu me lembro que no início da era dos "Cavaleiros do Zodíaco", as pessoas mais velhas viviam falando mal da série, dizendo que não tinha a mesma "alma" de um "Sawamu", "Fantomas" ou "A Princesa e o Cavaleiro". Anos mais tarde, a mesma coisa aconteceu entre os fãs da geração Cavaleiros e os da geração Naruto. E isso perdura até hoje. E se nós ampliarmos a discussão, vamos acabar parando na questão do "gosto pessoal".

O mais importante para uma boa diversão é "não fazer comparações" (pra mim funciona; não sei pros outros). Tentar assistir algo de um gênero totalmente diferente daquele com o qual se está acostumado também pode ajudar (tipo uma pessoa que só assiste "battle shounen" - Cavaleiros, Dragon Ball, Naruto - passar a assistir "romance" - Nisekoi, Ore Monogatari, Isshukan Frinds -). Mas isso depende de cada pessoa.

Bom, acho que é isso. Se lembrar de algo mais, volto aqui depois.

Até a próxima.

Ultra Ace Jack disse...

Agradeço a atenção Nagado ! Obrigado !
A anos atrás eu havia lido uma matéria sobre o Fantomas e no final da matéria se não me engano a pessoa usou a seguinte frase " Cada geração tem o Spectroman que merece "! Foi como o nosso colega citou em sua resposta ! o Choque de gerações ! Mas recentemente em comentários no Youtube vi dois garotos conversando sobre Família Ultra ! um tem 11 e o outro 14 pelo que eles disseram um para o outro e por curiosidade entrei no bate papo e perguntei a um deles o porque ele gostava tanto do Ultraman e ele me respondeu que assisti desde bem pequeno provavelmente um gosto passado de Pai para filho, ele também me disse que não troca os Ultras antigos por nenhuma outra produção recente ! ele gosta das histórias e dos personagens ! Achei curioso pois uma criança dessa idade iria preferir uma série mais recente com efeitos de última geração e uma ação constante e visual colorido ! Isso monstra que as séries antigas ainda conseguem cativar pelas suas histórias e personagens e uma criança enxergou esse lado e nem se importa se os efeitos são antigos ou não ! Também sou da velha guarda e assisti os Ultras e os demais da época! foi os primeiros Tokusatsus que assisti talvez isso deixe uma marca em nossa vida !
Mas opiniões são diferentes e gosto também ! como diria um amigo " Eu curto ás séries do meu jeito" Sou Saudosista ! prefiro produções mais antigas anos 60 a 80 ! mas talvez tenho que aprender a olhar de uma outra maneira ! mas também acho interessante a geração de agora conhecer produções mais antigas pois o que se tem hoje é algo que começou lá no passado.

Bruno Seidel disse...

Olha... Antes de mais nada, é preciso entender que não faz muito sentido comparar séries dos anos 1960 com o que é feito atualmente. Num mundo em que praticamente tudo evolui tão rápido, são vários os fatores que deveriam ser levados em consideração numa eventual crítica comparativa. Então, apesar de sentir falta de algumas coisas que me encantavam nas séries que eu assistia décadas atrás, é perfeitamente aceitável o fato de que tudo tem seu tempo.
Eu já fui desses saudosistas convictos que compram briga pra defender as séries clássicas. Com o tempo, acabei amadurecendo e resolvi “dar uma chance” para as produções inéditas. Como o Basara Nekki comentou, é nítido que as novas séries Kamen Rider ganharam muito no quesito “complexidade do enredo”, apesar de todo o “circo comercial” à sua volta. Eu concordo e acho isso sensacional!
Mas o que me fez perceber MESMO que eu tinha mudado a minha forma de pensar foi quando a Toei liberou aquela enquete na divulgação do filme “Showa vs. Heisei”. Era uma espécie de “Você decide” pra ver quem venceria quem no filme. Os Showa estavam vencendo de lavada! Eu entrei no site disposto a votar nos heróis Showa, afinal, eu era um saudosista convicto, cresci assistindo Black e RX. Mas pouco antes de dar o meu clique, acabei me dando o benefício da dúvida e pensei: “Peraí, de uns tempos pra cá eu tenho assistido bem mais às séries novas do que às antigas”. E é verdade! De Kuuga a Gaim (o Rider da vez, na época), eu tinha assistido a praticamente todos. Bem diferente dos Showa (nunca vi Ichi-Go, V3 ou Amazon completos, por exemplo). Percebi que séries como W, OOO e Fourze, apesar de recentes, já representavam uma forte sensação de saudosismo pra mim. Essa reflexão instantânea fez eu, de uma hora pra outra, mudar a convicção do meu voto. Nunca imaginei que faria uma coisa dessas: votei nos Heisei Riders! E pra minha surpresa, a turma dos Riders “leite-com-pêra” venceu a votação de virada (tinha cara de mutreta, mas enfim...).
Vale mencionar também que estou curtindo muito Ultraman X, produção mais recente da Tsuburaya. Na minha opinião, é a melhor série do ano e, pra quem não conhece, reúne o que há de melhor nas produções antigas (monstros clássicos, personagens carismáticos e episódios fechados com desfechos emocionantes) e nas atuais (efeitos especiais incríveis, excelentes cenas de ação e enredos mais contemporâneos).
Acho que, se eu ficasse preso ao saudosismo, eu estaria sempre assistindo às mesmas séries e sequer me permitiria a chance de ser surpreendido por alguma novidade que volta e meia pinta por aí. Em 2016, tudo indica que teremos grandes homenagens com os 50 anos dos Ultras, os 45 anos dos Kamen Riders e a 40ª série Super Sentai. Acho que é um bom tempo pra estar de “mente aberta” e curtir as novidades vindouras. Pra mim, a “fórmula perfeita” é valorizar e prestigiar os clássicos, mas estar sempre aberto ao novo, assim temos o dobro de chance de nos divertir! ^^

Aniki disse...

E aí, Nagado.

Creio que esse lance de nostalgia ocorre com diversos temas(cinema, séries de TV, esportes, música...), sempre citando o que curtia no passado.

Mas como o assunto é tokusatsu, posso dizer que, embora ainda curta bastante as séries dos anos 1980(e até algumas dos anos 1970, como Kikaider e Zubat, já citado acima), sempre que possível acabo dando uma chance para um ou outro título.

Já comentei anteriormente sobre continuar acompanhando as séries Garo(acho que merece uma postagem sobre os 10 anos do título, que de uma série passou a ser uma franquia) e Ultraman X, que tem me agradado.

Não muito distante, quando ainda existiam as saudosas exibições da galera do Neo Animation no Centro Cultural São Paulo, fui conhecendo várias outras séries, novas e antigas, tentando avaliar seus pontos positivos e negativos. E provavelmente daí que começamos a ser mais seletivos.

Diversas séries pós-2000 conheci através da internet e curto até hoje, como os Heisei Riders(de Kuuga a Double, daí pra frente não acompanhei mais, somente os filmes Super Hero Taisen), alguns sentais deste século(Dekaranger, Boukenger, Shinkenger e Hurricanger estão entre os que mais me atraíram), os Ultras(Nexus, Max, Mebius) e os heróis diversos(Cutie Honey The Live está na minha preferência).

Acho desnecessário ficar elogiando em excesso uma série(ou uma época) em detrimento de outra, pois em todas as épocas teremos produções cada qual com suas qualidades e defeitos. Não é preciso gostar de tudo, mas apenas uma opinião sensata e coerente já basta. Do contrário fica aquela opinião "futebolizada" entre os fãs. E é um porre ver esse tipo de discussão.

Grande abraço!

Usys222 disse...

Acho que o mais importante é a diversão. Se gostou, continue. Se não gostou, corte. Tentar forçar a si mesmo a gostar só causa o efeito contrário.

Mesmo assim ainda penso que não ficar preso a uma só coisa abre portas para mais oportunidades de se conhecer algo divertido. Foi assim comigo e, pelo visto com o Bruno Seidel, cuja história é bem parecida com a minha. Mas isso é algo que tem que vir de si mesmo e não por imposição de outros.

E outra coisa importante: relaxar. Ver as coisas sem tensionar os ombros. Assim é bem melhor.

Gabriel Silva disse...

Os pioneiros de um determinado gênero sempre têm certa primazia por sua originalidade e influência em produções posteriores, mas isso não significa necessariamente que sejam melhores ou que acompanhar produções mais atuais seja perda de tempo. Ainda assim, é perfeitamente possível comparar produções de épocas diferente sem apelar para a nostalgia, contanto que, primeiro, você tenha conhecimento sobre o tema que está abordando, e, segundo, que tenha em mente a famosa "regra dos 15", que diz que nada será melhor do que aquilo que você gostava quando tinha menos de quinze anos de idade.

Acontece que, em geral, isso nem chegar a ser necessário. É só você acompanhar o que gosta e ignorar o resto, simples assim. :)