sexta-feira, 2 de outubro de 2015

ULTRAMAN

ULTRAMAN: No novo mangá,
velhos conceitos são totalmente
repaginados, mas há muitas
referências ao passado.
Ultraman é um dos maiores símbolos da cultura pop japonesa, estando presente no dia a dia do povo em uma infinidade de produtos e mídias. 

Sua série original, produzida entre 1966 e 67, teve pico de audiência recorde de 42,8% e com média de 36%, foi reprisada inúmeras vezes e exportada para vários países. Gerou uma franquia gigantesca que se renova constantemente. Por isso, qualquer criança, jovem, adulto ou idoso no Japão sabe quem é Ultraman, mesmo que não acompanhe ou goste, pois está incorporado à cultura do país. 

De modo similar ao que acontece com o Superman nos EUA (e em boa parte do ocidente), alguns de seus elementos são conhecidos por ampla camada da sociedade. Assim como não é preciso gostar de HQ pra saber que o Superman se disfarça de Clark Kent e é vulnerável ao elemento kriptonita, não é preciso ser fã pra saber que o Ultraman original é um gigante que veio do espaço e lutou contra monstros para salvar a Terra. Tendo isso em mente, já é possível acompanhar ULTRAMAN (assim mesmo, grafado todo em maiúsculas), mangá de sucesso que chegou ao Brasil pela Editora JBC

Uma nova realidade
A trama se passa nos tempos atuais, quando um idoso Shin Hayata vê crescer um filho adolescente. Os dias de Hayata como membro da Patrulha Científica ficaram para trás e ele se tornou Ministro da Defesa do Japão. O que ele esconde das pessoas é que seu corpo é extremamente forte, uma condição que ele próprio não compreende e que parece um efeito colateral do tempo em que foi hospedeiro de Ultraman, décadas no passado. 
Apesar de não
ficar gigante, o
novo e tecnológico
herói possui uma versão
do Raio Spacium,
a arma mortal do
Ultraman original.

O filho de Hayata, Shinjiro, é um jovem que tenta levar uma vida normal, escondendo como pode o fato de que possui força e resistência em nível sobre-humano, uma aparente herança do "Fator Ultra" presente em seu pai. Certo dia, ao tentar impressionar seus amigos e salvar uma garota, vê que não controla sua força descomunal, causando um incidente traumático. Enquanto isso, confuso sobre o tempo em que viveu em simbiose com o Gigante de Luz, Hayata começa a descobrir que seu velho amigo Ide guarda muitos segredos. Um deles é que a Patrulha Científica continua existindo, agindo secretamente para rastrear presenças alienígenas na Terra.

Quando surge o monstro Bemular, nova e sanguinária versão do primeiro monstro da série clássica, Hayata entra em ação com um traje de combate, mas fica entre a vida e a morte. É quando seu filho aparece, trajando uma armadura ainda mais poderosa desenvolvida secretamente pela Patrulha Científica. 

Assumindo o nome de ULTRAMAN, Shinjiro tem que aprender a controlar sua imensa força e os poderes canalizados pela armadura. Cheia de recursos, ela é equipada com um mecanismo que dispara uma versão do Raio Spacium, a arma mortal do Ultraman original. A Patrulha Científica foi um grupo com armamentos extremamente avançados e conseguiu até mesmo destruir alguns monstros gigantes durante a temporada do Ultraman na Terra. A atual, parece ser capaz de feitos igualmente assombrosos, como a armadura dada a Shinjiro, que será seguida por outras capazes de serem usadas por humanos que não possuam o tal "Fator Ultra". 

Além de Ide, a nova e secreta Patrulha tem em suas fileiras Ed, um alien Zetton que passou para o lado dos humanos em sua luta contra ameaças espaciais. Shinjiro e a nova Patrulha Científica têm grandes desafios pela frente e logo outros humanos trajando poderosas armaduras irão se integrar ao enredo, como o enigmático e frio Dan Moroboshi (ULTRAMAN Versão 7) e o imprevisível Seiji Hokuto (Ace). Além deles, também deverá aparecer nas próximas aventuras o humano Jack, dono de grande força e que usa um bracelete que lembra o lendário Ultra Bracelete de Ultraman Jack


Shinjiro Hayata: O herdeiro da lenda. 
Uma análise sobre o trabalho
A história se torna cada vez mais interessante com a teia de referências e é isso o que faz dela um mangá de aventura diferenciado. Isoladamente, apresenta muitos clichês na caracterização dos personagens, especialmente Shinjiro. Ainda assim, o roteiro de Eiichi Shimizu é bem conduzido, equilibrando referências e explicações sem truncar a narrativa, coisa comum em muitos títulos voltados ao público seinen (jovens adultos). A arte de Tomohiro Shimoguchi é simples, mas com um traçado solto e elegante, que se sobressai nas dramáticas cenas de ação. 

A dupla já havia produzido um mangá obscuro chamado de Linebarrels of Iron e estava produzindo uma série em fanzine sobre os Kamen Riders, com abordagens bem pessoais sobre a icônica franquia. Foram ameaçados de processo pela Toei Company e pararam, voltando-se para o projeto ambicioso de reformular radicalmente os conceitos de Ultraman. Foram bem aceitos e sua série foi aprovada para licenciamento pela Tsuburaya Pro, que detém os direitos dos Ultras. 

O resultado é um trabalho acima da média que tem repercutido bem até mesmo fora do Japão. Tanto é assim que os autores participaram da recente edição da San Diego Comic Con, realizada em setembro nos EUA. (Confira o vídeo abaixo, onde dá pra notar que os autores não gostam muito de mostrar o rosto.)


Os fãs hardcore encontrarão muitas referências pra se deliciar, mas também terão que se conformar que esta é uma outra realidade, diferente das conhecidas, e que o herói agora não é mais um gigante. Visualmente, a armadura tem muito do Homem de Ferro cinematográfico da Marvel, um detalhe que passou desapercebido para a maioria das pessoas. 

Publicada desde 2011 na revista para jovens adultos
Montly Hero´s (Ed. Shogakukan), ULTRAMAN se baseia na série original, em uma realidade em que somente o primeiro Ultraman veio para a Terra. E é com esse clima de continuação que a história se desenrola.


Sobre os nomes e o pano de fundo do enredo

O que vem por aí:
O implacável agente
Moroboshi irá utilizar
uma interessante
armadura chamada Versão 7.
Qualquer semelhança
não é mera coincidência.
Na série de TV, Ultraman se funde ao humano Hayata, membro da Patrulha Científica. E aí entra uma diferença fundamental entre a versão original e a primeira dublagem brasileira, feita a partir de cópia exibida nos EUA, ainda nos anos 1960. 

Na versão original, Ultraman usa o corpo de Hayata enquanto a consciência dele fica em estado suspenso. No último capítulo, quando se separam, Ultraman volta ao espaço e Hayata fica na Terra, sem as memórias do tempo em que se transformava em Ultraman com a Cápsula Beta. Essa diferença foi melhor explicada em um post 
aqui. Logo, vale dizer que o idoso Hayata que apareceu em produções modernas da Tsuburaya é o próprio Ultraman emulando a aparência do humano Hayata, que nunca mais foi visto nos filmes e séries da franquia. 

Ainda sobre a dublagem brasileira antiga, é de lá o nome Patrulha Científica, visto que o nome original da equipe é SSSP (Special Science Search Party), rebatizada como SIA na segunda dublagem brasileira. A versão da JBC procura se manter bem fiel ao texto original, inclusive mantendo o nome do velho Ide, que fora chamado no Brasil de Ito na primeira dublagem. Mas preservar o nome Patrulha Científica foi um presente aos fãs da velha geração. 

Com ULTRAMAN, o mais icônico super-herói japonês ganha um mangá capaz de despertar interesse em diferentes faixas de público. A tarefa é ambiciosa, mas executada com simplicidade, talento e algumas boas sacadas.

ULTRAMAN
Autores: Eiichi Shimizu (roteiro) e Tomohiro Shimoguchi (arte)
Editora: JBC
Formato: 12 cm x 18 cm, com 240 páginas
Total de volumes: Ainda em andamento no Japão (6 volumes até agora)
Lançamento: Agosto de 2015 (Distribuição nacional)

Periodicidade: Bimestral
Preço de capa: R$ 14,90
- Classificação indicativa: 14 anos


Site oficial (em japonês): heros-ultraman.com


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Com a boa repercussão da série
no Japão, a Bandai lançou uma
action figure do personagem unindo
suas linhas Ultra Act e SH Figuarts
Extra 1:
- Confira uma incrível action figure do ULTRAMAN, em um review do blog parceiro Casa do Boneco Mecânico.

Extra 2: 

- Veja outra análise sobre o mangá com muitas informações adicionais, em um post do blog parceiro Nobumami

- Mais uma resenha, agora no blog parceiro Casa do Boneco Mecânico - Anexo.

6 comentários:

Usys 222 disse...

Ah, finalmente! Finalmente uma resenha de alguém que entende do assunto! Esperei ansiosamente por isso.

A matéria foi completa, pegando todos os pontos e explicando bem a situação do Shin Hayata, que se separou do Ultraman e não tem as lembranças da época, algo que poderia confundir os fãs mais antigos que não sabem como era a versão original. Acho que ficou faltando uma nota de pé de página nesse sentido na versão brasileira do ULTRAMAN.

Sucinto, isento e esclarecedor. Isso sim é trabalho de profissional. Mais uma vez me admiro com sua habilidade. Excelente!

Bruno Seidel disse...

Comprei o mangá e fiz questão de devorá-lo numa tacada só. Estava muito ansioso pra acompanhar de perto essa publicação, depois de já ter lido algumas resenhas (a do Usys, inclusive). Fazia tempo que eu não me empolgava TANTO com um mangá! Essa nova abordagem ficou incrível. Conseguiram fisgar duma vez só os exigentes fãs saudosistas e os fãs mais jovens, graças a cenas de ação incríveis e na medida exata.
No "editorial", escrito pelo Cassius Medauar, ele relata: "Em uma cena, no meio deste volume, fiquei arrepiado e emocionado. Se você já leu, sabe de qual cena estou falando. Ou se começou por este texto, logo você vai descobrir." Me arrisco a dizer que a cena a qual ele se refere é a do "Raio Spacium" (páginas 198~204). Pelo menos para mim foi a cena mais arrepiante dessa primeira edição. Uma mistura de nostalgia pura com aquele momento derradeiro que só produções de Tokusatsu conseguem fazer com perfeição.
Gostei tanto desse mangá que estou até na torcida para que role alguma menção a ele em alguma produção audiovisual da Tsuburaya. Bem que o Shinjiro poderia aparecer (mesmo que seja uma breve participação especial, sendo realista) em algum especial do Ultraman X ou outra produção vigente. Seria bacana demais ver uma "sintonia" entre esse incrível mangá com o audiovisual (que é o verdadeiro chão do Ultraman).
Outra coisa bacana foi esse vídeo publicado aqui no post, da Comic Con! Fiquei impressionado ao ver que tem muitos fãs americanos do Ultraman. Não sabia que o personagem era tão popular na terra do Tio Sam! Muito bacana isso!
Ah! E bem legal também essa resenha no blog nobumami e o review do Usys! Que venham mais! ^^

Ale Nagado disse...

Olá, Mr. Usys!

Obrigado, que bom que gostou do texto. Até o Cassius elogiou a quantidade de informações da resenha. Quebrei a cabeça pra tentar cobrir os pontos principais. Lá no Omelete não gostaram e o crítico apontou a descaracterização do personagem. Acho engraçado esse lance de algumas pessoas. Se fica fiel à fórmula original, acham ruim porque é "sempre a mesma coisa". Se muda muita, descaracteriza. Eu achei a abordagem muito legal e eu estou entre os apreciadores - ou fãs, apesar de evitar essa palavra - bem hardcore.

E aí, Bruno!

Parece que você gostou mesmo, ah ah. Eu também gostaria de ver o Shinjiro Hayata aparecendo em algum filme. De repente, rola algum filme ou série em animê ou mesmo em live-action com esse Ultra blindado. Um "entendido" lá no Omelete diz, com a autoridade de quem sabe tudo porque mora no Japão, que a série não faz sucesso. Sucesso é muito relativo, depende das expectativas. Sucesso não é só o que vende 1 milhão. E prova de que há um público fiel para esse mangá é o boneco do ULTRAMAN que o Usys resenhou no blog dele. Coisa fina, com um tratamento que só personagens consagrados recebem.

Abraços!

Ocidente Tokusatsu disse...

Parabéns pelo ótimo artigo!
Uma coisa interessante é que tanto o Mangá quanto o próprio seriado atual (Ultraman X) estão usando como elemento comum de inovação a ideia de cyber-armaduras criadas pelo esquadrão de defesa da Terra, uma forma de se diferenciar bastante das outras produções mas mantendo toda a essência da franquia.

Mauricio disse...

Pra quem curtiu Ultraman lá no passado, esse manga é uma joia, cheio de pequenas referências e easter eggs, mas tendo sua própria mitologia.
Eu estou gostando muito.
"descaracterização do personagem"? Bah! Aquele povo do Omelete é muito chato!

Ale Nagado disse...

Olá, Mauricio!

Tem crítico que é assim: se muda, diz que a obra foi "descaracterizada". Se não muda, diz que é "sempre a mesma coisa". É impossível agradar a todos.

Mas eu sou das antigas, gostei muito do trabalho e estou acompanhando cada edição.

Abraços!