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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

J-pop, anisongs e o mercado fonográfico japonês

AKB48: Muito planejamento de marketing
para potencializar os lucros. As garotas sorriem,
cantam, dançam e atuam, mas são meramente
funcionárias de uma grande corporação.
O Japão possui o segundo maior mercado fonográfico do mundo, ficando atrás apenas dos EUA. Com uma forte cultura e estrutura anti-pirataria, o Japão tem sentido menos que outros países a força da distribuição digital e não autorizada de músicas. Indo contra todas as perspectivas mundiais, até registrou crescimento na venda de CDs em tempos recentes. E isso apoiado principalmente nos artistas locais, que historicamente vendem melhor que os astros pop mundiais.

O mercado musical japonês se sustenta principalmente na venda de singles e álbuns. Há muitos estilos musicais que convivem harmoniosamente no Japão. A tradicional canção enka ainda tem muito espaço e possui alguns dos maiores recordistas em venda de discos, mas atualmente a grande força do mercado está no pop, conhecido no resto do mundo como J-pop

Ayumi Hamasaki:
No topo de uma
indústria milionária.
Fortemente ocidentalizado, o J-pop possui várias vertentes, com artistas que puxam para o hard rock, outros para o hip hop, outros criam baladas românticas e harmonias baseadas na música folk americana. É um universo cultural rico e cheio de influências, que incluem jazz e até bossa-nova

Ao longo dos anos, nomes fortes no país, como Chage and Aska e Dreams Come True lançaram trabalhos no ocidente, mas nunca conseguiram muito destaque. A dupla Puffy AmiYumi até conseguiu sua própria série de animação no Cartoon Network para promover sua música, mas não durou muito tempo a empreitada. Mas, pegando carona nos animês, as anime songs (ou anisongs) foram se popularizando entre nichos de fãs, sendo a porta de entrada de muitos jovens no mundo da música japonesa. 

No segmento das anisongs, há os artistas mais voltados ao nicho, como Hironobu Kageyama e seu JAM Project, ou ainda veteranos lendários como Isao Sasaki, Akira Kushida, Mitsuko Horie ou Ichirou MizukiNo entanto, é um segmento de mercado que, por si, não é campeão de vendas ou sucesso de público em seu próprio país, sendo mais restrita a nichos de fãs específicos, exceto quando envolve o universo de astros pop.
Lynn Minmay:
A fusão do pop com
as anisongs
expandiu o mercado,
mas também
diminuiu sua
identidade.


Nos anos 1980, depois do estouro do animê Macross com as canções pop adocicadas de Lynn Minmey (dublada por Mari Iijima), houve uma enxurrada de anime songs de pop suave cantadas por vozes femininas. Era a fase de transição da canção popular kayokyoku para o que seria o J-pop nos anos 1990. A situação econômica estava boa e o mercado fonográfico prosperava. 

Nos anos 90, vários recordes de venda foram quebrados e temas de animês ganharam as paradas de sucesso. Os cantores mais tradicionais foram ficando restritos aos seriados infantis de tokusatsu e animês de super-heróis. 

Mas se temas de animê vez por outra emplacam na parada de sucessos, o mesmo não acontece com temas de séries tokusatsu, com raríssimas exceções. Em 1996, pela primeira vez um tema de tokusatsu chegaria ao primeiro lugar do ranking da  Oricon, a empresa que faz a medição de vendagens desde os anos 1960. Era "Take Me Higher", de Ultraman Tiga, interpretado pelo grupo V6. O grupo repetiria a façanha com "Light in Your Heart", tema do filme Ultra de 2008, Daikessen! Chou Ultra 8 Kyodai

Já entre animês, muitas canções chegaram a figurar nas paradas. Temas como "Sobakazu" ("Sardas"), de Samurai X, pelo grupo Judy and Mary, ou "Zankoku na tenshi no teeze" ("A tese do anjo cruel"), a abertura da Evangelion cantada por Yoko Takahashi, se tornaram grandes hits, alcançando um público além de suas séries. 

Quando usa artistas J-pop em seus temas, o mercado de anisongs se expande além das fronteiras e aí realmente vende bem. O que certamente muitos fãs criticam é quando a música da série nada tem a ver com o tema ou os personagens. Um exemplo é "Itoshisato setsunasa to kokoro tsuyosato" (ou "Com amor, tristeza e coração"), de Street Fighter II Movie (1993). A música, composta pelo "Midas pop" Tetsuya Komuro, dominou as paradas de sucesso e projetou a carreira de Ryoko Shinohara (atualmente uma respeitada atriz), mas era uma canção pop dançante sem relação alguma com o clima do jogo ou do animê. 

A lista de exemplos é enorme e por causa desse movimento de mercado, uma ideia que levou à criação do JAM Project foi resgatar o espírito das anime songs tradicionais, ligadas à essência das séries. 
JAM Project: Resgatando o espírito das
anime songs com muito rock e vibração.
Apesar de possuir muitos fãs em seu país e no Brasil e conseguir lotar estádios, o JAM não é um campeão de vendas. Seu single de maior sucesso, "GONG", vendeu pouco mais de 16 mil cópias e chegou à posição 22 do ranking da Oricon. Outros singles do JAM tiveram posição melhor quando foram lançados, mas venderam comparativamente menos. Isso os deixa longe dos medalhões da música japonesa, apesar do JAM ser uma banda respeitada e com uma legião de fãs apaixonados. Mas quando falamos dos maiores medalhões da música japonesa, é possível ter uma dimensão mais clara sobre o peso deles no mercado fonográfico, regulado pela JASRAC (Japanese Society for Rights of Authors, Composers and Publishers), órgão que controla a distribuição de royalties musicais no Japão. 
Mr. Children: Pop elegante e honesto
Em termos de vendas globais (singles + álbuns + gravações digitais), nomes como B´z (81 milhões de gravações vendidas), Mr. Children (59 milhões), Ayumi Hamasaki (53 milhões), Hikaru Utada (52 milhões) e Glay (51 milhões) estão no topo do mundo J-pop. Veteranos como Southern All Stars (48 milhões), Yumi Matsutoya (39,4 milhões), Chage and Aska (31 milhões) e X Japan (30 milhões) ainda são forças poderosas na indústria, sendo artistas que estão entre os grandes da música mundial. E entre esses grandes, um verdadeiro exército de garotas tem conseguido deixar sua marca, de todas as formas possíveis. 

O AKB48, com suas idols e estratégias de marketing, já vendeu mais de 38 milhões de gravações em apenas 10 anos de carreira, em parte graças a uma estratégia não muito elogiável ou ética. No lançamento de um novo single, é comum que aconteçam eventos onde o público pode apertar as mãos de seu ídolo e ficar perto por alguns segundos. No caso do AKB48 e grupos coligados, a compra de um single dá direito a um certo tempo - 15 segundos, por exemplo - para que o fã cumprimente uma das cantoras. Aí, espertamente, os fãs mais empolgados compram dois ou três CDs para acumular cupons e desfrutar de mais tempo, geralmente gasto com tentativas de assédio. 

Certamente uma estratégia assim cria uma situação ilusória, já que após os eventos, os fãs costumam jogar no lixo os CDs repetidos. Uma outra estratégia usada por gravadoras é lançar um single com diferentes mixagens para incrementar as vendas. Ao menos nesse caso, há um diferencial que incentiva um fã a comprar diferentes versões ou a escolher a que mais lhe agradar. 
AKB48: A música às vezes é o que
menos importa, num esquema onde todas
as artistas são bem substituíveis.

Isso é parecido com uma prática do mercado americano de revistas de quadrinhos, com publicações que possuem capas alternativas. O fã mais hardcore compra várias revistas de conteúdo igual, só para colecionar as diferentes capas. O excesso da prática em um cenário de crise prejudicou o mercado de quadrinhos nos EUA nos anos 90. Crise semelhante pode vir a acontecer no Japão, especificamente com as gravadoras que usam de artifícios para explorar mais seu público e aumentar as vendas sem que o público aumente. 

Quando se fala atualmente em quantidade de gravações, as listagens oficiais combinam vendas de singles e álbuns no formato vinil (especialmente para os artistas mais antigos), CD e digital, seja da música inteira ou até para toques de celular. Uma outra fonte importante de renda, desta vez para os compositores, é o mercado de karaokê. Além da venda de músicas em versão karaokê, a JASRAC também regulamenta as casas de karaokê, bares e restaurantes, e os compositores recebem uma porcentagem cada vez que uma canção é executada. 
O logotipo da JASRAC e sua mascote Jasra
E com todo esse controle rígido, o Japão não tem conseguido lidar bem com a internet, vendo-a mais como inimiga do que como aliada. Alguns artistas - consagrados ou decadentes - têm equipes que ficam vasculhando o YouTube para pedir que vídeos não-autorizados sejam retirados do ar. É praticamente impossível exibir um video da veterana Seiko Matsuda, por exemplo, sem que ele seja tirado do ar dias depois. Já os coreanos com seu K-pop seguem no sentido oposto dos japoneses, e o resultado é que, em pouco tempo, estão ganhando disparado dos artistas japoneses em matéria de divulgação e fãs pelo mundo. Mas no Japão, o status quo tem se mantido com as gravadoras dando as cartas e controlando a vida da maioria de seus artistas com mão de ferro. 

E em meio à crise mundial na venda de CDs, o mercado japonês se mantém como uma exceção à regra, registrando ainda grande volume de vendas. Até quando, não temos como saber.


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Extra 1: Para uma lista dos artistas japoneses campeões de venda, veja um interessante tópico publicado na Wikipedia, com os nomes agrupados em tabelas. 


Extra 2: Confira uma pequena amostra de dois dos gigantes da música pop japonesa. Eles não chegaram ao topo sem merecimento. 


[ 声 ] "Koe"
("Voz") - Mr. Children



Emoção à flor da pele e um talento para canções pop maduras que atravessam o tempo. O vocalista Kazutoshi Sakurai é um dos mais aclamados intérpretes do pop japonês.


Survival27D - GLAY



Clipe em animê dirigido por Koji Morimoto para uma das mais bem sucedidas bandas da história da música japonesa. 

12 comentários:

Rogério disse...

Bom dia Nagado,

Eu estava esperando por esta postagem. Rsrsrsr.

Como era de se esperar não me decepcionei. Boa analise do peculiar mercado fonográfico japonês. Muitas informações interessantes.

Eu me pergunto: a longo prazo a maneira como o K-Pop lida com o mercado
não seria mais vantajosa porque renova o público?

Guyferd disse...

Eu estava lendo sua postagem, e pensando comigo mesmo: "algumas podem ser até meio 'gasguitinhas', mas o visual lindo ajuda nas vendas"*, quando cheguei na parte do texto em que você mesmo destacou isso.

Mas tem músicas muito boa lá, de vários estilos. Eu apenas não sabia que estava dando lucro. E fico feliz com isso.



*Até porque eu compraria baseado nisso :D

Bruno Seidel disse...

Eu costumo dizer que animesongs, pelo menos aqui no Brasil, são uma grande porta de entrada para que alguns fãs passem a apreciar cantores e bandas orientais e, consequentemente, se tornam fãs de algum segmento do J-Pop ou J-Rock. Isso acontece muito com bandas como Siam Shade, L'Arc en Ciel, Asian Kung Fu Generation e outras que gravaram hits muito populares de animes. Os fãs do anime acabam curtindo tanto a música e, posteriormente, resolvem dar uma "escutada além" nos demais sucessos dessa banda. Isso aconteceu comigo quando passei a apreciar outras músicas da banda Siam Shade depois de ter ouvido inúmeras vezes "Junjou na Kanjou" (um dos encerramentos de Rurouni Kenshin). Percebi que a banda tinha várias outras músicas legais e logo se tornou uma das minhas preferidas. Exemplo parecido ocorreu quando eu conheci a dupla Chage & Aska em 1996, depois de ter curtido muito o clipe de Something There (a única coisa que prestava naquele filme estadunidensde de Street Fighter). Pena que, na época, era quase impossível ter acesso a outros sucessos da dupla ou conhecer outros fãs. Felizmente a internet resolveu esse problema.

Outra coisa: Você falou que o J-Pop está perdendo espaço pro o K-Pop no mundo afora. A que se deve isso, exatamente? Será que o "fenômeno" Psy tem algo a ver com essa febre? Ou será que é algo muito maior do que uma febre passageira?

Ale Nagado disse...

Rogério, legal que gostou do post.

Sim, acho que a forma como os coreanos lidam com internet faz toda a diferença. Eles criam música para o mundo, se adaptando ao gosto ocidental. Os japoneses pensam somente no mercado interno e lutam contra a internet. Assim vão ficando pra trás.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Guyferd:

Minha crítica às bandas de idols é que elas carecem de personalidade. São atrizes com caras e bocas ensaiadas para seduzir marmanjo carente. São apenas bonecas sem vontade própria, vendendo sonhos virginais para uma indústria doente.

Certamente há músicas legais, pois os empresários contratam bons músicos para criarem e gravarem as bases. As músicas de idols geralmente não exigem grandes qualidades vocais, vale o conjunto cantado em uníssono. E as que não cantam bem ganham retoques digitais na voz. É um sistema totalmente dependente da imagem e isso é triste quando se leva em consideração a música e sua essência. Por isso tenho tantas críticas ao modelo de idols e gosto tanto de valorizar artistas verdadeiros da música.

Quando alguém diz que gosta de uma banda porque "menina A tem um sorriso lindo", "menina B tem um olhar envolvente", "menina C faz todos se sentirem bem", é porque está sonhando com romance, não apreciando a música pelo que ela é.

Mas eu tive uma banda idol favorita, que é a CoCo, do começo dos anos 1990. Todas solavam e cada uma tinha uma voz característica, com duas deles tendo vozeirão. Curiosamente, a que mais vingou como artista solo é a que tinha a voz mais limitada e infantil.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Bruno: Acho que o fenômeno PSY só aconteceu porque a Coréia do Sul encara a internet como ferramenta de divulgação de seus artistas. Vira e mexe, vídeos que eu posto aqui são tirados do ar por queixas de direitos autorais. Pra maioria das gravadoras e artistas japoneses, a internet é inimiga, não aliada. E há outro fator: as coreanas estão se moldando (via cirurgia plástica) em modelos que agradam mais ao gosto ocidental. Não que isso não exista no Japão, mas não é tão evidente. E enquanto os japoneses não ligam pra um dentinho torto (que agrada quando dá ar infantil à garota), muitas artistas coreanas são completamente modeladas à perfeição, como bonecas vivas.

Mas, voltando ao ponto: a chave para mim é a internet. Veja como são poucos os artistas japoneses com canal oficial no YouTube. E os que têm mostram mais trechos de músicas, o que vai ficando irritante. Assim fica restrito mesmo.

Ocidente Tokusatsu disse...

Parabéns pela matéria! É muito bom conhecer os mercados fora do EUA-Brasil o qual estamos tão acostumados! E a comparação entre a produção coreana e japonesa veio muito bem a calhar, justificando porque uma é tão restrita a eventos de anime e a outra você acha até aquele colega de trabalho que mal conhece Pokemon escutando nas horas folga!

Stefano disse...

Nagado, fiquei surpreso! Japão na frente de gigantes fonográficos como Brasil, Reino Unido, Itália ou França...

Ale Nagado disse...

Ocidente Tokusatsu: Que bom que gostou. Sempre que posso, tento trazer assuntos diferentes ao Sushi POP, levantando alguns temas pertinentes para quem gosta de analisar a indústria cultural. E realmente, o K-pop ganhou o mundo. O J-pop depende da carona nos animês para se fazer ser conhecido, e acaba ficando mais restrito a eventos temáticos.

Stefano: O mercado fonográfico japonês é gigantesco mesmo. Há muitas coisas lançadas para públicos de nicho, com vendas de no máximo 2 ou 3 mil cópias. E isso convive com grandes produtos de gravadoras, como os medalhões mencionados na matéria. Com tanta variedade, sempre surge muita coisa legal pra garimpar.

Abraços!

Stefano disse...

tomara que o J-pop consiga se livrar das amarras da turma "anti-pirataria" e ganhe o mundo.

ah.. sobre o k-pop! Ouça este! (NK)
https://www.youtube.com/watch?v=NSxXA4GxrbA

Ale Nagado disse...

Boa dica musical. Não imaginava ver algo assim vindo da Coréia do Norte. O triste é saber que qualquer vacilo, uma delas é sumariamente executada. E a peça é obviamente propaganda militarista do país.

Valeu! Abraço!

Stefano disse...

bom... eu vi grupo k-pop civil norte-coreano... no youtube.
as vezes um país "mau" pode gerar "bons" frutos...