RECADO AOS VISITANTES:

Olá! O blog ainda está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, Katokutai, Pinóquio de Osamu Tezuka, Danger 3, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Bate-papo: Quem decide os rumos de uma série?

Kamen Rider Drive (2015):
Fugindo da tradição de
motoqueiros, Drive tem
como tema carros de corrida.
Como ou quem bola as ideias das séries de tokusatsu? Quer dizer, como funciona o "brainstorm", o processo criativo... Tem algum produtor que reúne a equipe de roteiristas e determina: "Neste ano o tema vai ser carros, então criem um Kamen Rider baseado em carro!"? Como nasce a ideia de uma série e qual o processo até ela ficar pronta? 
Juan Roman Riquelme

Olá, Juan. Bem, pela forma como colocou, acredito que o seu foco de interesse seja especificamente Kamen Rider e Super Sentai, mas a minha resposta será bem abrangente. 

Há dois tipos de séries no que diz respeito à sua origem: ou é adaptação de outra mídia (mangá, livro, game) ou é criação original para a TV. Quando é produção simultânea, pode ter certeza que a série de TV foi vendida ou concebida primeiro. Em ambos os casos, os produtores detêm a maior parte do poder de decisão, sendo que muitas vezes esse poder é absoluto, sem consulta a qualquer profissional de criação. 


Certa vez, vi uma entrevista do renomado autor Masakazu Katsura (do mangá Zetman), falando sobre a adaptação de seu famoso mangá Video Girl Ai, que teve uma animação para vídeo com 6 episódios. Em uma gravação sobre bastidores, Katsura se disse curioso pra saber como a história ia terminar. Pensei: "Como assim? A série não é dele?" Acontece que a produtora (no caso, a Production I.G.) tinha autonomia para modificar os elementos que quisesse a partir da história original e aparentemente ele não tinha direito de interferir, apesar de receber royalties pela venda dos vídeos (junto com a editora Shueisha) e ser creditado como autor. 

No caso de tokusatsu, que é geralmente voltado para crianças, a interferência dos produtores é infinitamente maior. Praticamente são os produtores que formatam a série, dando as diretrizes e rumos que os roteiristas deverão seguir. 

Um produtor que foi decisivo nos primórdios da Toei Company foi Toru Hirayama. Ele delineava linhas gerais, estruturava a série e trabalhava com Shotaro Ishinomori, que dava forma aos personagens e trabalhava os enredos. Ishinomori era creditado como autor, mas muitas de suas séries só existiram a partir de solicitações do produtor Hirayama. Ele se preocupava muito com a emoção e entretenimento das séries, era um homem de ideias e criação, não de merchandising. Outro produtor muito importante foi Susumu Yoshikawa, que entre outras coisas trouxe os Policiais do Espaço, inaugurando também a era dos Metal Heroes da Toei
Super Sentai: Heróis e heroínas de diferentes grupos,
cobrindo o período de 1975 a 2013.
Desde os anos 1980, a interferência das fábricas de brinquedos passou a ser decisiva tanto em séries de animê quanto de tokusatsu. Na prática, isso acontece com os empresários ordenando a criação de mais e mais elementos que possam ser vendidos na forma de brinquedos. Uniformes variantes, formas diferentes para um mesmo personagem, veículos aos montes (alguns mal sendo utilizados na série) e por aí vai. O objetivo é oferecer produtos colecionáveis. Com relação a veículos e robôs, os fabricantes de brinquedos costumam chegar com o design pronto, pois foi levado em conta os custos de produção dos moldes. 
Geralmente, os robôs de Super Sentai
se parecem com brinquedos porque
primeiro foi criado o molde do brinquedo, que
devia ter formas simples para
baratear a produção
Em outros casos, estúdio e fabricantes chegam a um acordo sobre o visual. Finalmente, são os produtores que escolhem o elenco e equipe de criação, que irão trabalhar sob suas orientações. Antigamente, havia muito espaço para criação e experimentação, mas nos últimos anos, o cuidado em seguir fórmulas mais ou menos garantidas tem norteado os produtores para correr o mínimo de riscos em suas obras. 

Como Kamen Rider e Super Sentai são franquias estabelecidas com temas diferentes a cada temporada, o direcionamento é sempre resolvido pelos produtores em comum acordo com os empresários que patrocinam as produções. Em meio a tudo isso, há roteiristas que conseguem lidar bem com os formatos que lhes são impostos e criam belas histórias. Sem essa criatividade, inclusive, não há gênero ou formato que sobreviva.  

*****************************

Participe da seção Bate-papo!

- Envie sua pergunta ou tema de discussão sobre cultura pop japonesa, HQ e afins para nagado71@hotmail.com, colocando no assunto da mensagem: 
Bate-papo Sushi POP 

5 comentários:

Bruno Seidel disse...

Taí uma dúvida que eu sempre tive. Na verdade, eu já suspeitava da interferência pesada dos produtores sobre os roteiristas, principalmente a partir dos anos 1990. Sei que o mesmo ocorre em mangás, na relação entre editores e autores (não são raras as obras em que o editor simplesmente muda os rumos originalmente estabelecidos pelo autor, o que pode mudar completamente o desfecho de uma trama). Nesse caso, podemos dizer que o papel do produtor (que desempenha uma função basicamente administrativa) sobre o enredo de uma série é ainda mais decisivo que o do "artista" (que é um profissional na área da criação). Mas isso me levava a outra questão ainda: quais são os critérios priorizados pelo todo-poderoso produtor? Já ouvi gente dizer que a Toei "trabalha pra Bandai" (ou seja: é a Bandai quem determina qual vai ser o tema do próximo Kamen Rider e do próximo Super Sentai), mas isso ainda não explica o porquê do Rider de 2014 ter como temática "carros" ao invés de "espaçonaves", ou "celulares", ou "esportes", ou "animais", ou infinitos outros temas que rendem brinquedos. Você tocou num ponto que pode ser bem verídico: o custo de produção de brinquedos (moldes simples e baratos na linha de produção). Repare que o trabalho autoral, a essa altura, já nem entra mais em discussão. O que envolve aqui são valores de mercado da matéria prima de brinquedos colecionáveis (Exemplo: a cotação do plástico, do metal, do led...). Acho que o Usys poderia dar uma "aula" sobre esse assunto. Hehehehehe!

Juan Roman Riquelme disse...

Olá!

Acabei de ver agora. Ficou muito legal.Obrigado por ter respondido. Valeu mesmo!

Abraços!

Ale Nagado disse...

Fala, Juan! Fala, Bruno!

Estava pensando numa coisa: os temas às vezes parecem aleatórios, mas alguns parecem oportunistas. Em Gokaiger, o tema "pirata" parece ter sido influenciado com a "onda pirata" que se instalou na mídia graças a Piratas do Caribe. O imaginário infantil sempre simpatizou com a figura heróica do pirata (o que não condiz com a realidade histórica) e hoje temos desenhos como "Jake e os Piratas da Terra do Nunca", "Os piratas e suas aventuras coloridas" e por aí vai. No caso do Kamen Rider Drive, talvez o momento para carrinhos de brinquedo e miniaturas esteja bom no Japão. Ou talvez estivessem pensando em revitalizar esse mercado. Uma coisa é certa: os interesses são cada vez mais econômicos.

Abraço!

Ricardo disse...

Esse é um assunto que sempre me interessou. Eu respeito muito os roteiristas que, a despeito de todas as pressões e interesses mercadológicos, conseguem criar uma trama forte.

E nos últimos anos isso vem se acentuando, já que há uma série de filmes e crossovers que algumas vezes são inseridos na história das séries.

Só para ilustrar, há na internet algumas entrevistas do Gen Urobuchi, que já era um escritor famoso quando foi contratado para escrever Kamen Rider Gaim. Em uma delas, ele diz que o visual e o tema das roupas dos Riders - frutas + samurais - já haviam sido decididos anteriormente.

Mas a concepção dos personagens, e a quebra do famoso formato de episódios duplos dos Heisei Riders ficaram a cargo do escritor.

Aqui tem alguns links das entrevistas dele (Todas em inglês). Podem ajudar a dar uma luz de como esse processo criativo funciona (elas estão dispostas em ordem cronológica).

http://henshinjustice.com/2013/10/17/gen-urobuchi-kamen-riders-are-monsters/

http://tokusatsunetwork.com/2014/01/09/gen-urobuchi-why-kamen-rider-gaim-was-delayed/

http://tokusatsunetwork.com/2014/07/05/gen-urobuchi-at-the-nitro-panel-at-anime-expo-2014/

Diego Guzzi Felix da Silva disse...

Por mais que goste dessas produções, e que mesmo com sua limitações, são um ótimo entretenimento,mesmo formulaico e atendo as necessidades econômicas do patrocinador não deixam de serem criativos a sua própria maneira e mesmo entre os episodio saem coisas boa, mas últimamento já estou cansado disso e já não assisto mais tokusatsu como antes (antigo e atual), pois se percebe as formulas e os clichês enerentes a cada franquia e não é a toa que muitos tokusatsus antigos tinham historias melhores que além de terem começado também tinham mais liberdade de criar uma história mesmo com toda a pressão que com os atuais se tornou impossivel e é raro num tokusatsu atual encontrar algo que não seja para vender brinquedos e que atrapalha a trama de uma série,se bem que a franquia garo entre os atuais possuem mais liberdade para trabalhar em suas histórias.