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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Androide Erica e o animê Presence - A realidade chegando perto da ficção

Erica, a mais avançada androide já criada no Japão (esq.)
e uma intrigante personagem de Robot Carnival,
uma obra-prima da animação japonesa, direto dos anos 80.
Realidade e ficção estão começando a se aproximar?
No início de agosto, foi apresentada no Japão a androide Erica, o primeiro robô capaz de falar como um ser humano. Ou pelo menos, a mais bem sucedida tentativa até agora, e é impressionante, levando a imaginar aonde isso vai levar. Menos de um ano atrás, Asuna já causava sensação ao apresentar expressões sutis. Porém, quando falava, a voz ainda soava artificial e seu aspecto ainda era bastante mecânico. Um passo além foi dado com a união de pesquisadores de diferentes entidades, que construíram uma verdadeira obra de arte. 


Com Erica, estão chegando perto de mimetizar com mais naturalidade as inúmeras nuances de expressão de uma pessoa real. Em uma apresentação à imprensa, Erica até responde perguntas e conquista a plateia. Seus criadores dizem que ela é uma garota comum de 23 anos e ela assim se apresenta, extremamente educada e inclusive chega a dizer que gosta de animê. Quer dizer, assim foi programada para falar. 

Erica:



Asuna:


A mulher artificial e o fenômeno otaku


O Japão é o país onde o termo otaku foi cunhado e encontra seu significado total: uma pessoa fechada em si mesmo, incapaz de criar vínculos de amizade e relacionamento, que vive devotada a um hobby. Dentre os otakus de comportamento mais extremado, há os que "se casam" com personagens, cultivam uma relação que imaginam romântica e idealizada com bonecas, heroínas de games e outros tipos de personagem. Isso vai além da relação de comprador e mercadoria que se imagina no tipo de pessoa que adquire uma Love Doll, uma das bonecas sexuais em escala real e extremamente realistas que existem no Japão. 

Não é difícil imaginar que num futuro talvez não muito distante, a tecnologia dos robôs humanóides crie "produtos" para servirem de companhia afetiva para pessoas solitárias - basicamente homens. Seriam "esposas" ou "namoradas" programadas para ouvir, conversar, consolar, incentivar e dar a sensação de uma companhia real, sem o ônus de um relacionamento real, onde deve existir diálogo e reciprocidade. 
Erica: Expressões sutis e aspecto delicado.
A precursora de robôs e andróides como os
 que existem na cultura pop?
Com isso, surgiriam companheiras ideais para milhares de otakus radicais, que as veriam como mulheres sem passado, sem envelhecimento, sem problemas, existindo apenas para tentar preencher o vazio existencial de compradores incapazes de se doar em um relacionamento adulto. Mas o que poderá acontecer quando a tecnologia que está criando robôs no Japão se unir às avançadas pesquisas atuais sobre inteligência artificial? E até que ponto se envolverão emocionalmente essas pessoas com suas esposas e namoradas artificiais? 

Funcionários robóticos já são uma realidade no Japão. Levar isso a outras áreas, como a composição de famílias, trará implicações filosóficas tão grandes quanto as sociais e obviamente vão muito além do comportamento otaku. A cultura pop sempre teve fascínio por robôs e sua futurística proximidade com os humanos, conforme atestam obras como Blade Runner - O Caçador de Andróides e A.I. - Inteligência Artificial. Mas talvez em menos de uma década apareça gente querendo classificar androides muito avançados como pessoas. O que isso poderá significar socialmente é um instigante exercício de imaginação e filosofia. Filosofia de botequim, claro, mas não se sabe até onde a robótica poderá avançar a médio prazo. 

Voltando ao tema das companheiras artificiais, dá pra citar o mangá Chobits, resenhado com várias reflexões neste blog. E também quero mencionar aqui uma obra criada há quase 30 anos chamada Robot Carnival

Robot Carnival é uma antologia de curta-metragens com o tema "robôs", realizado por vários diretores, incluindo Katsuhiro Otomo, de Akira. Composto por sete contos, mais sequências de abertura e encerramento, Robot Carnival foi lançado em vídeo em 1987 e marcou época por sua enorme qualidade. 


Presence: É possível um robô
desenvolver sentimentos?
Um de seus segmentos mais bonitos é Presence, do diretor Yasuomi Umetsu. Fala sobre um inventor que se sente muito solitário e cria uma garota robô para servir de companhia a ele. Tudo segue mais ou menos tranquilo até que ele tem uma surpresa ao constatar uma evolução em sua criatura. 

Poético, contemplativo e melancólico, esse animê tem direção hipnótica e ganha novo significado quando nos deparamos com um cenário que está cada vez mais próximo de acontecer. 

Tive uma cópia em fita VHS dessa maravilha e assisti por volta de 1989. Emprestei a alguém que nunca mais devolveu e, enquanto lia a notícia sobre Erica, imediatamente lembrei de Presence, que encontrei no YouTube e compartilho agora com os leitores. Veja, que é coisa fina e chega a ser uma obra perturbadora quando se pensa em quão perto a realidade pode estar se aproximando da ficção. 

Presence (Robot Carnival):
Duração: 19m22s
Direção: Yasuomi Umetsu




********************
Notas adicionais: 

- Um outro assunto que liga robótica e cultura pop é o duelo de robôs, um japonês e o outro americano, em uma anunciada batalha que está empolgando geeks, nerds e otakus pelo mundo. Estou atento ao assunto e isso poderá ser tema de uma futura postagem. 

- Ainda sobre Presence, uma curiosidade bacana: o cientista solitário foi dublado por Koji Moritsugu, o eterno Ultraseven. Eis um ator que sempre trabalhou muito. 

9 comentários:

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Eu já havia visto Robot Carnival mas não lembrava deste curta.
Uma bela releitura do mito de Pigmalião.

Os cientistas japoneses parecem, ao menos a se julgar pelo
noticiário, os mais determinados a criar ou robô de aparência
humanoide, ou um androide como costuma-se dizer nas tramas de FC.
Você acha que há alguma interpretação cultural profunda disso?

Neste mesmo tema eu recomendaria o excelente filme britânico
de FC, Ex-Machina de Alex Garland, que trata do assunto com inteligência, profundidade e emoção.

E embora pareça uma sugestão mais óbvia, Big Hero 6 lida muito bem,
mas de maneira leve e extremamente divertida e emocionante, com o tema da humanização dos robôs e o que nos faz humanos. E tem uma pitada de batalha de robôs.

Bruno Seidel disse...

Confesso que estou surpreso ao ver esse assunto sendo levantado aqui no Sushi Pop. De qualquer forma, é um dos meus temas preferidos. Quando se fala de futurismo e principalmente dos possíveis avanços da Inteligência Artifical, é impossível deixar de mencionar as projeções de Ray Kurzweil, considerado o principal futurista do mundo (inclusive por nomes como Bill Gates) e recordista em acertar previsões sobre o futuro. Kurzweil trabalha como diretor de Engenharia do Google e disse que a humanidade está presenciando o avanço de três revoluções tão impactantes quanto a internet, a Revolução Industrial ou a Revolução Neolítica. Estamos falando dos incríveis avanços na área da Genética, da Nanotecnologia e da Robótica (a.k.a. Inteligência Artificial). Sabe no que isso vai dar? Kurzweil acredita que em meados de 2045 esse avanço todo (que será numa escala exponencial e não linear, como estamos acostumados a pensar) culminará no que ele chama de Singularidade. É um fenômeno que ocorrerá quando a inteligência artificial deverá superar a inteligência humana e nós, mortais, iremos nos fundir com as máquinas. Sim, nos tornaremos seres híbridos, segundo Kurzweil. Teremos condições de fazer coisas que só se vê em ficção científica, como backup de consciência de um corpo para uma hardware. Seria isso uma espécie de "imortalidade", uma vez que a nossa consciência deixará de depender do corpo físico? Há um consenso científico de que sim, isso pode ser a "morte da morte". Não quero me aprofundar demais nesse assunto porque é amplo demais e exige muita divagação, além de ser extremamente polêmico. Deixarei aqui o link de um post que fiz sobre o assunto, comparando a Singularidade Tecnológica com alguns enredos de séries Tokusatsu (como Cybercops, Kamen Rider Gaim, Go-Busters e Ultraman):
http://energiaespacial.blogspot.com.br/2014/05/tokusatsu-x-singularidade.html

Ah! E eu sei que posso parecer um louco ao tocar nesse tipo de assunto e levar a sério as ideias do Kurzweil, mas esse é um tema que eu já estudando a fundo e assimilando há uns dois anos. Ninguém precisa acreditar ou concordar com o que o Ray Kurzweil ou o Google fala/promete, mas acho que esse assunto merece atenção e reflexão sim, pois trata diretamente do futuro da humanidade e das nossas vidas, se não da de nossos descendentes.

Demais links relacionados ao tema:
KAKU, Michio. Visões do futuro: como a ciência revolucionará o século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2001;
KURZWEIL, Raymond. The Singularity is Near. When Humans Transcend Biology. Nova Iorque: Viking Press, 2005;
Google vs. Death (matéria publicada na revista Time, em setembro de 2013): http://time.com/574/google-vs-death
O século XXI irá representar 20.000 anos de progresso humano:
inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=020110021007
O Futuro da Humanidade (entrevista com Ray Kurzweil): https://youtu.be/wP2Y46_bsUQ
Transcendent Man (documentário): https://youtu.be/tsg-__K_IAI

Bruno Seidel disse...

Opa! Não tinha visto o comentário do Rogério acima. Excelentes referências sobre o tema. Ex Machina e Operação Big Hero são dois filmes que tratam muito bem do assunto (esse último é recomendável para toda a família). Há outras obras que abordam diretamente esse tema, como o seriado Humans (também britânico), que lembra até o episódio 32 do Jaspion (A Reviravolta do Robô). Hehehehehe! Outro filme bem legal sobre I.A. e "backup de consciência" é o tal do Chappie (2015). Em Kamen Rider Drive também temos um pouco disso: o cinto de transformação do Drive é um hardware que assumiu a mente do "falecido" cientista Krim Steinbelt.

Ale Nagado disse...

Fala, Rogério. Há muitas leituras sobre essa busca japonesa por robôs perfeitamente humanóides. Uma tem a ver com o sonho otaku da busca pela perfeição cibernética, que faria progredir a sociedade. Acredito que muitos cientistas engajados em projetos assim sejam otakus que direcionaram suas paixões para o trabalho, saindo do casulo autoimposto. Mas é um palpite, nada baseado em entrevistas. A androide Erica dizer que gosta de animê revela um pouco sobre seus criadores. Também li há muito tempo sobre um cientista ter anunciado estar em busca de financiamento para criar um robô de aspecto de criança similar ao Astro Boy. É incrível como a cultura pop de um povo tanto reflete quanto pode influenciar uma sociedade.

Há outro fator: a natalidade no Japão tem despencada ano após ano, sem expectativa de melhora. Isso tem criado cidades fantasma em locais mais remotos do país. Em uma delas, uma senhora que ficou fez bonecos de tamanho real e foi espalhando pelos pontos de ônibus, páteos de escolas e ruas, pra criar a impressão de que ainda existia vida em sua cidade. Algo terrivelmente triste, mas dá pra pensar no que aconteceria se ao invés de uma cidade, fosse um cientista com recursos.

Obrigado pela participação preciosa.
Abraço!

Ale Nagado disse...

Fala, Bruno! Obrigado pela contribuição ao tema.

O assunto que levantei no post tem muito a ver com a forma como eu encaro a cultura pop. Quando postei sobre a Miss Japão negra, mostrei as figuras de negros na cultura pop e suas representações. Com essa notícia da androide Erica, imediatamente lembrei de Presence.

Ou seja, é como eu digo: a cultura pop de um país reflete muito sobre seu povo, mas também exerce influência sobre muitos acontecimentos. Eu me interesso por comportamento, psicologia, criatividade, história, tecnologia, espiritualidade e tudo isso permeia a cultura pop. Então, é uma forma lúdica de tratar de muitas outras questões, ditas mais sérias.

O tema da imortalidade através de máquinas aparece muito forte em Galaxy Express 999, de Leiji Matsumoto, mas a visão não é otimista, apesar de repleta de poesia.

Essa busca pela imortalidade da consciência via tecnologia tem a ver com o ateísmo ou a falta de uma crença na existência do espírito. E há um ponto - e esse ponto é onde termina uma vida - em que ciência e religião vão sempre discordar. Dificilmente chegarão a um consenso um dia sobre o que acontece com a mente quando chega a morte. Há inclusive debates sobre o que acontece com pacientes que ficam em coma por anos ou sobre o que acontece com as pessoas que foram congeladas para serem despertadas somente quando existir uma cura para sua doença. Ou o que acontece com quem mandou congelar só a cabeça. (sobre isso, realmente nem sei o quanto é verdade sobre essas clínicas de criogenia...)

Enfim, como católico apostólico romano, eu tenho uma visão espiritualista sobre a morte, mas o aspecto sociológico e psicológico em interessa muito, pois mostra sentimentos presentes na sociedade.

E voltando ao tema dos androides com inteligência artificial, será que existirá um ponto em que será possível diferenciar uma máquina com real consciência existencial de uma programada para se sentir viva?

Finalmente, fico contente quando a discussão mostra o alto nível dos leitores. Sem suas participações, o Sushi POP não teria razão de existir.

Abração!

Usys 222 disse...

Impressionante a andróide. Sua articulação linguística é especialmente notável, fazendo parecer que existe uma pessoa manipulando e falando por um microfone através dela. Mas acho que vai ser difícil uma produção em massa no momento, já que ela ainda não consegue mexer toda a parte de cima do corpo. Os custos de produção e manutenção devem ser bem altos e uma unidade deve custar tanto quanto um jatinho. Talvez daqui a dez anos...

Robôs sempre foram um tema que fascina os japoneses. Tanto que existem muitas obras sobre esse tema. Astro Boy, Metalder, Saber Marionette... Acho que já citei em outra ocasião.

Tsuyoshi Nonaka, designer de brinquedos da Bandai, comentou o filme Gigantes de Aço em sua coluna na revista Uchuusen, dizendo que lá ele pôde perceber que os ocidentais vêem os robôs de forma diferente dos japoneses. Segundo ele, os ocidentais veriam os robôs como "reles instrumentos" enquanto que os japoneses acreditariam que as máquinas teriam "alma". Como exemplo, ele cita a cena em que Daisaku chama pelo Robô Gigante, que está sendo controlado por uma cópia sua e está destruindo a cidade... e ele pára, ouvindo a voz do verdadeiro Daisaku.

Também existem as lendas dos espíritos chamados "Tsukumogami". Acredita-se que um objeto (ou às vezes um animal), com o tempo acaba incorporando um desses espíritos ou até mesmo gerando ou se tornando um. Isso aconteceria especialmente com objetos que foram usados com apreço e muito estimados por seus donos.

Talvez isso tudo explique um pouco a paixão desses cientistas em desenvolver uma andróide com inteligência artificial autônoma. Isso de que algo inanimado pode criar vida.

Mas também é certo que os ocidentais também tem essa "crença" (vamos dizer assim). Provas são os personagens andróides de quadrinhos americanos, como o Visão e o Homem Máquina, que têm vários questionamentos existenciais. E em um episódio do desenho animado C.O.P.S., um dos heróis usava uma armadura do tipo Power Loader de modelo ultrapassado e quando ela estava prestes a falhar, ele disse "vamos, você consegue" e a máquina atende ao apelo, mostrando uma enorme força, mesmo não tendo inteligência artificial.

Ale Nagado disse...

Fala, Usys! Ótima contribuição ao debate!

Isso que mencionou sobre a diferença de percepção de americanos e japoneses me fez lembrar uma ideia de post antiga que nunca parei pra escrever.

Pegue dois dos mais clássicos e populares ícones do animê aos olhos ocidentais: Speed Racer e Star Blazers (Patrulha Estelar). São referências aos heróis das séries. Mas no original os títulos são Mach Go Go Go e Uchuu Senkan Yamato, que são máquinas. Isso tem muito a ver com o conceito que citou. Para os japoneses, o Mach 5 e o Yamato têm uma identidade, não são apenas veículos dos heróis.

Não imaginava que esse post abrisse um leque tão grande de assuntos.

Abraços!

Rogério disse...

Eu que sou grato pela resposta Nagado.

Bruno, eu também acho o tema da A.I. fascinante embora eu tenha minhas dúvidas se será realmente possível algum dia criar sistemas computacionais sencientes. Mas como metáfora da condição humana e ferramenta de questionamento na Cultura POP é uma das mais poderosas ideias que habita nosso imaginário.

Humans na verdade é uma refilmagem de uma badalada série sueca chamada Real Humans.

Ex-Machina é mesmo um dos melhores filmes de FC das últimas décadas.

Sobre Big Hero 6 e o poder dos robôs na cultura nipônica: não é a toa que o instituto de robótica no filme tem um nome japonês: Ito Ishioka, que não sei se é uma pessoa real ou não.

Usys 222 disse...

Me lembro de uma cena em que Susumu Kodai diz que Yamato não é uma simples nave e que ela tem vida. Isso mostra que desde essa época existia esse conceito.

De fato, esses são temas que fascinam os japoneses até hoje. Tanto que, como o Bruno Seidel mencionou, eles são tratados no seriado atual Kamen Rider Drive: "a imortalidade através da digitalização da mente humana", "o que é máquina e o que é ser humano?", "os humanos são mesmo mais nobres que as máquinas?"... Pode não parecer, mas os Riders da Nova Geração tocam em assuntos bem profundos, embora de uma forma um pouco mais "light", sendo necessário pensar um pouco para notar. Mas isso já é outro tópico.

E eis a prova de que o assunto fascina: temos vários comentários aqui. E todos feitos com paixão.

Ah, tem um momento em que acabei rindo um pouco ao ver o Presence, sabendo que o personagem principal era interpretado por Koji Moritsugu. Em uma cena, ele diz que não pôde se tornar o "Pai Pernilongo" da andróide. É que Jiro Dan havia interpretado o "Pai Pernilongo" no teatro em 1990. A tradução de "Ashinaga Ojisan" como "Príncipe em um Cavalo Branco" acabou mudando um pouco a nuance de como o inventor via a andróide.