quinta-feira, 9 de julho de 2015

Bate-papo: O mercado de quadrinhos no Brasil

Excelente livro de
Roberto Guedes relata os altos e
baixos da produção de
super-heróis no Brasil.
Heróis de verdade
são os autores.
Gostaria que você dissertasse um pouco a respeito da situação atual dos quadrinhos no Brasil. Com os anos de experiência que você tem trabalhando nesse meio, acredita que existe alguma possibilidade de um dia o nosso mercado crescer a ponto dos autores brasileiros não precisarem fugir do país para conseguirem viver da sua arte? Em caso positivo, o que você acha que falta para isto acontecer?
- Gabriel Silva


Olá, Gabriel. Bom, aguenta que lá vem "textão". 

A questão de ser viver de fazer HQ no Brasil é complicada. Costumo dizer que a indústria dos quadrinhos no Brasil começou imprimindo material estrangeiro por ser mais rentável e assim ficou, acomodada em comprar obras prontas. 

Se por um lado, tivemos grandes clássicos publicados aqui desde sempre, por outro não havia - e não há - como competir em termos de custos e qualidade com o material estrangeiro. Custos menores porque sua produção já vem paga e só entram direitos autorais proporcionais à venda (mesmo com eventuais adiantamentos e contratos). E qualidade porque, em HQs que vinham de países com grande produção local, havia espaço para o surgimento de grandes obras e autores de qualidade e com cada vez mais experiência. 
Fikom: Criação de Fernando Ikoma,
teve aventuras na década de 1970
Nos EUA, Japão e Europa, seus mercados de quadrinhos foram formados por editores que fomentaram produção local, em busca de maior identificação com o leitor e, consequentemente, mais lucros, ainda que com maiores riscos no processo. E eis aí uma diferença gritante entre o que é ser editor de HQ no Brasil e em países com mais tradição de criação. 

A maioria dos editores brasileiros de quadrinhos seleciona material pronto, revisa e supervisiona pós-produção e outras etapas antes que chegue ao leitor. Mas em outros países, os editores são como produtores de filmes, fazendo estreito contato com os autores a fim de extrair o melhor deles, muitas vezes interferindo no rumo de uma obra. No Brasil, tivemos poucos editores desse segundo tipo. E há os aspectos econômicos. Não é só sentar numa cadeira e produzir sem parar. Tem que ganhar pra isso, pois contas chegam todo mês. E os problemas vêm de longa data. 

O brasileiro Luke Ross, um
dos excepcionais desenhistas
que encontrou acolhida
no mercado de HQ dos EUA
O golpe militar (e sua perseguição às cabeças pensantes), sucessivas crises econômicas e outros problemas do país fizeram com que muitos autores se voltassem à publicidade e à ilustração. 

Houve muitos autores brasileiros que construíram belas carreiras com HQ numa época em que a concorrência do material estrangeiro era forte, mas não esmagadora como viria a ser. Nos anos 1950 a 60, muitas empreitadas isoladas aconteceram, enquanto no final dos anos 1970 e começo dos 80, a Grafipar lutou bravamente por uma produção nacional intensa e unida, voltada ao público adulto. 

Com a exportação do trabalho de muitos autores para o mercado americano, talentosos desenhistas puderam (e podem) viver de sua arte fora do Estúdios MSP, a única empresa brasileira a realmente empregar quadrinhistas regularmente. Há décadas, Mauricio de Sousa é o único artista de quadrinhos e se tornar um sucesso comercial de nível internacional. E com a linha Turma da Mônica Jovem e os álbuns com renomados autores reimaginando suas criações, a MSP se firma como um grande centro de produção tanto de HQs comerciais, em linha de produção, quanto trabalhos autorais.


As criações dos Estúdios MSP:
Liderança isolada no mercado nacional
Recentemente, os editais de incentivo à cultura e a produção de álbuns (geralmente com adaptações literárias) tendo em vista as compras do governo para abastecer bibliotecas deram algum fôlego ao mercado. Mas é difícil viver de álbuns, que é como querer viver de escrever livros. É para muito poucos. 

Outro tipo de tentativa que vez por outra aparece é através de leis de proteção de mercado, algo inútil, pois até se pode obrigar uma editora a publicar material nacional e pagar seus autores, mas não dá pra obrigar o leitor a comprar. 

Por outro lado, a indústria de animação foi beneficiada com uma lei que obriga emissoras de TV por assinatura a terem uma parte da programação nacional. Com isso, títulos como Meu Amigãozão, Peixonauta, Escola pra Cachorro, O Diário de Mika e outros ganharam espaço em canais por assinatura e algumas chegaram a canais abertos, obtendo renda e podendo partir para licenciamento. Sempre fui contra leis de proteção, mas a que beneficiou a animação foi bem interessante e com resultados muito positivos.  

Certamente temos que ressaltar que, no caso das TVs por assinatura, são canais filiais de multinacionais, com mais recursos para investir em produções locais. Já as editoras no Brasil, com a exceção da Panini (que já publica material nacional aos montes com a Turma da Mônica), teriam grandes dificuldades em adequar seus orçamentos para investir em material nacional. Não dá pra exigir que uma editora pequena ou média invista em personagens brasileiros, que podem ter retorno de mais longo prazo do que material já conhecido. Mas isso não quer dizer que seria impossível e aí teríamos que preparar editores para agirem como são suas contrapartes nos EUA e Japão, por exemplo. 

Num cenário desses, benefícios fiscais e facilidades por parte do governo poderiam ajudar as editoras a equilibrarem seus investimentos em autores nacionais. E quando falo de investimentos, não digo apenas publicar, mas pagar decentemente mês a mês, fora uma negociação justa de royalties. Certamente, o exemplo da animação pode ensinar algumas coisas às editoras e profissionais de HQ. 


Peixonauta: Exemplo de lei que obriga a inclusão
nacional com bons resultados. O mercado
de animação brasileiro ganhou enorme impulso e
hoje séries nacionais convivem com estrangeiras
naturalmente, pois buscaram apelo popular.
Finalmente, há o fenômeno mais recente dos sites de financiamento coletivo, que também têm pouco impacto no mercado de trabalho. É impressão sob demanda, bastante restrita, de títulos caros e luxuosos, ainda que muito bons. Gera dinheiro para os artistas se manterem enquanto estão produzindo, o que na prática é como mais um trabalho freelancer. Com a profusão de projetos pedindo dinheiro, já vi alguns naufragarem, sem nada levar. 
Gugu em Quadrinhos: Exemplo
de título popular na última
fase de efervescência de
produção nacional diversificada
para venda em bancas

Mas mesmo em meio à tudo isso, não faltam ótimos autores no Brasil, que surgem com trabalhos variados e arrojados. Que infelizmente, precisam ter outro emprego para poderem se manter, fazendo HQ como quem escreve poesia. Não tenho respostas para a viabilidade comercial, pois são as editoras que deveriam investir mais, o que é inviável perante a chance de publicar material já consagrado em troca de porcentagem de venda.

A única coisa que me chateia é ver gente pretensamente informada dizer que o mercado de HQ nacional está ótimo. Como se quadrinhista não precisasse pagar contas, comer, consumir. Fazer HQ por amor e ser publicado uma vez por ano via lei de incentivo cultural ou financiamento coletivo virou sinônimo de mercado bom. E esse tipo de relação apaixonada e de pouco retorno nada tem a ver com mercado. 

Talvez o último grande momento da HQ nacional como meio de trabalho tenha sido na década de 1990. Havia muita produção nacional de revistas baseadas em sucessos da TV, como Xuxa, Angélica, Leandro e Leonardo, Gugu, Faustão, Sergio Mallandro, as adaptações de Street Fighter, Jaspion e outros heróis japoneses, havia material alternativo e adulto nas bancas, como a Chiclete com Banana, Geraldão, Piratas do Tietê, Niquel Náusea, Animal, Porrada! Special e tantos outros. 

Se ninguém ficou rico com isso, havia um fluxo de produção que pagava regularmente a muitos artistas. Isso sim era mercado, uma época onde os artistas falavam sobre tabela de preços e condições de publicação. Hoje, há pouca coisa que não seja da Turma da Mônica em bancas. Nas livrarias, há muitos títulos nacionais, mas eles não atingem o grande público. 
Ledd: Sobrevivendo dignamente em
um mercado bastante complicado
Atualmente há poucas exceções no quadrinho nacional, sendo que o mangá Ledd (de JM Trevisan e Lobo Borges) merece uma menção honrosa por ser autoral e ter viabilidade comercial. Os episódios são publicados na web e depois ganham versão impressa com vários capítulos. Mas mesmo que a venda dessas edições seja uma boa fonte de renda para seus autores, quase não há coisas assim sendo produzidas para caracterizar um mercado. Antes dele, Holy Avenger (de Marcelo Cassaro e Erica Awano) marcou época como uma série bem sucedida, encerrada quando seus autores entenderam que era o momento, mas nada ocupou o espaço deixado, com o mesmo impacto. 

Se fosse para dar uma resposta curta e grossa para a indagação inicial, ela seria negativa. Mesmo com a experiência positiva da indústria de animação, ainda tenho reservas quanto a leis de nacionalização do mercado, mas acho que incentivos fiscais poderiam ser debatidos. Sim, porque o governo SEMPRE interfere na produção, com seus impostos e taxas e não seria nada mau que as editoras tivessem descontos especiais em impostos ou compra de papel quando publicassem autores nacionais. 

Mesmo sem uma grande reviravolta, alguns bons momentos ainda podem acontecer, se autores e editores souberem captar tendências do mercado. Parece-me que a caminhada do quadrinho nacional (fora da MSP) é irreversível, sendo cada vez mais cultura de nicho, cara e para iniciados, do que cultura popular, acessível. Mas espero estar enganado. 

O Quadrinho Nacional tem até sua própria
data comemorativa: 30 de janeiro
Mas muitos sites chamam essa data de
"Dia Nacional dos Quadrinhos", o que é muito
diferente de "Dia do Quadrinho Nacional".

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7 comentários:

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Só sobrou a MSP depois que a Abril fechou o "estúdio dos patos" e parou de produzir material Disney aqui. Parece-me que o Franco de Rosa tinha um estúdio que produziu para a Pixel. Tomara que ainda funcione.

De qualquer forma tem que se elogiar o investimento do Estúdio da Mônica em obras fora de seus padrões habituais.

Infelizmente é isso mesmo: obras nacionais são cada vez mais artigos de luxo para livrarias.

Até Holly Avenger foi relançada neste formato. Se estivesse em banca repetiria o sucesso original?

Eu pergunto-me quantas cópias os álbuns do ótimo programa ProAc de São Paulo venderam.

Há as compras governamentais mas este tipo de coisa está sempre sujeita ao governante de plantão, suas visões ideológicas e sua boa vontade.

Querer ser quadrinista no Brasil é quase como querer ser astronauta.

Bira disse...

Para os Quadrinhistas a situação melhorou bastante, temos várias editoras investindo e publicando Quadrinho brasileiro. Mas o cartum tem perdido espaço na imprensa brasileira, seu principal mercado. Há décadas jornais e revistas importantes têm cortado seções de charge editorial e cartuns, como o Estado SPaulo, a Folha de SPaulo acabou de fazer um corte nos cartunistas e tiristas do caderno "Ilustrada". Revistas e jornais voltados para o Humor Gráfico (como Bundas e Pasquim 21) fecharam. O único que continua é o Cometa Itabirano (que teve Drummond como fundador e é o sucessor do velho Pasquim). Mas lutar por melhorar o mercado é bandeira da AQC (Associação de Quadrinhistas e Caricaturistas SP), ACB (Associação dos Cartunistas do Brasil) e da recém-criada Academia Brasileira de Histórias em Quadrinhos (Abrahq), no Rio de Janeiro. Vamos fazer a nossa parte.

Bira disse...

Existem editores pensando em produzir algo no formato do tablóide de humor francês "Charlie Hebdo" ou da revista espanhola "El Jueves". A charge política, o cartum de costumes e as tiras fazem muito sucesso na internet. Seria bacana ter essa produção reunida numa publicação de âmbito nacional. Mas, teremos alguns entraves: uma editora que patrocine o custo, uma distribuição bem feita e um público leitor disposto a sustentar um projeto desses. Normalmente uma revista, mesmo com anunciantes, dá prejuízo durante 2 ou 3 anos, até se estabilizar no mercado editorial.

Alexandre Silva disse...

Excelente matéria, Ale Nagado e Gabriel Silva. Podemos nos comparar a classe dos atores e atrizes brasileiros, que amam fazer teatro, mas ganham dinheiro mesmo fazendo TV e publicidade. Nós podemos até publicar HQs, pelo catarse, ou até com grana do próprio bolso, mas na hora de pagar as contas, quem nos salva mesmo são os livros didaticos ou a publicidade.

Gabriel Silva disse...

Nagado, como eu nunca fiz parte do mercado editorial e nem conheço muito sobre ele (até porque, que mercado, não é?), fiquei boiando em algumas passagens mais técnicas do texto. Mas, de qualquer forma, o que mais me chamou atenção foi o elogio que você fez da produção de massa, voltada para as bancas de jornal. Você acredita mesmo que esta seja a opção mais viável para sustentar o nosso mercado? Quer dizer, no outro post mesmo estávamos a falar sobre a transformação gradual da cultura de massa em cultura de nicho, e de como este processo vem acontecendo em todo o mundo. Então, para você, o melhor mesmo seria continuar investindo em material para o grande público, mesmo para aqueles que não tem o hábito de ler quadrinhos? A internet, nos dias de hoje, não seria um mostruário muito melhor e mais diversificado para os quadrinhos do que as bancas de jornal?

Ale Nagado disse...

Rogério: Os álbuns do ProAc, para o consumidor final, acabam caros. Para o profissional foi ótimo, mas continua algo para o leitor mais elitizado. E sim, querer ser quadrinhista profissional (que ganha dignamente para fazer HQ) está ficando como querer ser astronauta...

Bira: Excelente lembrar da situação do cartum e da charge. O Brasil sempre teve essa tradição, que tem se perdido um pouco nos últimos anos, o que é preocupante. Mas permita-me discordar quando você diz que a situação do quadrinhista melhorou. Bom, melhorou com a poderosa divulgação que a internet proporciona, melhorou no sentido de que boas gráficas são mais acessíveis e os editais e compras do governo permitem a muita gente o sonho da publicação. Porém, não existe, fora da MSP, onde procurar trabalho como quadrinhista. Como na música, muitos quadrinhistas não são autores completos. São ou roteiristas, ou desenhistas, ou arte-finalistas, ou coloristas... Falta o que se chama de mercado de trabalho. Sério, constante, com tabelas de preço. Porque nunca se viu tanto oba-oba quanto agora, mas pra pagar conta, prêmio e curtida não resolvem muito. Não quando as contas são mensais.

Abraços a todos!!

Ale Nagado disse...

Alexandre Silva: Fala xará, fico honrado quando gente que eu respeito como colegas de ofício, como o Bira e você, aparecem pra comentar meu humilde blog. Você tem razão, os livros didáticos e a publicidade acabam sendo onde o quadrinhista mais ganha pra se manter.

Gabriel: A internet é uma ferramenta espetacular pra divulgação e uma vitrine incomparável para mostrar o trabalho. No entanto, como modelo de negócios, ainda não se sabe como ganhar com HQs. Banners e anúncios rendem muito pouco e assinaturas são inviáveis. O povo sempre vai atrás do gratuito. Veja as editoras de mangá: publicam dezenas de títulos. Ninguém cogita em parar de publicar no papel pra mostrar 10 vezes mais títulos para o povo ler na web, porque aí não tem venda, não tem comércio, não tem mercado.

Hoje se confunde muito o mostrar e o publicar com a relação profissional de produzir e ser pago. Ou produzir e vender sua arte ou criação comercial.

Eu realmente acho que investir no grande público, trazer ele de volta aos quadrinhos, é o grande desafio.

É o que digo sobre o exemplo da indústria da animação. Ao invés de pegar uma lei de proteção de mercado e mamar nas tetas do sistema sem se preocupar com retorno, eles buscaram o grande público.

Em um mercado sadio, há material de nicho, material bastante autoral e etc, mas o que movimenta o mercado é a existência de empresas e autores sendo pagos, tendo de volta seu investimento e vivendo dignamente.

Só no Brasil se diz que o mercado de HQ está fantástico, mas não se consegue apontar uma dúzia de autores brasileiros que vivam de HQ sem estarem publicando no exterior ou via MSP. Ainda há um longo caminho a se percorrer e ando pensando se uma política de valorização (e não proteção) de mercado aliada à incentivos fiscais não poderia ser um bom começo.

Abraços!!
PS: E desculpe se pareço hermético nas colocações, tentei ser bastante didático.