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Olá! O blog ainda está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, Katokutai, Pinóquio de Osamu Tezuka, Danger 3, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Chobits - Um mangá sob medida para a polêmica

Sucesso do grupo CLAMP volta
em edição para colecionadores
Atenção: Título desaconselhável para menores de 16 anos.

Em um futuro indeterminado, uma criação revoluciona a vida das pessoas, mudando drasticamente relacionamentos e formas de encarar o mundo. São os persocom, potentes computadores pessoais com uma grande diferença em relação aos tradicionais: são humanizados. E não fosse pelas orelhas enormes, seriam idênticos a pessoas reais, como andróides de última geração. 

Robôs extremamente avançados, os persocoms funcionam como companheiros, secretários ou servos de seus donos, assumindo funções de computador pessoal, o que inclui acesso à internet e a administração de rotinas domésticas. Há persocoms masculinos e femininos, alguns em miniatura e nem todos são humanizados, mas o grande destaque vai para as máquinas que emulam jovens e atraentes garotas. 

Certo dia, andando pela rua, o jovem e pobre estudante Hideki Motosuya encontra uma garota enrolada em faixas e constata que se trata de uma persocom abandonada. 

Encantado com sua beleza e tendo em mãos algo que ele não tem dinheiro pra comprar, ele a leva para casa e a batiza com o único som que ela emite: Chii. A andróide é atraente, meiga e totalmente dedicada a seu novo dono. Que melhor fetiche para um cara solitário e sem jeito com garotas? No entanto, a vida de Hideki não está destinada a ser um mar de rosas.

Com a confirmação de que Chii é muito mais avançada do que outros persocoms, surge a suspeita de que ela seja uma Chobit, lendária máquina dotada de personalidade e vontade própria. Começa, então, a busca de Hideki por informações sobre o misterioso passado de sua nova companheira. Chii também não possui sistema operacional, obrigatório em outros persocoms, e possui intacta sua função de aprendizado. Cabe a Hideki ensinar tudo a ela, de palavras a comportamentos sociais, quase como um pai. Mas obviamente ele a vê com outros olhos e logo vai se apaixonar pela encantadora e carinhosa garota.


Chii: Símbolo de objetificação da mulher
ou de humanização da máquina?
Chobits é mais uma criação do estúdio Clamp, formado exclusivamente por mulheres e que reúne os talentos de Satsuki Igarashi, Nanase Ohkawa, Mick Nekoi e Mokona Apapa. Habituadas com revistas femininas, essas autoras responsáveis por séries como Guerreiras Mágicas de Rayearth, X, RG Veda e Sakura Card Captors tomaram o cuidado, em Chobits, de se adequar ao gosto do público masculino japonês.

Sob uma ótica machista, as persocoms parecem "unir o útil ao agradável", sendo criadas para resolver problemas da casa, acessar a internet, fazer cálculos, servir refeições e até satisfazer o dono como companhia sexual. A situação do jovem solitário que se vê morando com uma garota linda, sensual e totalmente submissa é um clichê nos mangás para rapazes. Além disso, o protagonista Hideki vive rodeado de meninas e mulheres lindas, solitárias, amáveis, que se preocupam com ele e cada uma parece tanto estar apaixonada por ele quanto despertar sua paixão ou desejo. São situações recorrentes em obras de ficção num país onde o machismo, o rígido controle social e a competição extrema deixam pouco espaço para relacionamentos em igualdade de condições e compreensão. 


As mulheres têm conquistado cada vez mais direitos no Japão e têm conseguido maior projeção profissional, mesmo que no geral elas ganhem 50% menos que os homens e ainda seja comum uma artista virar dona de casa após se casar. Mas num país machista como sempre foi o Japão, os avanços das últimas décadas têm criado cada vez mais homens com dificuldade de lidar com mulheres que desejam cada vez mais igualdade. 

Para os mais retraídos e conservadores da tribo otaku, as mulheres ideais não estão no mundo real, mas na TV, nos quadrinhos e nos games. Daí a submissão e a dedicação integral ao homem serem tópicos tão importantes nesse tipo de trama, que objetifica a mulher e faz da companheira ideal uma garota sem passado amoroso e totalmente dedicada a seu único e incondicional amor. 
Chii e Hideki na versão animê de Chobits (2002)
A doce Chii, com rosto e atitudes de criança em corpo de mulher, aparece várias vezes em situações sensuais, bem ao gosto do público japonês que é alvo do chamado fan service. Ao longo das páginas do gibi, alternam-se humor, romance adolescente, drama tocante e momentos inegavelmente apelativos. 

Um momento a ser destacado é quando o garoto descobre como ligar a andróide, que é pressionando um botão de ligar/reiniciar localizado dentro de sua vagina. Será que a maldade está mesmo nos olhos de quem vê? 

A localização desse botão de inicialização também representa um dilema futuro para Hideki. Caso ele venha a fazer sexo com Chii, isso vai significar que ela perderá totalmente sua memória. As experiências que eles viveram serão todas perdidas, recomeçando o desenvolvimento mental e emocional de Chii do zero. O amor entre eles poderá existir sem o relacionamento físico? E qual o limite exato que define a humanidade de Chii e o que a faz tão diferente (se tanto) de outros persocoms? As questões que permeiam a obra são muitas. 

A história de Chobits busca um desenvolvimento mais no sentido de humanizar uma máquina do de que objetificar a figura feminina, mas as intenções são dúbias. A verdade é que toneladas de fan service estão lá, como que para atrair leitores desavisados. Seria um artifício para passar uma mensagem mais profunda sobre relacionamentos ou simplesmente para potencializar os lucros? Não há respostas fáceis, mesmo que o elenco feminino seja formado por garotas irreais que agem como que para preencher carências afetivas e povoar a imaginação do leitor. 

Cabe ressaltar que esta HQ foi criada no contexto nipônico onde o maior símbolo sexual são colegiais de aspecto angelical e submisso, algo que as artistas do Clamp souberam aproveitar como poucos. O estúdio é consagrado, tem legiões de fãs apaixonados e criaram obras com personagens femininas fortes. Não precisavam criar algo tão apelativo, mas os fãs parecem não se importar. Patrulhamento ideológico, ainda mais na internet, é lugar comum para simplificações ignorantes e manifestações de ódio. 


Chii - Existindo somente para amar e agradar seu homem,
sem estar sujeita a doenças, TPM e ao envelhecimento
do corpo. Símbolo de feminilidade ou
fetiche supremo para leitores incapazes de
se relacionar com uma mulher real?
Em um mercado complicado como é o editorial, a última coisa que se precisa é atrair a atenção de alguma militância desocupada para criticar uma revista de quadrinhos. Mas a dúvida sincera que fica é se Chobits foi um pouco longe demais em sua lógica de mercado para atrair o público otaku no Japão - lembrando que essa HQ foi criada em um contexto social diferente do nosso. Mas para quem é fã do Clamp, é óbvio que a arte está fantástica como é de costume, bem como as caracterizações e a narrativa.

O sucesso do mangá gerou uma versão em animê com 26 episódios para TV produzida em 2002 pela produtora Mad House, com direção de Morio Asaka, os mesmos do animê de Sakura Card Captors.

Chobits estreou, em 2000, na Young Magazine (Ed. Kodansha), uma revista voltada para o público masculino. Totalizou oito volumes em sua compilação original e a primeira versão da edição brasileira teve a metade de páginas da versão japonesa, chegando a 16 edições em 2003. A atual republicação é mais fiel ao encadernado japonês. 


Questões éticas, sociológicas e filosóficas à parte, é mais um título de destaque em seu país que chega em edição caprichada para o leitor brasileiro.

CHOBITS
Autoria: CLAMP
Editora: JBC

Formato: 13,5 cm x 20,5 cm, com 200 páginas
Total: 8 volumes
Lançamento: Maio de 2015 (Distribuição nacional)
Preço de capa: R$ 16,90
- Para leitores maduros.

- Nota: Esta resenha é uma versão revista e bastante ampliada da crítica que publiquei em 2003 no portal Omelete.

Extra: Confira a abertura de Chobits. 
Canção-tema: "Let me be with you", por ROUND TABLE featuring Nino

6 comentários:

Usys 222 disse...

Eis um tema que me fascina desde Jetter Mars (O Menino Biônico), passando por Metalder e Saber Marionette J: máquinas com sentimentos humanos (às vezes até com mais humanidade). Ouvi falar de Chobits, mas foi em uma época em que eu estava afastado dos mangás e por isso acabei não lendo. Será que é bom dar uma chance a este?

Confesso que ri com a localização do botão "reset", pois me fez lembrar os mangás de Kouji Kumeta na época antes de Zetsubou Sensei. Eis uma situação que se não for bem utilizada pode acabar descambando para a comédia nonsense. Mas acredito que CLAMP soube dar conta do recado.

Ale Nagado disse...

Usys, talvez você curta Chobits, experimente. Para o meu gosto pessoal, não gosto nem um pouco de Clamp e foi difícil extrair uma resenha mais ou menos ponderada. Várias coisas no trabalho delas me incomodam e não pretendo ler o resto da série. Mas acho importante, na condição de estudioso de cultura pop que tento ser, ter conhecimento sobre esse material.

Se você ler, depois me conta o que achou.

Abraço!

Anônimo disse...

Mangás-animes nesse estilo e séries como Game of Thrones me
incomodam um pouco. Aqueles que adoram soft porn como " arte "
são um pouco piores do que os viciados em pornografia
assumida.

Gabriel disse...

Parabéns pelo ótimo post, Nagado. Não li Chobits, mas, com base no que sei sobre o mangá, tenho a impressão de que o Clamp é mesmo do tipo que topa tudo por dinheiro. Que razão poderia haver, por exemplo, para a diferença gritante no jeito como as mulheres são retratadas em Sakura Card Captors, onde a protagonista é a verdadeira heroína da história e o principal garoto do mangá tem que aceitar a contra-gosto o fato de ser um coadjuvante, e em Chobits, onde há esse ról de personagens femininas ocas e submissas? Para mim, elas só fizeram isto mesmo como uma tentativa desesperada de agradar o público masculino de shounen e faturar um monte de grana (coisa que outras autoras, como Rumiko Takahashi e Hiromu Arakawa, fizeram sem precisar se vender).
Mas, enfim, fiquei curioso para saber o que mais te incomoda no trabalho do Clamp, até porque não sei tanto assim sobre elas, afinal. Poderia falar mais sobre isto?

Ale Nagado disse...

Olá, "Anônimo". Hum, talvez você tenha sido muito duro em sua crítica, mas entendo o que quer dizer. Eu realmente enxergo muita coisa como sendo excessos feitos para tornar algo mais chamativo.

Gabriel, eu não me incluo em nenhum tipo de público-alvo do Clamp. O que eu acho apelativo, outros podem ignorar e achar "fofo" ou "lindo". Eu, sinceramente, não tenho paciência para a forma como o Clamp constrói relacionamentos entre as pessoas. Pra mim, soa falso ou forçado em grande parte dos casos. Mas tem um estilo e uma coerência dentro de uma visão de mundo que elas passam. Pra mim, não desce e já tentei obras diferentes. Novamente, é questão de gosto.

Abraços!!

Anônimo disse...

Quando criança era apaixonado pela Lucy de Rayearth, fiquei
decepcionado quando soube do ova apelativo que lançaram das
heroínas( basicamente seria o mesmo que mostrar os Rangers pilotando
os zords sem roupa ).O clamp sabe ganhar dinheiro com o
lado anormal do Japão.