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sábado, 13 de junho de 2015

Bate-papo: Influências americanas nos super-heróis japoneses

Super Giants (1957) e sua inspiração
mais óbvia: o Superman de George Reeves (1951).
Como você analisa o nível de influência dos super-heróis americanos nas séries japonesas? 
Bruno Seidel

Bom, uma coisa pra se ter em mente é que o gênero "super-herói" surgiu no Japão como decorrência direta do que acontecia nos EUA. O Superman foi criado em 1938 e começou a virar ícone mundial graças à sofisticada série animada de 1940, anterior à famosa série com George Reeves entre 1951 e 58.

No Japão, o primeiro super-herói propriamente dito apareceu em 1957 numa série feita para cinema chamada Super Giants

O herói era super-forte, voava (entre outros poderes), tinha capa e usava sunga por cima da calça colante (como antigos artistas de circo), praticamente um Superman japonês. Sua história era mais de ficção científica, mas o apelo visual remetia muito ao Superman. E muitos outros vieram depois dele, como o National Kid (1960), que foi o primeiro herói de TV com superpoderes. Mas logo personagens como Ultraman, Kamen Rider e os grupos Super Sentai foram dando uma cara mais regional aos super-heróis da Terra do Sol Nascente. Mas sempre houve influências, mais ou menos óbvias. 

Spider Man: Somente o nome
e os poderes foram
reaproveitados do original
licenciado.
Quando a Marvel Comics fez parceria com a Toei para tentar emplacar seus heróis nas TVs do Japão, veio a série Spider Man (1978), muito mais uma cria de Toru Hirayama do que da Marvel propriamente dita. A série foi influente no país por apresentar um super-herói que controlava um robô gigante (unindo duas ideias lucrativas) e antecedeu o primeiro live-action americano do herói, que viria em 1979. Mas antes disso, havia acontecido uma tentativa nos quadrinhos, e entenderam que era preciso recriar o personagem para o público japonês, dando origem ao Spider Man de Ryoichi Ikegami em 1970. Vale lembrar que tanto o Superman quanto Batman tiveram adaptações feitas no Japão, mas eram mais fieis ao original, não uma recriação como aconteceu com o Homem Aranha. 

Voltando à TV, o sucesso do aracnídeo inspirou que outro projeto fosse desenvolvido, mas a Marvel estava perdendo totalmente o controle criativo e desistiu de prosseguir. A Toei então reaproveitou as ideias que estavam sendo desenvolvidas e o resultado foi a série Super Sentai Battle Fever J (1979). Seu visual lembrava o de heróis americanos e suas máscaras, com a diferença que a área que deveria mostrar parte do rosto sob a máscara foi modelada como um capacete inteiriço. E a heroína do grupo, Miss America, foi bastante inspirada na Miss Marvel, personagem das HQs da Marvel surgida em 1968. Já o nome e o emblema no peito remetem à outra Miss America, uma clássica heroína dos quadrinhos Marvel de 1944. E há casos em que as influências parecem ser de mão dupla. 


Miss America, Battle Fever J (à esquerda),
inspirada em Ms Marvel (acima, à direita)
e Miss America (abaixo, à direita).
Um caso emblemático é o do Robocop, o clássico filme de 1987, mas vamos retroceder mais ainda para fazer alguams considerações. Em 1973, surgiu no Japão o Robot Keiji (ou "Robô Policial"), que tinha como nomes alternativos para exportação "Robot Detective K" e até mesmo - pasmem - "Robot Cop". Pode-se dizer que é apenas coincidência, já que é um nome um tanto óbvio. Mas sobre o próprio Robocop original houve comentários até em publicações americanas dizendo que era vagamente inspirado em Metal Heroes, a franquia iniciada em 1982 com o Policial do Espaço Gavan

No canto superior esquerdo, Robot Keiji (ou Robot Cop).
No canto inferior esquerdo, Gavan. Ao centro, Robocop.
E à direita, Jiban. Policiais metálicos com
insuspeitas ligações.
Robocop fez um sucesso absurdo no mundo inteiro e, dois anos depois, em 1989, surge no Japão o Policial de Aço Jiban. Com andar mecânico e pistola acoplada na perna, o agente policial Jiban foi apelidado com razão de "Robocop japonês". E no infame Robocop 3, o herói ganhou um jato que, acoplado às costas, o permitia voar, exatamente como o Jiban. 

Muitas vezes, as influências são técnicas ou de elementos isolados, não da história ou do visual. E não apenas de super-heróis, mas de ficção e fantasia em geral. 

Nesse aspecto, impossível não citar o primeiro filme de Star Wars (1977), que trouxe ao mundo as espadas laser, causando enorme impacto também no Japão. Após Gavan, as espadas de energia se tornaram armas essenciais para muitos super-heróis japoneses. E para acrescentar mais um dado sobre influências mútuas, o herói Spielvan (1986), antecipou em 13 anos o "sabre de luz duplo" do vilão Darth Maul, de Star Wars - A Ameaça Fantasma. Coincidência? 

Luke Skywalker (à esquerda), Darth Maul (acima, á direita)
e Spielvan (abaixo, à direita). Luzes cortantes.
No campo dos efeitos especiais, em 1992, o Exterminador do Futuro 2, de James Cameron, revolucionou as produções de ficção com seu efeito "morph" de transformação de imagens. Um ano depois, uma versão mais simples - porém bastante eficiente - do morph apareceu já em Kamen Rider ZO, filme de Keita Amemiya, diretor que já fora apelidado em seu país de "James Cameron japonês". E em Matrix (1999), o famoso efeito "bullet time" foi emulado sem recursos, mas de forma criativa em Timeranger, seriado Super Sentai de 2000.

As influências são inúmeras, e acho que elas são saudáveis. O interessante é que essas influências são sempre digeridas e adaptadas ao modo japonês. Sobre isso, há uma citação interessante que gostaria de fazer.

No prefácio que escreveu para meu e-book Cultura Pop Japonesa - Histórias e Curiosidades, o roteirista Marcelo Cassaro (Holy Avenger, Street Fighter, Turma da Mônica Jovem) comentou sobre uma grande diferença entre heróis americanos e japoneses. Talvez seja um pouco genérica, mas faz muito sentido. 
"...na maioria dos quadrinhos de super-heróis, o protagonista recebe seus poderes de graça — já nascem com ele, ou chegam por acidente. Superman tem poderes por ser extraterrestre. O Homem Aranha foi picado por uma aranha radioativa. Batman, milionário. X-Men, mutantes. Hulk, bomba gama. Nos comics, grande poder não vem com grande responsabilidade; ele vem com grande facilidade.
Nos mangás e animês, quase nunca vemos isso acontecer — o povo japonês não acredita em conquista sem esforço, sem sacrifício. Street Fighters levam anos dominando seus estilos de luta e golpes especiais, como qualquer artista marcial. Cavaleiros do Zodíaco vivem o inferno em lugares terríveis antes de manifestar seu Cosmo. Ninjas das Vilas Ocultas estudam na escola e obedecem mestres. Mesmo para o eventual sayajin, nascido em outro planeta, o poder só vem com muito treinamento duro em gravidade pesada. (Marcelo Cassaro)"
Devo dizer que concordo em geral com a abordagem do Cassaro. Há diferenças marcantes nos conceitos, mas os autores e produtores japoneses sempre foram muito influenciados pelo ocidente. 

Acredito que a importância dos super-heróis americanos e sua cultura pop no Japão tenha sido grande desde o início. Mas essas influências sempre foram diluídas na mentalidade japonesa, em suas diversas mídias - seja de mangá, animê ou tokusatsu. E em muitos casos, houve troca de influências, o que é saudável tanto do ponto de vista criativo quanto do mercadológico. 


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9 comentários:

Anônimo disse...

Também recentemente houve Man of Steel que praticamente foi uma
versão Superman de Dragon Ball Z , onde só faltava o vilão
chamar o herói de verme. Pena que diferente de DBZ, a Warner obrigue
o filme a se levar a sério demais, ,mesmo que muitos elementos
dele são claramente voltados a vender uma tonelada de brinquedos.

Stefano disse...

seria legal também falar da influência japonesa nos "American Heroes".

Anônimo disse...

a relação do Robocop com Gavan pode ser apenas coincidência, Paul Verhoeven
cita o Juiz Dredd como inspiração. Antes dos Space Cops, Shotaro Ishinomori escreveu o roteiro do filme Message from Space (1978), que teve até uma série de TV, há quem diga que enquanto esteve no Japão, Lucas assistiu Kikaider e o Hakaider serviu de inspiração para o visual do Darth Vader, já Tohru Hirayama teria dito que o Vader se parece com Musha Kamen de Himitsu Sentai Goranger. Outros comparar o vilão com o Dr. Destino da Marvel e com The Lightning, vilão de um seriado feito para os cinemas chamado The Fighting Devil Dogs (1938).

E inegável que os jedis foram inspirados em samurais, já que Lucas é fã de Akira Kurosawa.

Tatsuo Yoshida era fã do Superman e fez um mangá licenciado publicado na Shōnen Gahōsha em 1959.

Shigeru Mizuki criou o Rocket Man (nitidamente parecido com o Superman) e até mesmo sua própria versão do Homem Borracha (inclusive usando o nome original, Plastic Man, ao que parece, não era licenciado) Frederik L. Schodt em The Astro Boy Essays: Osamu Tezuka, Mighty Atom, and the Manga/Anime Revolution (2007), afirma que o Astro Boy de Osamu Tezuka teria sido inspirado no Super Mouse, tanto na forma de voar, como no nome, Mighty Atom lembra o nome original do Super Mouse, Mighty Mouse.

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Eu já ouvi algumas vezes fãs desta ou daquela cultura POP(dos EUA ou da nipônica) proclamar a "superioridade" de uma ou de outra. Isto sempre parece-me tão tolo, primeiro porque o conceito de "superioridade cultural" é ridículo, mas também, como você bem demonstra no texto, há uma dinâmica de influências mútuas ao longo dos anos entre ambos os lados. Algo que trouxe boas ideias as ambas Culturas POPs.

Anônimo disse...

houve também o filme Lady Battle Cop (1990) da própria Toei Company.

Ale Nagado disse...

Lady Battle Cop saiu em VHS no Brasil pouco tempo depois de seu lançamento. Um filme bem fraquinho que não fez sucesso nem lá e nem cá.

Se eu fosse listar TUDO que influenciou ou foi influenciado daria um livro. Acho até que dei uma reaposta grande pra comentar o que foi proposto.

E gostaria que oa comentaristas se identificassem pro papo ficar mais legal.

Abraços!

Bruno Seidel disse...

Grande Nagado! Obrigado por responder a minha pergunta e por ter ido tão "a fundo" ao divagar sobre a sugestão do tema. Escolhi trazer à pauta esse tema pela constante comparação que surge entre super-heróis nipônicos e estadunidenses. Esse texto do Cassaro expõe um contraponto interessante e curioso entre ambos. Acho que reflete muito da diferença cultural entre as duas nações: os japoneses acostumaram-se, durante as últimas décadas, a reerger-se de uma situação catastrófica (o pós-guerra) e conseguiram consolidar-se como uma das principais potências do planeta. Os americanos, por sua vez, transformaram-se na primeira potência mundial ao entrar na guerra na hora certa e a venceram do jeito "certo" (aspas obrigatórias). A partir daí, vimos os EUA influenciar boa parte do mundo através da cultura (principalmente o cinema), instaurando o capitalismo/consumismo como regras do jogo. E hoje nós sabemos o quanto isso influencia as séries japonesas (merchandise, brinquedos, variedade de personagens e upgrades). Acredito até que essa recente onda de mega-crossovers que vem pintando nos cinemas japoneses tem uma certa influência dos crossovers americanos (Vingadores, Liga da Justiça, DC versus Marvel...). Os exemplos mencionados de Spiderman e Battle Fever J nos anos 1970 (frutos da antiga parceria Toei - Marvel) são realmente obrigatórios em qualquer histórico sobre o gênero Super Sentai. E, curiosamente, vemos o caminho inverso nos dias de hoje com o sucesso ocidental dos Power Rangers, produção americana com altíssimo índice japonês no DNA. Isso comprova que o mundo dá voltas mesmo. XD

Luiz disse...

Parabéns pela matéria! Muito legal ver os detalhes da influência nos primórdios dos tokusatsu! Cheguei fazer um artigo com mesma temática mas focado apenas nos metal-hero. E o livro é fantástico!
Continuem com o excelente trabalho!

Bruno Seidel disse...

Aliás, o blog Jefusion recentemente publicou um post tratando justamente desse assunto: http://www.jefusion.com/2015/09/my-own-view-of-toei-ltd-getting.html