terça-feira, 23 de junho de 2015

Bate-papo: Crise criativa nos quadrinhos japoneses

Os protagonistas de Bakuman e o desafio de criar
boas histórias e que também tenham apelo comercial
Gostaria que você falasse um pouco sobre os quadrinhos japoneses da atualidade, que pelo que eu vejo se rendem cada vez mais à mesmice e falta de bom-senso dos fãs mais alucinados. Nesse ponto, você acha que a coisa vai melhorar daqui a alguns anos ou vai decair de vez?
- Gabriel Silva

Olá! Bom, primeiro eu preciso deixar claro que não acompanho muito o que está saindo atualmente no Japão. E mesmo que estivesse, não há como acompanhar tudo, em todos os segmentos. Corremos o risco de ficar tomando como base somente títulos mais famosos e material mais ou menos recente que saiu por aqui. Ainda assim, dá pra tecer alguns comentários. 

Gostaria de falar sobre aspectos gráficos primeiro, até chegar ao meu ponto de vista. Visualmente falando, o que percebo é que há muitos e muitos autores que possuem um traço bastante limpo e graficamente muito similar ao que se vê em animês. Os desenhos têm ficado anatomicamente mais corretos e as estilizações de rosto seguem padrões mais próximos. Em material antigo, talvez até mais rústico, os autores faziam trabalhos com uma estrutura mais caricata e solta. 


Cyborg 009, de Shotaro Ishinomori:
Herói dos anos 1960, está sempre
ganhando reformulações
Veja o trabalho de alguns grandes autores clássicos como Osamu Tezuka, Shotaro Ishinomori, Leiji Matsumoto e Go Nagai. As figuras, além de estilizadas, tinham um contorno mais forte, uma influência mais cartunesca. Eles e tantos outros, além de maior liberdade no desenho, também criaram personagens icônicos que já ganharam muitas reformulações, o que tanto é sinal de qualidade de suas criações quanto de falta de ideias de produtores atuais. 

Dos anos 1990 pra cá, o traço que contorna as figuras foi ficando mais fino, suave e preciso, seguindo as tendências de estilização mais comuns em animações. 

De fato, vejo a maioria dos autores como sendo pessoas que aprenderam a desenhar copiando mais cenas de animês do que de mangás. Aliás, uma vez indiquei aqui no Sushi POP um artigo de um blog gringo que fala exatamente sobre a evolução gráfica de mangás e animês, com interessantes observações. (Se ainda não viu, confira depois o artigo aqui.)

A anatomia tem ficado mais realista, a fim de valorizar mais os contornos da figura feminina. E com isso, incontáveis autores se mostram obcecados com seios grandes, em representações cada vez mais exageradas e com detalhamento meticuloso, o mesmo valendo, em menor grau, para os contornos da área pubiana. Essa obsessão por seios herdada da cultura norte-americana realmente parece que veio pra ficar no imaginário do público otaku japonês. 

Levando isso às personagens ficcionais, parece também que toda garota apenas sonha em ter seios enormes, gosta de apalpar os seios da amiga mais bem dotada e é eternamente ingênua e provocativa. Esses e tantos outros clichês vão se repetindo e criando muletas para a história. Mas há coisas que fogem disso e conseguem se impor pelo talento de seus autores.
Exemplo de fan service no mangá
Fairy Tail (publicado no Brasil
pela ed, JBC)
Também gostaria de recordar uma declaração polêmica de Hayao Miyazaki sobre a entrada dos otakus no mercado de trabalho. A crítica dele foi em relação aos autores que não desenham pessoas com postura e atitudes de gente de verdade, algo necessário mesmo em uma ficção fantástica. Ele reclama de artistas incapazes de olhar para outros seres humanos. O resultado seriam personagens artificiais, repetitivos e feitos apenas para satisfazer fantasias. Mas é claro que isso não fica só no desenho. Mangás de harém representam um tipo de história em que há um garoto azarado com mulheres que, de repente, se vê cercado de lindas mulheres interessadas nele, de diferentes idades, cortes de cabelo e tamanho de seios. 


Talvez Miyazaki tenha exagerado, mas eu entendo o que ele diz. Quando li K-on, me deparei com um amontoado de clichês de comportamento e atitudes que só fazem sentido na ótica do fan service. Senti o mesmo incômodo lendo Chobits

Love Hina, um típíco mangá de harém, tinha toneladas de fan service e ainda assim conseguiu me cativar com ótimos personagens e caracterizações. No fundo, é isso o que faz a diferença e a interpretação é tanto subjetiva quanto dependente da experiência pessoal de cada um. Como já mencionei aqui, não gosto nada de Clamp e suas caracterizações de personagem. Mas outros milhões amam Clamp exatamente por suas caracterizações. 
Love Hina: Muito fan service,
numa história que funcionaria
bem mesmo sem ele

Não gosto de cair naquela coisa de "antigamente era melhor", porque a nostalgia cria armadilhas mentais que minam nosso senso crítico. Falei sobre isso em um post antigo chamado Sobre carisma e as armadilhas do pensamento nostálgico. Eu evito um pouco falar sobre crise criativa, acho que tem mais a ver com um estreitamento do mercado e escolhas erradas dos editores em ficar valorizando demais fan service. 

Enfim, é real que o Japão está vivendo uma crise de mercado que tem atingido a animação e também os quadrinhos. Um fenômeno parecido acontece com os quadrinhos de super-heróis americanos. Com suas intrincadas sagas que exigem a leitura de dezenas de títulos e suas cronologias constantemente sendo reescritas, reformuladas e depois esquecidas, têm virado leitura de um público cada vez mais hardcore e restrito. 

Mas voltando ao caso específico do Japão, tudo isso tem a ver com diminuição da população jovem, concorrência com outras mídias e também com um distanciamento de muitos autores com o chamado grande público. Cada vez mais, autores e estúdios têm se preocupado mais em extrair o máximo de públicos de nicho do que em expandir horizontes.

Os grandes mestres do passado queriam atingir o maior número possível de leitores. Já grande parte dos autores atuais parece querer atingir mais o público otaku do qual ele fez - e ainda faz - parte. Mas não falo de todos os autores, claro, e nem arrisco dizer que a maioria é assim. Na contramão disso, acho legal saber do sucesso de títulos como One Piece, Death Note, Bakuman e Ataque dos Titãs, trabalhos com muita força criativa e intensidade que assumiram a ponta em termos de vendas e se destacaram por méritos próprios, sem as repetitivas - e de público cativo - ferramentas do fan service. 

A verdade é que ao optar por agradar fãs hardcore, grande parte do mercado acaba se acomodando em clichês e muletas de audiência, o que  não é bom. Isso certamente tira o foco do principal em uma história, que deveria ser instigar, divertir e surpreender o leitor positivamente. Isso deveria ser sempre o que se espera de um bom contador de histórias. 

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7 comentários:

Anônimo disse...

eu acho que isso de falta de criatividade tem mais a ver com mangás mainstream, o q é normal em qualquer mídia, pq tudo q faz sucesso gera acomodação. se a pessoa for atrás de coisas alternativas, certeza q acha criatividade.

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Este é um dilema clássico da Cultura POP: estar sempre tentando se equilibrar entre o reconhecível e o inovador. É verdade que nem sempre consegue mas quando o faz produz obras duradouras.

Infelizmente, quanto mais difícil o mercado fica, mas os editores, ou produtores, tendem a apelar para o que está mais pasteurizado e é mais familiar ao público. O que deveria ser Cultura de Massa vira Cultura de Nicho, se comunicando apenas com que conhece e aprecia seus códigos. Seu exemplo dos super-heróis é bom porque as HQs deste gênero efetivamente se tornaram algo para um público específico nos EUA, vendido até em lojas especializadas frequentadas quase que só por iniciados, mas a explosão dos filmes de super-heróis acabou popularizando o conceito, ainda que não propriamente quebrado as barreiras do nicho.

É mesmo muito difícil generalizar sobre uma produção tão diversa quanto a japonesa, que vai das franquias mais óbvias a um jovem mestre como Makoto Shinkai na Animação, por exemplo. Talvez em algum lugar algum jovem esteja criando o próximo Akira.

Gabriel disse...

Então, Nagado, o que eu quis dizer com "decair" era justamente um reflexo disso que você e o Rogério falaram, que hoje em dia o mercado tem-se voltado quase totalmente a esses nichos de público que dão retorno garantido sem exigir nada muito elaborado em troca, o que por consequência tem tornado os artistas cada vez mais acomodados e sem ambição criativa. No caso, o meu receio não é que os mangás deixem de existir, mas sim que se tornem culturalmente irrelevantes, principalmente para nós aqui do ocidente (o que pelo visto já vem acontecendo faz algum tempo). Você citou o caso dos EUA e a crise nos quadrinhos de super-heróis, porém eu acho que, apesar do mercado americano também ter sido bastante afetado por essa onda de mesmice que atinge o meio cultural em todo o mundo, no Japão a coisa ainda consegue ser pior por causa da influência crescente e odiosa desses fãs doentios consumidores de fanservice. É sério, não dá para comparar um nerd obcecado por super-heróis, mas que sabe separar a ficção da realidade, com um cara que se casa com um travesseiro e celebra o aniversário de uma personagem 2D fictícia...

Ale Nagado disse...

Rogério, você resumiu bem a situação. A comentada "crise criativa" é sentida mais no meio mainstream. E acho que isso é geral. Enquanto o pop japonês se pasteuriza cada vez mais, há vida pulsando no meio alternativo. Cansada das pressões sobre sua vida e sua arte, Yui voltou ao underground e formou a banda Flower Flower. E no cenário do jazz nipônico, surgiu a excelente Acacia Orchesta, que devo ser o único blogueiro do Brasil a indicar. O pessoal fica só em cima do mainstream, dos roqueiros posers, das idols, que deixa passar jóias que estão esperando serem descobertas e talvez encerrem carreira sendo conhecidos apenas por pequenos nichos.

Gabriel, você também foi preciso em sua colocação sobre o fato de nerds e otakus. Eu sempre digo que são coisas diferentes, apesar de esbarrarem em gostos parecidos (como FC, quadrinhos, animações, tecnologia...). O otaku "verdadeiro" é produto exclusivo da sociedade japonesa e sua estrutura, apesar de eu ter conhecido um ou outro otaku que se encaixa mais no padrão japonês do que no brasileiro.

Abraços!!

Caio Incau disse...

Realmente o que vejo são animes de nicho entregando mais do mesmo, achei que era só eu que tinha essa opinião e estava caindo na armadilha da nostalgia.

Gabriel disse...

Nagado, eu entendo um pouco o que você diz. O fato do Japão ser um país tão avançado tecnologicamente e ter uma cultura tão reservada e machista, entre outros fatores, com certeza determinaram os rumos dessa subcultura dos otakus. Só mesmo numa sociedade tão desenvolvida quanto a japonesa um problema assim poderia ter surgido, e talvez por isso mesmo agente que é de fora acha uma coisa de outro mundo.
Caio, o problema é que muitas pessoas tentam relativizar a questão pelo temor de cair nessa tal armadilha da nostalgia, como se fosse impossível estabelecer uma comparação entre duas obras de gerações diferentes sem se deixar influenciar por essa questão sentimental, o que absolutamente não é verdade. O que eu acho é que as pessoas hoje em dia têm um certo medo de serem vistas como velhas ou ultrapassadas, daí essa necessidade de aceitar transigentemente todas as cagadas que os mais jovens fazem.
Mas, por outro lado, eu também concordo com o que o Nagado disse aí em cima... Ainda tem muita coisa legal sendo produzida no meio alternativo, mas, como geralmente fica esmagada debaixo da porcaria criada pelo mainstream, acaba passando despercebido. Apesar de que, para esse povo, eu acho que também falta um pouco de atitude, de imposição, para que agente possa distinguí-los do resto com mais facilidade.

Natália Maria disse...

Olá!!

Interessante esse texto. E eu vejo que toda cultura de entretenimento já passou por alguma crise, embora elas tenham aparecido com maior frequência.

Não sei o porquê, mas eu simplesmente não consigo assistir animes (pelo menos, por enquanto), porque parece que tudo que está sendo apresentado agora já nos foi mostrado anteriormente. E não sei você, mas nunca gostei de fan service e ultimamente parece que todas as obras são moe e fofinho.... Sei lá, meio que cansou....

Infelizmente, os clichês ainda fazem um sucesso relativo (porque ainda vendem)... talvez o problema seja quando isso não acontecer....

Até mais