quarta-feira, 25 de março de 2015

A Miss Japão afro-descendente e sua importância histórica

Ariana Miyamoto: Primeira Miss Japão
afro-descendente enfrenta preconceito
dentro e fora de seu país
Algumas reflexões sobre a importância da escolha da primeira Miss Japão afro-descendente em um país considerado etnicamente homogêneo

No último dia 12 de março, foi escolhida a representante japonesa do tradicional concurso de beleza Miss Universo. E a vencedora foi Ariana Miyamoto, 20 anos, nascida na província de Nagasaki e também a primeira Miss Universo - Japão que é afro-descendente. 

A surpresa foi mundial e não tardaram a aparecer críticas à sua escolha. Uns, dizendo que ela não é "japonesa o suficiente", mesmo tendo ela nascido no Japão, falando como uma nativa (que é) e sendo treinada em caligrafia tradicional. Ainda, fãs da cultura japonesa pelo mundo também protestaram, dando lamentáveis demonstrações de racismo. 



Na verdade, esse tipo de concurso de beleza que exalta característica étnicas vai fazendo cada vez menos sentido, na medida em que os povos vão se tornando cada vez mais miscigenados. Sobre isso, no Brasil ainda existem resquícios de concursos de beleza da colônia japonesa, que são normalmente dominados por mestiças e até descendentes que pouco ou nada têm dos chamados traços orientais, apenas o sobrenome ou nem isso. 


Questões sobre o que é pertencer ou não a um povo ou uma raça existem de modo forte no mundo todo, e o multirracial Brasil não é exceção. Na mídia fala-se muito que o povo brasileiro é miscigenado, que a típica mulher brasileira é fruto de várias raças e há todo um discurso que exclui muita gente dessa "brasilidade genuína". Afinal, nosso país tem muitos descendentes de orientais, por exemplo, que não têm mistura ocidental nos antepassados. São menos brasileiros que a maioria? Creio que não, mas voltemos ao caso da Miss Japão.

Ariana Miyamoto: Japonesa sim. 
Filha de mãe japonesa e pai americano, a bela Ariana é uma "haafu", ou "half", a definição japonesa para pessoas mestiças. Isso é resultado de um processo tímido e lento de inserção de ocidentais e mestiços na sociedade japonesa. E dentre os ocidentais vivendo no Japão, é impossível não destacar a comunidade brasileira. 

A presença de brasileiros já foi bastante grande no Japão, chegando a 200 mil no auge do movimento dekassegui nos anos 1990 e ainda há muitos brasileiros vivendo lá. E há também milhares de trabalhadores vindos do sudeste asiático e do oriente médio, disputando com os brasileiros espaço nas linhas de produção. Grande parte desses estrangeiros nunca se misturou à sociedade japonesa, vivendo com o sentimento de colônia fechada. Nada disso causou muito impacto perante o povo japonês, por serem pessoas mais "invisíveis" socialmente devido ao tipo de trabalho que realizam. 

Para os japoneses em geral, a ideia de racismo não é bem trabalhada e definida, mas sem dúvida existe e é forte. Enquanto admiram ícones da cultura ocidental - negros ou brancos, já se viu no Japão sentimentos de preconceito contra outros povos asiáticos. Mas com a figura dos afro-descendentes, há muito mais estranhamento do que racismo propriamente dito. Até pela quantidade reduzida de negros vivendo em um país que é conhecido por uma suposta homogeneidade étnica. Essa ideia, inclusive, tem sido muito contestada por pesquisadores de diversas áreas. 

Atualmente sabe-se que o arquipélago do Japão foi povoado por pessoas vindas de diferentes pontos do oriente, sendo bem mais miscigenado do que se imaginava. E o povo de Okinawa, na parte sul do Japão, sempre foi facilmente identificado por sua pele mais morena do que os japoneses do resto do arquipélago, além de lá ser mais comum encontrar pessoas de olhos grandes, cabelo mais crespo e com tons mais castanho-escuros do que pretos. E devido à província de Okinawa ter sido um país que foi anexado ao Japão, muitos não consideravam os okinawanos "japoneses de verdade". Isso também nunca atrapalhou muito a ideia de que o Japão tem uma etnia mais ou menos uniforme. Os poucos negros nunca foram muito exaltados lá, exceto os que são artistas. 

Jero - Um jovem afro-descendente
respeitado como cantor do
tradicional estilo enka
No mercado musical, há o cantor Jero, nome respeitado na tradicional música enka. Nascido em 1981 e vivendo no Japão desde pequeno, ele é neto de uma japonesa com um americano afro-descendente. Jero se veste como cantor de rap, mas canta com a profundidade que se espera de um cantor de enka. 

E há também Chris Hart, também negro mas sem ascendência japonesa alguma, e que escolheu o Japão como lar. Recentemente, ele se juntou a Chage a Ms. Ooja para gravar uma versão em japonês de "Stay with me", sucesso do cantor inglês Sam Smith. (Veja aqui.)


Mas recentemente, causou revolta entre negros que vivem no Japão uma representação no mínimo equivocada produzida para a TV Fuji pelo popular grupo idol Momoiro Clover Z e o veterano grupo Rats and Star. Com rostos pintados de preto e luvas brancas, tentaram imitar os menestréis de antigos shows cômicos norte-americanos

O grupo idol Momoiro Clover Z e os veteranos
do Rats and Star imitando cantores negros
em uma performance de gosto no mínimo duvidoso.
Foi no mínimo politicamente incorreto resgatar esse tipo de representação caricata, mas muitos japoneses não tiveram essa percepção negativa, muito menos os artistas. Como dito anteriormente, a questão parece ser mais de ignorância do que uma ideia negativa pré-concebida. 

Quando fotos da gravação surgiram na internet, houve grande burburinho nas redes sociais e foi feita uma petição on-line com mais de 4.500 assinaturas de pessoas indignadas com a imagem preconceituosa. Foi o bastante para a emissora cortar a cena do programa para o qual havia produzido, a fim de evitar o que poderia ser um constrangimento internacional. 
Mr. Popo e Goku, em cena de Dragon Ball
A oficial Claudia LaSalle,
de Macross (1982)

E fruto dessa mesma referência cultural baseada nos chamados "minstrel shows" (o que não é muito cortês), há o personagem Mr. Popo, de Dragon Ball

Na cultura pop japonesa, poucas vezes negros foram representados com papéis de destaque em alguma obra. Em parte, pela escassez de negros vivendo no Japão, em parte pela falta de interesse em pesquisar. 

Osamu Tezuka certa vez se desculpou pela representação em geral caricata e pejorativa de negros em suas obras, o que o motivou a redesenhar trechos de seu clássico Kimba em republicações. 


Uma personagem negra de destaque nos animês foi a oficial Claudia LaSalle, uma das figuras centrais da série original da franquia Macross, iniciada em 1982 pelo estúdio Tatsunoko Pro. Mesmo forte e carismática, não fez escola e não teve sucessoras. 

Nadia, do animê do Studio Gainax intitulado Nadia - The Secret of Blue Water (de 1990) foi a primeira personagem de pele morena a ser protagonista, mas ela era hindu, não afro. 

Com a nova Miss, é esperado que apareçam mais personagens afro-descendentes na mídia, seja em mangás, animês ou mesmo no mercado musical. E que ninguém estranhe quando surgirem idols seguindo o padrão de beleza de Ariana Miyamoto. 


Ariana Miyamoto à frente das demais
candidatas: novo modelo de beleza nipônica
O curioso é que a escolha de Ariana aconteceu apenas alguns dias depois do caso envolvendo as Momoiro Clover Z ter ecoado nas redes sociais japonesas. 

Ariana Miyamoto certamente não representa fisicamente semelhança com a maioria das mulheres japonesas, mas ela está além dessa discussão. Ela já é uma figura de importância histórica e que sem dúvida começou a derrubar muitas ideias e imagens pré-concebidas dos japoneses sobre os negros e do mundo sobre os japoneses. 

Ainda assim, seus traços mostram a delicadeza que se tornou o estereótipo da mulher japonesa ao mesmo tempo em que evidenciam uma mistura racial que acrescenta mais nuances a um povo que, afinal de contas, não é tão homogêneo como se pensava. 

Bônus: 

嘘泣き ("Usonaki") - Jero



15 comentários:

kaen disse...

Eu nunca diria que ela é afro descendente, mas fico feliz que tenham derrubado um pouco as barreiras do preconceito!

Usys 222 disse...

Isso me fez lembrar de uma situação bem interessante.

Uma vez vi um documentário na NHK sobre refugiados de países africanos no Japão que estabeleceram residência fixa por lá. Alguns deles tinham filhas nascidas no Japão e que já estavam no colegial. Elas não tinham qualquer ascendência japonesa, mas o jeito de falar, de se vestir e os trejeitos eram iguaizinhos aos das meninas de lá, usando as mesmas gírias, sem sotaque nenhum e tinham até os mesmos vícios de linguagem (e a fixação por celulares). E elas estavam bem entrosadas com as colegas de classe.

Outra personagem afro-japonesa na ficção digna de nota é Jun Honoo,de Great Mazinger, heroína e parceira do personagem principal. Existe até um episódio em que ela sofre preconceito por causa da cor da pele.

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

É triste que mesmo sociedades tão bem educadas como a japonesa sofram com estes delírios de pureza racial.

Como já foi repetido diversas vezes, do ponto de vista biológico, o conceito de raça não faz sentido e as diferenças culturais deveriam ser encaradas como manifestações de riqueza e complexidade humanas.

Talvez a eleição desta linda moça seja um bom sinal. Um simbolo de algo positivo, apesar das manifestações de intolerância de muitos.

Não posso deixar de pensar que ela represente, sendo filha de mãe japonesa e pai americano um belo lado da sempre contraditória ligação destes dois países.

Aliás, pergunto-me se o lado negativo desta relação também pesou nas reações dentro do país a eleição dela.

De qualquer jeito já tenho para quem torcer no Miss Universo.

Boa e necessária esta sua postagem Nagado.

Fábio Mexicano disse...

Infeliz curiosidade: com a escolha da Ariana, o Japão agora já tem tantas misses negras quanto o Brasil.

André disse...

tem os B-stylers, que querem
ser negros:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140520_galeria_bstylers_rb


e a cantora Crystal Kay

https://en.wikipedia.org/wiki/Crystal_Kay

Ale Nagado disse...

kaen:
Acho que Ariana tem traços bem combinados. Dependendo da foto, ela parece mais oriental ou mais afro. Uma mistura realmente muito feliz.

Usys:
Não sabia desse caso que comentou. E boa lembrança essa da personagem de Great Mazinger, que antecedeu a Claudia de Macross.

Rogério:
O que achei triste foi ver ocidentais fãs de cultura pop japonesa criticando a escolha. Como se só existissem meninas estilo idol de grupos pré-fabricados. Também achei muito positiva a escolha, que pode ter tido sim um lado político. Mas a beleza e simpatia da moça realmente chamam a atenção de qualquer um.

Fábio:
Puxa, não sabia desse fato. O que não deixa de ser vergonhoso para nosso país.

André:
Boa lembrança essa dos B-Stylers, apesar deles serem vistos apenas como uma bizarrice de gueto. E além da Crystal Kay, dá pra lembrar de cara das cantoras Misia e Kumi Sasaki, que também adotaram em algum momento um visual afro.

Abraços a todos e obrigado pelas participações"

Stefano disse...

como são tratados japoneses de ascendência chinesa, coreana e filipina ?

Bruno Seidel disse...

Eu moro no Rio Grande do Sul, que é o estado de maior predominância branca no Brasil: 64,5% (IBGE) da população é caucasiana (muito por causa da imigração europeia e dos vizinhos portenhos). Recentemente, o maior concurso de beleza aqui do Sul, o Garota Verão, elegeu uma negra como vencedora. Sim, a polêmica foi grande, como vocês devem imaginar. Apesar de ser um contexto bem diferente do "caso Ariana Miyamoto", o debate sobre racismo também eferveceu discussões em blogs, salões de cabeleireiros e rodas de bar. Não é raro ver pessoas dizendo "Eu não sou racista mas... uma negra???". A verdade é que, concordo, a mais nova Miss Japão possui uma representação histórica importantíssima nas discussões sobre o mundo em que vivemos, cada vez mais globalizado e miscigenado. O futebol já viveu um exemplo parecido quando o nipo-brasileiro Alessandro dos Santos (um negro) defendeu a seleção japonesa na Copa do Mundo de 2006. Torço para que essa miscigenação ganhe cada vez mais força, afinal, o mundo (e o Japão faz parte dele) tem lugar pra todo tipo de gente. Inclusive pra racistas (infelizmente).

Ale Nagado disse...

Stefano, não saberia dizer com certeza. Racismo é, geralmente, velado e uma percepção da situação exigiria convivência social. O que escrevi foi baseado na leitura de muitas reportagens ao longo da vida, pois minha viagem ao Japão foi breve e parte de intercâmbio cultural, ou seja, não foi uma vivência típica.

Bruno, acho que no futuro até mesmo competições esportivas entre nações farão cada vez menos sentido. Um exemplo extremo é que muitos mesa-tenistas chineses se naturalizam em outros países para poderem competir em olimpíadas, tamanha a quantidade de craques nessa modalidade que existem na China. Como resultado, é comum ver finais de chineses naturalizados. A globalização é, felizmente, um processo inescapável e justamente o Japão está mostrando que acolhe a diversidade racial.

Abraços!

Natália Maria disse...

Olá!!

Muito interessante esse seu post. É curioso que quando algo foge daquele estereotipo as pessoas comentam, muitas vezes "violentamente", por falta de uma palavra melhor.

Já tinha ouvido um trecho desse cantor, e obrigada por dizer o nome dele. Jero, ele foi citado em algum vídeo do canal AquiPode, dos brasileiros (japoneses) que contam a vida lá....

Curioso você citar alguns personagens negros. Eles até existem, mas nunca em alguma posição de destaque (com exceção dessa que você citou). Acabei me lembrando que geralmente esse tipo de personagem é o comediante da turma (Mioyshi de Tenchi Muyo se encaixa nesse perfil, e ela é negra né?)

Pode ser que com isso, novas personagens negras vem surgindo...

Até mais

Rosana Mydori disse...

Ale Nagado, parabéns pela matéria!
Acho que o resultado do concurso é válido desde que todas as condições das inscritas foram aceitas e preenchidas.
Se não fosse para ter uma mestiça concorrente, já deveriam vetar logo de início.
Independente de ser uma afro descendente, ela é linda e acho que o concurso envolve várias etapas como simpatia, desenvoltura, expressão corporal, etc.
Com certeza para ela vencer a todas as outras, ultrapassou em tudo. Já deve existir um corpo de jurados experientes nesse assunto. Portanto, infeliz das pessoas que julgam que ela não deveria vencer !!!
Ainda mostra o quanto alguns "humanos" tem a mente pequena, não aceitando a miscigenação das raças e o livre arbitrio pelas escolhas de cada um.

Anônimo disse...

Convenhamos, o feliz encontro entre o homem negro e a japonesa resultou numa lindissima jovem. Muito interessante a refelxao mas discordo do blogueiro quando se considera ''alguém que é descendente de japoneses nascido no Brasil e que não tem miscigenação''. Duvido que haja humanos em face da terra que nao seja miscigenado. Errado esse conceito de considerar a miscigenacao apenas como resultado de epiderme diferente. No Japao as vitimas de racismo sao conscientizadas e politizadas, por isso a Miss elegeu o combate ao racismo como sua prioridade. No Brasil, provavelmente o pais mais racista do mundo com um racismo soft, cordial, invisivel, letal e dificil de combater, muitas das vitimas, por falta de educacao e politizacao, sequer querem saber do combate ao racismo que eh uma luta de todos e nao apenas dos discriminados, sejam eles negros, japoneses, chineses, indios, etc. O Brasil com mais de 50% de populacao negra teve apenas uma Miss negra!!! E o racismo brasileiro eh gritante e chocante em todas as esferas da sociedade. Eita pais racista!

Ale Nagado disse...

Prezado Anônimo, permita-me explicar melhor o ponto em que discordou de mim.

Existem sim muitas pessoas que pertencem a uma etnia definida, com pais e mães do mesmo biotipo racial, do mesmo país, com avós, bisavós, tataravós e etc nascidos no mesmo território. Você vai encontrar gente na China - milhões - que vão listar uma longa árvore genealógica de antepassados todos nascidos no mesmo território.

É o caso da minha família, por parte de mãe e por parte de pai. Todos os meus antepassados vieram da província de Okinawa, um pequeno conjunto de ilhas ao sul do Japão e que já foi um país independente. E note que eu JAMAIS demonstrei orgulho de não ser miscigenado.

A questão que coloquei é que no Brasil, se exalta demais a ideia de que "brasileiro de verdade" é fruto de várias raças. E não é assim. Eu tenho tanto direito de ser chamado de brasileiro quanto alguém que tem avô português e avó libanesa, por exemplo.

E de onde foi que você tirou a ideia de que eu compactuo com o conceito de que miscigenação é apenas resultado de epiderme diferente? Não penso desse jeito, não. Suas impressões sobre mim foram descabidas.

De resto, concordo com o que diz sobre o Brasil ser um país muito racista. Não digo o mais racista do mundo, pois acho que você precisa viver em outros países para ter uma comparação justa.

E finalmente, você notou bem: O Brasil e o Japão já elegeram o mesmo número de misses negras. Que coisa.

Abraços!

Stefano disse...

Nagado, você acredita que haja vários "hafus" na China e na Coréia ? (ambos países foram dominados pelo Japão)

Stefano disse...

Sabia que Tim Maia foi marginalizado por brancos e negros por ser "impuro"(miscigenado)?