sábado, 27 de setembro de 2014

Henshin! Mangá - Uma nova geração de autores

Uma bem produzida antologia
de novos autores brasileiros
O Brasil tem uma longa tradição de gerar autores de mangá. Isso vem desde a década de 1960, com os pioneiros Cláudio Seto e Minami Keizi, passando por nomes como Watson Portela, Erica Awano, Denise Akemi e Roberta Pares

A irregularidade e instabilidade do mercado nunca permitiram que se formasse uma geração de autores de qualidade e regularidade na produção. Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, foi uma exceção fora dos estúdios Mauricio de Sousa (que detêm o sucesso Mônica Jovem) e não deixou sucessores. Mas não é por isso que não se deve tentar, sempre em busca de novas gerações e brechas de mercado. Pensando nisso e apostando em novos talentos, a Editora JBC lançou em 2013 seu Brazil Manga Awards, premiação que selecionou histórias de autores amadores e agora entrega o prêmio, uma publicação impressa com o selo Ink Comics, uma subdivisão da JBC para publicar autores nacionais. 



Os vencedores

Vindos de várias partes do pais, os trabalhos mostram os resultados de anos de publicação constante de mangás originais no país, com numerosas influências gráficas e narrativas. No geral, o público-alvo imaginado pelos autores é o mesmo da japonesa Shonen Jump, puxando sempre para a ação e a aventura em mundos alternativos ou fantásticos. Com exceção de um drama pesado, as demais são aventuras amalucadas, sem nenhuma obra que mostrasse uma história de cotidiano. 

Além disso, ninguém tentou fazer algo em que os japoneses são mestres: localizar geograficamente a história em seu próprio país, em sua realidade. Claro que é preferível criar um mundo imaginário bem concebido do que reproduzir sem referências um que exista. Mas fica aquela impressão de que não teve um único autor com interesse em ambientar sua história no Brasil. Isso sim seria um diferencial em relação a um trabalho japonês, mas obviamente o mais importante é que sejam boas histórias. 

Preview e sinopse de Starmind, a HQ campeã
Em termos de arte, há pontos altos e baixos. Enquanto a narrativa realmente mostra boas passagens na maior parte da leitura, a arte de alguns autores carece de melhor acabamento ou estruturação geral. Isso é facilmente superável e é algo que é lapidado com o tempo. Itens como originalidade, clareza narrativa e personagens carismáticas foram o grande diferencial entre os autores selecionados. A história campeã, Starmind, tem um ritmo alucinado e uma trama que fecha perfeitamente. 

As cinco HQs contempladas na Henshin! Mangá #1 foram:

Starmind – de Daniel Guimarães Assunção Bretas Ferreira e Ricardo Yoshio Okama Tokumoto 
Entre monstros e deuses – de Pedro Leonelli e Dharílya Sales Rodrigues
[Re]fabula – de Ivys Danillo Jayme Portela e Breno Fonseca
Crishno: O Escolhido – de Francis Angelo Sbalqueiro Ortolan e Lielson Zeni

Quack – de Carlos Antunes Siqueira Júnior

Ao final, pequenos previews dos próximos lançamentos da Ink Comics: Combo Rangers - Somos Heróis, uma nova aventura dos heróis de Fabio Yabu e Robô Esmaga, a versão impressa de uma interessante webcomic de histórias de cotidiano assinada por Alexandre Lourenço


Preview e sinopse de Quack
Considerações

Cada história é acompanhada de um texto dos autores correspondentes. Ainda, depois do final de cada trama, há também uma página com a avaliação dos jurados, o quadrinhista e escritor Fábio Yabu, o tradutor Arnaldo Oka e o editor Cassius Medauar. O que mais tem a dizer é o Oka, alguém que conhece mangá profundamente e que assinou longos comentários que são como verdadeiras aulas para autores. Não só para os analisados, como para qualquer aspirante a quadrinhista (especialmente os que pretendem participar de concursos de HQ e mangá), vale muito a pena ler as análises publicadas. Ao final, uma mensagem de Sonia Luyten, a mais importante pesquisadora de mangá do país, atenta ao que de mais novo se produz na área.

Em qualquer mercado, é da quantidade que se extrai a qualidade. Isso é norma nos países líderes em produção de HQs, como Japão e EUA, cujas indústrias de quadrinhos se formaram com editores fomentando produção local. Aqui no Brasil, começou-se editando material importado traduzido logo no começo da imprensa. Era mais fácil, mais barato, mais garantido e assim funciona até hoje. Aí, vira e mexe, aparece na mídia alguma tentativa política de se nacionalizar o mercado à força, o que é um erro grosseiro (veja as sugestões de leitura no final). 

Mauricio de Sousa é o único criador de quadrinhos que conseguiu se impor comercialmente e sua presença é mais do que representativa. Mas uma andorinha não faz verão e, por mais que ele tenha expandido sua linha de HQs para atingir outros públicos, não se pode imaginar um mercado produtivo que dependa das criações de um único estúdio. 
Brazil Manga Awards:
Vitrine para novos talentos

A JBC pode dizer que lançou ao mercado novos autores. Mas, não existe um mercado que absorva essa força criativa, permitindo que eles criem histórias e ganhem dignamente numa base mensal, que o que mais rápido iria desenvolver seus talentos. 

O Brasil deve ser o único país com pessoas que dizem que o mercado de HQ nacional vai bem, mas que não tem muitos autores vivendo profissionalmente disso, fora o pessoal da MSP e os autores que produzem para os EUA. 

Porém, sem empreitadas como a da JBC, aí sim o sonho de se formar um mercado nacional local (seja de qual estilo for) vai ficando cada vez mais distante. E para este ano, já vai rolar a segunda edição do concurso, a ser divulgada em breve pela editora. Que venham mais iniciativas assim.

- Henshin! Mangá tem formato 13,5 x 20,5 cm, com 174 páginas em preto-e-branco, ao valor de R$ 11,50.
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Bônus - Leituras complementares: 

Minami Keizi e Cláudio Seto, pioneiros do mangá brasileiro

Além dos Olhos Grandes - Um estudo em mangá, sobre mangá

Desvendando o Mangá Nacional 

Elementos do Estilo Mangá 

Desenhando Quadrinhos - Um livro essencial 

Sobre a Nova Lei do Quadrinho Nacional 

Em tempo: Henshin significa "transformação" e é uma palavra ligada ao universo dos super-heróis japoneses. Foi o nome de uma revista especializada em mangá, animê e tokusatsu publicada pela JBC, que atualmente existe como site: henshin.uol.com.br

5 comentários:

Natália Maria disse...

Estou esperando meu exemplar chegar em mãos (um amigo ficou de me dar).
Realmente, há pouco quadrinhos nacionais produzidos por autores nacionais. Quando você comentou "localizar geograficamente a história em seu próprio país, em sua realidade." não pude deixar de pensar nas obras literárias que são brasileiras mas com histórias ambientadas em outros países, fato que vem mudando de uns tempos para cá.

Esse mangá parece ser um ótimo material. Vamos ver como o mercado de quadrinhos vai reagir, se isso acontecer...

Até mais

Ale Nagado disse...

Fala, Naty! Eu acho interessante mostrar lugares que existem, mesmo num roteiro de contexto fantástico. Americanos mostram o Homem-Aranha se balançando entre os prédios de Nova York. Os japoneses mostram Tóquio, as escolas, os prédios do país, mas brasileiros em geral são mais reticentes em mostrar nosso país. São propostas diferentes apenas, não melhores e nem piores. O principal, sempre, é que a história seja boa.

Em termos de mercado, um one-shot não tem muito efeito, até porque os autores não foram pagos, pois a premiação era a publicação. Mas é importante como teste de vendas. Se as vendas forem boas, acredito que qualquer editora no mundo consideraria um volume dois com os mesmos autores, sem ter que esperar o resultado de outro concurso.

Abração!

Max Andrade (PAAF) disse...

Eu enviei um trabalho com história totalmente "cotidiana".
Como foi citado a falta disso na resenha, então deixo aqui o link caso exista interesse:
http://puffnopiripaf.blogspot.com.br/p/multipla-escolha.html

Ale Nagado disse...

Max, em primeiro lugar, parabéns pelo bom trabalho e obrigado pelo link.

Não vi as demais histórias, mas se eu fosse jurado, seu trabalho teria tido boas chances de ter entrado na seleção final. Há coisas a considerar, como maior clareza na situação da garota no final. Talvez fosse bom ter deixado mais claro que ela era a primeira da fila e dependia de uma só desistência para conseguir a vaga. O character design talvez tenha pesado, apesar da estrutura do desenho ser superior à maior parte do que foi publicado. Eu, sinceramente, teria dado a chance de publicação ao seu trabalho.

Se for participar do próximo concurso, boa sorte.

Abraço!

The Fool disse...

Sinceramente, comprei a edição e achei no máximo regular.
Espero que a próxima com os ganhadores do concurso de 2015 esteja melhor.
E bem, não acho que a JBC vá mudar alguma coisa no mercado com uma edição especial por ano.