sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Separando a obra das opiniões do artista

Koichi Sugiyama: Depois de eternizar seu nome
com trilhas sonoras aclamadas, assumiu
posições políticas extremamente polêmicas
É possível apreciar a obra de um artista mesmo quando ele demonstra posturas contrárias à nossa visão de mundo e até mesmo nossos princípios mais intocáveis?

Há cerca de um ano, um dos maiores roteiristas de quadrinhos de todos os tempos, o inglês Alan Moore, deu uma declaração polêmica onde ele disse que super-heróis são abominações, que ele os odeia. Ainda, acrescentou que acha o fim da picada um adulto ir no cinema ver Os Vingadores, um filme baseado em conceitos criados pra entreter crianças de décadas no passado. Foi duramente criticado por estar cuspindo no prato que comeu, o gênero dos super-heróis. Só pra colocar no contexto quem não conhece bem o assunto, Moore fez grandes HQs de super-heróis, como Watchmen (a suprema desconstrução do gênero), Supreme (uma ode aos conceitos do antigo Superman) e algumas das melhores HQs do Homem de Aço. Mas ele ficou ranzinza, rompeu com a DC Comics e sempre foi contra ver suas HQs vertidas para o cinema, tendo cedido os direitos da parte que lhe cabia aos seus parceiros de criação. Comprou briga, foi xingado por muita gente e, nem por isso, deixou de ser um dos maiores gênios dos quadrinhos de todos os tempos. 
Alan Moore (esq.) e Frank Miller:
Gênios em atrito com fãs

Falando de HQ, outro ícone dos quadrinhos ocidentais, Frank Miller, autor de Batman - O Cavaleiro das Trevas, Demolidor, 300 e Sin City, entre outros, atraiu a ira de muitos fãs por demonstrar ideias alinhadas com os setores mais conservadores da política dos EUA. Tanto Moore quanto Miller parecem ter passado o período de maior eferverscência criativa e acabaram ganhando evidência por declarações vistas como antipáticas para muitos antigos admiradores. 

Vamos agora a outro exemplo de artista longe de seu ápice de popularidade comprando briga por suas opiniões. Aqui no Brasil, o veterano roqueiro Lobão enfureceu os militantes de esquerda com declarações agressivas e bombásticas contra o PT, os Black Blocs e tudo o que se autodefine como politicamente progressista. Conseguiu, claro, atrair ódio de uma multidão atuante nas redes sociais. Lendo críticas ao velho lobo, vi que muitos o taxaram de "reaça" (uma denominação estúpida, mas vá lá) e misturavam tudo a críticas estapafúrdias à sua música. De repente, um dos melhores compositores de sua geração passou a ser taxado como medíocre e sem talento por conta de suas posições políticas radicais. Mas há casos muito piores, como o do compositor e regente japonês Koichi Sugiyama.

Álbum com a cultuada trilha
do jogo Dragon Quest.
Por trás dela, um
 homem com posições
políticas muito
controversas.
Músico de carreira longeva e conselheiro da poderosa JASRAC, a associação que distribui direitos autorais musicais em seu país, Sugiyama compôs o fantástico tema de abertura da minha série favorita, O Regresso de Ultraman. Ele também trabalhou nas trilhas sonoras de Cyborg 009, Space Runaway Ideon, Gatchaman, Godzilla x Biollante e para games da série Dragon Quest. Em matéria de trilhas sonoras para games, seu nome é lendário e uma referência no gênero. Porém, lendo sobre ele, descobri que Sugiyama é um revisionista, um termo usado no Japão para aqueles que tentam negar o histórico de crimes de guerra japoneses. Isso inclui contestar relatos sobre os horrores cometidos por militares japoneses na China, no que ficou conhecido como o Massacre de Nanquim. Ele também nega o caso das mulheres de conforto da Coréia, sequestradas e forçadas a servir em bordéis do exército japonês na Segunda Guerra.

Para qualquer povo, conhecer sua História é importante. Guerras sempre afloram o que há de pior no ser humano e negar o que houve de ruim é um desserviço à paz e uma afronta à memória dos inocentes mortos. A situação é igual à de pessoas que tentam negar o Holocausto dos judeus na Segunda Guerra e dizer que jamais houve nada daquilo, que é invenção de propaganda. 

Os exemplos citados, de países diferentes, têm em comum o fato de serem artistas com posicionamentos pessoais bastante criticados. Mas é preciso, sempre que possível, separar a obra da pessoa do artista. O que um indivíduo faz em sua vida pessoal não necessariamente vai interferir em sua produção criativa, mesmo que ele seja engajado em uma causa. 

Nos EUA, o desenhista de quadrinhos Phil Jimenez (de Crise Infinita, Mulher Maravilha e outros trabalhos) é gay assumido e militante dos direitos dos homossexuais, mas sua arte sempre esteve a favor da qualidade, não de uma bandeira de militância. Fora das HQs, ele é ativista de suas causas, mas age com diplomacia, não querendo impor sua visão de mundo de forma panfletária. Agindo assim, consegue muito mais simpatizantes, por ser alguém inserido no mercado mainstream e sendo reconhecido primeiro por seu trabalho de grande qualidade. E quando ele fala, é com muita ponderação, facilitando a aceitação de suas mensagens. Ele está na contramão da atitude de outros que assumem posições radicais e intolerantes, consideradas agressivas por muitos e que lhes trazem críticas pessoais misturadas às de cunho profissional. É difícil separar as coisas, mas vale lembrar que posições políticas, religiosas e pessoais também podem ser analisadas sem que o caráter da pessoa seja colocado em jogo. Muito menos sua capacidade criativa ou artística.

Há limites para isso? Sem dúvida, e cada um tem os seus. Jamais conseguiria apreciar de modo isento um trabalho artístico de um serial killer, de um estuprador ou terrorista. No máximo, iria lamentar que um talento tenha sido ofuscado por impulsos sinistros. No entanto, há inúmeras outras situações que se alojam de modo mais ponderado no campo dos posicionamentos políticos e visões de mundo.


E uma visão de mundo sempre se forma por uma combinação vários fatores. Entram na equação a índole, criação, meio, intelecto, sistema de crenças e consequente percepção sobre prioridades, tudo não necessariamente nessa ordem. E quanto a isso, tentar entender e respeitar o pensamento diferente é fundamental para qualquer sociedade, ainda mais nestes tempos de redes sociais, onde as pessoas têm necessidade de esfregar sua opinião na cara dos outros sobre qualquer coisa e em qualquer ocasião. Tolerância e respeito são regras básicas para a vida em sociedade, seja ela real ou virtual. Isso é tão essencial quanto perceber que artistas - geniais ou medíocres - são apenas seres humanos como todos nós. 

8 comentários:

William Riga disse...

Também tenho essa sensação estranha quando descubro que um ídolo, um talento que admirava há muitos anos, se revela como usuário de drogas ou praticante de comportamentos imorais. E fica pior quando resolve levantar bandeiras em público... Fico pensando: será que não estão somente em busca de aumentar a audiência?

Antônio disse...

Depois que li o artigo, me lembrei do caso do Monteiro Lobato

Rogério disse...

Bom dia Nagado,

Alguém disse (não lembro quem) que o artista (como pessoa) é sempre menor que sua obra.

No caso de Moore sempre fico com a sensação de que as opiniões dele não tem a ver apenas com o tratamento injusto que ele alega ter recebido das editoras. Ele simplesmente tem antipatia pela "sociedade capitalista judaico-cristã ocidental". Quem leu o desfecho de sua maravilhosa fase em Miracleman pôde perceber isso na "fantasia hippie" com a qual ele encerrou sua trama.

E realmente, ele está cuspindo no prato que comeu e está sendo de uma antipatia enorme. Mas provavelmente tem muito a ver com índole pessoal.
Neil Gaiman, outro grande autor do meio, cultiva respeitosa relação com as editoras e ótima relação com os fãs sem ficar reclamando de ser lembrado por Sandman apesar de tantos outros grande trabalhos.

Frank Miller? Não sei o que houve com ele. Talvez se o trabalho dele fosse vigoroso como costumava ser (com excessão de Sin City talvez)ele pudesse manter sua relevância apesar de sua postura política. Não é só a política de Miller que incomoda: é o aparente abismo qualitativo entre O Cavaleiro das Trevas e a infame Holly Terror.

Gosto e admiro pessoas que mantém uma atitude respeitosa, como Jimenez, na defesa de sua crenças. E para uma criador isto pode ser ainda mais importante porque ajuda a não ofuscar sua obra.

A grande questão é até que ponto podemos separar a criação artística de uma pessoa de seu caráter. Até que ponto sua índole interfere em sua criação. Um criador que nega a existências de certas barbáries, que rejeita a existências de crimes cometidos por sua sociedade, não está minando o valor emocional e humano de sua obra?

É um julgamento muito difícil de se fazer.

Bruno Seidel disse...

Eis uma reflexão que me fez ficar matutando por um bom tempo. Não sei o que se passa na cabeça de nomes tão expressivos do meio artístico, mas devemos lembrar que eles são, acima de artistas, seres humanos. E seres humanos vacilam, modificam suas convicções ao longo da vida, acordam de mau humor, ficam rabugentos, se contradizem, falam mais do que deviam (principalmente em decorrência de um porre)... Provavelmente, até os autores de Peppa Pig, My Little Poney e Teletubbies devem ter seus deslizes (não a nível tão extremo, claro). Digo isso porque já trabalhei com publicações de histórias infantis pra escolas e entidades esportivas, com um cunho altamente pedagógico e lúdico. Tudo muito bonitinho mas, se alguém resolvesse bisbilhotar meu "passado negro", meu histórico escolar e todas as coisas erradas que eu já iz na vida, vão dizer que sou adepto do "faça o que eu diga, mas não faça o que eu faça". O mesmo podemos dizer de celebridades como Renato Aragão, o Didi (que tem fama de ser autoritário e de brigar com muita gente nos bastidores) e o recém falecido Robin Willians (que se matou depois de ter um turbulento histórico de alcoolismo e drogas). Nós, que somos seres humanos, sabemos que estamos constantemente sujeitos a deslizes e, vai saber, mudar completamente de convicção com relação a temas polêmicos. Vida pessoal é assim mesmo: quanto mais você conhece alguém, mais conhece seus defeitos (o que, claro, não significa que vai gostar menos dessa pessoa).

Stefano disse...

Are-san !
deveriamos marginalizar a obra de Richard Wagner ??
Wagner foi taxado de antissemita.
deveríamos marginalizar vários ícones do rock, MPB... apesar do envolvimento destes com tóxicos ?

Ale Nagado disse...

Pessoal, obrigado pelas participações!

William, infelizmente existe a opinião oportunista, proferida para gerar projeção na mídia. Mas é difícil julgar, pois tem assuntos que são o calo de alguém, sem que saibamos...

Bem lembrado essa do Monteiro Lobato, Antonio. Em um caso parecido, Hergé (autor do Tintin) foi acusado de racista. No Japão, Osamu Tezuka se desculpou certa vez por ter representado africanos de forma caricata pejorativa em trabalhos antigos.

Rogério, esse exemplo do Neil Gaiman me lembrou do Paul McCartney. Certa vez perguntaram a ele se não ficava enjoado de cantar algumas músicas em todo show, há mais de 40 anos. Ele disse que jamais. São músicas dele, as pessoas gostam, muitos vão pra ouvir aqueles clássicos eternos. Por quê ele haveria de deixar de lado?

Bruno, concordo com suas colocações. Quando gostamos muito de uma obra, é comum nos interessarmos pelo ser humano que gerou aquilo. E certamente acabamos descobrindo defeitos, quanto mais nos aprofundamos.

Stefano, o tema de minha postagem foi exatamente a importância de separar (até onde for possível) a obra das opiniões pessoais dos artistas.

Abraços a todos!

Stefano disse...

Alan Moore pode ter dito essa tolice por causa de 1 crise pessoal; alguma divergência...
reprovo as declarações dele, mas algum fator gerou isso (sem querer justificar as declarações dele).
Já Frank Miller pode ter se deixado seduzir pelo conservadorismo lá...
as vezes o sistema político predominante seduz as pessoas.
o ser humano é imperfeito...
bom...
quero lembrar de 3 ex-jogadores de futebol... os 3 jogavam muito mas eram encrenqueiros....
Almir Pernambuquinho, Beijoca e Edmundo....

Robinson Oliveira disse...

Mais uma matéria bem centrada e um foco crítico. No início realmente acabávamos associando o ator(vida pessoal) com suas obras transformando em um único ser para nossa memória e esquecemos que por trans de qualquer trabalho há uma pessoal "normal" como nós repleto de sentimentos, emoções, desejos e muito mais.
Com o passar do tempo acabei compreendendo melhor ou um pouquinho mais, rsrsrsrsrrsrsrs, as duas faces e tenho uma opinião respeitando o trabalhado para a vida real.