terça-feira, 3 de junho de 2014

Anime Boom - O impacto na sociedade japonesa e na indústria de animação

Patrulha Estelar - O mais importante animê
em termos de impacto social e econômico

Conhecendo e entendendo um fenômeno cultural que afetou o mercado de animação no Japão e a percepção da sociedade sobre o potencial do animê

Desenho animado não é um entretenimento direcionado somente para crianças e o país com a melhor noção de tal conceito é o Japão. Não se fala aqui de animações infantis que agradam a toda a família mas produções especialmente voltadas para público juvenil e adulto. Existem animês para todo tipo de gosto e faixa etária, o que pode fazer parecer que isso foi uma evolução natural do mercado de animações do Japão. Porém, a verdade é que o animê era visto, também na Terra do Sol Nascente, como uma mídia especialmente voltada às crianças. 

Certamente sempre houve produções claramente voltadas a um público mais velho (como os clássicos Sawamu e O Judoca), mas a noção geral da sociedade japonesa sobre desenhos animados não diferia muito da percepção do resto do mundo. 

As coisas mudaram na década de 1970, com o sucesso de Uchuu Senkan Yamato (Encouraçado Espacial Yamato), conhecido no Brasil como Patrulha Estelar. A trama futurista mostrava a humanidade enfrentando, com a poderosa nave Yamato (Argo, no ocidente), os invasores espaciais do Império Gamilon. Bombardeada com radiação, a esperança da humanidade reside no Cosmo Cleaner oferecido pela Rainha Star-Sha, do distante planeta Iskandar

A série de TV original, produzida pela Office Academy e concebida por Yoshinobu Nishizaki e Leiji Matsumoto teve 26 episódios em 1974 e não repercutiu muito, tendo uma média de audiência de 7%. Além da trama complexa para crianças, havia a concorrência, no mesmo horário, de Heidi, série extremamente popular na época. [Nota: Heidi passou no Brasil, em 1981, no Programa Silvio Santos, na TVS (atual SBT) e TV Record]. 

Posteriormente, uma compilação dos episódios de Yamato foi lançada em cinemas e obteve uma repercussão inesperada em 1977. Somente em 1978 o primeiro Star Wars iria estrear no Japão, mas já se sabia que uma aventura com batalhas espaciais estava sendo um sucesso no mundo todo. Seja como for, um público novo descobriu o animê e isso mudaria os rumos da indústria cultural japonesa.

Mesmo com uma animação limitada, o Yamato foi valorizado em tela grande, com seus belos cenários espaciais e a empolgante trilha sonora de Hiroshi Miyagawa. Os universitários e o público jovem adulto (incluindo o feminino) descobriram um animê sobre o qual podiam conversar de modo mais profundo. 
Adeus, Encoraçado Espacial
Yamato
- A despedida prematura
deixou os fãs em polvorosa
e movimentou uma nação
Com o sucesso, teve início a produção de um longa especialmente para cinema, Sarabá Uchuu Senkan Yamato - Ai no Senshi tachi (Adeus, Encouraçado Espacial Yamato - Guerreiros do Amor), lançado em 1978. Com produção caprichada, a saga do Cometa Império levou milhões de pessoas aos cinemas, deflagrando o que foi chamado de Yamatomania, ou Yamato Boom, mas logo esse conceito evoluiu para o Anime Boom, uma explosão da produção de animês que movimentou a indústria de seu país, mas com o Yamato sempre no centro das atenções. Estava firmada a ideia de que poderiam ser feitos animês especialmente para o público jovem e adulto. 

Fã-clubes apareceram, fanzines dedicados ao Yamato se espalharam e isso ajudou a formar a primeira geração otaku, definida em 1983 pelo jornalista Akio Nakamori

O Yamato virou febre nacional, mas o final do filme era trágico, do tipo que não dá margem para continuações com os mesmos personagens de sucesso, o que poderia ter encerrado a emergente franquia. Então, o produtor e cocriador Yoshinobu Nishizaki optou por considerar aquela aventura uma "história alternativa" e iniciou uma série de TV baseada no enredo do longa, com várias reformulações e desenvolvimentos diferentes. Nascia a série Yamato 2, que foi a mesma vista no Brasil através da extinta TV Manchete, nos anos 1980. 

O primeiro episódio estreou em 14 de outubro de 1978 na TV Yomiuri e deu 24% de audiência no Japão, um feito memorável que efetivamente decretou o Anime Boom, pois outros estúdios e emissoras de TV começaram a investir em novas séries animadas. 

Na época da série I, em 1974 havia 17 séries de animê em produção. Depois do Yamato 2, o número chegou a 38 séries em 1979. O crescimento, entretanto, foi desordenado, sobrecarregando os estúdios e seus desenhistas, diretores e roteiristas. Como resultado, muitas séries com produção descuidada e sem planejamento foram produzidas, com vários cancelamentos que provocaram retração do mercado em pouco tempo. Porém, em meio a isso, muitos desenhistas habilidosos se aprimoraram, elevando o nível técnico geral. Isso acabou criando problemas, pois os desenhistas ficaram tecnicamente melhores e mais rápidos num momento em que a indústria diminuiu sensivelmente após a onda de crescimento inflacionado causado no Anime Boom
Macross - Robôs, batalhas espaciais,
romance e música pop puxando o
segundo Anime Boom

Mas em 1982, com o sucesso de Macross, um novo Anime Boom voltou a mover a indústria, desta vez com mais consistência, levando a produção de mais de 40 séries em 1983. Produção icônica do estúdio Tatsunoko Pro, Macross apresentou grandes batalhas espaciais como pano de fundo para uma história de romance bem meloso, embalado por músicas pop cantadas pela estrela emergente Mari Iijima. A combinação de tudo isso, mais o elegante traço do desenhista Haruhiko Mikimoto, conquistaram o Japão, dando novo impulso à indústria.

Tal euforia só seria sentida novamente em 1995, com o estouro de Evangelion, este um produto já feito para fãs hardcore de animê, mas que também extrapolou fronteiras. Criação do Studio Gainax, Evangelion trazia toda uma carga de complexidade, violência e até sensualidade que capturaram um grande e já segmentado público otaku. 

Talvez seja exagero falar em um terceiro Anime Boom causado por Evangelion, mas o fato é que o título impulsionou a indústria, à época com cerca de 60 séries em produção. Atualmente, cada estação do ano vê a estreia de cerca de 40 a 50 séries (ou mais até), muitas delas sendo produtos da segmentação, com títulos de exibição noturna ou de madrugada, com abordagens adultas e de curta duração (12 a 13 episódios) tendo em vista os gostos do público otaku. O mercado se expandiu e segmentou-se em extremo, o que também tem seus críticos, como o diretor Hayao Miyazaki. [Confira artigo polêmico aqui.]

O mercado musical também se expandiu com o impacto do Yamato nos anos 1970, abrindo espaço não para as canções (as anime songs), mas também para trilhas instrumentais. A badalação em torno de dubladores - chamados no Japão de seiyuu - foi aumentando e eles são parte fundamental do panteão de astros da cultura pop japonesa. O design das naves também influenciou a maioria do que foi feito depois. Virou padrão retratar naves de guerra espaciais com semelhanças a navios de guerra antigos, com as marcantes torres de canhões. E também o traço de Matsumoto influenciou gerações de desenhistas, criando muitas imitações e homenagens. 

Segundo o artista plástico Takashi Murakami, o Yamato foi fundamental para a formação da subcultura otaku, conforme declarou em 2005 no livro da exposição Little Boy, onde explorou a força da cultura pop de seu país. 

Em termos de indústria, os benefícios do Anime Boom na época podem ser considerados duvidosos, mas em termos de sociedade, o avanço foi notável. Ficou de positivo o conceito de animê para jovens e adultos, o que trouxe prestígio à indústria e abriu caminho para produções elaboradas e segmentadas. Com aquela repentina onda de popularidade, o mundo do animê deu um salto quantitativo, depois qualitativo, com efeitos sentidos até hoje. 


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"Yamato causou uma quebra de paradigma na animação. Saindo do usual 'o bem vence o mal', tão comum em programas infantis, é reconhecida a necessidade do inimigo em atacar a Terra: Os gamilons precisam se mudar, já que seu planeta está condenado a morrer. O altamente realista design de naves e armas também definiu padrões para os gêneros de animê de mechas e robôs. Sem Yamato, não existiria Gundam ou Evangelion." - Takashi Murakami (trecho extraído de Little Boy). 

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Bônus: 
Confira abaixo o trailer do longa Sarabá Uchuu Senkan Yamato - Ai no Senshi tachi (Adeus, Encouraçado Espacial Yamato - Guerreiros do Amor), de 1978. Foi o estopim do anime boom



Lembra desse? Patrulha Estelar
- Especial escrito para o portal Omelete em 2005, com um resumo de toda a fase clássica.

8 comentários:

Usys 222 disse...

Uma matéria que resume bem o que foram os Anime Booms, englobando as obras mais marcantes.

O mais interessante é que tanto Yamato quanto Macross foram exibidos no Brasil, mesmo que em versões adaptadas. Evangelion já foi uma tradução direta. Acho que isso mostra a força dessas obras.

Ale Nagado disse...

Fala, Mr. Usys 222!

O que eu acho interessante nos Anime Boom é que Yamato e Macross foram feitos para se dialogar com o grande público - e conseguiram com louvor. Já Evangelion simboliza algo feito de otaku para otaku. Os simbolismos e referências complexos (uns diriam confusos) e todo um leque de elementos pensados no público segmentado.

E veja você, estamos em 2014 e esses títulos são todos relevantes até hoje. Obras-primas não surgem de uma hora pra outra.

Abraços!

Renato Urameshi disse...

Por incrível que pareça, quando comecei a gostar dos animes que passavam na TV Manchete, inciados com um fanatismo por Yu Yu Hakusho, fui pesquisar sobre anime e descobrir realmente oque era o termo assistindo por um Fansub "Fortaleza Macross" em VHS. Aquela nostalgia que eu nunca tive na infância com animação antiga e trilha sonora clássica me fez entender oque realmente era esse "vício bom" que os japoneses gostam. Dentre Yamato, Macross e Evangelion, só Yamato que não tive o prazer de ver ainda, mas mesmo assim acho que todo o apreciador da cultura deve ver sem pré-conceito de datas para sentir oque este Boom trouxe na época.

Stefano disse...

Are-san !!!
Eu assistia direto na Manchete !!
e você ?

Ale Nagado disse...

Olá, Stefano!

Sim, eu assistia direto. No início, estranhei um pouco a série. Mas logo fui entrando no clima e descobrindo que era algo elaborado, intenso e empolgante. Eu gostava muito dos personagens, das tramas grandiosas e da trilha sonora. E quando estreou a série III, que veio direto do Japão, sem passar por adaptação nos EUA, minha cabeça explodiu.

Eu havia assistido ao episódio final da série do Cometa Império, já em reprise e, no dia seguinte, já esperava que voltaria mais uma vez ao primeiro episódio. Daí entrou aquela abertura da série III, com logo em japonês e música original.

Se hoje eu consigo me sentir um moleque assistindo algumas coisas, imagine quando eu era efetivamente um moleque. :-)

Abraço!

Stefano disse...

veja isso !!
https://www.youtube.com/watch?v=J6MYhzUCv-w
https://www.youtube.com/watch?v=JoMGVEoPtac
https://www.youtube.com/watch?v=n4sdUpdgVMM

Ale Nagado disse...

Que bacana, Stefano.

Pena que eu não entendo francês. Mas o Leiji Matsumoto merece mesmo todas as homenagens. É um dos últimos grandes mestres do mangá ainda em atividade.

Abraço!

Stefano disse...

achei legal os cosplays de Okita e Desslok...