segunda-feira, 19 de maio de 2014

Boletim 56 - A prisão de ASKA

ASKA, que está completando
35 anos de carreira de modo amargo
A vida está complicada para o renomado cantor e compositor ASKA, da dupla CHAGE and ASKA. No dia 17 de maio, o astro foi preso em seu apartamento em Tóquio, acusado de porte de drogas. 


Ele teria sido visto usando drogas com um amigo no mês passado e a polícia teria encontrado com ele apetrechos usados por viciados. No caso dele, a acusação fora de ser usuário de cocaína. A imprensa também divulgou que um exame clínico acusou presença de entorpecentes em sua urina. 

A prisão de ASKA, que tem atualmente 56 anos, é outro duro golpe na sucessão de infortúnios que começou no ano passado, conforme divulgado aqui (Boletim 51). Como consequência disso, a empresa Rockdom Artists, que o promove, anunciou a retirada de catálogo das músicas de ASKA e da dupla. O catálogo solo de CHAGE permanece intocado e ele já anunciou que irá se empenhar em cumprir sua agenda profissional. Mas os produtos com o nome de ASKA, suas músicas e vídeos, devem começar a sumir por conta de uma "limpeza" promovida pela empresa que cuida dos interesses do cantor.

Mesmo antes de um julgamento e um veredito final, sem chance de defesa, a gravadora mostrou o tipo de reação que muitas empresas de entretenimento têm no Japão perante um escândalo. 

Como a sociedade japonesa lida com escândalos
A cantora e dançarina Minami Minegishi (AKB48),
antes de depois do "escândalo sexual".
Agora, vale uma reflexão sobre a repercussão do caso de ASKA em seu país. Deve-se ter em mente que no Japão, a indústria das celebridades e o público fã agem e reagem de formas muito diferentes do que ocorre no ocidente. Lá no Japão, preserva-se a vida pessoal com muito mais intensidade e escândalos têm um peso muito maior. 

No ano passado, uma integrante do grupo AKB48 foi flagrada saindo do apartamento de um rapaz. O contrato do grupo prevê punições para as meninas que quebrarem a imagem de moça virgem e elas são - por contrato - proibidas de ter relacionamentos afetivos. Os fãs delas exigem que suas musas sejam inacessíveis para qualquer ser humano, não apenas para eles próprios. Como resultado do escândalo, a cantora apareceu careca e chorando em um vídeo onde pedia desculpas ao público pelo comportamento inadequado. Brutal, para dizer o mínimo. 
Taiyou Sugiura: De astro
jovem a bad boy, conseguiu
dar a volta por cima.

Em um caso mais antigo, em 2001, o ator Taiyou Sugiura, que na época interpretava o herói Ultraman Cosmos, fora preso acusado de agredir um rapaz num caso envolvendo extorsão. O escândalo envolvendo seu astro assustou tanto a produtora Tsuburaya, que a série foi editada para que o ator não aparecesse mais na forma humana, somente transformado. Isso levou a um final grotesco e editado às pressas, sem que o personagem fosse mais visto. Mesmo que a todo momento os outros personagens falassem com ele. 

Depois que o incidente foi esclarecido e o ator solto, voltou a fazer trabalhos para o estúdio e ele até coestrelou o longa Ultraman Saga em 2012. Novamente, a reação soou exagerada. Imagine se, na história do rock, cada vez que um artista fosse preso (por drogas ou qualquer motivo), todo seu trabalho fosse recolhido das lojas às pressas. Questões culturais à parte, vale lembrar que o escândalo em si é o que condena perante a sociedade e a mídia, não um tribunal. 

Voltando ao caso de ASKA, obviamente que a torcida pela recuperação dele é grande. Mas há um certo desalento em acreditar que, figurada ou literalmente falando, o brilho vital do astro pode estar se apagando. 

Leia mais:
Notícias sobre o caso, diretamente da agência NHK

- Idolatria e perseguição no mundo otaku (artigo)

- Site oficial de Chage and Aska (tem seção em inglês, mas não atualiza junto com a parte em japonês)

6 comentários:

Bruno Seidel disse...

Quer dizer que os presidiários de Tokyo agora serão contemplados ao som de músicas como "Say Yes", "Love song", "Romancing yard", "No no darling", "If", "Kono ai no tameni" e "Something There", enquanto veem o sol nascer quadrado.

Michel disse...

Caramba! Mas essa do Taiyo Sugiura eu lembro bem, peguei essa época, em que os produtos do Ultraman Cosmos começaram a sumir... Até o pão!

Usys 222 disse...

Pleo visto, no Japão a imagem é tudo e ainda é forte o pensamento de que uma flor que apodrece nunca mais volta a ser bela. Mesmo assim acho que as medidas tomadas são drásticas demais, como se quisessem apagar a existência do artista e até mesmo de suas obras.

Passei por uma situação parecida com a Noriko Sakai. Uma canção dela me dava forças nos momentos mais difíceis, quando eu desanimava e não conseguia continuar. E não era só a própria canção, mas a voz da cantora que me colocava de pé. Quando ela foi presa por porte de drogas, a "virada de palma" dos fãs foi aterradora. Ela foi demonizada e tinha até gente dizendo que ela era mulher de yakuza.
Entendo que isso foi devido a decepção, mas não consigo aprovar esse tipo de atitude. Isso seria renegar aquela canção que tanto me ajudou.

Natália Maria disse...

Olá!!

Realmente, cada cultura um modo de reagir. Lembro bem dessa integrante do AKB48. Foi exatamente na época que comecei a ouvi-las, o que por ser uma fase, já passou...

Realmente, a mídia deve fazer isso justamente para não denegrir mais a imagem da pessoa e da própria empresa não? Se não houver produtos do problemático, não ouve-se reclamação contra a empresa...

Bem, essa é a minha linha de pensamento. Pode ser que eu esteja errada...

Até mais

Ale Nagado disse...

Então, Natália, é esse ponto que não entendo. Não imagino que continuar vendendo a produção cultural da pessoa irá denegrir sua imagem ou de quem vende.

O cara rendeu milhões e, agora que está encrencado, o que a gravadora faz? Recolhe seus produtos, sua arte.

O universo pop japonês tenta mostrar um mundo perfeito e idealizado, mas o que quebra isso de modo forte acaba sendo "varrido pra debaixo do tapete".

É uma questão cultural, mas não gosto de relativizar tudo por questões culturais. Há culturas, por exemplo, que cometem atrocidades contra mulheres e isso não pode ser relativizado.

O que acontece no Japão perante escândalos é muita hipocrisia, ingratidão e imaturidade.

Mas infelizmente, isso talvez nunca mude.

Bom, obrigado a todos pelas manifestações sobre o caso.

Abraços!

Victor Izidorio disse...

Quando um artista é preso no Japão, os produtores e promotores do artista são os primeiros a tirar o corpo fora. E é logo do Aska que estamos falando, um dos raros artistas de J-pop que teve aceitação internacional sem precisar alterar o seu estilo. Além do que já foi citado anteriormente pelo Nagado, eu cito as versões em inglês de "Say Yes", "Yah Yah Yah" e "Hajimari wa itsumo ame" feitas pelo Jason Scheff, atual vocalista do Chicago (e que teve a responsabilidade de substituir ninguém menos que Peter Cetera).

E os casos semelhantes literalmente se empilham, além dos já citados casos da Sakai Noriko e da Minegishi Minami, teve o caso do SMAP Kusanagi Tsuyoshi, que após uma bebedeira resolveu tirar a roupa em praça pública e atrasou bastante o cronograma do SMAP, e o caso do Nakamura Koichi, vocalista da banda de rock Jaywalk (da música "Nani mo ienakute natsu") que foi preso com substâncias ilícitas e consequentemente foi expulso da banda.