quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sensibilidade artística, cultura otaku e a polêmica de Miyazaki

Sketch de Hayao Miyazaki, um mestre na arte de contar
histórias fantásticas com gente real e sentimentos reais.
(Estudo para A Viagem de Chihiro, 2001)
Hayao Miyazaki é, provavelmente, o mais importante diretor de animê de todos os tempos. Famoso no mundo inteiro, seus trabalhos possuem um senso de encantamento que já o fizeram ser comparado a Walt Disney. Na verdade não há comparação, pois eles trilharam caminhos diferentes, sendo que Miyazaki é um artista genial, não um empresário e produtor visionário como foi Disney. Mas a comparação entre eles faz sentido se pensarmos que os nomes de ambos soam como uma grife de qualidade em animação. 


Roteirista, desenhista de mangá e story-boards, animador e diretor, Miyazaki até já ganhou um Oscar por seu animê A Viagem de Chihiro (2001). Seu último longa, Vidas ao Vento (2013) foi indicado ao Oscar e vai estrear no Brasil em 28 de fevereiro próximo. Mas independente de vencer a estatueta ou não, Vidas ao Vento já entrou pra história por marcar a despedida de Miyazaki dos cinemas. Aos 73 anos, ele não irá mais dirigir longas, mas continuará trabalhando com mangá e eventualmente poderá fazer animações de curta e média-metragem.
Animês estão sendo feitos por pessoas que
não conseguem olhar para outras pessoas,
segundo Hayao Miyazaki.
Homem de opiniões fortes e crítico da indústria dos animês, Miyazaki criou polêmica na semana passada ao declarar que um dos grandes problemas do mercado de animação no Japão é a legião de artistas otaku que trabalham na área. 

Enquanto desenhava com a leveza que marcou sua carreira, Miyazaki alfinetou muitos colegas ao dizer que são pessoas que não são capazes de olhar para outros seres humanos. Vamos colocar as coisas no contexto, antes que os mais afoitos digam que o mestre está velho e ranzinza. (Ranzinza ele sempre foi, e isso é fato bem conhecido nos bastidores da indústria.) 


Ao longo dos anos e em ritmo cada vez maior, o chamado "fan service" tem dominado as produções japonesas. São cenas e situações inseridas ou adaptadas numa trama para potencializar a audiência dos fãs hardcore.
Eis aqui uma arte bem realizada e
totalmente dentro do espírito do fan service.
Garotas angelicais com grandes seios em enredos recheados de closes reveladores e situações forçadas de erotismo formam um tipo de fan service. No fundo, é algo que existe apenas para atrair mais audiência. Há inúmeros tipos de cenas e personagens que podem ser incluídos na definição, mas o apelo erótico raso é o mais comum. 


Love Hina: Mostrando que uma série
de harém cheia de fan service não
precisa ser necessariamente ofensiva.
Os chamados mangás e animês de harém (muitas garotas próximas de um rapaz e disputando sua atenção) certamente vivem desse tipo de apelo. Até mesmo o simpático mangá Love Hina, de Ken Akamatsu, se encaixa nesses rótulos de fan service. E se tem humor e situações picantes a galera otaku vibra, claro. Mas, estamos falando da mesma coisa ao usar a palavra "otaku"?


Otaku é um termo que, no ocidente, virou sinônimo de fã de mangá e animê, mas que no Japão tem um sentido bem pejorativo. Se refere a pessoas sem jeito, isoladas, sem amigos, relacionamento afetivo ou vida social e que se devotam religiosamente a um hobby. Isso pode envolver coleções de miniaturas de trem, fotos de cantoras, bandas de rock, games ou qualquer tipo de entretenimento. É sobre esse tipo de otaku que Hayao Miyazaki fala, os otakus fãs de mangá e animê. 

O otaku japonês genuíno é um produto da cultura japonesa, sendo extremamente difícil o mesmo modelo ser reproduzido fielmente em uma sociedade ocidental. A maioria dos otakus japoneses tem mesmo fobia social, mas há os que vencem uma parte dela e entram no mundo profissional do desenho, ingressando nas indústrias de animê, games ou mangá. Esses profissionais-fãs podem ser benéficos ou não, mas na visão de Miyazaki eles são um grande problema. 

Existe aí uma questão de mercado, pois com o excesso de fan service tomando conta das produções, a indústria vai se fechando cada vez mais em nichos, segmentando cada vez mais a audiência. Fan service muito apelativo acaba jogando o título para exibição tarde da noite ou madrugada, o que é inevitável. Isso afasta o grande público e vai criando títulos cada vez mais herméticos, de fã para fã, o que não ajuda a expansão de horizontes, muito pelo contrário. Mas, questões comerciais à parte, há muito mais o que se concluir das críticas de Miyazaki aos otakus-artistas.
Mitsuru Adachi: Desenhos que parecem
gente que existe na vida real.
O mangá e o animê são, historicamente baseados em arte figurativa estilizada, derivada do cartum. Desde antes do revolucionário Osamu Tezuka, o mangá e o animê trazem uma simplificação da figura humana, sempre buscando a expressividade. O exagero também faz parte disso. No entanto, as citadas mídias sempre tiveram muitos artistas que criavam com um pé na realidade, por mais fantasioso que fosse o enredo. O sucesso vinha da identificação do grande público com pessoas de atitudes e gestos reais, humanos. E que agem como humanos no dia-a-dia. 

Um dakimakurá,
travesseiro
de abraçar,
um produto
para adultos

carentes, algo
típico da
cultura otaku.
Mesmo se inspirando em outros artistas como referência, a naturalidade gestual no desenho é fundamental para um bom ilustrador. Veja o trabalho de autores como Masakazu Katsura, Ryoichi Ikegami, Rumiko Takahashi e Mitsuru Adachi. Seus personagens possuem posturas e gestos naturais, revelando conhecimento estrutural de desenho e arte. 

Quando se estuda desenho, observar fotos, praticar com modelos vivos e estudar anatomia com livros (e não só com fotos eróticas) é fundamental, até quando o objetivo é fazer arte estilizada. Porém, já existem gerações inteiras de artistas que aprenderam a traçar apenas copiando outros autores, focando em acabamento e poses repetidas, e não em estrutura da figura. 

Some-se a isso o fato de que muitos otakus japoneses declaram que não gostam de mulheres de verdade, preferindo idolatrar garotas desenhadas, e terá heroínas que parecem existir apenas para povoar os sonhos de gente solitária. Um exemplo extremo desse gosto de uma parte dos otaku são os dakimakurá, travesseiros longos com desenhos de garotas para o otaku dormir abraçado com sua "companheira virtual". Talvez seja esse um dos pontos que incomoda Miyazaki, o excesso de sexualização e objetificação da mulher em muitos titulos de animê e mangá, perpetrados por gente que sonha com uma companhia feminina mas que nunca vivenciou a experiência de entender um relacionamento, vendo apenas o lado sexual. 

Também pode-se questionar a falta de bagagem emocional, que é tipicamente otaku, para criar histórias com conteúdo humano e verdadeiro, ao invés de montes de clichês regurgitados e amontoados. Ser incapaz de se relacionar socialmente acaba criando uma lacuna de experiência de vida, algo essencial para nortear a sensibilidade artística e a capacidade de contar histórias com real sentimento. Claro que isso não é uma regra de conduta criativa, mas sem dúvida uma vida rica em experiências pode ser decisiva para formar a capacidade de comunicação de um artista através de seu trabalho. 


Arte de Rob Liefeld, um
exemplo americano
da falta que faz
estudar fundamentos
de desenho e anatomia.
Citando um paralelo com a indústria dos quadrinhos de super-heróis americanos, existem diversos autores que jamais aprenderam os fundamentos básicos da anatomia, pois se desenvolveram apenas copiando seus desenhistas favoritos. 

Sem conhecimento para embasar sua arte, aparecem desenhos com músculos inventados e hachuras colocadas não para representar sombras ou meios-tons, mas apenas para encher espaços com linhas de design. E muitos outros até fazem desenhos realmente belos de corpos esculturais em ação, mas tornam-se medíocres ao desenhar crianças e idosos ou ao representar cenas simples como alguém tomando uma xícara de café. A situação, em termos de arte, é parecida com o que Miyazaki critica tanto em seu país. 

Pode ser sinal dos tempos, Miyazaki pode estar generalizando e sendo alarmista demais, mas é fato que, ao deixar de observar o mundo e as pessoas ao seu redor, qualquer criador vai perdendo a sensibilidade e a capacidade de construir algo capaz de se comunicar com o grande público, fechando-se cada vez mais em seu mundo particular. E isso vale tanto para roteiristas quanto para desenhistas. Nesse aspecto, e talvez esperando ser ouvido pelas novas gerações de artistas, o velho e ranzinza mestre está mais do que certo. 

Bônus:

98 incríveis sketches dos filmes de Hayao Miyazaki

Confira o trailer nacional de Vidas ao Vento (E tente não chorar...)

14 comentários:

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Quebrando meu silêncio para comentar mais esta sua bela postagem.

Lembro que algum tempo atrás o Mestre já havia criticado os cansativos maneirismos visuais e narrativos de algumas produções (a "badalada" Ataque ao Titã - que tem suas qualidades - seria um bom exemplo desta estética).

Em linhas gerais concordo com Miyazaki. Alguns segmentos da Cultura POP tendem cada vez mais a este hermetismo que você citou. E não só no Japão. Os Quadrinhos nos EUA, com sua cronologia pesada e emaranhada, são cada vez mais produzidos para um grupo específico que frequenta as comic shops.

Miyazaki tem "autoridade artística" para falar. É um caso raro de um artista que produz filmes que até poderiam ser vistos como "de arte"(certamente em muitos mercados no Ocidente eles são vistos assim) mas que conseguem grande retorno de bilheteria. São produções que se comunicam com o público.

O mais importante é que seus filmes, com toda sua sofisticação, tem coração. São capazes de tocar as pessoas, o que muitas produções contemporâneas, de tão friamente calculadas para atingir seu público alvo, não conseguem. Vivemos não apenas no mundo da Fast Food mas da Fast Culture.

Fantasia e Ficção Científica (e outras narrativas fabulosas) podem conter metáforas poderosas para a condição humana e se esta ligação se perde um pouco do encanto e força também se perdem.

Natália Maria disse...

Realmente, quando li essa nota senti uma ponta de verdade e aquela coisa: "é mesmo isso que está acontecendo?"

Como você enfatizou no texto realmente a coisa está tomando um rumo cruel, fechado para aquele tipo de público.

Não creio que Miyazaki faça isso. Seus filmes podem ser infantis, mas todos tem uma mensagem lá no fundo que ele quer que nós vejamos.

Certo ele está, não vamos tirar os créditos dele... xD

E aí, ansioso para Vidas ao Ventos?

Até breve!

Ale Nagado disse...

Fala, Rogério, há quanto tempo! Seja bem-vindo!

Eu concordo com o Miyazaki, mas faço a ressalva de que um pouco de fan service pode ser divertido, desde que não seja uma muleta para compensar uma história fraca. E o mestre fará muita falta no mundo dos animês. Gostaria de ver surgirem mais diretores como Makoto Shinkai, que trazem mais humanidade a uma indústria carente de boas ideias e que precisa tentar retomar sua vocação popular, e não de gueto.

Abraços!

Ale Nagado disse...

Oi, Naty, tudo ok?

Olha, vou te falar uma coisa... Eu vi o trailer do Vidas ao Vento e fiquei com vontade de chorar. Espero estar preparado para o que vou ver.

Miyazaki eu reconheço ser um gênio como poucos na História. Mas não sou nenhum super fã. Gosto muito de Totoro, achei Nausicäa uma obra de arte, me encantei com Lapyuta e vi On YOur Mark umas 30 vezes. Mas do Ghibli, meu longa favorito é o Mimi wo Sumaceba (Whispers of the heart), dirigido pelo Isao Takahata.

Abração!

Rogério disse...

Boa noite,

É bom estar de volta.

Adoro Whisper of the Heart. Acho um filme maravilhoso. Uma pérola intimista sobre amadurecimento e sentimentos.

Se me permite um correção: o diretor do filme foi Yoshifumi Kondo, Nagado. Infelizmente ele faleceu prematuramente. Tinha tudo para ser o sucessor de Miyazaki.

Eu sugeriria que assistisse aos filmes de Mamoru Hosada. Ele faz filmes de "fantasia" cheios de humor e elementos humanos arrebatadores. Seu mais recente, Wolf Children, é ótimo. Um belo drama (mas com humor) sobre uma mãe solteira tentando criar seu casal de filhos, que por acaso são lobinhos.

Ale Nagado disse...

Opa, obrigado pela correção.

E vou anotar sua dica. Já havia lido sobre Wolf Children. Quando puder, tentarei conseguir pra assistir.

Valeu!
Abraço!

Rogério disse...

Boa noite, Nagado.

Off-topic, mas nem tanto já que você citou este "ícone" dos ano 90, Rob Liefeld: o acha de Jim Lee? Ele parece ser o melhor desta turma.

Raphael Soma disse...

Faz tempo que não comento, mas vou me ater a este trecho:

" A maioria dos otakus japoneses tem mesmo fobia social, mas há os que vencem uma parte dela e entram no mundo profissional do desenho, ingressando nas indústrias de animê, games ou mangá. Esses profissionais-fãs podem ser benéficos ou não, mas na visão de Miyazaki eles são um grande problema. "

Essa do "fã-pro" é uma das coisas que fazem valer a indústria pra mim atualmente. Sei bem o quanto o vovô Miya é ranzinza, e entendo que agora que a carreira dele tá terminando ele pode soltar dessas o quanto quiser (tipo como o Yoshiyuki Tomino andou fazendo dia desses). Mas IMHO, se a indústria está em "crise", os fãs que se tornam parte dela seriam a "salvação" da mesma.

Um ótimo exemplo recente disso vem de Kill la Kill, do Studio Trigger, composto de ex-membros da Gainax, que se formou com universitários recém-formados fãs de anime (reza a lenda que um deles, não lembro qual agora, se apresentou pro outro dizendo conhecer TODAS as falas da primeira série de anime de Gundam, exceto o ep 01, que ele não gravara por não saber se o anime ia prestar... :P). Sim, Kill La Kill TEM fanservice em doses controladas, mas ele tem o espírito de animes do período dos anos 70-80. Sabe, aquela pegada de diversão pura, sem nada mais, mas sendo tudo o que basta.

Simplesmente não consigo aceitar bem essa visão do vovô Miya, pois boa parte da geração nova que anda fazendo anime e mangá atualmente herda muito do que ele mesmo representou, e vem renovando a indústria, ainda que uns e outros preguem que ela está "morrendo". Períodos de baixa inspiração acontecem, mas muitas vezes desses momentos algo muda tudo num piscar de olhos.

Em suma, eu quero que o vovô Miya curta a aposentadoria dele em paz. Já fez tudo e mais ainda do que o necessário pra deixar a marca dele no mundo. É uma pena que ele solte pérolas como essas, mas sabemos que a mensagem que realmente ficará dele não é a dum velho turrão, mas a de alguém capaz de conceber histórias que só ele mesmo pra conseguir contar com maestria...

...e pena que não é genético; o que o filho dele produziu até agora é caso de lixeira pura!

Ale Nagado disse...

Rogério, considero o Jim Lee o melhor daquela geração e um dos melhores desenhistas que já fizeram super-heróis. Mas quando ele explodiu, não fez parcerias com roteiristas que chamassem minha atenção, então nunca consegui ler muitas HQs dele. Mas tecnicamente falando, ele tem grande conhecimento, o que não acontecia com Liefeld, McFarlane e outros da geração Image Comics.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Fala, Mr. Soma, que honra tê-lo por aqui.

Bom, eu fiz minhas ressalvas no texto. Eu entendo a posição de Miyazaki e vejo o quanto ela faz sentido pra mim, mas fiz questão de ilustrar com ilustrações boas de fan service e citar uma série que já elogiei muito, apesar das doses meio descontroladas de fan service.

Eu adorava Zillion, praticamente um vovô do fan service. E eu concordo com você, pois em doses moderadas, o fan service faz parte da diversão em uma obra despretensiosa e comercial.

E Kill la Kill é outro daqueles animês que uma hora eu darei uma chance. Por mais que eu esteja cada vez mais velho e ranzinza, o moleque dentro de mim ainda me permite rir de umas abobrinhas.

Agora, tem muita coisa que eu vejo que não sobreviveria sem doses cavalares de fan service, e isso eu já não acho legal. Certamente que movimenta o mercado, mas não sei o quanto aumenta o público ou o quanto apenas encarece mais produtos na medida em que o público alvo vai envelhecendo e diminuindo.

Enfim, é bom divagar sobre temas assim e colher opiniões favoráveis e contrárias.

Abração!
PS: Não vi a declaração do Tomino, mas eu particularmente não gosto dele, acho muito pretensioso. Fez grandes obras, mas não fazem meu gosto.

Rogério disse...

Falando em trailers de arrepiar:
Viu este, Nagado?

http://youtu.be/9lDrkokymLQ

Parece que é um filme deslumbrante, ao menos tecnicamente e visualmente.

Ale Nagado disse...

Rogério, eu tinha visto, sim. Na verdade, fiquei com vontade de fazer um post sobre Kaguya Hime quando vi o trailer, mas faltou tempo pra pesquisar na época e acabei esquecendo. Uma hora quero assistir.

Meu Deus, a fila de coisas que eu quero assistir já está tão grande que vou ficar feliz se conseguir assistir um pouquinho que seja.

Abraço!

JJ Marreiro disse...

Fantástico texto, Nagado. Nos faz pensar e colocar em perspectiva algumas coisas quanto ao mercado como um todo no que diz respeito aos fanboys.

Vou espalhar pros amigos.

AH! Postei aqui (http://jjmarreiro.blogspot.com.br/2014/02/coracao-brasileiro-um-agradecimento-aos.html) um agradecimento geral aos parceiros da exposição do Capitão Rapadura. Logo postarei uma matéria cobrindo a exposição. Mais uma vez obrigado pela sua inestimável colaboração, apoio e sobretudo amizade!
Abração Forte! Saúde pra família toda que com saúde o resto a gente corre atrás :)

Rogério disse...

Bom dia Nagado,

Sempre vale a pena ler uma entrevista do Mestre: http://www.awn.com/animationworld/the-hayao-miyazaki-interview