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Esteja aqui para conferir. Até breve!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Lion Man - Fazendo justiça a um herói clássico

Lion Man, um personagem
subestimado de uma fase áurea
Durante a grande invasão de seriados tokusatsu no Brasil durante o início da década de 1990, impulsionados por Jaspion e Changeman, a TV Manchete ocupava boa parte de sua programação exibindo esse tipo de produção. Trazido ao Brasil pela distribuidora Top Tape ao mesmo tempo que Jiban e Jiraiya (séries do final dos anos 80), chegou um antigo seriado do início dos anos 70, o Lion Man. A história se passava no Japão feudal, em uma época meio imprecisa e contava as aventuras de um andarilho com o poder de se transformar em um homem-leão espadachim.


A abertura, com a canção "Yuke yo tomo yo, Lion Maru yo"
(ou "Avante, amigo Lion Maru!"), 
de George Hama e Blue Angels.

Depois que seu irmão foi morto pelos membros da família (na verdade, um "clã") de Mantor do Diabo, o guerreiro errante Dan Shimaru parte pelo Japão em busca de vingança. Com a misteriosa energia contida em um jato rústico que leva nas costas, o jovem se transforma em Lion Man. Além da força, resistência e agilidade ampliadas, Lion Man ainda tem um golpe mortal, o Lion Furacão uma descarga de energia da espada que faz o inimigo agonizante explodir. 

Em suas andanças, conhece a bela Shinobu e seu irmão caçula Sankichi, que o ajudam em diversas ocasiões e acabam acompanhando-o na maior parte do tempo. Shimaru também conhece outros guerreiros como ele: o arrogante Jaguar (inicialmente um rival) e o intrépido e provocador Joe TigerO objetivo do clã dos monstros era unificar e dominar o Japão. Seu exército obedecia ao comandante Agdar, que por sua vez era um servo da sinistra entidade denominada Mantor do Diabo, que tinha a forma de uma grande face rochosa.


Um seriado de uma época de efervescência do tokusatsu no Japão, Lion Man foi prejudicado no Brasil por ter sido exibido ao lado de aventuras bem mais modernas. A defasagem de produção (paupérrima mesmo para a época) gerou muito preconceito contra a série, o que fez passar batido pra muita gente o enredo sério e dramático. Perante muita gente, foi um personagem bastante incompreendido.

Lion Man contra um dos monstros de Mantor
O Jaguar
Lion Man era o tipo de seriado que adultos e crianças acima de 10 anos adoravam dizer "que ridículo!", por conta do herói, que parecia um samurai-leão de pelúcia, nada imponente ou que pudesse ser levado a sério. A geração acostumada aos shows acrobáticos e pirotécnicos das séries da Toei dos anos 80 não perdoava. Acontece que Lion Man tinha grandes qualidades e devia ser visto no contexto, como um herói de épocas passadas. Os Monstros Humanos e os Ninjas Rastejantes, a despeito da aparência tosca, não tinham nada de inofensivo, promovendo grandes matanças por onde passavam.

Se você entrava na história, podia notar facilmente que aquele era um mundo violento, triste e sombrio. Inicialmente um lutador inconsequente que se aliava a Mantor, Yoba (o Jaguar) decide enfrentar os monstros após ver uma mulher chorando sobre o cadáver de uma criança que tinha o mesmo nome dele e que havia sido morta num ataque de Mantor. Tendo consciência do mal causado pelos monstros, Jaguar resolve lutar pela justiça, mas sua fase heroica não vai longe.

Joe Tiger, o principal aliado de Shimaru
Entre os momentos antológicos da saga de Lion Man, pode-se citar a chocante morte de Jaguar (ep. 11), mostrada numa história pesada e dramática. O mesmo episódio mostra Shimaru em crise porque seu capacete foi danificado, deixando-o inseguro. Isso lhe valeu xingamentos por parte do recém-chegado Joe Tiger. 

Com seu espírito guerreiro restaurado, Lion Man retira o capacete, revelando pela primeira vez sua longa juba. 


Em outra passagem marcante, Shimaru critica o senso de honra de um guerreiro e diz não aceitar a "morte honrosa" defendida por seus contemporâneos. Ele se desespera quando um guerreiro se sacrifica para enfrentar um monstro por vingança. Shimaru queria impedir o jovem e lutar em seu lugar, visto que o garoto não tinha chance alguma. Mas Shimaru falha, e o jovem guerreiro morre lutando pela honra de seu clã. O personagem de Shimaru era um ardoroso defensor da vida humana, o que contrastava com o violento mundo dos samurais e ninjas em que ele estava inserido. 


Lion Man desperta sua fúria
O comportamento de Shimaru podia ser facilmente associado ao dos japoneses que haviam tido contato com o cristianismo, que lá chegou no séc. XV. Sua filosofia coloca a vida como o valor mais alto de todos, condenando o ato de "morrer pela honra" e o suicídio. Porém, não há referências a algum traço de religiosidade no personagem além de algumas atitudes demonstradas.

Shimaru surpreendia e podia ir contra os ideais comuns aos guerreiros de sua época. Na ficção de suas aventuras e na vida real (com sua série sendo exibida fora de época no Brasil), Lion Man foi um herói um tanto incompreendido. 

Ficha técnica: 
Título original: Fuun Lion Maru (Tempestuoso Lion Man)
Estreia no Japão: 14/ 04/ 1973
Número de episódios: 25
Criação: Tomio Sagisu (Souji Ushio)
Roteiro: Toshiaki Matsushima e outros
Trilha sonora: Hiroshi Tsutsui
Direção: Koichi Ishiguro e outros
Produtora: P-Production
Emissora no Brasil: Manchete
Versão brasileira: Álamo

Elenco: 
Tetsuya Ushio (Dan Shimaru/ Lion Man), Ryoko Miyano (Shinobu), Tsunehiro Arai (Sankichi), Masaki Hayasaki (Yoba/ Jaguar), Shingo Fukushima (Jônosuke Tora/ Joe Tiger Jr.)

Os Outros Leões da Justiça

Lion Man Branco

Após várias reprises na TV Manchete, alguns episódios da série do Lion Man original (chamado entre nós de "Lion Man Branco" pra facilitar) foram exibidos. No enredo, três irmãos lutam contra o Diabo Gozu e seus guerreiros monstros. Ao lado de Shimaru, a garota Saori e o pequeno Gosuke, todos ninjas habilidosos. Seu visual foi inspirado no kabuki, o tradicional teatro japonês.

Esse primeiro herói foi vivido pelo mesmo ator e chega a aparecer inexplicavelmente em um episódio, salvando seu sucessor enquanto ele estava desacordado. 

O Lion Man branco estreou no Japão em abril de 1972 e teve 54 episódios. Seu título era Kaiketsu Lion Maru (Heróico Lion Man) e o enredo se passa no final do século XVI, lembrando que o Lion Man alaranjado se passa num período impreciso. 

Lion Man G

Série de 2006 que apresentou uma versão contemporânea de Lion Man. Essa série é vista como um desastre para uns e uma produção incompreendida por outros. Lion Man Getto foi imaginada para adultos, tem situações maliciosas, violência, humor chulo e apresenta como reencarnação do Lion Man original (o branco) um covarde e desastrado gigolô que trabalha em uma zona de meretrício. Obviamente o personagem evolui e se torna heroico, além de aparecer também uma reencarnação de Joe Tiger. 

A série teve apenas 13 episódios, uma contagem comum nas séries tokusatsu para público adulto e exibição noturna. Se quiser saber mais, há um review sobre a série no blog J-Wave


Curiosidades: 

* O nome original do alter ego de Lion Man é Dan Shishimaru, sendo que "shishi" é "leão". Aqui no Brasil, preferiram deixar como Shimaru pelo óbvio cacófato. 
Bom ator, Tetsuya Ushio interpretou duas
versões de Lion Man, em séries diferentes.
* "Maru" ao pé da letra significa "círculo" e foi muito usado para compor nomes masculinos e até nomes de navios, como em Kasato Maru (o primeiro navio a trazer imigrantes japoneses ao Brasil). O sentido usado para Lion Maru é obscuro e nunca foi bem esclarecido.

* O aliado Joe Tiger (Tiger Joe Jr., no original) é mostrado como um sucessor do primeiro Joe Tiger, que apareceu na série do Lion Man Branco e foi um grande sucesso na época. A morte do Tiger original, com um tiro na cabeça, foi uma das passagens mais chocantes da série original. 


* A pitoresca trilha sonora utilizava elementos de faroestes italianos, muito populares na década de 1970. 

* Seu criador, Tomio Sagisu, também foi o autor de Spectreman, um dos maiores sucessos da produtora. 

* Após a falência da P-Productions, a Tsuburaya Pro (a produtora de Ultraman) adquiriu os direitos, cuidando de lançamentos em LD e DVD. 

11 comentários:

Bruno Seidel disse...

Grand post!! Uma justíssima homenagem a essa série que, injustamente, é alvo de muitas pessoas pelo seu aspecto "tosco". Considero Lionman uma importante contribuição à imagem dos samurais, que para muitos ainda são vistos como meros assassinos e pessoas frias. A "tosquice" do visual dos personagens é um grande contraponto ao enredo "cult" da série. E, por incrível que pareça, hoje eu vejo esses personagens e me bate um sentimento de nostalgia.

Anônimo disse...

Assisti o epsodio ki ele mostra a juba, ano passado no You-tube. Lion Man até que era legal tinha clima de faroeste e a despeito do visual de pelúcia a série era até bem violentinha, me lembro de um epsodio em que um dos monstros corta a cabeça de uns soldados da tropa de Mantor que ficavam em fila indiana.A primeira vista parecia ridiculo mas, quem prestasse atenção nas histórias conseguia perceber que o enredo era até mais "adulto" que as series dos anos 80!

César Filho disse...

Nagado, primeiramente gostaria de parabenizar pelo conteúdo do blog e sempre lia suas matérias na Herói e no Omelete. Além de ter o Almanaque e o e-book da Cultura Pop Japonesa, que são ótimas referências. Lion Man pode não ser a minha série favorita, mas admiro pela dramaticidade do enredo. É uma pena que muitos tenham esse preconceito por ser uma série de efeitos rudimentares, devido às técnicas da época. Ainda quero rever a trilogia completa um dia.

Usys 222 disse...

Lion Man era uma das minhas séries favoritas quando passava por aqui. E concordo. Essa série foi bem injustiçada.
A forma era ruim, mas o conteúdo compensava. Ainda me lembro da indignação do Shishimaru ao ver pessoas se matando por cobiça no episódio em que ele se abriga em uma igreja. "Dinheiro! Ganância! É para isso que o homem vive?!" Essa não foi a única vez que ele viu a feiura humana, mas mesmo assim ele lutou com coragem.
Ou seja, Lion Man era um herói de fantasia entre humanos de verdade. De certa forma, um Don Quixote japonês.

Ale Nagado disse...

Bruno, o Lion Man foi um herói que eu sempre senti que estava devendo uma boa matéria, coisa que não fiz na Herói. Lamento ter visto pouco da série do Lion Man branco, que parece muito mais interessante.

Anônimo, realmente Lion Man era uma série violenta. As produções da década de 70 eram muito violentas, tanto em animê quanto de tokusatsu.

César, legal saber que você curte o que escrevo há tanto tempo. Faz valer a pena continuar, mesmo que sem periodicidade, a pesquisar e escrever sobre esses assuntos. Valeu e volte sempre.

Usys, eu me lembro desse episódio. Shimaru era uma pessoa que se indignava contra as pessoas de sua sociedade, muitas vezes se decepcionando com a humanidade que buscava defender. Esse traço de personalidade foi o que me fez perceber que a série podia ser infantil, mas permitia uma leitura mais profunda.

Abraços a todos!!

Leandro disse...

Admito que eu era uma dessas pessoas que tinha preconceito com Lion Man, me lembro de ter assistido poucos episódios na época e não gostava muito principalmente pela tosquice. Mas após ler o seu post Ale vou com certeza reassistir a séria com outros olhos. Obrigado e abraço!

Ale Nagado disse...

Leandro, que legal que você se interessou pela série por causa da postagem. O que escrevi pra Lion Man, em menor escala, vale pra muitos seriados tokusatsu antigos, que a produção ficou datada (mesmo os que eram bem produzidos na época). O interessante é assistir sem preconceitos, apreciando a história e a proposta, dentro do contexto da época em que foi produzido.

Abraços e Feliz Ano-Novo!

Diogo Almeida disse...

Confesso que Lion Man nunca foi um dos meus heróis favoritos justamente pela produção tosca comparada aos seriados da Toei exibidos na mesma época no Brasil. Mas o tom dramático e violento das histórias impressionava tanto que compensava todo e qualquer defeito da série (os episódios mais marcantes pra mim foram o da morte do Jaguar, o do garoto que teve os pais transformados em rastejantes e mortos por Lion Man, além do já citado episódio da igreja que mostrava um padre corrompido pela ganância). Pra vc ter uma idéia, Nagado, Lion Man era o único Tokusatsu que o meu saudoso pai assistia. Coincidência ou não, ele era fã de faroeste...

Ale Nagado disse...

Diogo, quando se tem sensibilidade para acompanhar a história e as interpretações, sem ligar pra produção, consegue-se descobrir muita criatividade, ousadia e reflexão em títulos que a maioria passa batido. Por isso se diz que não se pode julgar um livro pela capa.

Obrigado por participar com seu depoimento.

Abraço!

Douglas Deiró disse...

Saudações, Nagado!
Tudo bom?
Estou revendo Lion Man novamente, desde a época que foi exibido na saudosa Rede Manchete.
Mesmo com sua produção capenga e antiga - detalhes notados até por mim, que não passava de um moleque de 12 anos de idade na época - eu curtia as aventuras do "Samurai Leão de Pelúcia.
Sempre tendi à gostar mais das séries, como chamava, de "diferentes". Neste caso, entendia como sendo assim Kamen Rider Black, Metalder, Jiraiya (a minha preferida), até mesmo Machine Man e Lion Man.
Uma coisa que me chamou a atenção hoje, que não me lembro de ter notado ou ficado chocado naquela época, é o quão tensa é a trama. Não passa um único episódio sem que haja uma morte... que dizer, rolam verdadeiras chacinas provocadas pelos Mantors.
Outro ponto que, quando moleque, nem dei atenção (ou melhor, nem passou pela cabeça), foi o período em que se passa a história. Revendo, ficava agoniado pois não era dada dica alguma disto até o episódio 22, chamado, "O Segredo do Santuário".
Nele, Shimaru chega em uma vila onde existe uma igreja católica e, a narração, diz que o Cristianismo havia chegado há pouco tempo no Japão. Sendo assim, levo à crer que tudo acontece na segunda metade do século 15, estourando, na virada ou no início do 16.
Por fim, concordo contigo sobre o que escreveu, que Lion Man foi muito incompreendida. Se focarmos seu contexto, os dilemas do herói em sua luta contra o Mal (ele se arrebenta todo, mental e físicamente em sua missão), nota-se que há uma produção muito sincera aí que vale a pena ser conferida.
Até mais!

pierrot disse...

Ótimo post.
Eu conferi toda a trilogia e dos três o original é o melhor e me faz ver as manobras de roteiro do segundo de uma forma negativa. Matar o Jaguar tão brevemente me foi um claro artificio para trazer o segundo Tiger Joe (que pelo que entendi era irmão do outro que tinha até o furo no olho, ah por favor...) e tentar aumentar o ibope da série. Por mais que o personagem não tivesse agradado o público, deveriam pensar em uma forma de agregar a sua personalidade ao invés do descarte. O terceiro é um show de humor e possui muitas referencias a obra original. É um pouco vergonhoso ver um Shishimaru decadente daquele jeito mas eu recomendo.