segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Desenhando Quadrinhos - Um livro essencial

Desenhando Quadrinhos:
Obra essencial para entender
o que faz uma boa HQ.
Uma dica de leitura obrigatória para estudantes, professores e profissionais dos quadrinhos

Depois de sacudir a comunidade quadrinística mundial com o criativo e esclarecedor Desvendando os Quadrinhos (de 1993), o autor Scott McCloud se especializou em fazer quadrinhos sobre os quadrinhos. Ainda é a melhor obra para se entender processo narrativo e semiótica nas HQs.

Seu livro seguinte, Reinventando os Quadrinhos (2000), complementava o anterior e abria espaço para uma série de especulações e palpites pessoais sobre os rumos da nona arte num mundo cada vez mais digital. Entre erros e acertos sobre os rumos dos webcomics, McCloud mostrou que, acima de tudo, entende a linguagem da arte sequencial como poucos. E eis que, depois de tanta teoria, ele resolveu que era a hora de ensinar como é que se faz uma boa HQ. 


Parece pretensioso, mas ele cumpre a tarefa com uma clareza desconcertante em Desenhando Quadrinhos, lançado pela M.Books em 2007 e reeditado em 2012. A empresa já havia editado as obras anteriores de McCloud no Brasil em 1995 e 2005, respectivamente.

Sem querer impor fórmulas ou modelos prontos para serem apenas copiados, McCloud estimula o leitor-aluno a pensar nas possibilidades inerentes ao uso combinado das palavras e das imagens. Dando espaço para o desenvolvimento do aluno na arte realista, estilizada ou mesmo no estilo mangá, o livro aborda a criação de personagens, cenários, roteiros e narrativa, culminando na arte-final e até letreiramento. Inconformado com as limitações do papel, McCloud criou complementos no “Capítulo 5 ½” em seu site oficial, ainda sem versão em português. 

Aos fãs de mangá, McCloud dedica especial atenção, demonstrando ser um grande entusiasta dos quadrinhos japoneses. Ele exemplifica como a narrativa de mangás de ação (especialmente os shonen - para meninos) jogam o leitor dentro da ação. Em contrapartida, o mangá shojo (para meninas), ao usar narrativa e recursos gráficos para enfatizar aspectos emocionais, jogaria a leitora dentro da cabeça dos personagens. 
Trecho do capítulo sobre mangá,
onde o autor demonstra muita
familiaridade com o assunto.

Mesmo sem ser um grande ilustrador, ele demonstra na prática lições valiosas sobre profundidade visual, diversidade de tipos e expressividade nos desenhos. Tudo com muita abrangência, ponderação e bom humor, características que tornam a obra uma leitura divertida e informativa ao mesmo tempo. 
A importância de um
bom cenário. Mais
didático, impossível.

Já no final do livro, as diversas possibilidades de se trabalhar com quadrinhos são analisadas com uma visão clara, realista e honesta. Mas convém destacar que McCloud se refere ao mercado estadunidense, e que a realidade do mercado de trabalho para HQ no Brasil está anos-luz atrás. Em outra parte, o autor explica detalhadamente as características, prós e contras de vários materiais de desenho. Nem todos os materiais são acessíveis da mesma forma aqui e existem outras opções e nomenclaturas em nosso mercado. Mas não é nada que uma visita a algumas boas lojas não resolva.

Em Desenhando Quadrinhos, as notas explicativas que já estavam grandes em Reinventando os Quadrinhos aumentaram tanto de tamanho que se transformaram em capítulos de texto, com diversas informações complementares. O recurso talvez trunque um pouco a fluência da leitura mas, sem dúvida, isso acrescentou mais nuances e enriqueceu o conteúdo da obra. 

Mais do que nunca, McCloud não quer apenas divertir o leitor, e sim dar a melhor aula que poderia e há longas divagações teóricas, onde nunca se diz nada à toa. Como ele mesmo cita no livro, é preciso deixar que as palavras também cumpram sua função. Com numerosos exemplos e exercícios práticos, nunca um livro foi tão abrangente em sua proposta de ensinar como fazer histórias em quadrinhos. 

Desenhando Quadrinhos tem 264 páginas, formato 17 x 25 cm e já está à venda em livrarias e lojas especializadas.

-- Compre aqui.

(Texto adaptado e ampliado a partir uma resenha escrita por mim para o site Bigorna.net, atualmente inativo.)

4 comentários:

Bruno Seidel disse...

A trilogia dos livros do Scott McCloud é, certamente, indispensável para qualquer apreciador de HQ´s. Até hoje eu vivo citando o 1º livro (Desvendando) em diversos textos, debates ou reflexões que faço envolvendo esse segmento. Considero fundamental, inclusive, o conceito que ele atribui à "arte", de acordo com seu ponto de vista. É a melhor definição que eu já vi até hoje sobre o que de fato significa "arte". O 3º livro eu só tomei conhecimento graças a você, Nagado. Tinha lido o 2º (reiventando) e confesso que me decepcionei bastante. Foi aí que você me instruiu a "deixá-lo de lado" e partir direto pro 3º (Desenhando). Realmente, o 1º e o 3º são infinitamente melhores do que o 2º. São livros que merecem ser lidos com toda atenção e re-lidos pelo menos uma vez por ano, pois possuem tanta informação interessante que fica até difícil absorvê-los duma vez só. Mais do que uma leitura recomendada: uma leitura OBRIGATÓRIA!

Rogério disse...

Esta aí uma autor que preciso muito ler.

Outro livor essencial é Quadrinhos e Arte Sequencial, do Mestre Will Eisner.

Ale Nagado disse...

Bruno, fico contente por ter aproveitado minhas dicas. Uma das coisas que gosto mais é resenhar livros e com isso despertar o interesse na leitura. Sobre o "Reinventando Quadrinhos", eu tenho a impressão de ter sido uma obra encomendada pela editora. Não é um livro ruim, apenas decepcionante quando comparado com o primeiro. Já o "Desenhando Quadrinhos" é outra obra-prima do autor. Eis alguém com quem eu adoraria conversar pessoalmente um dia.

Abraço!

Ale Nagado disse...

Rogério, se ainda não leu nada do Scott McCloud, sugiro que leia primeiro o Desvendando os Quadrinhos. E se gostar, vou sugerir o mesmo que fiz para o Bruno Seidel: Pule o segundo livro e vá direto ao terceiro. Acho que vai gostar.

Eu também tenho o "Quadrinhos e Arte Sequencial". É sensacional, mas a teoria é melhor desenvolvida por McCloud do que por Eisner. Talento por talento, Eisner é muito mais arrojado, mas McCloud é insuperável em sua proposta de explicar a magia da boa narrativa em quadrinhos. São leituras complementares.

Abraço!