quinta-feira, 27 de junho de 2013

Nos bastidores do tokusatsu no Brasil

Ao longo de minha carreira, trabalhei com muitos elementos da cultura pop japonesa (mas não somente isso, claro), notadamente com tokusatsu, os filmes e seriados com efeitos especiais japoneses. Minha primeira matéria publicada na imprensa foi sobre Ultraman (isso em 1992, lá na revista SET Terror e Ficção). Depois, na metade da década de 1990, veio a revista Herói com dezenas de matérias sobre o tema, além de algumas sobre mangá e animê. Ainda escrevi sobre tokusatsu para a revista Henshin, o portal Omelete e outros veículos de mídia. Antes disso, escrevi roteiros de quadrinhos para a editora Abril com personagens licenciados. Fiz Flashman, Changeman e Maskman (1990/91) para a Abril e Sharivan, Goggle V  e Machine Man para a EBAL (1991). Essa fase com HQs de tokusatsu, inclusive, ainda vai valer uma postagem sobre bastidores. Mas o que citei agora é material amplamente conhecido e divulgado na época e é por eles que meu nome ainda hoje é associado a tokusatsu entre os fãs do gênero. Mas além dos trabalhos famosos, muita coisa ficou perdida no tempo. 

Então, resolvi fazer um resgate de algumas dessas empreitadas, mesmo sem imagens adequadas para cada item citado. Como a fonte de referência é basicamente a minha memória, peço desculpas por eventuais informações vagas e imprecisas. E quem tiver imagens dessa época e quiser compartilhar, é só postar link nos comentários. Agora, direto ao nosso "túnel do tempo". 


Serviço com Winspector
ficou na mira da Justiça
Disque - Winspector: Meses depois do lançamento de Winspector no Brasil, em 1994, a Tikara Filmes lançou um serviço no qual a pessoa ligava e ouvia uma mensagem dos personagens principais. Os próprios dubladores gravaram textos curtos que escrevi para as gravações. Os primeiros roteiros apenas apresentavam os personagens. Depois, pequenas aventuras eram narradas. 

O formato não me agradava muito e, como eu estava atarefado com outras atividades, acabei fazendo só os primeiros. 

Com o tempo, esse tipo de serviço entrou na mira do Governo. Por mais que houvesse os avisos de "peça ao seus pais para ligar", na prática muito garoto ligava direto sem avisar e depois vinha aquela conta telefônica enorme para pagar. Quem entrasse na justiça, conseguia que a taxa do serviço fosse anulada. O projeto não durou muito e estive presente só no começo, mas foi uma experiência profissional interessante. 

Solbrain: Lançamento
planejado e bem
organizado rendeu

bons frutos
Consultoria: Em 1995, quando a Tikara Filmes comprou as séries Solbrain e Kamen Rider Black RX para exibição na extinta TV Manchete, contou com o apoio financeiro da Glasslite, antiga fábrica de brinquedos que iria lançar vários produtos licenciados. Eles queriam fazer um bom planejamento para aproveitar ao máximo o potencial dos personagens e, para isso, contrataram os especialistas da revista Herói, eu e o Marcelo Del Greco, para prestar uma consultoria remunerada. Nós recebíamos por reunião, na qual respondíamos perguntas, explicávamos a estrutura das produções e de que forma seria possível atrair mais fãs. 

Coincidentemente, ambas as séries eram sequências. RX dava continuidade a Black Kamen Rider, enquanto Solbrain era uma equipe de resgate derivada de Winspector. Durante a série, haveria até um encontro entre as equipes. 

Desnecessário dizer que hoje em dia fãs brigariam entre si para dar uma assessoria gratuita, só pelo prazer de ajudar na promoção de suas séries favoritas. Mas na época foi tudo muito profissional e funcionou muito bem para todos. 

Durante essa consultoria, ficamos sabendo que a produtora Saban, após o sucesso de Power Rangers, havia adaptado o RX para Masked Rider, que ia estrear logo no Brasil. A Toei deu prioridade ao licenciamento da Saban e, quando a série estreasse, a Tikara Filmes não teria mais direito a vender produtos do RX. O mesmo valia para qualquer outra produção feita pela Saban em cima de alguma série da Toei. A série original japonesa poderia, teoricamente, ser exibida. Mas na prática, como não era mais permitido licenciar produtos, não havia mais interesse em negociar direitos de exibição. E tem sido assim desde então, pois a parceria da Toei com a Saban é comercialmente muito forte.


"Kamen Rider Black RX: As novas
aventuras de Issamu Minami, o
Homem-Mutante"
Sinopses para capas de vídeo: Na época em que Kamen Rider Black RX e Solbrain foram lançados, a InterMovies licenciou as duas séries para lançamento em fitas VHS. Para esse material, eu escrevi as sinopses que vinham na parte de trás das capas de cada fita do RX. O Solbrain teve sinopses escritas pelo Marcelo.

O texto do primeiro volume de RX explica, sem margem para erros, que ele era uma forma evoluída do já conhecido Black Kamen Rider. Criei então a frase "As novas aventuras de Issamu Minami, o Homem-Mutante", que foi bastante usada nas divulgações da época.

O texto foi elaborado para reforçar a ligação entre as séries. Também consegui as fichas específicas de cada episódio para listar apropriadamente os roteiristas e diretores, algo que até então não era levado muito a sério nas fitas de heróis de tokusatsu. 


Jiraiya: Álbum de figurinhas
esquecido
Álbum de figurinhas do Jiraiya: Saiu só em São Paulo, capital, e é material raríssimo hoje em dia (eu mesmo nem tenho mais). No início dos anos 1990, com o sucesso do Ninja Jiraiya na TV Manchete, a Alien International tinha conseguido imagens oficiais da Toei, mas o material era muito pouco para encher um álbum de figurinhas. 

A alternativa encontrada foi pegar os vídeos, congelar a imagem e fotografar a tela. Lembre que isso foi muito antes dos computadores terem alta resolução de imagem e tudo teve que ser feito de modo quase artesanal. O resultado foram imagens com a definição dos televisores da época, cheios de linhas finas formando os cromos. Eu escrevi o texto de todo o álbum, devidamente creditado e pago. Mesmo sem divulgação e com distribuição restrita a alguns pontos da cidade, o material esgotou nas bancas. Porém, a qualidade ruim das imagens acabou fazendo com que o projeto não fosse adiante. 


Anne, no auge de sua
beleza e popularidade
Entrevistas: A revista Henshin, da JBC, desfrutava da mesma infraestrutura da revista Made in Japan, e isso incluía redação no Japão em comunicação direta com a equipe no Brasil, da qual eu fiz parte durante um tempo como vice-editor de conteúdo do portal, editor do site Henshin e redator de várias matérias. 

Com a possibilidade de entrevistar artistas japoneses, sugeri diversas pautas que foram conseguidas e, depois, eu ainda enviei perguntas para a entrevistadora fazer pessoalmente. 

Somente fui creditado nas entrevistas com os atores Jiro Dan (Hideki Goh em O Regresso de Ultraman) e Yuriko Hishimi (Anne em Ultraseven), mas também elaborei a pauta de perguntas para Seiji Yokoyama, o compositor das trilhas de Cavaleiros do Zodíaco e Metalder, além de ter pautado e ajudado a estruturar (entre outras) a entrevista com a dubladora Ikue Ootani, a voz do Pikachu, que é a mesma ouvida no mundo todo. 

O Ultraman original
e o Ultraman Tiga, de
gerações diferentes
Convenções de Ultraman: Em 1991, eu participava do grupo ORCADE, que se reunia na Gibiteca Henfil, no bairro da Vila Mariana, zona sul de SP, capital. Lá, organizamos um evento pioneiro sobre Ultraman no Brasil. Era o ano do Jubileu de Prata (25 anos) do personagem e fiquei à frente da atividade com mais dois amigos. Houve uma exposição de desenhos (fanarts), com alguns profissionais participando, uma palestra e uma exibição de vídeo. No caso, uma TV com um videocassete acoplado, no auditório da Gibiteca, que era dirigida pelo grande amigo de todos os quadrinhistas, o Klink

Exibimos o episódio duplo de Ultraman Ace com a participação dos Irmãos Ultra e o Ultra Father e algumas raridades. Antes da internet, esse tipo de material, mesmo mal gravado, causava furor. Mais de 100 pessoas compareceram, num dia de finados frio e chuvoso. Era a época em que eventos sobre quadrinhos e cultura pop eram um sucesso se atraíssem mais de 20 pessoas... 

Em 1996, já com o impulso dado pela Herói, a Comix Book Shop organizou a primeira UltraCon, um evento maior para os 30 anos de Ultraman. Foi num auditório do Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo. Eu e o Marcelo Del Greco demos palestra e comentamos os vídeos selecionados. Houve cobertura da TV Bandeirantes e um grande número de participantes (mais de 300, se não me engano). Um deles, que foi até pedir autógrafo, era um garoto chamado Ricardo Cruz, que viria a ser um dos membros do JAM Project. Depois que ficamos amigos, ele me contou essa curiosidade. 


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Além dos comentados aqui, houve projetos que jamais decolaram e outros que caíram no esquecimento total. Outro dia conto outras histórias de bastidores. 

12 comentários:

Bruno Seidel disse...

Nossa!!! É tanta coisa curiosa e interessante que fica até difícil saber por onde começar a comentar.
Sobre esses "disques" que infestaram a TV brasileira na época (anos 1990) eu confesso que é algo que nunca gostei. Achava aquilo forçado demais, uma exploração desnecessária dos personagens e uma tentativa de extorquir os fãs. Meu pai, inclusive, me dava fortíssimas advertências dizendo que eu estava absolutamente PROIBIDO de ligar pra essas coisas. O que eu melhor lembro é o "Disque Patrine", que uma menina ligava "do nada", a Patrine atendia (sem telefone) e as duas conversavam. Aí a garota perguntava pra Patrine qual era o nº do telefone dela (mas ela mesmo não tinha ligado???).
Esse álbum de figurinhas do Jiraiya é algo que eu realmente nunca ouvi falar. Já as fitas VHS do RX sim. Na verdade, eu fiquei sabendo que o RX era uma continuação direta do Black graças a uma matéria da Herói Nº 10. Essa matéria, inclusive, foi publicada antes mesmo do RX estrear no Brasil.
Deve ser um privilégio imenso poder entrevistar (ou pautar perguntas) feras como Jiro Dan, Yuriko Hishimi e Seiji Yokoyama! Acho que essa é uma das grandes vantagens de se trabalhar onde gosta.

Ale Nagado disse...

As entrevistas foram muito interessantes. Lembro de ter enviado para o Seiji Yokoyama uma pergunta sobre como ele se inspirava ao ter que compor uma trilha sob encomenda. Perguntei se ele lia uma sinopse ou algo assim. Ele respondeu que recebia sinopse, descrição e fotos dos personagens. Assim, ele espalhava tudo na mesa e ficava olhando as imagens, deixando a imaginação formar os sons que melhor combinariam. Cavaleiros eu não vi com muita atenção, mas sobre Metalder, devo dizer que os temas de Neroz e da garota Maya capturam perfeitamente a atmosfera dos personagens.

A entrevista do Hideki Goh desfez muitos boatos que rolavam faz tempo, como ele ter gravado um piloto do Spectreman.

Poder conviver profissionalmente com algo que se gosta foi muito interessante e rendeu histórias ótimas. Aos poucos, vou contando mais.

Abraço!

Rogério disse...

Boa noite Nagado,

Hmmm, o que será que aconteceu com meu comentário anterior? Achei que tinha ficado pendente de mediação. Será que coloquei algo improprio nele sem querer?

De qualquer jeito: ótima postagem.

Ale Nagado disse...

Rogério, olhei na área de administração de comentários e não achei mais nada. Deve ter sido alguma pane do Blogger. O sistema não faz moderação automática, eu preciso ler cada um para aprovar.

Obrigado pela força.
Abraço!

Continue Project disse...

Muito legalz ler essas histórias. REalmente são fatos q me lembro vagamente como o Disque e q nunk ouvi falar(album do Jiraya). Muito legal a atitude do evento em 91 kra, eu era bebê, mas queria ter ido...

Conte-nos mais, PLEASE

Ghile Arms

Anônimo disse...

Nagado, você também escreveu no raríssimo álbum de figurinhas Jaspion / Changeman / Flashman? Um com a capa azul e incrivelmente)nomes certos para todos os monstros da série? Esse álbum foi provavelmente distribuído igual ao do Jiraiya, limitadamente. Sei da existência deste álbum porque um amigo meu comprou-o em impecável estado de conservação de um coroa que só vende álbum completos por uma fortuna. Ele pagou 100 pratas, acho uma fortuna pra um álbum com fotos da Terebi.

Ale Nagado disse...

Não, esse eu não tive participação. Na verdade, não lembro desse álbum de capa azul... Saiu tanta coisa nessa época que é difícil conseguir listar tudo. Valeu pelo registro.

Abraço!

Anônimo disse...

Opa, Nagado. Aqui está um link com uma imagem desse album.

http://www.trocafigurinhas.com/album/1367/fabula/changeman-jaspion-flashman.html

Editora Fábula, 1995.
Extremamente bem-acabado e com fotos bem grandes, assim como figuras individuais dos monstros.
Parte do Flashman igual ao do album "Jaspion 2" de 1991, mas com ilustrações maiores para completar.
Distribuição limitada.

Ale Nagado disse...

Realmente, eu não me lembro desse álbum. Seria uma edição licenciada ou um dos muitos produtos lançados sem autorização?

Obrigado pelo registro.

JJ Marreiro disse...

Mais um texto fantástico desta vez com direito a viagem no tempo! Obrigado por partilhar essas pérolas com a turma, nagado!
Abração!

Igres Leandro disse...

Alexandre, parabéns pelo teu trabalho! Ele fez parte não só da minha infância mas da de muita gente. Lendo esse post, resgatei da memória o Disque Winspector e, realmente era isso. Eu liguei escondido e devo ter gastado uns trocados. Lembro que rolava uma coisa do tipo "Um incêndio na cidade. 1) você chama os bombeiros? 2) Chama o Winspector?". Obviamente eu escolhi a opção 2, haha. Até hoje tenho aqui muitas edições da Herói, e, bem antes deu saber o que era internet de fato, essa revista era a minha internet. Através dela a gente sabia o que tava rolando de novo, mais informações e curiosidades sobre as séries preferidas, tudo isso através da visão de vocês. Grande abraço!

Ale Nagado disse...

Igres, obrigado pelas suas palavras. Fico contente que tenha uma lembrança legal do meu trabalho. E espero que encontre mais assuntos que lhe interessem por aqui.

Valeu.
Abraço!