terça-feira, 12 de março de 2013

Clássicos do pop japonês: "Nada Sousou" - Lágrimas escorrendo

A História de uma canção vitoriosa que marcou as vidas de seus artistas Rimi Natsukawa, Ryoko Moriyama e BEGIN.

Rimi Natsukawa, uma das melhores cantoras do Japão
e incansável divulgadora da cultura da região de Okinawa.




"Nada sousou", com legendas em inglês. O vídeo adaptou o título para "Tearful", mas não é tradução oficial. 

No dialeto de Okinawa, a ensolarada região na parte sul do Japão, Nada Sousou [涙そうそう] significa "Lágrimas escorrendo". É o título de uma canção sentimental bastante conhecida não apenas na Terra do Sol Nascente, mas em vários outros países também. Os bastidores de sua trajetória revelam uma história inspiradora que entrelaçou as carreiras de duas cantoras de diferentes gerações com uma banda pop bastante diferenciada no cenário musical do país.  
Hitoshi, Eishô e Masaru, o BEGIN
O BEGIN é um trio formado em Okinawa pelos amigos Eishô Higa (voz solo e sanshin), Masaru Shimabukuro (guitarra, violão e vocais) e Hitoshi Uechi (piano e vocais) em 1989. Fazem um pop recheado de influências de música tradicional de Okinawa, bem como homenagens ao arquipélago. Uma de suas marcas é o uso do sanshin, instrumento tradicional okinawano com três cordas que é ancestral do shamisen. 

Com o BEGIN, o sanshin se harmoniza com piano e guitarra de modo único. Bons músicos e compositores, se tornaram famosos em Okinawa, e tiveram um grande hit nacional, a canção "Koishikute" bastante executada nas rádios do Japão e que chegou à quarta posição da parada semanal de vendas de singles em 1990. Mas fora esse momento, não eram muito conhecidos no resto do país. Parecia que isso nunca iria mudar. 

Em 1998, o trio assinou uma parceria com uma cantora e compositora veterana chamada Ryoko Moriyama, que fez grande sucesso nas décadas de 1960 e 70 cantando jazz e música folk
Ryoko Moriyama
Nascida em Tokyo em 1948, ela sempre teve muita ligação com Okinawa (que já havia homenageado musicalmente) e não imaginava o resultado da parceria com aqueles três jovens fãs de seu trabalho. Ela recebeu deles uma fita demo instrumental com o título "Nada sousou" e ficou de criar uma letra. 

O resultado, que adornou perfeitamente com a melodia, foi um poema sobre saudade e a tristeza de não poder se encontrar com alguém que se ama. A música teria sido feita em homenagem a seu irmão que havia falecido, uma pessoa que sempre lhe encorajava na vida e na carreira. 


Coragem era algo que sobrava em uma pequena garota okinawana chamada Rimi Kaneku, que estava decidida a ser cantora. Após vencer vários concursos desde criança, saiu de Okinawa, sua terra natal, e estreou em Tokyo como cantora enka (canção tradicional japonesa) em 1989 aos 16 anos, com o nome artístico de Misato Hoshi. Foram 3 anos de atividade com a gravadora Pony Canyon, mas sua carreira não decolou. Suas canções sequer apareciam no ranking Top 100 da Oricon. Frustrada, voltou para Okinawa e foi trabalhar como ajudante no restaurante da irmã mais velha. 

Em 1998, apareceu como assistente em um programa de rádio local. No ano seguinte, a gravadora Victor Entertainment resolveu apostar no talento da moça e ela novamente foi para Tokyo tentar a sorte. 
Rimi Natsukawa
Assinando como Rimi Natsukawa e caminhando mais para um J-pop suave, a nova empreitada também não estava dando certo, pois seu trabalho não estava vendendo bem. 

Apesar de ser considerada um grande talento vocal, ela não era compositora e a escolha de repertório não estava ajudando. Parecia que novamente - e desta vez definitivamente - o sonho de viver de arte estava fracassando. Enquanto isso, em Okinawa, a canção Nada Sousou era lançada sem alarde. Como single do BEGIN, vendeu cerca de 15 mil cópias em 2000 e atraiu alguma atenção, nada muito impactante. 


A música também entrou no álbum Time is lonely, de Ryoko Moriyama, não tendo sido sequer lançada como single na época. O álbum não fez muito sucesso. Já com certa idade, a cantora estava longe de seus momentos de glória, apesar de manter um público fiel e estar sempre com a agenda lotada de shows. Era o público mais jovem que não a conhecia. E naquela época, o futuro parecia incerto para Rimi Natsukawa. 


O single original de
"Nada Sousou":
Sucesso perene.
A nova tentativa de Rimi não estava vingando e ela estava quase se resignando a deixar o sonho de viver de música para trás. Ela ouviu Nada Sousou em uma apresentação do BEGIN em 2000 e ficou encantada com a música. Decidida, ela convenceu sua gravadora a conseguir os direitos para que ela regravasse a canção oficialmente.

O single foi lançado em 2001, começou a vender bem e foi subindo na parada de sucessos. Sem ser um sucesso imediato e passageiro (como acontece tanto no Japão), mas consistente e duradouro, chegou a mais de 600 mil cópias vendidas em 2002 e atingiu a 18a posição na parada de sucessos. Isso não parece muito, mas a canção ficou 80 semanas entre as mais tocadas, um feito impressionante. Ao final de três anos vendendo regularmente, já havia ultrapassado a marca de 1 milhão e 200 mil cópias vendidas. 

Lançada ao estrelato, ao invés de caminhar mais ainda rumo ao pop, fez questão de levar suas raízes okinawanas, fazendo releituras de músicas tradicionais. O ponto alto de seus shows, obviamente, era Nada Sousou, em uma versão emocionante tocada com sanshin.

- A arrepiante versão ao vivo, com Rimi tocando sanshin. (c/ tradução)


A obra-prima ganhou numerosas regravações, tornou-se uma canção cult e engordou substancialmente a conta bancária de seus compositores e de sua maior intérprete. Depois, a letra inspirou um drama para cinema homônimo em 2006 que fez carreira internacional. 

A música, é claro, entrou na trilha, bem como a delicada "Sanshin no Haná", do BEGIN, que depois do fenômeno com Nada Sousou se tornou muito mais conhecido em todo o Japão como eles nunca haviam sonhado. Em 2008, assinaram músicas para a série de animação Stitch!, baseada no grande sucesso Lilo e Stitch, da Disney. Em 2011, vieram ao Brasil se apresentar em São Paulo (SP) e depois foram conhecer Campo Grande (MS). 

Foto promocional do filme Nada Sousou,
um drama dos mais tristes e sentimentais.

E com tanta repercussão, Rimi Natsukawa finalmente se tornou uma estrela aclamada pelo público. Depois do sucesso, gravou com Kiroro, Kazufumi Miyazawa (The Boom) e regravou uma canção de ASKA, todos nomes respeitados no cenário musical japonês. Com seu prestígio indo além do país,  gravou até um dueto com o grande Andrea Boccelli, a canção "Somos novios". Nada sousou foi regravada diversas vezes (não só no Japão), tendo até uma célebre versão em inglês pela renomada cantora neozelandesa Hayley Westenra


Para Ryoko Moriyama, uma estrela que já podia ser considerada em final de carreira, representou um novo grande momento perante a mídia e uma nova geração de ouvintes. Ela até relançou sua versão original da música como um single separado e sentiu sua carreira ser renovada. Para o Begin, significou uma ampliação de seu reconhecimento para além de Okinawa. E para Rimi Natsukawa e aqueles que nela acreditaram, foi a recompensa por tanto esforço e paciência rumo a um sonho. 



Nada Sousou foi uma canção que tocou o coração de muitas pessoas e fez justiça a cinco grandes artistas. É uma das mais bonitas canções pop já criadas no Japão, e sua história envolvendo perseverança e sucesso é igualmente interessante.


::: E X T R A S :::


- A versão do BEGIN, em apresentação ao vivo:



- Uma versão ao vivo de Ryoko Moriyama, puxando mais para o estilo folk:



- O encontro de Rimi Natsukawa e as idols do grupo AKB48:



- Uma versão em inglês, com a neozelandesa Hayley Westenra, no evento World Games 2009, em Taiwan.




- Outra versão em inglês, dessa vez com o americano Eric Martin, da banda Mr. Big, que já gravou versões de diversas canções japonesas. Eric também integrou o TMG - Tak Matsumoto Group, projeto internacional do guitarrista e compositor da dupla B´z



- Uma reunião histórica, com Ryoko Moriyama, Rimi Natsukawa e BEGIN:




Sites oficiais: 


BEGIN --- www.begin1990.com

Rimi Natsukawa --- www.rimirimi.jp/free

Ryoko Moriyama --- www.ryoko-moriyama.jp


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7 comentários:

Victorio Anthony disse...

Essa música é realmente eterna, adora ouvi-la na Radio Nikkey aqui em São Paulo. Já fazia algum tempo que não a ousso e foi ótimo relembrar!

Ale Nagado disse...

Eu espero que muita gente descubra essa música e, com ela, se interesse mais pelo trabalho de Rimi Natsukawa, BEGIN e Ryoko Moriyama. São grandes artistas que sempre injetaram muito talento, sinceridade e sensibilidade à música japonesa, acima de qualquer rótulo de gênero.

Onçana disse...

Essa música é linda demais!
A primeira vez que eu a ouvi na Rádio Nikkey eu chorei feito criança, mesmo sem saber que a música falava de lágrimas. Olha ai a prova de quão geniais são os artistas que a compuseram, o seu conteúdo atravessa a barreira do idioma e transmite direitinho o sentimento pra quem está ouvindo!

Anônimo disse...

Oi Ale, materia impecável, vc. se ateve nos mínimos detalhes, que a maioria eu desconhecia, foi um banho de conhecimento. E esta musica é muito especial, ela me recorda a 1ª vez que fui p/Okinawa, porque em todos os lugares, só se ouvia Nadasousou. E, foi a 1ª musica que a Talitha (minha filhote) cantarolou em japones.

SUCESSO SEMPRE

bjus Cida Guenka

Ale Nagado disse...

Onçana, a música é realmente excepcional. Acredito que ela só tenha sido realmente apreciada e valorizada graças à interpretação hipnótica de Rimi Natsukawa, de longe a melhor cantora a entoar os versos de Nada Sousou. Não apenas a emoção passada pela voz é envolvente. Veja sua interpretação na versão ao vivo, sua postura e olhar. Ela nasceu pra cantar essa canção e deve ter enchido de orgulho os compositores quando a versão dela começou a se tornar um sucesso. Nem eles esperavam tanta repercussão no Japão, ainda mais que a música fosse ser conhecida em outros países. Uma história e tanto.

Abraço!

Jucel disse...

Olá!

Só algumas correções....

- Kazufumi Miyazawa não é um ex-THE BOOM, ele nunca saiu ou deixou na banda. A Banda lança discos, singles e dvds até hoje. O que acontece é que Miyazawa além de ter um trabalho solo, ele tb tem várious projetos paralelos, como a banda Ganga Zumba.

-É inegável o reconhecimento da banda BEGIN após Nada Sousou, mas falar que a banda não era conhecido no Japão é um exagero e tanto. A banda que já estava na ativa há 10 anos, com váarios disocs lançados sempre teve seus fãs fieis. Não estar nas listas dos mas vendidos ao lado de pops descartáveis não significa pior qualidade/trabalho de um artista com proposta de música que não visa as primieras colocações. Mais do que Nada Sousou a banda já tinha um hit do primeiro álbum deles, chamado Koishikute, que depois virou filme (que conta história da banda) e está sempre presente nas listas das músicas de amor do universo jpop.

Ale Nagado disse...

Prezado Jucel, obrigado pela mensagem.
Vamos por partes:

- Obrigado pelo toque quanto ao Miyazawa. Não sabia que The Boom ainda estava na ativa, erro meu. Considere corrigido.

- Sobre a segunda observação, talvez você não tenha entendido a intenção do meu texto. Em algum momento eu deprecio o BEGIN? Creio que não, mas receio que tenha entendido isso. Sei que qualidade e sucesso nem sempre andam juntos, e coloco o BEGIN num patamar acima dos que fazem pop descartável. Vender bem não atesta qualidade. Mas no caso deles, uma excelente música vendeu muito bem e isso valeu matéria.

Minha matéria exalta o talento e qualidade do BEGIN como autores. Você é um fã da banda e conhece sua trajetória muito melhor do que eu. Porém, todas as referências que achei sobre o BEGIN apontam que NADA SOUSOU é sua música mais famosa. E por causa do estouro de vendas da versão da Rimi Natsukawa. Muita gente no Japão descobriu músicas anteriores do BEGIN graças a NADA SOUSOU. Koishikute, por sucesso que tenha sido, não virou um clássico absoluto no j-pop. E não teve a repercussão internacional de NADA SOUSOU. Veja, além de evocar o talento da banda na matéria, eu cito o reconhecimento financeiro e popular que tiveram, que inegavelmente deu enorme impulso à carreira deles. Não sei se foi grande exagero ter afirmado que eles eram pouco conhecidos no resto do Japão. Talvez pouco conhecidos em relação à exposição midiática que tiveram depois de 2001. A maioria do público esqueceu deles depois do sucesso razoável de Koishikute.

Muitas canções fazem sucesso moderado, até vendem bem, mas não se tornam ícones. Até mesmo Suga Shikao, do primeiro escalão dos veteranos do J-pop, já cantou NADA SOUSOU, essa música está em outro patamar de popularidade.

Se Koishikute vendeu centenas de milhares de cópias, me avise, que eu até coloco referência na matéria. Eu não vi referências a isso. Por isso afirmo que NADA SOUSOU foi um marco na carreira deles. Talvez nem seja a composição mais inspirada do BEGIN, mas a matéria fala sobre reconhecimento popular, algo que todo artista almeja.

Espero ter sido claro.