Cada vez
mais obras teóricas sobre quadrinhos vêm sendo lançadas no Brasil nos últimos anos, abordando os
mais diversos segmentos da chamada nona arte. Do pioneiro livro Shazam! (Ed. Perspectiva, 1970) de Álvaro de Moya até hoje, dezenas de obras já foram publicadas.
O mangá, especificamente, foi o tema de um pioneiro e premiado trabalho da professora
Sonia Luyten, intitulado Mangá – O Poder dos
Quadrinhos Japoneses (Estação Liberdade, 1990 e Ed. Hedra, 2001). Apesar disso, pouca coisa foi feita no aqui em termos de pesquisa acadêmica sobre os quadrinhos japoneses, cada vez mais populares no mundo todo. Mesmo tendo sido o Brasil o primeiro país a mostrar produções locais influenciadas pelos mangás vindos do Japão, ainda na década de 1960.
Na bibliografia nacional, relativamente poucas obras se dedicaram a abordar o mangá e menos ainda a mencionar a importância do mangá nacional ou mesmo reconhecendo sua existência. Explorando a fundo o assunto graças a um público cada vez mais especializado,
é a vez do livro Desvendando o Mangá Nacional, de Amaro Braga, professor da
UFAL – Universidade Federal de Alagoas.
A obra
apresenta um estudo sobre as semelhanças e diferenças entre o mangá original e a
produção brasileira inspirada na linguagem visual ou narrativa dos quadrinhos
japoneses. A tarefa é difícil e a obra tem pontos fracos e fortes a destacar.
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Marco das HQs nacionais, Holy Avenger inspirou tese acadêmica |
Há
problemas na pesquisa que podem ensinar conceitos equivocados a quem não
conhece bem o tema apresentado. Como definir “otaku” como sendo o fanzineiro japonês (o que não
é, leia mais aqui) ou quando é explicado que a grande maioria dos mangás é transformada em desenho animado no Japão. Só os de maior aceitação popular
conseguem esse feito, ainda mais com os problemas de viabilidade econômica que vêm afetando o mercado dos animês. São deslizes que não comprometem o objeto principal do estudo, desde que visto por leitores iniciados.
Em certo ponto, a obra busca definir três categorias de mangá nacional. Uma seria o
“Moho Mangá” (ou "mangá mimético"), que tentaria reproduzir temas e estéticas
visuais e narrativas dos mangás originais. Identificando outra vertente, o autor define o “Kongo Mangá”
(ou "mangá híbrido"), que traria elementos estéticos ou temáticos sem reproduzí-los
fielmente, mesclando outras influências. Finalmente, existe, na visão de Amaro, o “Nikkei Mangá” (ou "mangá nativo"), que apresenta elementos dos
mangás originais e estabelece conexão tanto com a cultura brasileira quanto com
a japonesa. Faz sentido, mas a análise poderia ser ainda mais detalhada e recheada de exemplos, pois é o ponto mais interessante do livro. O autor usa também uma classificação de formas de narrar a passagem do tempo entre os quadros de uma HQ, exemplificada por Scott McCloud em sua obra Desvendando os Quadrinhos (M Books). A citação é preciosa, mas faz muito mais sentido quando o leitor conhece a obra original de McCloud.
O livro de Amaro Braga se detém em um estudo detalhado sobre Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, premiada série de mangá nacional considerada um marco no mercado editorial brasileiro. Chega a mostrar estatísticas até mesmo sobre o uso de onomatopeias em Holy Avenger e seus tipos, levantando números que mostram grande atenção aos detalhes.
Como acontece com muitas obras acadêmicas, é leitura específica para pesquisadores e teóricos. Poderia - e ainda pode - ser um livro essencial de referência, se uma cuidadosa revisão for feita para futuras reedições. Mas o grande mérito é levantar discussões pertinentes sobre identidade cultural, antropofagia, hibridismo e o desenvolvimento de um segmento importante dentro do universo dos quadrinhos nacionais. Por enquanto, há que se elogiar o esforço que gerou esse livro, mais uma obra a reforçar a importância do estudo sobre os quadrinhos no ambiente acadêmico. Não é pouca coisa.
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Desvendando o Mangá Nacional – Reprodução e hibridização nas histórias em quadrinhos
Autor: Amaro X. Braga Jr.
Editora: EDUFAL
Número de páginas: 231
Preço: R$ 30,00
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