quinta-feira, 28 de junho de 2012

Explicando cultura pop japonesa para leigos

Um pequeno glossário de termos e definições da cultura pop japonesa.
O universo da cultura pop japonesa é vasto e cada
vez mais hermético para quem não é familiarizado.
Todo fã de cultura pop, em maior ou menor grau, já se pegou tendo que explicar (ou justificar) seus hobbies pra algum parente ou colega que tenta entender essas "coisas de doido" que fazem tanto sucesso e lotam eventos grandes que vez por outra aparecem na mídia causando espanto. 

Primeiro, vamos lembrar que cultura pop é aquela vinda dos meios de comunicação, visando ser popular, dialogar com o maior número possível de pessoas. Mesmo que essa cultura se divida em nichos mais restritos, fechados e alternativos. Cultura pop é, por exemplo, quadrinhos, cinema de aventura, animação, música pop, rock, RPG, literatura fantástica, etc...

Se já é difícil pra um leitor de quadrinhos explicar coisas básicas como “história em quadrinhos não é só leitura pra crianças", acredito que um fã de cultura pop japonesa possa ter ainda mais dificuldades. Ainda mais que ela deixou de ser vista como algo mais forte entre descendentes de japoneses.
Não só o mangá, animê ou seriados, mas todo um universo de entretenimento vem sendo incorporado, muitas vezes com distorções. Pensando nisso, resolvi anotar, de modo meio descompromissado e conforme vinha na mente, como explicar alguns itens de cultura pop japonesa para pessoas ditas "normais" (aspas obrigatórias). É um glossário muito básico, mas que pode ser esclarecedor para algumas pessoas. 

Se você faz parte do público hardcore, que discute aspectos mais profundos de mangá e animê, também recomendo a leitura. Contextualizar sob uma ótica simples é algo que ajuda a difundir a informação. Olhar para fora do fandom, da blogosfera, é saudável e pode sempre trazer algum curioso que vai descobrir algo que lhe agrada. Leia com os olhos de alguém que não  acompanha esse mundo e veja se faz sentido. 
Cavaleiros do Zodíaco:
Sucesso do animê e mangá,
um marco dos desenhos
japoneses no Brasil
Animê (アニメ): A palavra define os desenhos animados japoneses e vem do inglês "animation". A maioria no Brasil fala “anime” (como paroxítona), reflexo de traduções equivocadas no passado. As duas formas podem ser aceitas, uma por ser mais correta e a outra, consagrada pelo uso popular. O importante é que animê não é só mangá adaptado pra desenho animado com garotinhas histéricas, olhos esbugalhados, violência desmedida e situações maliciosas. Há obras adultas, elaboradas e profundas. E obras infantis e infanto-juvenis repletas de poesia. 

Desenhos animados japoneses são conhecidos no Brasil desde o final dos anos 1960, mas viraram febre após os Cavaleiros do Zodíaco a partir da metade da década de 1990. 

Animê, como mangá, é uma fonte inesgotável de histórias. Existe o mais comercial, feito mais pra vender brinquedos, mas tem muita coisa autoral e um animê até já ganhou o Oscar, no caso "A Viagem de Chihiro", em 2003. 

Cosplay (コスプレ): Vem de “costume play”, ou roupa de brincar ou interpretar. Atrações em eventos, também são figuras recorrentes em reportagens na mídia, por seus visuais exóticos. É legal frisar que fazer cosplay não é só se fantasiar, é também interpretar o personagem. Os concursos de cosplay em geral vão além do desfile, exigindo uma performance onde o cosplayer deve encarnar bem seu personagem. Existe no Japão um campeonato mundial de cosplay, o World Cosplay Summit, que já foi vencido três vezes por duplas brasileiras.


Cosplayer japonesa representando
personagem da série I"s
Dorama (ドラマ): É como os japoneses falam “drama” referindo-se basicamente às novelas locais. No ocidente, é comum a imprensa se referir a essas novelas japonesas como J-Drama, mas os fãs costumam usar dorama mesmo. Geralmente têm histórias bem trágicas (é drama, né?), mas numa roupagem pop, com cantores e modelos famosos nos papéis principais. Há também espaço para humor, romances adocicados e fantasia. É comum que mangás de sucesso sejam adaptados para dramas, seja no formato de episódios televisivos ou em longas para cinema ou TV. Diferente das nossas extensas novelas, as japonesas são em geral curtas, com 10 ou 12 episódios, por exemplo. Cresce cada vez mais o público para o K-Drama, nada mais que a versão coreana desse tipo de entretenimento.

Entame Shousetsu (エンタメ小説): Tradução de "romance de entretenimento", é presença forte na cultura pop, com vários livros que deram origem a filmes, mangás e animês.
SCANDAL: Originalmente uma banda
de garagem, fazem pop, rock e
anisongs com igual desenvoltura.

Idol:
Termo bem específico da indústria de entretenimento nipônico. São artistas jovens, que cantam, dançam atuam, dublam, trabalham como modelos, apresentadoras e o que mais puder ser feito explorando sua imagem. São cultuadas pelos fãs como modelo de doçura. Geralmente seu biotipo envolve garotas de porte físico pequeno, bem ao gosto médio japonês e suas carreiras são regidas por pesados contratos de imagem e comportamento social. Uma idol não pode ter relacionamentos amorosos, deve passar sempre uma imagem de pureza intocada, como se fosse a namorada platônica de seus fãs. Há os idols masculinos também, mas a pressão sobre eles é menor (afinal, são homens em uma sociedade ainda machista como é a japonesa) e suas carreiras são mais longevas do que as das garotas. O mercado das idols caminha numa linha tênue de exploração sexual da imagem de adolescentes. 

Momoiro Clover Z: Um dos mais populares grupos idol. 
J-Music: Termo adotado no ocidente para definir a música japonesa, especialmente o mercado jovem. Inclui três segmentos básicos: o J-pop, o J-Rock e também as animesongs (ou anisongs) e derivados. 
* Anison, anisong, ou anime song: São as músicas temas de animês. Na verdade, o termo inclui também músicas de games e de produções live-action. As mais tradicionais são vibrantes, mas há espaço para todo tipo de música, desde que criada para uma trilha sonora. Existem artistas especializados nesse segmento, mas inúmeros nomes famosos da J-Music têm anisongs em seu repertório.  
Game song, ou gason: Como o nome diz, são as canções criadas especialmente para games.  
* J-Pop: A música pop japonesa, fortemente influenciada atualmente por batidas dançantes. Predominam grupos de meninas e meninos que cantam e dançam, mas tem também artistas de som mais maduro, baladas acústicas e muita diversidade sonora. O similar coreano, o K-Pop, está conquistando o mundo, por seu estilo mais universal. O J-pop foi definido assim na década de 1990, mas o pop japonês é bem mais antigo, sendo uma evolução natural da kayoukyoku, a canção popular japonesa que havia até então.  
* J-Rock: O rock pesado japonês, especialmente hard rock e heavy metal (e suas variantes). Grande parte segue a linha Visual Key (também chamada Visual Shock ou Visual Rock). Pesadas maquiagens, roupas exóticas, visual andrógino são marcas de muitos desses artistas. E isso não tem relação com a opção sexual dos artistas. Muitas garotas japonesas acham isso atraente. (E debater isso vai longe, então nem vou começar...) Caras e bocas de rebeldia são bem ensaiadas e os roqueiros mais tradicionais tendem a ver esses músicos como “posers”, ou seja, gente que posa de rebelde e radical só pra vender mais a determinado público. Mas o estilo é mais do que consagrado e repleto de grandes músicos. 
* Tokuson: Temas de seriados e filmes tokusatsu. (Ver definição no fim do post.)
Light novel (ライト・ノベル)/ Ranobe (ラノベ ): Tipo de romance juvenil editado em livros recheados de ilustrações, geralmente em estilo mangá e que raramente ultrapassam as 200 páginas, sendo muito apreciados pelo público adolescente. O formato, que muitos veem como um híbrido entre literatura e quadrinhos, já lançou sucessos que foram vertidos para animê e mangá. A palavra ranobe nada mais é do que uma abreviação japonesa para "raito noberu", a pronúncia de light novel vertida para o modo silábico japonês. 

Shonen Jump: Principal revista de
mangá do Japão, várias de suas
séries são conhecidas no Brasil
Mangá (漫画): São as histórias em quadrinhos japonesas ou as revistas que as publicam. Mangá não é só um tipo de gibi onde as pessoas são desenhadas com olhos grandes. Existem títulos para todas as idades, todos os gêneros e abordando os mais variados temas. Mangás sobre romances adolescentes, política, economia, esportes, culinária, música, super-heróis, mafiosos... qualquer assunto ou tema pode render um bom mangá. 

Os mais populares são os mangás shonen (para garotos) e shojo (para garotas), que chegam a vender milhões de exemplares no Japão, em gibis com 300, 400 páginas e várias séries reunidas. A maioria dos títulos são semanais, quinzenais ou mensais. Quase tudo em preto-e-branco, com apenas algumas páginas coloridas. As tiragens são de dezenas ou centenas de milhares de exemplares, com alguns almanaques batendo a casa dos milhões por semana. No Brasil, a publicação de mangás tem seguido o formato tankobon, que não as encadernações de séries específicas. 

Contrariando o que muita gente pensa, a maioria dos autores japoneses não desenha figuras de olhos grandes porque tem "complexo por terem olhos pequenos ou puxadinhos". Sem compromisso em retratar a realidade figurativa, os artistas de mangá buscam a expressividade e a emoção. E nem todos os desenhistas fazem olhos grandes. 
Uma ínfima amostra da diversidade de traços
existente no mundo do mangá
Além de um jeito de desenhar com similaridades entre muitos autores, mangá é também uma linguagem narrativa e um jeito mais cinematográfico de contar uma história. Sempre de um jeito envolvente, fazendo o leitor se identificar com os protagonistas e "entrar de cabeça" na história. Que nem sempre tem final feliz, como na vida real. 

Um mangá pode ser feito em qualquer país, em qualquer língua. No Japão o mercado é enorme e muita gente vive disso. Aqui não é assim, o que não quer dizer que não se possa tentar, sempre com os pés no chão. O Brasil tem uma tradição de desenhistas de mangá que vem desde a década de 1960.

Ah, e pra quem já ouviu a pergunta "Por quê japoneses leem de trás pra frente?", responda que a língua deles, derivada do chinês, é muito mais antiga que a nossa e tem esse padrão. É mais lógico dizer que somos nós que lemos de trás pra frente. 
Densha Otoko: Um dorama que mostrou um
caso de amor entre um desajustado fã de
animês e uma moça "normal". Melhorou
a percepção pública sobre os otaku.
Por um tempo, pelo menos.
Otaku (オタク)/ Otome (乙女): Otaku é um termo pejorativo usado no Japão para definir pessoas fechadas (e não raro, desleixadas, desarrumadas), que se dedicam a um hobby de modo obsessivo. O termo foi cunhado na década de 1980, para identificar esses fãs mais obcecados. Aqui virou um sinônimo de fã de mangá e animê e os fãs usam com orgulho, mas no Japão, além de não ser muito bem visto, o fanatismo pode ser por games, atrizes, bandas de rock, brinquedos ou qualquer outra coisa. 

Otaku é termo unissex, mas existiu no Japão uma tentativa de popularizar o termo otome (de “donzela”), para definir garotas otaku, a fim de afastar a imagem pejorativa e dar um ar elegante e delicado. Aqui no Brasil, não é raro encontrar fãs hardcore que se definem como otome. Existe um livro que explica de modo contundente como é o conceito original de otaku. Saiba mais aqui

Seiyuu (声優): Tradução direta de "dublador(a)", um seiyuu profissional torna-se uma celebridade, posando para fotos, apresentando programas de rádio e cantando trilhas sonoras para os animês e games onde colocam suas vozes. Muitas dubladoras têm o tratamento dado às idols, sendo artistas que povoam os sonhos de milhares de fãs, ainda mais quando fazem a voz de personagens de destaque. 

Ultraman e Kamen Rider, as mais antigas
franquias de super-heróis de tokusatsu.
Estão em produção até hoje.
.

Tokusatsu (特撮): São os filmes e seriados de efeitos especiais japoneses, quase sempre com super-heróis. O primeiro a ser reconhecido como tal foi Godzilla (ou Gojira), de 1954. O termo é a abreviação de "tokushuu satsuei gijutsu", ou "técnica de filmagem especial". Existem comunidades de fãs brasileiros que adoram Kamen Rider, Ultraman, Super Sentai e Metal Hero, as franquias mais populares, com produções em geral voltadas aos públicos infantil e infanto-juvenil. Também existem produções mais adultas, elaboradas e sofisticadas.

Visual novel (ビジュアルノベル): São jogos eletrônicos com foco no enredo. Funcionam como um livro interativo, onde a cada passagem, o jogador escolhe qual rumo ou caminho o personagem irá tomar. Esses "romances visuais" são extremamente populares no Japão e vários já deram origem a mangás e animês. 

(Atualizado em 05/ 06/ 2017)

11 comentários:

Manga Mania disse...

Excelente matéria com um bom teor explicativo parabéns !!! Todo fã de animê e mangá deveria ler está reportagem ^^

Alexandre Nagado disse...

Obrigado. A segmentação faz com que as pessoas se relacionem com quem respira os mesmos assuntos e isso cria uma comunicação interna hermética de tão especializada.

Acho pertinente olhar para fora do fandom, colocar as coisas no contexto e difundir a informação básica de modo acessível. É o que desfaz preconceitos e pode provocar simpatia.

Valeu a força.
Abração paa todos da Mangá Mania!

Erenildo エレニルド disse...

nossa demais essa reportagem, apesar de eu já saber de grande parte disso, só de conviver com pessoas, achei bem informativo todo iniciante ou mais experiente devia ler isso. XD

Anônimo disse...

FERNANDO

SIMPLESMENTE PERFEITO!!!!

VIRA E MEXE DESDE PEQUENO TENHO QUE EXPLICAR AS COISAS DA TERRA DO SOL NASCENTE PRA A MINHA IRMÃ E PIOR: O QUE EU FALO, ENTRA POR UM OVIDO E SAI PELO OUTRO E DEPOIS DE ALGUNS DIAS ELA VOLTA A FAZER AS MESMAS PERGUNTAS.... E ISSO TEM NO MINIMO UNS 25 ANOS QUE É ASSIM RSRSRS
E PIOR: COM OS SUPER - HRÓIS DOS EUA É A MESMA COISA. É HORRIVEL VER FILMES COM OS HERÓIS DA MARVEL E DA DC NO CINEMA COM ELA PQ ELA Ñ PARA DE FAZER PERGUNTAS
AFFFFFFFFFFFFF
E OLHA QUE AQUI EM CASA Ñ SOU EU QUE SONHA EM IR A FLORIDA PARA A DINEY...

Emanuelle Alvaia disse...

Excelente explicação, Alê! O mais engraçado é que ouço um sonoro "por que" quando alguém fica sabendo que eu já fiz curso de língua japonesa. Mas pq japonês?? Pq vc gosta daqueles desenhos de olhão? Enfim...

Ale Nagado disse...

Oi, Manu. Ah ah, é bem por aí mesmo, quem é de fora não entende nossos gostos. Claro que esse glossário que escrevi só funciona pra quem tenta entender que há um pano de fundo cultural. Pra quem só acha bizarro, vai continuar achando pelo resto da vida.

Abração!

Anônimo disse...

Quando eu era adolescente meu pai insinuava que os mangás eram coisa do demo porque eram lidos "de trás pra frente."

Ale Nagado disse...

Poxa, essa é nova pra mim. Mas ele não falava por mal, era fruto de muita desinformação.

E tem muita coisa que adultos podem achar legal, basta procurar.

Abraço!

Moka Akashiya disse...

A matéria está fixe e bem explicada, realmente a cultura pop japonesa muitas vezes faz parte de nossas vidas, e acho que todo mundo deveria assistir algum anime ou ler um mangá de vez em quando. Arigato :3 ^u^

Bruno Seidel disse...

Opa! Fiquei curioso pra saber quais foram as atualizações nesse post. lembro de ter lido ele na época (em 2012) e foi bastante esclarecedor em vários aspectos. Reli agora e confesso que não consegui perceber o que foi alterado (ou aprofundado).

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Fala, Bruno!!

Boa pergunta. Além de alguns ajustes no texto geral,troca de algumas imagens e maior detalhamento do tópico J-music, incluí os seguintes itens: Light Novel, Entame Shosetsu, Idol, Seiyuu e Visual Novel.

E pode ser que eu ainda acrescente mais coisas, conforme eu lembre ou sinta a necessidade.

Valeu! Abraço!