quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sobre o fenômeno AKB48 e sua presença na cultura pop japonesa

Conhecer a cultura pop japonesa atual passa por conhecer um pouco um fenômeno que invadiu a mídia de seu país. Confira:


A maior banda pop do mundo, segundo
o Guiness Book of Records
O AKB48 nasceu em Tóquio, no bairro de Akihabara (a "Meca" dos otaku), e é um grupo de música pop (J-pop, para o ocidente) criado em 2005 pelo produtor e letrista Yasushi Akimoto. Bastante respeitado nos meios musicais, ele já compôs até para a lendária Misora Hibari, musa da canção tradicional enka. Em seu ambicioso projeto pop, reuniu 48 cantoras-dançarinas (na verdade são mais, pois há sempre as "iniciantes" em treinamento), que têm se tornado presença constante na mídia japonesa. Aos poucos, suas músicas dançantes foram aparecendo nas paradas, quebrando recordes de vendagem e as meninas foram se tornando estrelas, fazendo da marca AKB48 sinônimo de sucesso e vasto merchandising. Basicamente um coral feminino sem grande potência ou técnica vocal, elas se fazem notar pelo visual e coreografias. 


"Kaze wa fuiteiru" (ou "O vento está soprando"),
grande sucesso do grupo em 2011. Uma boa canção.


O AKB48, análises musicais à parte, representa o ápice do pensamento marqueteiro na indústria pop japonesa. Entrou até para o Guiness Book of Records, como o conjunto musical pop com o maior número de integrantes. Se o público japonês tradicionalmente gosta de idols, por quê não juntar 48 delas em um só grupo? 

Aqui, vale registrar que o conceito de idol no Japão não é exatamente a tradução para "ídolo", vai além disso. Uma idol geralmente é uma atriz-modelo-cantora-dançarina (e algumas vezes também dubladora) que tem a imagem trabalhada para parecer uma eterna virgem sonhadora e etérea a causar suspiros nos pobres mortais. Seus fãs as cultuam como musas inalcançáveis, intocadas. Não por acaso, há uma enorme base de fãs que não é adolescente, mas sim formada por adultos solitários e obsessivos que se encaixam, de forma pejorativa, no estereótipo otaku (no sentido original do termo). Uma idol não tem direito a uma vida social ou opiniões sobre qualquer tema polêmico, sendo presa a contratos rígidos que ditam cada passo e cuidam de sua imagem. É o preço da fama e fortuna em tenra idade. 

Controladas por seus produtores, trabalham intensamente, pois lá a superexposição é regra e o sucesso de uma idol é passageiro. 


Dividir para conquistar
Separadas em vários subgrupos (Team A, Team B, DiVA, etc...) que lançam os singles separadamente e com algumas já em carreira solo paralela, as garotas do AKB48 têm uma agenda cuidadosamente calculada. Já apareceram em comerciais de TV, dramas (as novelas de lá), seriados, revistas, livros fotográficos e, é claro, shows e programas de TV. Algumas delas, como Atsuko Maeda (que já anunciou sua saída), Tomomi Itano e Sayaka Akimoto, já se tornaram celebridades individuais. 


As belas integrantes do conjunto são facilmente substituíveis (e algumas já foram mesmo) e oferecem a dose de sonho que o público médio japonês busca. São modelos de beleza e glamour para as meninas e sonho de consumo para os rapazes e senhores carentes de vida amorosa. Todas têm o biótipo de ninfeta de olhos arregalados e muitas já estamparam luxuosos livros com ensaios sensuais de biquíni e lingerie, incluindo as que são menores de idade (algo comum na mídia japonesa). O erotismo é uma arma bastante explorada pelo mercado musical no mundo todo e no Japão não é diferente. Mas o grande diferencial em relação ao ocidente é a suavidade e delicadeza com que é feita a exploração da imagem das cantoras.

Usando erotismo light para vender doces.
Já protagonizaram campanhas polêmicas, como um recente comercial de um doce veiculado na TV de seu país. O vídeo mostrava uma bala sendo passada de uma boca para outra entre um grupo de  meninas do AKB48. Lesbianismo soft para deixar marmanjos babando, o que não se imagina ser o público alvo de uma propaganda de doces. Os otakus também enlouqueceram com a campanha que convidava os fãs a "terem filhos virtuais" com as meninas. Mediante uma taxa e um cadastro, o interessado podia enviar sua foto, escolhia uma das meninas e o sistema gerava a foto de um bebê fictício mesclando traços dos dois. Meio doentio, pra dizer o mínimo.

Campanha da Shonen Sunday para seduzir
garotos - e senhores - virgens e sonhadores
.

A campanha mais recente, veiculada na revista 
Shonen Sunday, convida os fãs a experimentarem um beijo das garotas. Atrás de uma foto de uma integrante, um preparado aromático e um desenho de lábios prometem simular a sensação de beijar os lábios da garota sonhada. Imagine um coitado fechando os olhos e beijando uma folha de papel e terá a medida exata do que essas campanhas estimulam. Não é de se estranhar que essas meninas já tenham sido vítimas de perseguidores e fãs tarados. 

Elas são realmente bonitas, cuidadosamente selecionadas e algumas já mostraram potencial como atrizes, além de cantoras competentes. O som delas até que não compromete, pois a máquina de dinheiro que as movimenta contrata bons produtores e compositores, sem contar o próprio criador do grupo, ele mesmo um letrista que sabe falar ao coração do público. E sua fórmula "coral de modelinhos" está longe de se esgotar. Akimoto também produz os similares SKE48, SDN48, Nogizaka 46 e outros, indistinguíveis entre si para os não-iniciados. E o público vai atrás, comprando música mais pelo visual de quem canta. As AKBs são conhecidas em vários países e até já fizeram show nos EUA, tendo entre seus fãs as filhas do presidente dos EUA, Barack Obama

Com força total, invadiram a tradicional franquia Ultra, tomando conta do filme Ultraman Saga, lançado no Japão em março, ficando entre as 5 maiores bilheterias de seu país na estreia. 
As heroínas de AKB0048 e suas contrapartes reais.
Algumas vieram na verdade de bandas "irmãs",
gerenciadas pelo mesmo empresário.
Em abril, chegou a série em animê AKB0048, dirigida pelo renomado Shoji Kawamori, do clássico MacrossAlém do animê, as garotas são tema de 4 séries de mangá, nas revistas NakayoshiBessatsu FriendMagazine Special e Bessatsu Shonen Magazine. Os mangás têm como base os conceitos do animê, e chama a atenção o fato de que elas estão tanto em revistas para garotas quanto para rapazes. 


Na capa da Shonen Magazine,
ajudando a vender mangás.
Chega a ser assustador ver tanta influência e poder nas mãos de um único empresário, no caso, Atsushi Akimoto, um midas pop (quase um "empresário-cafetão") sem rivais atualmente. Grupos de idols (alguns repletos de muitas integrantes também) já apareceram às centenas no Japão, mas nunca um entrou tão forte na mídia, abraçando tanto o grande público quanto os nichos de consumo otaku. 

No caso do AKB48 e seus similares, a superexposição parece não incomodar, pois a fórmula permite rotatividade de integrantes. Enquanto houver um público ávido por idols, o estilo AKB48 continuará reinando. E com o mercado de entretenimento japonês passando por momento delicado devido à crise econômica atual, não é de se estranhar que elas estejam se tornando onipresentes na mídia. Até porque a falta de perspectivas e a insegurança geradas pela crise geram mais pessoas que buscam o sonho que essas meninas vendem, tão vazio e efêmero quanto elas próprias. 

Site oficial: www.akb48.co.jp 

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Leia também:
Idolatria e perseguição no mundo otaku 

8 comentários:

Bruno Seidel disse...

Se não me engano, "Kaze Fuiteru" é também o nome do tema de abertura do anime Street Fighter II Vicotry, não é??

Alexandre Nagado disse...

Sim, são títulos parecidos mesmo, mas não têm relação. O do AKB48 é "Kaze wa fuiteiru".

Robinson Oliveira disse...

Este, Atsushi Akimoto, é o homem do yen no Japão!
Vc sabe Nagado onde anda o Tetsuya Komuro? Continua preso por vender letras sem ter o direito?

Alexandre Nagado disse...

Parece que o Tetsuya Komuro negociou sua dívida e conseguiu sair da cadeia, já retomando as atividades musicais.

Taiana disse...

Olha, estou realmente chocada com essa matéria e com a outra sobre idolatria e perseguição no mundo otaku. É o lado sombrio, triste, vazio e solitário mesmo dessa indústria gigante.

Ale Nagado disse...

Oi, Taiana. Controle de empresários sobre artistas populares é algo que existe no mundo todo. Mas no Japão, o controle ultrapassou todos os limites do bom senso, criando gerações de cantoras parecidas e sem direito a terem uma personalidade ou posicionamentos na vida, apenas servindo como objetos de desejo. Do outro lado, há quem tenha coragem de romper com isso sem recorrer ao suicídio. É o caso da cantora Yui, que saiu do mainstream e voltou ao circuito alternativo por vontade própria. Perdeu espaço na mídia, mas segue livre e solta criando sua arte sem ninguém pra dizer como deve andar, o que deve dizer ou como se apresentar.

Abraço!

Victor Izidorio disse...

A linha de raciocínio do Akimoto Yasushi deveria ser estudada a fundo nas universidades de administração e/ou psiquiatria. Para o bem ou para o mal.

Ale Nagado disse...

Comentário brilhante, Victor. Penso o mesmo.

Abraço!