segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Menino Biônico - Um clássico de Osamu Tezuka

Jet Marte, o Menino Biônico
Uma versão alternativa criada pelo
próprio Osamu Tezuka sobre seu
clássico Astro Boy.
Mélki
No início da década de 1980, poucos animês eram exibidos no Brasil. Depois de uma onda na década de 1970, pouca coisa restava. Dividindo espaço na programação com Candy Candy e Sawamu - O Demolidor, a TV Record  era o palco das aventuras de um pequeno garoto cibernético chamado Jet Marte. O nome da série era O Menino Biônico, uma relativamente pouco conhecida criação de Osamu Tezuka, o pai do moderno  mangá e pioneiro dos seriados de animê para a televisão.

Com todo um senso de encantamento, drama e aventura infanto-juvenil típico dos anos 70 (época em que foi produzida), Jetter Mars foi uma aventura extremamente interessante exibida numa época em que os animês não gozavam da popularidade de hoje.



 O pequeno herói


Construído em 2015 (um futuro distante na época em que o desenho foi produzido) ele foi criado por um severo cientista chamado Prof. Yama (Yamanoue, no original). Defensor de seu país, o Japão, Jet Marte é um garoto-robô capaz de voar, dotado de grande força, resistência, coragem e um espírito curioso e emotivo. Sua melhor amiga é Milly, uma andróide com um profundo senso de justiça que lhe ensina muito sobre os valores sociais e humanos. Agindo também como um conselheiro, temos o criador de Milly, o professor Kawashita, que auxilia na educação do poderoso e ingênuo herói. Kawashita é um feroz antagonista do militarismo de Yama e os dois vivem às farpas, principalmente no tocante à educação de Marte.

Atendendo aos pedidos de seu pai, Marte enfrenta de criminosos comuns a supervilões que ameaçam a segurança do país. Mesmo com sua força descomunal, ele é incentivado a frequentar a escola normalmente, o que gera muitas situações divertidas, graças à sua extrema ingenuidade e impulsividade combinadas com seu poder.


A vida do pequeno guerreiro, porém, sofre uma reviravolta com a morte de Yama em um acidente, quando o veículo em que viajava é soterrado em um terremoto. Para ocupar seu lugar, surge um ainda mais severo e por vezes insensível diretor no instituto de ciências onde Marte vive. Antes de morrer, porém, o Professor Yama deixara pronto um irmãozinho para Marte: o travesso bebê-robô Mélki (Melch), que só sabe dizer "bakaruti" (sem tradução). Forte e obviamente desastrado, Mélki é uma atração à parte, engatinhando e causando estragos por onde passa.
Marte, Milly, Prof. Kawashita e Prof. Yama.
Máquinas com sentimentos
 
O seriado misturava ternura e humor com um tipo de drama e violência impensáveis para uma produção ocidental.

Em um antológico episódio, uma garota-robô espiã chamada Agnes aproxima-se de Marte a pedido de seu diabólico mestre. Ela, no entanto, apaixona-se pelo herói e trai seu criador, sendo destruída por ele. A cena da morte é de causar pesadelos: para libertar Marte, que estava cativo, ela caminha em chamas rumo ao controle que o libertaria. Morre puxando a alavanca que salva o herói. Tudo em câmera lenta e com um canto gregoriano ao fundo. No final do episódio, Marte olha para o céu, vê o rosto da menina e grita seu nome. Quando lidava com o tema da mortalidade, o desenho se apresentava muito poético, solene e sentimental, bem ao modo japonês.

Em outra aventura, Marte conhece o agente ciborgue Jam Bond, que o hostiliza quando ambos agem em conjunto. Tudo porque Bond, um humano com partes mecânicas, considerava-se superior a um robô como Marte. Quando foi duramente ferido em ação e sua parte humana foi destruída, o antigo ciborgue tornou-se 100% máquina e aprendeu uma dura lição de humildade.

Mesmo com pouca participação criativa de Osamu Tezuka, a obra seguia linhas de roteiro bastante fiéis ao conjunto de obra do autor, com um profundo respeito pela vida e muita valorização da solidariedade e humanismo.

Curiosidades
* Jet Marte é baseado na mais famosa criação de Tezuka, o Astro Boy (Tetsuwan Atom), seriado em animê de aventura pioneiro no Japão, que foi (e é) sucesso em vários países. Quando o Menino Biônico passou no Brasil, o Astro Boy ainda não havia sido exibido oficialmente aqui, o que fez muita gente que conhecia o personagem original confundir os dois.

* O título brasileiro foi provavelmente uma tentativa de capitalizar o sucesso das séries O Homem de Seis Milhões de Dólares e A Mulher Biônica, com seus heróis dotados de membros artificiais ou biônicos. Mas Marte era um robô, um conceito diferente.

* Co-produção do estúdio de Tezuka, o Mushi Pro, com a Toei Animation, a série do Menino Biônico não alcançou grande sucesso em seu país de origem. Mesmo assim, foi exibida também na Espanha, Itália e Chile, além do Brasil.

* O diretor-geral, Lin Taro (ou Rintaro, como é também conhecido) tornou-se um dos mais respeitados do Japão, com destaque para seu trabalho em Galaxy Express, de Leiji Matsumoto. Em 2000, Lin Taro uniu-se a Katsuhiro Otomo (de Akira) para levar às telas um antigo mangá de Tezuka, o drama futurista Metrópolis.

*
Mesmo sem merchandising oficial lançado no Brasil, Marte apareceu em embalagens de uma pipoquinha doce bastante popular anos depois da série ter sido exibida por aqui.

* O próprio Osamu Tezuka é retratado como coadjuvante em dois episódios.

Ficha técnica


Título original: Jetter Mars
Estréia no Japão: 03/02/1977 (TV Fuji)
Número de episódios: 27
Criação: Osamu Tezuka
Roteiro: Masaki Tsuji, Yoshitaki Suzuki e outros
Trilha sonora: Nobuyoshi Koshibe
Direção: Masami Hata, Susumu Kurokawa e outros
Direção geral: Lin Taro
Realização: Toei Animation e Mushi Productions
Emissora no Brasil: TV Record 


(Esta postagem eu escrevi originalmente para o portal Omelete em 2004, mas foi devidamente revisada e ampliada para publicação aqui no Sushi POP.)

7 comentários:

Mauricio disse...

Tenho saudades de muitos desenhos, mas esse é um caso especial. Tenho maravilhosas lembranças dele.
Será que é possível encontrá-lo por aí?

Alexandre Nagado disse...

Olá.

Talvez consiga encontrar algo com colecionadores ou distribuidores "alternativos". Até onde sei, não há nenhum vídeo licenciado oficial no Brasil. E se houver um dia, espero que tenham preservado a maravilhosa dublagem original.

Abraços!

Bruno Seidel disse...

Outra obra que parece ter tido forte influência de Tetsuwam Atom foi Cyborg 009, umas das principais criações de Shotaro Ishinomori. O fato de Ishinomori ter sido um dos mais ilustres discípulos de Tezuka justifica elementos como os jatos na sola dos pés do Jet Link (002), a estrutura física dos ciborgues e o próprio enredo do mangá em si. O curiso é que essa comparação só me chamou atenção quando li o livro Desenhando os Quadrinhos, do Scott McCloud, no qual ele chama atenção a esse aspecto.

Anônimo disse...

simplesmente um classico japones
muito bom
tezuka o eterno mestre

ass: fernando

hamleprimeiro disse...

Nossa Nagado, agora meu coração balançou. Eu adorava este desenho.
Lembro como fiquei arrasado neste episódio da Agnes.

E lembro da pipoca. Quando ia ao centro de Sampa com minha saudosa mãe sempre comprava a pipoca com O Menino Biônico em alguma banquinha do Parque D. Pedro.

Nossa. Que saudades.

Rafael Kaen disse...

Parece interessante esse desenho, tenho muita curiosidade de ver!

Alexandre Nagado disse...

Hamlet, somente obras feitas com intensidade conseguem despertar esse tipo de emoção. É realmente um clássico.

Rafael, se procura boas histórias, acho que irá gostar do Menino Biônico. Não segue fórmulas e a ação é muito dinâmica. Se encontrar, veja com atenção.

Abraços!