sábado, 7 de janeiro de 2012

Sobre a relevância do tokusatsu e seu lugar na cultura pop japonesa

Godzilla - Começo impactante que
foi sendo diluído com o passar dos anos.
Tokusatsu (leia “tokussatsu”) é a abreviação de "tokushuu kouka satsuei" - filmagem de efeitos especiais. Ou “defeitos especiais”, se a imagem que vem à sua mente é a de um monstro de borracha colocando abaixo uma Tóquio feita de maquetes de papelão e massa, tudo muito falso. Pra quem não sabe, a qualidade técnica evoluiu muito, ainda mais no cinema, mas não é sobre isso que falarei abaixo, e nem tampouco sobre a história dessa forma de entretenimento.

Hoje em dia, quando se fala em cultura pop japonesa (termo tão na moda), a maioria das pessoas se refere à combinação mangá, animê, games, cosplay, J-Drama (ou "dorama" para os aficionados) e J-Music (basicamente, J-pop, J-Rock e Animesongs). O tokusatsu tem ficado de fora da definição, mas ele sempre foi parte essencial da indústria pop japonesa. Nos últimos anos, o tokusatsu tem perdido esse espaço porque é, com poucas exceções, associado a programas infantis e cujo público formador de opinião (e que não seja meramente saudosista) é cada vez menor.


O tokusatsu não precisa ser sinônimo de programa infantil, apesar de ser na esmagadora maioria das vezes, numa proporção muito maior que o animê. Ressaltando que eu não acho que uma produção violenta automaticamente se torna “adulta” ou mesmo “juvenil”. Um produto mais adulto, do meu ponto de vista, tem mais a ver com uma visão de mundo mais elaborada e tratamento mais realista dos perfis psicológicos dos personagens. 


Ultras e Kamen Riders, duas das
maiores franquias do tokusatsu.
O excesso de variações sobre os
mesmos heróis tirou
credibilidade fora dos nichos
de fãs na medida
em que aumentavam os
catálogos de brinquedos.
Destacando que algumas produções japonesas anteriores já usaram efeitos especiais experimentais, o tokusatsu como o conhecemos nasceu em 1954 com o primeiro Godzilla e era um filme-catástrofe. Foi feito para assustar, provocar reflexões sobre o perigo nuclear e deixar a plateia boquiaberta com cenas espetaculares mesmo em um filme de baixo orçamento. Cortesia do diretor Ishiro Honda e do lendário técnico e diretor de efeitos especiais Eiji Tsuburaya, que criaria a primeira empresa especializada em efeitos, a Tsuburaya Pro. Além de prestar serviços sob demanda para produtoras, o estúdio desenvolveria os Ultras, a mais antiga franquia de super-heróis japoneses. Pra se ter uma ideia de sua qualidade na época, Eiji Tsuburaya fez filmes sobre a Segunda Guerra Mundial usando um trabalho de maquetes de navios e aviões e sobreposição de imagens tão sofisticado a ponto de enganar militares americanos das forças de ocupação. Ao descobrirem as películas, muitos acharam que estavam vendo cenas reais de documentários, e não imagens de efeitos especiais. Com o tempo, ele introduziu efeitos mais baratos - e muitos altamente eficientes - em produções televisivas, sendo considerado uma lenda em seu país. 

Com a ida do gênero para a TV (onde encontrou seu veículo ideal) e com o passar dos anos, tokusatsu virou praticamente sinônimo de vitrine de merchandising e divulgação de brinquedos. As fábricas de brinquedos, aliás, foram assumindo as rédeas do controle criativo, ditando rumos e obrigando o uso de cada vez mais veículos, robôs e sub-transformações ou formas alternativas de personagens. A história foi ficando em segundo plano em relação aos apetrechos colecionáveis que são mostrados.


Particularmente, e sem correr o risco de ser saudosista demais, gosto de recordar aquelas cenas e episódios de seriados que surpreenderam, que foram além das expectativas e forneceram elementos para serem lembrados por muito tempo. Os filmes e séries que marcaram época se destacaram por seu roteiro, direção e desenvolvimento de personagens. Independente desses personagens darem origem a bonequinhos ou não.


Gokaiger à frente do exército Super Sentai:
Com poucas exceções, a frequência
e megalomania dos crossovers privilegia o
"fan service" em detrimento da história e do
desenvolvimento de personagens.
No Brasil, as comunidades dos autoproclamados "tokufãs" (um neologismo que acho horroroso, mas que pegou) são, em sua maior parte, fã-clubes de Kamen Rider e Super Sentai, os maiores hits e também as linhagens que estão sempre atuais, sempre sendo renovadas ano após ano. Amontoados de clichês regurgitados com rostos novos, feitos com alguma competência e em linha de montagem. 

Guardando as devidas proporções, seria como alguém se dizer fã de música e só gostar do que lidera as paradas de sucesso ou do que está em evidência. Fãs de Ultraman geralmente são um grupo à parte. Comparando com música, são como fãs de Beatles

Tokusatsu não é um gênero. Ele é, como animê ou mangá, uma mídia, um veículo para contar histórias. Ou melhor, é uma ferramenta para ajudar a contar histórias de ficção e fantasia. Histórias que não existiriam sem esses efeitos especiais. Sejam mais artesanais ou sofisticados, os efeitos especiais têm que funcionar pela história e contribuir para sua atmosfera. Não sou entusiasta de tokusatsu em si (pois isso seria, ao pé da letra, gostar só do lado técnico dos filmes), e sim de boas histórias e boas aventuras. Se tem monstro, se tem golpe especial, império maligno, se tem pose de transformação, nada disso é mais importante do que uma história bem desenvolvida. Quando o tokusatsu serve ao propósito de contar histórias interessantes, alcança seu verdadeiro e original potencial. Os efeitos hoje são menos artesanais e mais digitais, mas o objetivo não mudou, que é se integrar ao enredo.

Na verdade, a garotada que só curte Rider, Sentai, alguns Metal Heroes (como Jaspion e Gavan) e até alguns Ultras, não é fã de tokusatsu, e sim fã de super-heróis em live-action, só não sabe como se definir. Uma definição que acho pertinente para esses personagens é "tokusatsu heroes". Ainda sobre isso, uma confusão muito comum é confundir tokusatsu com live-action. Live-action vem de "ação ao vivo", termo para diferenciar produções com atores de animações. Um drama, uma novela ou um filme comum são produções live-action desde que usem atores. Todo tokusatsu também é, obviamente um live-action. Mas nem todo live-action usa tokusatsu e as palavras não são sinônimas.

A versão live-action da Patrulha Estelar: Apesar
do uso ostensivo de efeitos especiais, a
aventura foi definida como um SFX movie
para não fazer ninguém pensar
que veria os personagens dando piruetas
e gritando nomes de golpes. 
Mas todo esse papo que descrevi aqui e seus problemas têm origem no Japão. O que vemos entre os fãs daqui é apenas um reflexo ainda mais distorcido do que ocorre lá. Com poucas e honrosas exceções, tokusatsu é mesmo sinônimo de programa infantil que é vitrine de brinquedos. Lições de moral, de coragem (e etc, etc...) são hoje em dia mera desculpa pra dourar a pílula, sem falar que isso só é relevante se assumirmos que o veículo (no caso, o tokusatsu) é somente voltado para crianças e jovens em fase de formação de personalidade.

O "gênero" ficou tão estigmatizado que produções sofisticadas carregadas de efeitos especiais (como o live-action da Patrulha Estelar) são chamadas de SFX (Special Effects) Movies, um termo internacional e mais respeitado do que tokusatsu. 

O tokusatsu começou mais abrangente e universal, mas hoje, fora esporádicas produções para jovens adultos como GARO (do renomado diretor Keita Amemiya), pouca coisa se faz para merecer nota fora do nicho de tokufãs. Mas esses são meros consumidores. Cabe aos produtores, roteiristas e diretores recuperar o espaço perdido para que o tokusatsu seja sempre lembrado - e respeitado - como um dos pilares da cultura pop japonesa. 

12 comentários:

Tati Santana disse...

Meu caríssimo Alexandre,

Tenho que reverenciá-lo mais uma vez por tão belo texto, tão bem elaborado em sua estrutura temática. Podemos dizer que você, realmente, foi ao ponto certo!

Porém, suas palavras certeiras poderá desapontar alguns "tokufãs" que se encontram nessa "beirada" dessa linha tênue que os separa da admiração pelo tema vivenciado dos fatos apresentados! Aliás,qualquer passo em falso e a queda poderá machucar e muito... (espero que tenha compreendido a metáfora empregada neste momento).

Mas, por sorte, encontro-me em um estágio, que não diria simplório, mas de construção e ressignificação dos meus sentimentos dentro da perspectiva de tokufã, que a cada dia que passa tenho a seguinte certeza: "só sei que nada sei" (como diria o grande filósofo Sócrates).

Alexandre, se você me permite, gostaria de mais uma vez agradecer-lhe por tua contribuição de forma clara, direta, pertinente (pois sempre se reporta aos fatos) e necessária!

Obrigada pelo texto!
Abraços,

Tati

The Metalhero disse...

Ótimo texto, doa a quem doer, o tokusatsu vive mais das coisas feitas para crianças.

Mas gostamos mesmo assim, embora se mais séries como Garo aparecessem, com roteiro e temática mais elaborada, certamente seria bom.

Takeshi Ishii disse...

Sempre chamei tokusatsu de 'gênero', mesmo depois de descobrir que o termo não é o correto, aliás dentro de anime, mangá ou qualquer outra mídia existem diversos gêneros (ação, aventura, drama, etc).

Considero que no Brasil em especial o tokusatsu foi o principal veículo da difusão da cultura pop japonesa. Só depois dele vieram no embalo: animes, mangás, doramas e jmusic...

Sei que não é bem isso, mas acho que foi Jaspion e .cia que abriram caminho para tudo o que veio depois. Tudo bem que tivemos Ultraman, Super Dínamo, Speedy Racer antes, mas foi a turma da década de 80 que abriu os olhos para o Japão Pop que conhecemos hoje no Brasil. Claro que tem o fator internet também...

Alexandre Nagado disse...

Tati, obrigado por respeitar e incentivar este blog. Escrevi algumas coisas indigestas, mas que são análises que faço como alguém que acompanha esse universo há anos. Espero ter contribuído para uma visão mais ampla sobre o tema.

E deixando claro: Adoro Ultras e gosto de vários Kamen Riders, Sentai e Metal Heroes, além de vários kaiju eiga (filmes de monstro), como Godzilla, Gamera e outros.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Caro "Metalhero", o tokusatsu se restringiu ao gênero super-heróis (e suas franquias) e muito pouco se faz fora disso, daí a queda de credibilidade e sua exclusão quando se fala em cultura pop japonesa hoje em dia.

É uma análise meio dura, mas realista.

Abraço!

Alexandre Nagado disse...

Takeshi, você tem razão. Na verdade, eu considero a combinação da "geração Jaspion e Changeman" com a "geração Cavaleiros" o grande motor que impulsionou a cultura pop japonesa no Brasil. Mas Jaspion e Changeman abriram o caminho para a grande invasão de séries japonesas e também difundiram fortemente as anisongs, pois a molecada vibrava com as músicas das séries, algo que não se conhecia no Brasil.

Abraço!

hamleprimeiro@gmail.com disse...

Feliz Ano Novo, Nagado,

Artigo muito interessante. Eu cresci com Ultraman, Spectroman(será que escrevi certo?) e Ultraseven (que era meu preferido, na época me parecia uma FC mais séria), mas graças ao infeliz fenômeno Powers Rangers perdemos acesso direto a essas produções. Bom, pelo menos aos Super Sentais, então realmente não posso opinar a respeito da qualidade delas hoje em dia.
É curioso que filmes assumam o termo SFX movies para serem levados a sério porque, mesmo na Meca destas produções (os EUA), este tipo de produção nunca foi muito prestigiada. Mesmo clássicos da FC como O Dia Em Que A Terra Parou (o orginal), Planeta Proíbido, O Incrível Homem Que Encolheu, só para citar alguns, eram produções tachadas de classe B.Mesmo hoje filmes de FC, Fantasia ou Super-heróis(que por sua própria natureza são SFX movies), não tem tanto prestígio como os filmes "sérios".Basta ver como O Cavaleiro das Trevas foi solenemente ignorado no Oscar.
Em certo sentido, produções com elementos fantásticos(independente da densidade de sua trama e personagens) sempre foram consideradas "coisas de criança"

superd7br disse...

Bom, Nagado, não nego que gosto de super-heróis em geral, portanto nada tenho a opor quanto ao seu post. Mas quando se trata de animes sou bem mais eclético!

Bruno Seidel disse...

Eu concordo que o que torna uma produção "memorável" para os fãs é, impreterivelmente, uma boa história, surpreendente e marcante. Não podemos desmerecer, no entanto, que os elementos que caracterizam as produções clássicas de Tokusatsu são justamente aqueles clichês básicos (e até manjados, de certa forma), como o herói fazendo pose com o monstro explodindo ao fundo, golpes fatais, vilões canastrões... são esses xavões que eu, particularmente, mais aprecio nas séries clássicas. Mas também não fecho a cara pras novas produções, que costumam ser muito criticadas por fãs saudosistas. Acho que tudo faz parte de uma "evolução" (perde-se em alguns aspectos, ganha-se em outros). Inclusive, até demonstro uma enorme força de vontade em me manter tolerante e flexível com relação às novas séries. Isso porque eu quero continuar acompanhando os gêneros (e aqui sim eu falo de Riders, Sentais e Ultras) do Tokusatsu até o fim da vida. Faço o possível pra aceitar as mudanças desse universo com bons olhos e estar sempre ligado nas novidades. Tenho medo de virar mais um desses fãs ranzinzas que vivem resmungando que "no meu tempo era tudo melhor do que essas porcarias que surgem hoje". Mas, como todo fã, eu tenho minhas peculiaridades, minhas manias e minhas esquisitices à parte. Acho que cada um de nós tem um pouco disso, né? :P

Rafael Kaen disse...

Eu chamo as séries Sentais e etc de tokusatsu pois não sabia e também resumir um pouco, tem coisa que é difícil e demorado de explicar! hahaha
Mas eu gosto mais dessas séries do que dos animes!

Pedro disse...

Doa a quem doer, mas, tambem, concordo ocm o que foi dito. Infelizmente é umgêero com menos gente com destaque na mídia , mas que acabou sendo estigmatizado e deixado de lado. Essa é a verdade.
Isso memelmbra quequando comecei a frequentar uma comunidade de "fãs de tokusatsu" acabei sendo estigmatizado pro oclegas por demonstrar certo entusiasmo com o gênero e, ao mesmo tempo, ninguém queria ouvir porque gostava das produçõs.

A única coisa com as quais me recebiam eram críticas e , geralmente, uma desaproação geral. Chegando À beira do rídiculo com uma colega cantando músicas do seriado para tirar sarro pelço fato de ter comprado , aos meus 15 anos um bonceo em PVC de algum Rider.

Ao mesmo tempo que de certo modo essam inah colea era intolerante com a mera manifestação de que alguém poderia achar tais séries interessantes.

Anônimo disse...

Olá Nagado! Já havia lido esta postagem antes, mas acabei topando com ela hoje novamente e o que disse é a verdade! Triste, mas verdade!
Achei bem audaciosa a comparação de fã de Ultra com fã de Beatles! Hehehe
eu sei que não é direta, só uma forma mais impactante de passar a idéia.
Estes tempos assisti a série Mighty Jack da Tsuburaya e fiquei impressionado com o roteiro! Ela não chegou a ser exibida aqui? Eu sei que em outros países latinos ela é conhecida como Los Magníficos Justiceiros (aproveitando a sigla MJ). Esta aí um tokusatsu sem um heróis fantasiado cheio de poderes que é bem legal.
Acho que os tokusatsu estão fadados a quase extinção, visto a qualidade infeliz da grande parte das produções e o interesse avassalador nos animes.
Seria interessantes cessarem as produções até terem algo interessante com bom roteiro e por que não character design decente. Mas fazer o que se o comércio precisa faturar com os produtos derivados?!
Poderia escrever mais coisas, mas vou encerrar por aqui.
continue com este ótimo trabalho!
Abraço!

Vinicius