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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sobre a nova lei do quadrinho nacional

Turma da Mônica Jovem (Panini):
O maior sucesso em bancas
é nacional. Mas uma
andorinha (no caso, o Estúdio
MSP) não faz verão.
O final do ano passado viu esquentar um debate entre pessoas ligadas aos quadrinhos no Brasil sobre um projeto de lei para a área. Esse projeto, se aprovado, visa impor gradualmente às editoras que publicam quadrinhos uma cota mínima de trabalhos nacionais entre suas publicações. A discussão dividiu a área.
Eu me coloco contrário às cotas, mas sei muito bem que o mercado está péssimo, nem de longe esse mar de flores que alguns contam e outros acreditam. Mas encontro, entre os de mesma opinião, justificativas com as quais discordo totalmente.
Tem gente da área que insiste em dizer que o mercado está ótimo porque tivemos centenas de lançamentos nacionais em 2011. Sim, mas não foram poucos os trabalhos em que os autores tiveram que bancar a impressão do próprio bolso e mal puderam arcar com os custos. Fora álbuns luxuosos, caros, que venderam pouco (mesmo repercutindo bem entre aficionados) e deram pouco dinheiro a seus autores. Debatendo com jornalistas da área via Twitter, bati forte na tecla de que o mercado de publicações está bom (teoricamente, pois não acredito em sobrevida a médio e longo prazo sem retorno financeiro), mas não o mercado de trabalho
Elogio não paga conta e muita gente que diz que o mercado está bom não vive dele e tem a visão do leitor privilegiado com acesso a quase tudo que sai. O que eu sei é que o mercado não está bom como atividade profissional para a maioria que faz HQ e defendo que uma forma boa do governo ajudar (e o governo sempre interfere, afinal pagamos impostos direta e indiretamente) é através de incentivos fiscais, conforme declarei. 
Bakuman (Ed. JBC): Um mangá
sobre o sonho de fazer fama e
fortuna com quadrinhos. A
trama se passa no
Japão, um país com real
mercado de trabalho na área. 
Vi em alguns sites e blogs argumentos xenófobos e partidários ao lado de discursos de gente que acha que o universo se resume a seu umbigo, gente que já vê com naturalidade que HQ não dá dinheiro (ops, alguém lembrou do Mauricio de Sousa?), gente que acha que vender dois mil exemplares e ganhar 500 reais por um trabalho que tomou um ano de produção é sucesso (desde que a pessoa tenha ganho resenhas elogiosas e algum prêmio) e muita, mas muita falta de senso de realidade. Não basta "sentar a bunda na prancheta e trabalhar duro ao invés de choramingar", argumento fácil de quem olha de longe a situação e não enxerga as enormes barreiras a serem enfrentadas para que um trabalho chegue ao leitor e gere renda. Ou é frase de quadrinhistas que fazem HQ por amor à arte, sem grandes preocupações financeiras atreladas. E que fique claro: Eu não tenho nada contra quem faz HQ por idealismo. Vira e mexe, fico esboçando algo que gostaria de fazer, sem me preocupar se dará retorno ou não. Mas eu não confundo algo assim com uma situação de mercado. 
Também li muita coisa sem respaldo nenhum, como gente dizendo que HQ em banca morreu. Mas os mangás não vendem em banca? E a Turma da Mônica? A discussão é interminável e uma das maravilhas da internet, que é a democracia e liberdade de opinião, coloca num mesmo patamar opiniões embasadas e ponderadas ao lado de outras nem tanto, especialmente na área de comentários dos leitores (nos quais vários profissionais se envolveram profundamente).
No site Papo de Quadrinho, o jornalista Jota Silvestre reuniu vários depoimentos de gente da área sobre o assunto, dividindo entre os favoráveis às cotas, os contrários e aqueles que defendem “em termos”. Veja aqui: 

(Além da descrição do projeto de lei, tem as opiniões de gente da área, como JAL, Spacca, José Aguiar, Franco de Rosa, Daniel Esteves, Laudo Ferreira, Marcio Baraldi, Bira Dantas, Gabriel Bá, Mario Cau, JJ Marreiro e muitos outros, além deste que vos escreve.)
Eis aqui o meu depoimento publicado no Papo de Quadrinho:
Sou contra todo tipo de cota por não aceitar medidas arbitrárias em detrimento de qualidade e livre escolha. Mas também por uma questão prática. Você até pode obrigar uma editora a publicar autores nacionais, mas não pode obrigar o leitor a comprar. É o gibi mensal, de banca (e não álbum de livraria), o que realmente faz mercado de trabalho. Para produzir mensalmente, tem que ganhar dignamente pra isso, porque publicar de graça (ou por royalties esparsos e tímidos) não faz um bom mercado de trabalho. Mas a ideia de cotas tem uma intenção boa, que é a de criar condições para que quadrinhistas vivam de sua arte dignamente, como qualquer categoria profissional deveria poder almejar.

Temos muitos álbuns nacionais sendo editados, mas isso só seria sinal de mercado bom se os autores estivessem ganhando valores justos. Profusão de títulos só é sinal de mercado bom para editores, críticos de HQ e para quadrinhistas que tiram seu sustento de outras fontes, fazendo seus quadrinhos por amor à arte e satisfação pessoal, sem maiores preocupações com retorno financeiro. Ou seja, o mercado de publicações está bom, mas o de trabalho com HQs, não. 

Ao invés de cotas, proponho uma luta por incentivos fiscais para ajudar a parte gráfica e de distribuição. Isso poderia tornar os quadrinhos mais acessíveis (tiragens maiores e preços de capa menores) e minimizar riscos para as editoras, além de permitir melhor remuneração aos profissionais.  Aos que acham o fim do mundo apelar ao governo por incentivos fiscais, devo lembrar que o governo sempre interfere, na forma de impostos e taxas. Uma interferência positiva e que permitisse ampliar um mercado de trabalho não seria má ideia.

Lutar na frente tributária pode ser mais difícil, mas potencialmente mais benéfico a uma área cuja existência como atividade profissional é controversa até entre seus conhecedores.

*******************
De qualquer forma, o debate sobre o assunto é saudável ao mercado. Sou um dos que bate há muito tempo no assunto remuneração justa e que HQ deve ser vista e respeitada como atividade profissional, com tudo que isso acarreta. Aos poucos, tenho visto muitas ideias que sempre defendi ganharem apoiadores. Curiosamente, em ambos os lados da questão. O debate prossegue. 

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5 comentários:

MMC disse...

Criar uma obra longa e mensal sem emular porcamente os comix e manga exige trabalho, planejamento e tempo. Não sei se as editoras terão paciência e se os nossos autores serão capazes de aguentar o ritmo. Minha opinião é que sou favor da cota mas tendo um prazo para as editoras se adaptarem.

Alexandre Nagado disse...

Então, o projeto de lei prevê cotas progressivas, para as editoras se adaptarem. Ainda assim, acho a obrigação problemática.

Porém, com preços de página justos, será mais fácil atrair autores competentes. É a regularidade e quantidade que forjarão qualidade duradoura. Nos EUA e Japão, muita coisa ruim e mediana é publicada. Não só os gênios ou os melhores vivem de sua arte. Num mercado sadio, autores medianos têm seu espaço e, modestamente, vão vivendo de sua arte.

É o que eu espero ver um dia aqui. E é isso que incentivos fiscais podem ajudar a concretizar a longo prazo.

Abraço!

wesley chaves disse...

muito bom o post NAGADO, vender 2 mil exemplares, ganhar premios e elogios em sites especializados não significam nada se o autor não tiver o retorno merecido, tendo seu trabalho reconhecido por boa parte dos leitores de HQ e conseguir se estabilizar na profissão, hq pra livraria não populariza nada, o coração dos quadrinhos esta na banca, consiga realizar uma HQ de qualidade e publica-la em todo o BRASIL ai o autor tera a resposta a seu trabalho de forma benefica, e se o governo quer ajuda em algo que seja na distribuiçao em todo o BRASIL de boas HQS com preço justo e alcance a todas as classes.

Alexandre Nagado disse...

Sim, nestes tempos de redes sociais e seus popstars, tudo ficou meio relativo. Mas contas são dados práticos, pés no chão.

Se você é uma astro em um mercado fantástico, e sua feito um doido pra manter contas em dia, algo está meio nebuloso.

Monstrolândia disse...

Nagado, faço coro ao seu depoimento e posição.