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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Garimpando músicas antes da internet


Por volta do final da década de 1980, encontrar músicas japonesas fora do circuito então bastante fechado da colônia japonesa, era tarefa difícil. Com a predominância do tradicional som enka entre os imigrantes e seus descendentes na época, música pop era bem difícil de se conseguir. Temas de desenhos e seriados (as anime songs ou anisongs), então, era algo quase impossível. 

Naquela época, comecei a frequentar algumas exibições de vídeo que aconteciam na escola de desenho Graphis, por conta de um grupo chamado Orcade (Organização Cultural de Animação e Desenho). Foi lá que comprei de alguns colecionadores minhas primeiras fitas cassete com músicas de animê. A maioria dessas trilhas sonoras era de produções desconhecidas para mim na época. Mas eu gostava da sonoridade (mesmo sem entender) e comprei algumas fitas.

Com o tempo, comecei a trocar material com outros colecionadores. Às vezes, era cópia de algum LP (os hoje raros e reverenciados “bolachões”) que algum parente do colecionador tinha comprado no Japão, cópia de outra fita cassete ou raramente, cópia de algum CD, lembrando que essa mídia digital começou a se espalhar somente na segunda metade da década de 1980. E eu ainda conseguia algumas coisas de um modo bastante pitoresco.

Eu tinha um velho toca-fitas que tinha um plugue que, além de ligar em vitrolas, por sorte era do tamanho da entrada de fone de ouvido que havia na TV da minha casa. Ou seja, eu conseguia gravar em fita cassete o áudio da TV. Daí eu fazia uma operação rocambolesca: alugava fitas VHS japonesas (duramente procuradas) na locadora da Casa Ono de Pinheiros (bairro da zona oeste de SP, capital, onde eu morava). Depois de plugar (hoje diríamos "conectar") os aparelhos, dava “pause” na fita quando chegava no ponto em que eu queria começar a gravar e depois clicava no “rec” do toca-fitas. Depois, tinha que dar "play" ao mesmo tempo no videocassete. E ficava atento para dar "pause" no momento exato, pra gravação cortar no ponto certo. Tudo analógico e com algum chiado, claro, mas era assim que eu gravava temas de abertura. Lembro como eu ficava contente conseguindo esse tipo de material. Depois, ainda ficava criando minhas próprias “playlists” copiando as fitas para outras.

Somente na metade da década de 1990 eu me habituaria a comprar CDs originais japoneses, que eu comprava na loja de importados Haikai, que existe até hoje no bairro da Liberdade (e faria coletâneas melhores em cassete, muito antes dos gravadores de CD). Quem só ouve música que baixa de graça na web e se entedia rápido com o que tem, jamais saberá a sensação que tínhamos naquela época de garimpar raridades. Não que fosse melhor. Era diferente, muito mais limitado, demorado e bastante ingênuo.

Quem pegou a época de ficar pausando fita no ponto pra começar a gravar e ficar torcendo pra música caber quando ia chegando no final, sabe a sensação que só posso descrever aqui. Não tenho saudades, mas é extremamente divertido relembrar essas coisas com quem viveu a época. Enfim, outro dia, logo depois que escrevi a postagem Garimpando raridades, fiquei com vontade de comentar essa passagem divertida da época em que eu tentava colecionar as coisas que gostava numa época sem internet e sem acesso à informação de modo fácil.

7 comentários:

fmass disse...

hehehe..eu fazia exatamente isso que vc escreveu, Nagado.
E tinha uma fita k7 igualzinho da imagem, com musicas j-pop gravadas que ouvia no meu "poderoso" walkman da Aiwa que havia ganhado de meus tios do Japao.
A coleçao de fitas tenho até hj, mas o walkman já foi p/ saco.

Michel disse...

Não poderia deixar de comentar em mais uma postagem interessantíssima! Só quem viveu a época, sabe da dureza de ficar armazenando músicas em fitas K-7. Na metade da década de 90, meu irmão alugava CDs de anime songs na Haicai, e as copiava para as fitas da BASF (T-90). Tinha que ficar ali, no cronômetro, pra ver se todas as músicas iam caber, e quantas em cada lado. Ele gravava e eu escrevia o nome das trilhas em japonês. E como era chato ficar procurando o ponto certo de determinada música. No fim das contas, tinha que ouvir a maioria.
Ah, e o meu irmão também já fez isso, de capturar o áudio da TV em cassete. Lembro que ele tinha gravado o "Quando brilha a estrela de Ultra" na fita, em 1986, acho, mas não sei se foi inteiro ou só um pedaço. Inteiro mesmo, lembro que ele tinha gravado o desenho Transformers O Filme. Coisa de doido!
Ah, e não posso me esquecer de outro uso das fitas cassete, que era para gravar jogos e aplicativos de computador (tipo MSX, TK85, CP200, Amiga...etc). Tem gente que não acredita nisso! E dureza era esperar uns 5 ou 6 minutos pelo LOAD... e perceber que falhou! Acho que um dia, vou contar essas histótias do MSX lá no meu blog!

Alexandre Nagado disse...

Michel, você lembra do MSX! Eu nunca tive um, mas trabalhei em campanhas de produtos ligados. Uma inclusive, era de 1989 e anunciava o "inovador" (pra época) kit MSX 2.0, que permitia ao micro mostrar 512 cores. Daí, saiu um PC com 10 mil cores e acabou tudo. Sei que no Japão o MSX teve grande sobrevida, mas nunca entendi isso. Seria legal você contar sobre isso lá no Universo Otaku.

Abraços!

Michel disse...

Se eu lembro? Eu ainda tenho um aqui no Japão, por pura nostalgia. Ah, só uma curiosidade sobre a conversão para o MSX 2.0, no ano seguinte, em 1990, foi lançado o kit MSX 2.0 Plus, que tinha uma paleta de 19268 cores! Foi o que o meu irmão optou. E muitos jogos do MSX 2 sofriam uma modificação, por causa dessas cores a mais. O MSX sobreviveu até 1995! Acho que vou escrever sim, uma postagem sobre MSX, inclusive, vou utilizar um e-mail que eu tinha lhe enviado em abril de 2005.

Cris Li disse...

Ótimo texto!Ótimo texto!

Eu relembrei a tensão de ver a fita chegando ao final seguida do alívio de ver que coube direitinho naquele pedacinho precioso de fita que tinha sobrado.
Garimpar era difícil, mas muito divertido. Uma aventura.

João Aranha disse...

Muito bom o texto, agado. Lembro de quando eu pegava as VHS, colocava pra rodar, mas como o aparelho de K7 aqui não tinha esse cabo como o seu, eu usava um pequeno gravador (que tenho até hoje funcionando), colocava do lado da saída de audio da TV e gravava desse jeito que falou.

Vejo muita gente que fala que é coisa de velho, que agora tudo é fácil, mas você disse algo que é o modo que me sinto quanto a esses tempos: que qualquer música que conseguíamos tinha uma sensação diferente, muito melhor do que hoje, que em alguns cliquem do mouse, conseguimos as mp3 e jogamos fora como nada.

E, claro, a playlist tá muito boa, e até umas duas músicas que não conhecia, acabei de buscar aqui e colocar no meu ipod, hehe. Abraços!

@bulmah disse...

Hahahah Era muito tenso mesmo, quando chegava no finalzinho da fita e a música ainda tinha uma parte à ser gravada!