quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sobre alterações feitas na adaptação de uma obra - O caso de Ultraman e Hayata

Ultraman e Hayata: Diferentes
versões entre o original e sua
adaptação nos EUA
Certa vez, li um artigo que defendia que um tradutor deveria ser creditado como coautor da obra que adaptou, pois ele deveria ter um texto tão bom quanto o original para preservar seu valor. Às vezes, até para melhorá-lo. Um outro artigo defendia que boa tradução era aquela que não era percebida, de tão naturalmente fluida e dentro da intenção do texto original. De qualquer forma, erros ou escolhas equivocadas de um tradutor podem comprometer todo o trabalho original, mesmo que muitas vezes essas escolhas sejam impostas por empresários ou editores.

Há casos dos mais variados, que incluem interesses econômicos e também adaptações culturais, fazendo com que muitas versões sejam diferentes do original em vários aspectos. No post publicado aqui sobre cortes e mutilações em animês, comentei sobre o choque entre interesses comerciais e as intenções originais de autores quando empresários tentam vender para crianças algo não feito exatamente para elas, ou que veio de um contexto cultural e social totalmente diferente. Agora, vamos ver um caso para o qual até hoje não li explicação oficial e que gerou praticamente duas versões diferentes de um mesmo personagem.

Em sua cultuada série de TV de 1966, o guerreiro espacial Ultraman, após chocar-se acidentalmente na Terra com a nave do patrulheiro Hayata e tirar sua vida, resolve reparar seu erro dando sua própria vida para ele. Eles se tornam um único ser mas, antes, Ultraman deixa com Hayata um artefato chamado Cápsula Beta e lhe diz em sua mente: “Sempre que estiver em perigo, use a Cápsula Beta e você, Hayata, se transformará em Ultraman”. Porém, essa frase não existe no original e o que acontece é que Ultraman passa a usar o corpo e memórias de Hayata para agir disfarçado na Terra enquanto a consciência de Hayata ficava congelada.

No último episódio, quando Ultraman é vencido pelo monstro Z-Ton e conduzido por Zoffy para retornar a seu planeta na nebulosa M-78, ele se separa de Hayata e parte. No diálogo entre Ultraman e Zoffy, é dito que Ultraman irá retornar. 

Na versão adaptada nos EUA e que serviu de base para a primeira dublagem brasileira, Hayata diz que Ultraman voltaria e se mostra preocupado, torcendo para que volte logo. Mas no original, o último capítulo mostrou um Hayata um tanto desorientado ao ser separado de Ultraman, demonstrando não lembrar de nada depois do fatídico acidente do primeiro episódio. Faz muita diferença.
Depois, quando Hayata aparece ao lado de Dan Moroboshi (o Ultraseven) para salvar o segundo Ultraman em O Regresso de Ultraman, os fãs brasileiros eram levados a crer que o Ultraman original estava mesmo novamente unido a seu hospedeiro humano. 

Ultraman Jack e Hideki Goh, simbiose
com o lado humano mais forte
O tema da simbiose com um ser humano foi usado de modo diferente em outras séries. Em O Regresso de Ultraman, o hospedeiro Hideki Goh é claramente o intelecto dominante, que se comunica com a consciência de Ultraman Jack, o qual depende da boa forma de Goh para lutar com força total. E quando sua namorada e o irmão mais velho dela são assassinados, Ultraman fica tão desesperado que luta sem condições emocionais e é derrotado, num arco antológico da série. 

Ao longo das produções, o conceito de identidade humana foi usado de formas diferentes. Ultraseven, após presenciar um ato de bravura de um humano que se arrisca para salvar um amigo, assume uma forma idêntica. O homem chamava-se Jiro Satsuma e em um episódio ele e Dan quase se encontram. Em Ultraman Taro, o humano Kohtaro Higashi abdica de ser um herói espacial. Diversas variantes da situação foram apresentadas ao longo dos anos. 

O conceito original foi retomado bem claramente no longa Ultraman Zero The Movie (2010), onde o herói se une ao humano Ran. É Zero quem está no controle de tudo enquanto eles estão em simbiose.

Quando Hayata reapareceu em 2006 no longa Ultraman Möebius and Ultraman Brothers (já exibido no Brasil via HBO), os fãs japoneses reencontraram o herói imitando, com os poderes transmórficos, a aparência do humano que lhe serviu de hospedeiro no passado. Para os ocidentais, lá estava o homem comum que havia recebido o poder de viajar pelas estrelas dividindo uma vida com o herói espacial. Pode até não ser a intenção original, mas a versão ocidental – existente oficialmente com Ultraman Jack - é bem mais humana e cheia de possibilidades.

Atualização - Extra:

Veja a diferença entre os diálogos da versão original e da versão alterada nos EUA e exibida aqui nos anos 1970. Os dois links apontam para o blog "Casa do Boneco Mecânico" e as cenas foram feitas usando action figures japoneses, buscando o máximo de fidelidade em relação ao original, com um resultado muito interessante. 

- Versão original (Ep. 39 - "Adeus, Ultraman")

- Versão modificada (Ep. 39 - "Ultraman volta ao seu planeta")



10 comentários:

Michel disse...

Ótima postagem, Nagado! Essa é uma questão simples e ao mesmo tempo complexa. Simples, porque originalmente, Ultraman não era pra ter continuação. Complexa, porque cada personagem tem que ser analisado separadamente.
Teoricamente falando, os Ultras possuem duas características, entrar em simbiose com um hospedeiro humano (vivo ou morto) ou copiar a aparência humana. No caso do Hayata, embora Zoffy o tenha separado do Ultraman, nunca foi explicado como eles se uniram novamente, e isso acabou ficando sem importância. E com o passar do tempo, Hayata e Ultraman passaram a caminhar como um único ser. Vale ressaltar que Kaettekita Ultraman seria a volta do primeiro Ultraman (Hayata), mas o projeto tomou outro rumo, e acabou sendo criado um personagem novo. Entretanto, o que muitos não sabem é que, na primeira sinopse de Kaettekita Ultraman, Hayata apareceria nos três primeiros episódios, e só no terceiro é que ficaria claro quem se transfomava no novo Ultraman, Hayata ou Hideki Gô.
Avançando no tempo, em Ultraman Mebius, o herói havia copiado a imagem do primeiro ser humano que ele teve contato, o astronauta Ban Hiroto, o qual ele não conseguiu salvar. Por não ter uma consciência humana, Mebius tem que aprender a viver como um ser humano. Mas em teoria, tanto Dan Moroboshi, como Mirai Hibino, não poderiam envelhecer, já que apenas copiaram a forma humana. Já a situação do Capitão Serizawa (CREW GUYS) era diferente, pois a mente do Hunter Knight Tsurugi era dominante. Só quando ele abriu seu coração, assumindo a forma de Ultraman Hikari, Serizawa passou a agir por conta própria.
Agora, o que deveria ter acontecido com o Hayata, aconteceu com o Kôtarô Higashi, que deixou de ser o Ultraman Taro, ao devolver a Ultra Badge. Seria um erro colocar novamente o ator Saburo Shinoda pra viver o alter-ego do Taro, pois seria o mesmo que jogar fora toda a ideologia do personagem. Daí o fato do Taro sempre ser dublado pelo Hiroya Fujimaru, desde o filme Ultraman Story (1984).
Com relação ao Ultraman Zero, vale lembrar que além do Ran (Yû Koyanagi), Zero teve um outro hospedeiro, Shin (Daisuke Watanabe, o Jôji Ikaruga de Ultraman Mebius), no show Ultraman Premium Stage 2011, mas em ambos os casos, a voz era do Mamoru Miyano.
Finalizando, falar de Ultraman ou Ultraseven, é lembrar automaticamente de Hayata ou Dan, a gente acaba identificando como um único ser. Entretanto, se os heróis são eternos, os atores não. A Tsuburaya vai precisar encontrar uma saída, para quando os veteranos não puderem atuar mais, e nem ao menos emprestar a voz.

Alexandre Nagado disse...

Quando eu era criança e assistia os Ultras, eu sempre imaginava que Ultraman e Hayata haviam se unido novamente em uma aventura que não tinha passado aqui. Assim como eu ficava imaginando se haveria um filme mostrando a luta dos Ultras contra os aliados da Estrela Morcego, mencionada no final de O Regresso de Ultraman. Muitas coisas acabam se perdendo em uma franquia tão extensa e tão sujeita a interferências externas.

Porém, analisando as informações, parece claro que Ultraman apenas simula a aparência de Hayata nas aventuras posteriores à série.

Sobre a questão do envelhecimento, realmente não é dada explicação alguma. Mas eu li em alguma HQ americana uma situação em que um alienígena disfarçado de humano havia se afeiçoado tanto à Terra que simulava até o envelhecimento pra se sentir mais humano.

Em Star Trek - A Nova Geração, no último episódio, vemos o andróide Data de cabelo grisalho porque resolveu pintá-lo para simular envelhecimento. Tudo porque queria ser como os humanos.

Voltando aos Ultras, me lembro de uma cena do filme Ultraman Möebius & Ultraman Brothers onde Mirai pergunta o que os humanos têm de especial e porque os Ultras se sacrificam tanto por eles. O idoso Dan, com um sorriso de homem vivido, diz que isso ele vai ter que descobrir.

Essas nuances de roteiro passam batido para a maioria do público, mas são extremamente divertidas de analisar.

Abraços!

Bruno Seidel disse...

Bahhh!!! E ainda tem gente que diz que essas séries são vazias e meramente infantis. Mas lendo o texto do Nagado e os comentários do Michel dá pra perceber como esse universo envolvendo os heróis japoneses (em especial os Ultras) é rico e repleto de questões interessantes de serem analisadas. Daria pra escrever um livro com tantas observações, comparações e constatações em cima desse tema. HEuHEuHuEHeUE! Como o Nagado disse no final, é extremamente divertido ficar analisando essas coisas, apesar de que, para quem vê de fora, parece uma grande bobagem. Uma das séries Ultras que eu mais gostei de acompanhar e que pertence a um universo alheio aos dos Ultras originais (Hayata, Seven, Jack...) e Heisei (Tiga, Dyna, Gaia...) é Ultraman Nexus. No caso, foi estabelecida uma origem de poderes completamente diferente, na qual o herói evolui conforme muda de hospedeiro e não existe relação nenhuma com a Nebulosa M-78. Mas retomando à questão original da discussão, já ouvi teorias semelhantes à do Final Fantasy com relação a esta "dupla personalidade" envolvendo Hayata e o Ultraman: quando o alter-ego transforma-se no Ultra, sua identidade humana entra em "stand by", sendo reativada somente após o término da batalha. No filme Ultraman Cosmos 2 (aquele que Cosmos e Justice se fundem para transformar-se no Ultraman Legend) temos o protagonista Musashi (o Cosmos) numa espécie de "zona paralela" enquanto Cosmos está em ação. Seria essa uma possível versão referente ao processo de simbiose? Enfim... esse assunto gera muuuuuita prosa e poderia render páginas e páginas de conversa (se eu me empolgo fico aqui escrevendo até amanhã)... Mas é legal observar que, ao discutir essas coisas, percebemos que nossas séries favoritas podem ser observadas com inteligência sim e que não são apenas pancadaria e efeitos especiais pra agradar crianças.

Vinicius disse...

Sou fã dos Ultras desde qdo estas
séries passaram no Sbt.Desde então acompanhei praticamente todas menos
Great,Powered,Cosmos e os dois animes que eu acho com um padrão muito inferior comparando com as demais séries.Pra mim os Ultras são a melhor franquia de tokusatsu de todas justamente por ser voltada pra um público mais adulto.O que mais eu sinto falta é que no momento não temos uma série inédita dos Ultras para acompanhar,só os filmes do Zero!
Justamente no ano que a franquia comemora 45 anos a tsuburaya não
apresenta nada de novo??? Eu esperava no mínimo uma série inédita,games,e muito mais especiais comemorativos!!!
A melhor franquia,os melhores roteiros os melhores atores e uma
empresa ACOMODADA!!! Depois reclamam quando a bilheteria no cinema perde pra aqueles insetos idiotas (Riders)!!!

Raphael Soma disse...

Sobre as consequências da fusão entre humanos e Ultras, tem uma abordagem muito interessante no mangá Ultraman de 2011, feito pelos mesmos autores de Kurogane no Linebarrels.

http://www.batoto.net/comic/_/comics/ultraman-r7042

Nele, o filho do Hayata acaba ganhando poderes especiais por causa das alterações no DNA que o pai dele teve durante o tempo que esteve em simbiose, se tornando um herói também, ainda que não seja tão poderoso como os Ultras originais.

É uma premissa parecida com o doujin online Hybrid Insector, feito pela mesma dupla, mas que algum cretino na Toei (do tipo que fizeram algumas bobagens épicas com os Riders e Sentai há algum tempo) mandou os caras pararem de fazer o doujin. Mais uma decisão babaca de um cartola da Toei. Pelo menos a Tsuburaya não marcou touca! :3

Ale Nagado disse...

Mr. Raphael Soma, que dica legal! Eu já tinha lido sobre esse mangá e até vi o trailer em motion comic. Agora vou poder conferir a obra!

Desde o início, achei a ideia muito interessante e achei legal que fosse um produto oficial. O universo dos Ultras é riquíssimo, por mais que a garotada de hoje só veja a superfície e ache que é tudo igual. Já o Hybrid Insector eu não sei nada a respeito. Você poderia fazer um post sobre isso lá no Nobumami, hein!

Valeu!
Abraço!!

Takeshi Ishii disse...

Discussão reveladora para a maioria leiga. Eu mesmo acreditava na versão adulterada. Segundo essa versão, acreditamos que Hayata era um "Clark Kent", que esconde sua identidade e não esse personagem complexo, o ser da Nebulosa M-78 vivendo entre os humanos - muito mais interessante. A mudança no roteiro original na minha opinião é sempre ruim, com relação a nomes eu até tolero como Issamu ao invés de Kotaro, ou Lily ao invés de Shyshy. Mas acredito que o brasileiro seja bem mais receptível à cultura estrangeira que o povo americano e adaptações crônicas não seriam necessárias. Ainda mais nos dias de hoje.

Usys 222 disse...

Bem interessante a matéria. Me lembro que foi um choque ouvir o diálogo em japonês pela primeira vez e perceber que não "batia" com as minhas memórias da infância. Até então eu acreditava piamente que o Ultraman e o Hayata tinham se juntado de novo em alguma ocasião. E fiquei bem surpreso com o fato do Ultraman ser um pouco irônico ao entregar a Cápsula Beta ao Hayata, rindo e dizendo que ele "não precisava se preocupar".

E é gratificante ver que o que eu fiz serviu para alguma coisa. Não ficou aquelas coisas, mas com isso quis mostrar essa diferença entre as duas versões.

Bruno Seidel disse...

Voltei a esse post quatro anos depois de tê-lo lido pela primeira vez e percebo que continua sendo riquíssimo em conteúdo e um prato cheio para acaloradas discussões entre fãs. Acho que o universo Ultra é tão fascinante por causa disso: respeita o raciocínio dos fãs, evitando ao máximo os "furos" (que, claro, eventualmente ocorrem) e preservando a essência de seus personagens.

E, realmente, é incrível como uma tradução equivocada pode mudar completamente o desfecho duma série inteira.

Ale Nagado disse...

Fala, Bruno!

Acho que as mudanças no Ultraman foram propositais. Ninguém erra daquele jeito, foi algo encomendado pelo distribuidor americano. Um final em que o herói diz que está tudo bem e logo vai voltar é mais ao estilo americano do que um final em que o herói dá adeus (como aliás diz o título original). Tem a ver com a mentalidade americana quando se trata de uma série dita infantil.

E você viu que bacanas os posts do Usys222 com as transcrições das versões dos diálogos? Foi o que me motivou a voltar a divulgar este post.

Abraço!