terça-feira, 2 de agosto de 2011

Sobre cortes e mutilações em animês

Tradicionalmente, mangás e animês sempre foram produções mais violentas e com mais concessão a cenas picantes que produções ocidentais, por causa das muitas diferenças culturais com o Japão. Produções infanto-juvenis nipônicas, com frequência, trazem cenas consideradas muito fortes para o público ocidental, onde quadrinhos e animação são associados com o público mais infantil. Isso motivou (e motiva até hoje) cortes e edições em vários momentos de diversas séries, a fim de não "chocar" as crianças ocidentais e seus pais, o que poderia reduzir o alcance de vendas dos brinquedos e produtos relacionados. Na história da animação no Japão, excessos de violência gráfica já aconteceram, com cenas realmente desnecessárias que passaram a ser evitadas, mas não é caso aqui de citar os extremos.


O trágico Pinóquio japonês
foi suavizado nos EUA.
Um caso marcante ocorreu com a versão japonesa de Pinóquio, o conto de Carlo Collodi que ganhou adaptações no mundo inteiro, sendo a mais famosa o longa animado da Disney, de 1940. Batizado originalmente de Kashi no Ki Mokku (ou Mokku do Carvalho, de 1974), o "Pinóquio japonês" era uma história dramática e violenta, com mortes trágicas acontecendo em meio a histórias cheias de monstros horripilantes e pesadelos surreais – cortesia de Yoshitaka Amano, que se tornaria famoso com os designs do game Final Fantasy e do animê Vampire Hunter D. 

Uma cena específica marca bem a diferença entre a visão ocidental e a oriental. Logo no primeiro episódio, assim que ganha vida, Pinóquio anda desajeitadamente pela oficina de Gepeto e, sem querer, derruba um martelo em cima do Grilo Falante. O bichinho sai cambaleante e cai morto, de olhos abertos e com a boca se enchendo de espuma. Depois, ele reaparece como fantasminha a acompanha Pinóquio durante toda a série. A cena da morte, realmente violenta, só foi vista no Brasil quando Pinóquio foi exibido na extinta TV Tupi, durante toda a década de 1970. Muitos anos depois, no canal pago Fox Kids, Pinóquio foi exibido com cópias novas, adaptadas pela Saban Entertainment e com nova dublagem e nova trilha sonora. Entre as muitas alterações, a cena da morte do grilo teve seu desfecho cortado, o que deixou meio sem sentido ele aparecer como fantasminha depois. 

Patrulha Estelar: Doutor Sam
afogando as mágoas com
um copo de... leite?
Em Patrulha Estelar (Uchuu Senkan Yamato, 1974), o médico Doutor Sam está sempre com uma grande garrafa de leite pra matar a sede. Isso porque a versão vista aqui era a tradução de Star Blazers, a versão estadunidense. No original, o malandro doutor enche a cara é de sakê. Aliás, onde já se viu alguém dançar alegre e ficar vermelho depois de tomar uma garrafa de leite? Devia ser de uma vaca alienígena de propriedades etílicas...

Ainda na Patrulha Estelar, muitas cenas de morte foram cortadas, dando a impressão ao público de que os roteiristas se esqueciam de alguns personagens. Por isso, no penúltimo episódio da segunda fase da Patrulha Estelar (contra o Cometa Império), os personagens Sargento Knox, Orion, Conroy (Kato) e Hardy somem de cena misteriosamente. Muitos espectadores (como este que vos escreve) estranharam tantos personagens simplesmente não aparecerem mais no capítulo final. Só quando vi o original em vídeo é que entendi o ocorrido. No Japão, a série se tornou cultuada entre colegiais e jovens adultos, o que não foi levado em conta quando foi adaptado nos conservadores EUA. 

Em Dragon Ball (1986), onde o garotinho Goku aparece nu em algumas cenas, até seu inocente órgão genital foi coberto por sungas acrescentadas nos EUA. Já na sequência Dragon Ball Z (1989), certos guerreiros não morrem nunca, mas são "transportados para outra dimensão" quando derrotados com muita força. (Só faltava dizer que iam morar numa fazenda bem longe...)
O maior desafio pra galera de One Piece
é agradar os censores americanos.
Em One Piece (1999), além de muitos cortes e edições para atenuar cenas violentas, certos hábitos dos personagens foram alterados para que soassem politicamente corretos (sim, isso é tudo que se espera de um pirata...).

Cigarros e charutos sumiram num passe de mágica (ou melhor, de edição) e, no caso do personagem Sanji, viraram pirulitos inocentes. No livro digital Cultura Pop Japonesa – Histórias e curiosidades, o coautor Rodrigo de Goes conta ainda que “Todas as bebidas alcoólicas tiveram as suas cores alteradas para que pudesse ser dito que elas eram... suco de laranja. Armas de fogo foram transformadas em engenhocas ridículas ou em armas de brinquedo, daquelas com rolhas nas pontas dos canos. Nem as famosas bocarras dos personagens, uma das marcas do estilo do autor, escaparam da edição, sendo inexplicavelmente substituídas por expressões faciais normais.  

Certamente, cada fã de animê tem histórias a contar sobre os cortes, alterações e edições que sua série favorita sofreu. Isso sem contar os cortes no tempo do episódio, prática bastante desrespeitosa com o público, mas que é comum na Rede Globo para poder atender patrocinadores e ajustar sua grade horária. Isso já rende outra longa discussão, mas não é o foco agora. É preciso ter em mente que existem casos em que os próprios japoneses entendem que, para tornar seu produto mais lucrativo, algumas mudanças devem ser feitas. E eles fazem isso sem se preocupar com nada além do lucro, que fique bem claro. Animê é um negócio como qualquer outro. O que está em pauta agora é a visão das distribuidoras estadunidenses. 

Em um grande número de casos, tudo é decorrente de uma percepção equivocada das distribuidoras sobre seu público-alvo. Ainda falta reconhecer a animação como uma mídia que pode atingir outros públicos que não apenas o infantil (aí incluídos os "filmes para toda a família"). Talvez essa seja uma das grandes diferenças culturais ainda a persistir entre o ocidente e o Japão no campo da cultura pop. E, também, a causa de quase todos as diferenças de conteúdo entre uma obra como foi concebida originalmente e sua adaptação para outro país.

10 comentários:

Patrick Raymundo disse...

Censura é realmente algo delicado, principalmente quando tenta tornar uma série mais madura em algo que possa ser assistido por um público mais jovem. Eu sempre condeno essa atitude, porque acaba por difundir uma imagem errada das animações. Inu-Yasha teve tantos cortes que cenas inteiras ficavam sem sentido, sem ordem. Por isso, a solução está no streaming tv, a internet, que não aceita este comportamento. Aliás, acidentalmente, eu descobri que o site Crunchyroll está aceitando cadastro do Brasil e possui uma variedade boa de títulos para a nossa região. Por enquanto, se quisermos assistir animês sem cortes, oficialmente, devemos recorrer ao sites de streaming. Assisti Usagi Drop, Gosick e Dragon Crisis para testar o site e ele realmente funciona para a nossa região. Voltando a censura, ela acaba por danificar a imagem e as vendas também, porque ninguém vai querer comprar um produto alterado, principalmente estando o original disponível oficialmente, ou não, na internet.

Alexandre Nagado disse...

O que eu sou a favor é de uma classificação indicativa e de adequação de horário de exibição, nunca de uma censura.

O problema é querer reformatar pra vender pra crianças algo que não foi feito pensando em crianças.

Ah, e valeu pela dica.

Abraços!

superd7br disse...

Disse tudo, Nagado!
Mesmo na Itália, país abençoado com um sem-número de animações japonesas exibidas por lá, há reclamações de fãs por conta de cortes ridículos a pretexto de infantilizar a obra. Isso sem contar as mudanças de nomes dos personagens.

Viner disse...

Mesmo quando não há cortes, há a preocupação de se evitar mortes. Certa vez em Power Ranger SPD, um prédio foi destruído e colocaram a Yellow transformada falando: "ainda bem que não tinha ninguém naquele prédio" . Ou seja, o monstro tá tacando terror na cidade, mas ninguém tá morrendo.... Mesmo eu desenhos americanos de ação como Comando em Ação ou Rambo, sempre que um jato ou tanque ia explodir, mostravam alguém pulando de para-quedas ou pulando fora, pra mostrar que ninguém morreu. Acho desnecessário, mas é a visão que eles tem do que é mais certo. Mesmo os tokusatsus e animês japoneses suavisaram um pouco a violência, se comparada a década de 70 e 80.

Stefano disse...

essa censura é uma ditadura sem-vergonha isso sim !
engraçado.. pq a TV passa programas policiais ultra-violentos na hora do almoço ??
Ae depois condenam os animes !

Stefano disse...

Ah, cara... descobri que o episodio 23 de Cowboy Bebop foi censurado ...pois num trecho havia critica contra religiao e a TV

Ale Nagado disse...

Realmente, Stefano, existe muita hipocrisia na mídia. O importante é mantermos nosso espírito crítico.

Abraço!

Stefano disse...

Are-san !
veja o video...
http://rutube.ru/video/4a848a6d71a956283673c6e260d7f695/

postei mais no rutube!

Stefano disse...

que tal você abordar essa hipocrisia da midia ?

Ale Nagado disse...

Fala, Stefano!

Primeiro, obrigado pelo link.

Esse lance da hipocrisia, não só da mídia, mas da sociedade, vira e mexe aparece em postagens. Veja minha resenha sobre o livro Brincando de Matar Monstros, que acho que vai gostar:

http://nagado.blogspot.com.br/2010/02/dica-de-leitura-brincando-de-matar.html

É isso, apareça mais vezes.

Abraço!