segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os Beatles e a J-Music

É difícil contar a história da música pop e do rock em qualquer país sem mencionar a importância dos Beatles. A banda de maior sucesso em todos os tempos foi também a mais criativa, inovadora e influente. Além de ajudarem a definir a moda dos anos 1960 e a psicodelia na música, foram eles que criaram os conceitos de álbum original (até eles chegarem, os discos eram mais coletâneas de singles), vídeo clip (indo além de simples gravações promocionais com os músicos tocando) e toda uma indústria musical. No Japão, não foi diferente. Suas músicas faziam sucesso a ponto de uma obscura banda chamada Liverpool Five ter feito uma excursão pelo Japão em 1964, impressionando e inspirando muitos artistas com seu estilo beat, que era seguido pelos Beatles no início da carreira.
O single japonês de
"Paperback writer/ Rain",
lançado com título
em alfabeto local



A passagem dos Fab Four pela Terra do Sol Nascente foi em 1966, época em que eles ainda estavam no topo da popularidade mundial. Ficou decidido então que fariam um grande show na arena Nippon Budokan. Construído como arena para as competições de judô das Olimpíadas de Verão de 1964, o Budokan era famoso como o templo das artes marciais, sendo palco de grandes competições.

Houve grande polêmica na época, pois setores da mídia apontavam protestos de pessoas influentes contra o que foi chamado de um desrespeito a um local solene. Mas a época era propícia para inovações. Aquela década viu os mais jovens formarem um público consumidor crescente e que dominava cada vez mais as atenções da mídia. Os mangás ganhavam muita força com suas vendas de milhões de exemplares e, na TV, as séries de Astro Boy, Speed Racer, Ultraman, Ultraseven e outros personagens ajudavam a formar a cara da década de 1960. Na moda, minissaias e cores psicodélicas ganhavam as ruas. O Japão estava mudando. 

Foi num cenário assim, ávido por experimentações e também em rápido processo de ocidentalização, que os Beatles viram suas canções se tornarem populares como eram no resto do mundo. Isso num país onde a maioria esmagadora não entendia o que falavam as músicas, mas adorava de paixão o que ouvia. Os concertos no Budokan não só foram realizados com sucesso como hoje é sinônimo de prestígio e popularidade para qualquer artista se apresentar lá. Tocar e cantar no Budokan não é pra qualquer um.

Em termos musicais, eles encontraram um cenário propício para divulgar novos sons, com os jovens buscando variedade além das canções tradicionais japonesas, como o enka. A banda de rock instrumental The Ventures já era sucesso no país e fora uma grande influência para músicos e bandas locais. Com os Beatles, canções em inglês invadiram o mercado fonográfico com grande força.

The Spiders: Seguindo os passos
dos Beatles e Beach Boys
Já existia no Japão um cenário expressivo de rock e também de música pop, chamada de kayoukyoku (ou “canção popular”). O rock´n roll aparecia nas paradas de sucesso locais, com astros como Yuzo Kayama, que seguiam os passos de Elvis Presley, Cliff Richard, Carl Perkins e tantos outros nomes das décadas de 1950 e 60. A partir de 66, tudo passou a acontecer mais rápido.

Depois das históricas apresentações no Budokan, os Beatles influenciaram muitos jovens músicos da época a montarem suas próprias bandas. Nomes como The Spiders, The Jaguars, The Mops e outros faziam um genuíno rock japonês. Os Monkees, Rolling Stones e principalmente os Beach Boys também fizeram escola no Japão, mas a turnê dos Beatles foi um grande marco para a crescente indústria da música jovem da Terra do Sol Nascente, hoje chamada genericamente de J-Music. 

Na verdade, até meados da década de 1990, os Beatles e o Britpop (a música pop britânica) eram as maiores influências no J-Pop, com ênfase nas melodias e arranjos. A invasão de Tetsuya Komuro e suas pop idols fincou a música eletrônica e o pop estadunidense como novos pilares do J-pop, termo surgido na década de 90. Daquele tempo pra cá, o J-Pop incorporou muito do rap americano e também da sua estrutura de divas pop e prossegue misturando ao seu modo sons e estilos ocidentais.

O showbiz nipônico se especializou como uma fábrica de astros efêmeros cuja imagem é explorada ao máximo com forte amparo publicitário, uma prática que na verdade vem desde a década de 1980. Mas, para muitos artistas novos e veteranos que buscam boa música acima de tudo, os Beatles e vários de seus contemporâneos ainda são uma grande inspiração. 

MÚSICAS SELECIONADAS


"No No Boy" - The Spiders

- Conheça "No no boy" (The Spiders), uma canção original japonesa com influências da música pop ocidental, em plena década de 1960. 

"Twist and Shout" - Multimax


- Fã confesso dos Beatles, CHAGE (da dupla Chage and Aska) manteve durante anos um projeto paralelo mais alternativo chamado Multimax, com a cantora Hiromi Asai e o guitarrista Keisuke Murakami. Aqui, o trio faz uma versão de "Twist and Shout" inspirados na versão dos Beatles (visto que a original é da esquecida banda The Topnotes). Note a camiseta dos Rolling Stones que Chage usa, além dos óculos estilo John Lennon. O show é de 1994.

E mais:

- Confira agora uma postagem antiga, com uma versão de "In My Life" pelo grupo Rin´. Imperdível!

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2 comentários:

Kauê disse...

Pessoalmente, acredito que o impacto dos Beach Boys no arquipélago não foi menor que o impacto dos garotos de Liverpool.

A histeria pode ser maior, mas o legado da surf music na cultura japonesa é tremenda. Talvez nós, brasileiros, não percebemos tanto porque aqui os Beach Boys são pouca merda enquanto o rock inglês tem mais espaço. Là, Brian Wilson não é menor que Lennon/Macca

Post muito interessante.

Alexandre Nagado disse...

Sim, basta ouvir os hits do início de carreira dos Checkers (talvez a mais importante banda dos anos 80) para sacar que o lance deles era Beach Boys, surf music e rockabilly. O peso maior dos Beatles foi na estrutura de showbizz.

Mesmo assim, o britpop (basicamente forjado pelos Fab Four e alguns contemporâneos) ditou as normas de estilo do mercado J-Pop até o começo dos anos 1990. E tem adeptos numerosos até hoje.