sábado, 12 de março de 2011

SOBRE A TRAGÉDIA NO JAPÃO

Enquanto digito estas linhas, o mundo ainda olha com apreensão para o Japão. Depois do devastador terremoto seguido de tsunami de 11 de março, o vazamento nuclear da usina de Fukushima preocupa e ainda não se sabe quais consequências e quais as reais dimensões da tragédia. As notícias me atingiram pesadamente. Primeiro, a preocupação com parentes e amigos lá, que felizmente mandaram notícias tranquilizadoras. Depois, pela dimensão do terrível acontecimento. E há, também, outro fator. O Japão é a terra de meus avós e de lá surgiram quadrinhos, desenhos animados e seriados que me inspiraram e nos quais me tornei de certa forma um especialista. Eu devo ao Japão meu impulso em me profissionalizar como artista e lá nasceram e vivem alguns dos artistas que mais admiro. Visitei o país em 2008 como convidado do Ministério de Assuntos Estrangeiros do Japão e tenho enorme carinho pelo que o país representa. Com tudo isso acontecendo, claro que fiquei acompanhando tudo com atenção e pesar.

Nesse cenário desolador e com uma imprensa local que demora a divulgar o que acontece, o Twitter é uma preciosa fonte de informações e, como uma rede realmente global, pessoas daqui e do Japão buscam e dividem informações, ajudando-se e se solidarizando. 

Infelizmente, enquanto muitos se preocupam, muitos brasileiros destilam piadinhas sobre o Japão. Riem das situações trágicas, achando tudo divertido, o que parece impensável para alguém com algum coração. Seguros em seus mundinhos alimentados pelo ego e na segurança do lar, riem da desgraça alheia achando que estão fazendo humor pra alegrar as pessoas e se expressar de forma inteligente.

E há também os que pensam que tragédias fazem bem, sob uma perspectiva histórica. Um ex-amigo certa vez comentou, anos atrás, que o Japão precisava “tomar outra bomba atômica na cabeça pra recuparar os brios”. Ele deve estar feliz agora. Certamente, quem solta uma frase dessas não gostaria de estar entre os mortos de uma tragédia “que vem para o bem” ou de estar procurando por entes queridos em meio a uma pilha de corpos. Uma coisa é tirar lições de uma desgraça, outra é achar que ela é ou foi benéfica. 

Uma vez, num caso dramático ocorrido aqui mesmo no Brasil (ainda que de menores proporções), critiquei abertamente a proliferação de piadas no Twitter em cima da desgraça alheia. Imediatamente, um certo quadrinhista me acusou de defender a censura. Daí, começaram a pipocar críticas a mim. Um disse que “sempre tem um idiota querendo cagar regras na internet”. Um outro me chamou de “revolucionário de sofá”, dizendo que eu seria um que não faz porra nenhuma, só fica agitando sem tirar a bunda do lugar.

Aquilo mexeu com meus brios. Por que eu sempre fui engajado em causas nas quais acredito, apesar de não alardear isso. Mas vou comentar agora para quebrar aquela ideia que muitos têm de que a internet é feita de gente que não faz nada no mundo real.

Já ajudei - botando o pé na rua mesmo - campanhas de arrecadação para doentes de câncer, doentes do fogo selvagem (uma doença de pele rara e dolorosa), já visitei creches carentes, ia com amigos de igreja levar um pouco de atenção (e não pregações) a um asilo de idosos abandonados e atualmente ajudo voluntariamente uma ONG chamada Instituto Gabi, voltada ao apoio para crianças com deficiências, além de uma paróquia. Durante um tempo, fui muitas vezes ao Instituto da Criança do Hospital das Clínicas para fazer desenhos para as crianças internadas, algumas em situação trágica. Um quadrinhista bastante famoso ia lá com mais regularidade e nunca o vi expor isso. Por isso, quando leio certos comentários no Twitter, fico enojado com gente que se incomoda com bons sentimentos e prefere rir da desgraça alheia. 

Ainda hoje, li um comentário irônico no Twitter que dizia que “rezar é a melhor maneira de não fazer nada. Se quer ajudar o Japão, vai pra lá, oras”. Ir para lá não é simples e acessível, ainda mais no atual cenário. Repassar informações úteis – como os contatos da embaixada e da Cruz Vermelha – é crucial para muitos. E nem todos podem ir pra lá, mas muitos podem repassar informações pertinentes e doar dinheiro para ações concretas. Mas às vezes, externar seu pesar e rezar acaba sendo tão criticado como piadas de mau gosto. Há gente que me causa repulsa, e falo de gente com cultura, alguns talentosos colegas de profissão inclusive. A falta de sensibilidade pelo sofrimento alheio é algo que me incomoda muito. 

REPERCUSSÕES NO MUNDO POP

Alguns sites especializados em cultura pop japonesa informam sobre o paradeiro e estado de celebridades e pessoas ligadas ao mundo do entretenimento. É inevitável que logo fiquemos sabendo de vítimas famosas, mas vários artistas já se manifestaram.

Entre os que estão (até o momento) em segurança, estão os quadrinhistas Ken Akamatsu, Kia Asamiya, Masami Kurumada, Tite Kubo, os músicos Aya Matsuura, L´arc~en~Ciel, V6, Yoko Kanno, Hikaru Utada, JAM Project, Tetsuya Komuro e outros.  

Há listagens bem extensas aqui (mangá/ animê) e aqui (música).


Assim que a situação lá começar a se normalizar, voltarei com a programação normal do blog. Por enquanto, continuarei acompanhando as notícias e postando o que julgar pertinente no Twitter. 


AVISO:


Brasileiros que querem ajudar, leiam informações úteis aqui:

http://ow.ly/4dFyv 

9 comentários:

Yatta disse...

Pelo FAcebook, o Hironobu Kageyama disse estar bem abalado, porque estava em área aonde houveram grandes tremores, mas, que ele está bem!

Tenho parentes e amigos em várias áreas do Japão, atualmente... Espero que estejam bem!

João Aranha disse...

Fico extremamente chateado com as pessoas que se utilizam de piadas em cima de desgraças alheias e serias.

Morei em Nova Friburgo por 3 anos e quando vi a cidade destruída, fiquei extremamente pesaroso com o ocorrido. E ainda tinha gente q pouco ligava pra isso e falava que "tinha mais é que acabar de vez mesmo". Mas não foram elas que ouviram o choro de pessoas ao telefone e ao vivo dizendo que não tinham mais nada além da roupa do corpo ou que tinham perdido a família inteira. Tb tenho amigos lá no Japão, mas graças a Deus, todos estão bem, mas abalados com o susto.

Ajudo tb uma paróquia perto de minha casa e uma instituição que cuida de crianças carentes e sei que é extremamente necessário a ajuda nesses momentos. A solidariedade tem que vencer todo e qualquer pensamento vazio, como esse que vimos no twitter e pela internet a fora.

Ótimas palavras, Alexandre. Parabéns.

Patrick Raymundo disse...

Pois é, Nagado! Fiquei muito revoltado com postagens em um certo blog e até perdi a compostura e fiz algo que não faço com frequência: bati boca. Após o meu desabafo, uma pessoa veio me dizer: "se você faz tudo isso, vou fazer uma religião para você!" Ora, ser humano, ter compaixão, agora é o anormal para eles. Ajudar é hipocrisia, orar é inútil, ter o sentimento de respeito é falar em uma língua que eles não conhecem. Para mim, ajudar é o necessário, orar é o providencial (sei muito sobre o poder da oração e seus efeitos e vou ter um testemunho, em breve, em uma revista sobre filosofia/religião) e ter respeito é o mínimo que se pede. O pior é que, quem age de modo sensato e humano, é que acaba sendo mal visto por estes que nos condenam. Eu quase voltei ao referido blog, para comentar aquilo que postaram, mas seria inútil. Por isso desisti. Vou continuar ajudando como posso. Aliás, mudei até o planejamento para a monografia (novamente), pois eu vou editá-la em pequenas tiragens e todo o dinheiro arrecadado com a venda dos livros será transferido para um fundo de apoio aos sobreviventes (vou até falar com a embaixada do Japão e com meu editor sobre isso). Fora isso, já criei um blog para divulgar infomações que ajudem as pessoas nessa tragédia (o link está aí). E fico angustiado, pois tudo isso ainda é pouco. Desculpe o desabafo!

L.Karina disse...

Eu soube da piadinhas. E fico horrorizada com essa falta de sensibilidade pelo próximo que se manisfesta pelo mundo. Também acho de muito mal gosto essa mania de atacar de graça que manifesta seu pezar com orações.

Espero que logo o Japão se recupere.

Isabelle de Oliveira disse...

Oi Alexandre

Eu concordo com voce. Infelizmente as pessoas usam essas ferramentas da internet pra falar mal de tudo e todos, muita infantilidade e falta do que fazer, mal sabem elas que em alguns casos fazer piadas de mal gosto é considerado crimes na internet e até da processo. Eu tambem nao curti essas piadinhas com a tragedia que o japao passa, pessoal mistura até religiao e perde a noçao dos comentarios.

Eu estou acompanhando tudo que acontece no japao, tenho amigos de infancia e conhecidos que moram la e estao todos bem.
Tambem participo de trabalho voluntario e eventos beneficentes. acho muito importante e faz bem ao coraçao e a alma se doar.
E tudo que posso fazer é rezar para que tudo fique bem. Amo o povo japones e estou com voces.

Alexandre Nagado disse...

Sabe uma coisa que me incomodou? Ler um cara articulado, culto e sorridente como o escritor/roteirista Edson Rossato fazendo piadinha no Twitter sobre Japão e Godzilla três dias depois da tragédia. Porra, o cara é tão alienado, tão voltado ao próprio umbigo, que ainda não tinha se conscientizado da tragédia e ainda fazia graça.

Agora, se leio bobagem, é unfollow e pronto. Ou bloqueio de vez, pra pessoa não poder se comunicar comigo no Twitter, como é o caso de um cosplayer muito infantil que ainda ficou me respondendo com mais piadinhas depois que eu protestei. Enfim, vamos nos concentrar no que é importante. Esses outros, a vida há de ensinar

Silvio Spotti disse...

Sobre as piadas o mesmo se deu na época do 9/11.
E por ocasião da morte do Airton Senna.
São espiritos de porco que existem desde e agora com a internet eles estão on line.

São aqueles caras que ficam em velório contando piadas.

O melhor a fazer é ignorar.

Sonia Luyten e as Histórias em Quadrinhos disse...

Oi Nagado,

Acho totalmente inoportuno alguns comentário.
Veja só o que a Folha de São Paulo publicou: Uma charge (o desenhista tyem só 14 anos anos) usando a xilo de Hokusai, A Grande Onde para isto.
Protestei contra esta falta de sensibilidade. Veja o link

http://sergyovitro.blogspot.com/2011/03/contra-mare.html
Abs
Sonia Luyten

Alexandre Nagado disse...

Vejo por parte de muitos artistas uma incapacidade de se colocar no lugar do outro. Olham o mundo de dentro de uma redoma protegida (onde cresceram e se fizeram seres pensantes), com uma tranquilidade que advém não da maturidade, mas da superproteção a que estão acostumados. Tudo o que fazem é bom, quem não entende é porque não teve capacidade de acompanhar seu raciocínio.

Do outro lado do mundo, artistas desenham, cantam e escrevem mensagens de apoio e fortalecimento ao povo neste momento difícil.