segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

SUPER SENTAI - A CELEBRAÇÃO DOS HERÓIS COLORIDOS

Goranger, a primeira equipe, no traço
de seu autor, Shotaro Ishinomori
Em 1975, o renomado autor de mangás Shotaro Ishinomori criou uma nova série de super-heróis, uma de suas especialidades. Era o Himitsu Sentai (Esquadrão Secreto) Goranger, que foi publicado nas páginas da revista Shonen Sunday e também ganhou série de TV produzida pela Toei Company. Com vilões de visual estapafúrdio (com cabeça de TV, piano, etc...), muito humor e pancadaria, o seriado marcou marcou época e os cinco heróis coloridos viraram mania nacional. Após seus 84 episódios (uma excelente marca, poucas vezes igualada ou superada por uma série tokusatsu), deu lugar a outra equipe, o quarteto (depois promovido a quinteto) JAKQ (leia “Jakkar”), que seguia uma linha mais séria e não emplacou tanto, durando 35 episódios. Estavam lançadas as bases para um gênero muito popular entre as crianças no Japão, mas ele não nasceu com a intenção de ser uma franquia interminável.

O NASCIMENTO DE UM GÊNERO
Os guerreiros dançarinos
de Battle Fever J
Em 1979, a Toei estava envolvida com parcerias com a Marvel Comics e, embalada pelo sucesso de sua versão tokusatsu do Homem Aranha (de 1978), planejava criar novos projetos. O Homem Aranha da Toei tinha nada a ver com o herói original dos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko e também não era relacionado com a versão mangá de Ryoich Ikegami (já publicada no Brasil). Sucesso entre as crianças graças a seu robô gigante Leopardon (não me pergunte o motivo, também não imagino como um herói aracnídeo teria um robô com esse nome). 


Entre idas e vindas de estudos e projetos, a parceria com a Marvel foi desfeita e resolveram criar um novo grupo de heróis, um quinteto onde cada um simbolizaria um país e sua dança. O líder, obviamente representando o Japão, era inspirado no abandonado projeto de um certo Captain Japan, a versão Toei para o Capitão América da Marvel. Em 1979, estreou Battle Fever J (sendo Battle Japan o nome do líder), que no início não era associado às outras equipes, apesar das semelhanças óbvias. Do contato com a Marvel, havia ficado o visual dos capacetes, que, apesar de parecerem metálicos, lembravam também máscaras como a do Capitão América. E havia também a Miss America, heroína inspirada na personagem Miss Marvel. E a origem do nome é no mínimo curiosa: como os heróis são dançarinos, pegaram o termo "fever" emprestado do sucesso cinematográfico Saturday Night Fever (Os Embalos de Sábado à Noite), estrelado por John Travolta em 1977.

A inovação em relação a Goranger e JAKQ veio com o uso de um robô gigante pilotado pelos heróis. Depois de Battle Fever J, a Toei lançou, sem o menor constrangimento, um seriado com visual mais calcado em Goranger, também com um robô gigante. E tinha “sentai” (literalmente, "esquadrão") no nome. Era o Denshi Sentai DenjimanEsquadrão Eletrônico Denziman. A partir daí esse tipo de seriado começou a ser tratado como franquia, mas a Toei não incluiu o nome de Shotaro Ishinomori nos créditos, considerando o primeiro Super Sentai como sendo Battle Fever. Livros mais antigos também consideravam Super Sentai apenas de Battle Fever J em diante, tendo o uso de um robô gigante como marco para o gênero. Goranger e JAKQ eram chamados somente de “sentai” e eram deixados de lado como referência. Na época em que tudo isso aconteceu, Ishinomori estava fortemente ligado à Toei com suas séries Kamen Rider e outros projetos que também foram filmados, como os cultuados Kikaider, Zubatto e o Henshin Ninja Arashi. Talvez isso tenha pesado para que não houvesse brigas judiciais com disputas de royalties, mas isso é apenas especulação.

Turbo Ranger, de 1989, foi apresentado como uma série comemorativa dos 10 anos de Super Sentai e foi a primeira a apresentar um especial onde todos os grupos se encontravam, ainda que rapidamente. Antes, disso, somente Goranger e JAQK haviam se encontrado.

Posteriormente, já na década de 1990, livros oficiais começaram a corrigir a injustiça, incluindo Goranger e JAKQ na lista e considerando 1975 como o ano em que o gênero realmente começou. Manobras de bastidores e acordos podem ter sido fundamentais no processo, além da movimentação dos fãs.

CONQUISTANDO O MUNDO
Changeman, marco do gênero
Super Sentai no Brasil
No Brasil, Changeman (de 1985) foi um grande sucesso ao lado de Jaspion (também de 85), durante a explosão de séries tokusatsu que aconteceu entre o final da década de 1980 e início da de 90, na extinta TV Manchete. Depois, Flashman (1986) e Maskman (87) deram as caras, também pela Manchete. Até um seriado mais antigo, o Goggle V (1982), passou por aqui, via Band.

Em 1993, a franquia já era popular em alguns países além de Japão e Brasil, como a França, Itália, Filipinas e alguns outros, mas deu grande salto quando entrou em cena a distribuidora estadunidense Saban Entertainment. Adaptando a série de 1992 Zyuranger e trocando as cenas com o elenco japonês para um elenco americano e multirracial, a Saban criou o fenômeno Power Rangers. De lá pra cá, toda série Super Sentai é adaptada para Power Rangers. A produção norte-americana foi evoluindo e incorporando mais cenas de ação originais com os heróis transformados, rivalizando e eventualmente superando as filmagens japonesas. Os projetos de Super Sentai passaram a ser feitos em sintonia com a Saban, já visando sua comercialização no ocidente como Power Rangers. Isso enfureceu fãs das produções originais, que ficaram sem poder assistir na TV os Super Sentais, já que o contrato de exibição para o ocidente estabelece que aqui só existe Power Rangers.
Os heróis vermelhos das diferentes
equipes de Power Rangers
GOKAIGER – A CELEBRAÇÃO DA FRANQUIA
No último dia 13 de fevereiro, estreou no Japão a série comemorativa da franquia, Gokaiger, que tem como tema piratas, algo que pode tanto ter sido influenciado pelo mangá/ animê One Piece quanto na cinessérie estadunidense Piratas do Caribe. Na verdade, Gokaiger é a 35ª série da franquia, que está completando 36 anos. 

Gokaiger traz como atrativo o recurso de viagens no tempo e a habilidade dos heróis em usar poderes e robôs dos grupos do passado. Os Gokaiger podem, através de bonequinhos (da patrocinadora Bandai, claro), mimetizar forma e poderes de qualquer um dos integrantes das equipes anteriores. Se uma integrante feminina acessa o poder de um herói masculino, ela inaugura uma versão feminina dele. Ao que parece, o contrário não ocorre. Nenhum dos marmanjos Gokaiger, aparentemente, vai aparecer de rosa, mas há integrantes femininas que já usaram branco, azul e amarelo. Na verdade, todo o papo e boataria que envolve Gokaiger é sobre quem e como vai aparecer, não sobre a trama da série em si, que parece que será tão somente um grande veículo para merchandising, mais descarado do que qualquer outra coisa já feita.
Gokaiger e Super Sentai: Ação, aventura
e muitos brinquedos na celebração do gênero

Logo no primeiro episódio, todos os esquadrões aparecem envolvidos numa grande batalha, liderados por Akaranger, o herói vermelho de Goranger – este, dublado pelo mesmo ator que o interpretou na série clássica, Naoya Makoto. Tanto os temas de abertura quanto de encerramento mostram a participação dos heróis antigos, mostrando que Gokaiger unifica o universo Super Sentai. E, pela primeira vez numa produção moderna do gênero, aparece nos créditos o nome de Shotaro Ishinomori, ao lado de Saburo Yatsude, este apenas o nome de fantasia usado pelas equipes de criação da Toei.

Em maio, um filme promete reunir 199 heróis (a maioria como figuração, obviamente) em uma grandiosa batalha. Nos filmes que reúnem equipes Super Sentai, fica sempre a ideia de que eles vivem no mesmo universo. Claro que não faz o menor sentido que grupos de origens tão distintas tenham quase sempre padrões visuais semelhantes. Os Ultras são uma raça (agora, interdimensional) e os primeiros Kamen Riders tinham origem interligada, mas no mundo das franquias de tokusatsu, esse tipo de lógica passa longe. O que vale atualmente é o chamado fan service e a venda de produtos. Apenas eventualmente, isso vem acompanhado de bons personagens e produções interessantes e, quando isso acontece, os fãs comemoram. Se Gokaiger - a serie e o filme - cumprirão a expectativa, somente o tempo irá dizer. 


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Confira agora o divertido encerramento de Gokaiger. Outros virão, com certeza.




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11 comentários:

Bruno Seidel disse...

Minhas primeiras impressões com relação a Go-Kaiger foram as melhores possíveis. Primeiro porque considero uma grande 'revolução' pro gênero essa ideia de trabalhar com os sentais anteriores ao longo da série (e em termos de inovação, convenhamos, o gênero estava carente há anos). Segundo, porque os personagens me parecem bem mais carismáticos do que os da série antecessora, Goseiger, onde tivemos o pior (na minha opinião) líder de todas 35 séries. Quanto ao merchandising e a venda de produtos relacionados, não há como fugir disso, não é mesmo? Aquela história de que um episódio de Tokusatsu é um comercial de brinquedos de 20 minutos está se tornando cada vez mais verdadeira. O fan service, por sua vez, eu vejo com bons olhos, uma vez que trata-se de um gênero que atingiu um status de "tradicional" e, numa data comemorativa (embora eu não considere 35 um número TÃO marcante assim), acho que homenagens e tentativas de agradar os fãs mais clássicos são sempre bem vindas. Outra coisa que não dá pra reclamar é do alto teor infantil da série, afinal, tokusatsu (e principalmente super sentais) é feito especialmente para as crianças japoneses, são elas que assistem semanalmente aos episódios e que pedem para seus pais comprarem os bonecos da série. Os fãs mais velhos e saudosistas, que conservam a devoção pelo gênero (e é aqui onde nos incluimos) são a grande minoria.

Teily disse...

Alexandre, acompanho suas matérias desde a época da saudosa revista Herói. Valeu por mais esta excelente matéria. Muito show!

Alexandre Nagado disse...

Bruno, eu tenho minhas dúvidas quanto à eficácia do chamado "fan service" em Super Sentai. Diferente de Ultras e Riders, não sei se há uma base de fãs antigos de Sentai, que me pareceu sempre um gênero com personagens e seriados bem mais efêmeros. Não sei dizer se Gokaiger foi visto por fãs nostálgicos de Goranger que vibraram ao ouvir o Akared sendo dublado pelo ator original. Preciso pesquisar mais.

Em todo caso, para nós brasileiros, pode ser interessante ver Changeman, Flashman, Maskman e Goggle V de volta à ação.

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Teily, obrigado por acompanhar o que escrevo há tanto tempo. A Herói realmente marcou época e fico feliz por ter participado desse trabalho.

Abraços!

Patrick Raymundo disse...

Gokaiger me pareceu ser uma proposta muito interessante. Pode ser rentável, pois reunirá muitos elementos comerciais, e é criativa. O gênero precisava de um roteiro que mudasse um pouco a fórmula dos sentai e essa série parece ter isso. Gostei do encerramento. :)

LeCuS disse...

Faz muito tempo que o primeiro episódio de um Sentai não me empolgava. Nesse primeiro capitulo não se importaram muito com explicações mas deixaram claro a personalidade tanto dos heróis quanto dos vilões e isso me agradou, pq na serie anterior (Goseiger) ficou claro ja no começo de que os personagens seriam um tanto quanto infantis demais. Vamos aguardar o decorrer dos fatos.
Ótimo texto Alexandre!!

Michel disse...

Um texto que pode explicar melhor como foi essa transição de JAKQ para Battle Fever J, é um que eu escrevi para o meu blog, em 2007: http://universo-otaku.blogspot.com/2007/02/goranger-e-jakq-super-sentais-ou-no.html.

Com relação à sua postagem Nagado, apenas alguns errinhos de digitação: 1)Jacker se escreve JAKQ e não JAQK. Se eu não me engano, era a ordem de apresentação deles-Dia Jack, Space Ace, Clover King e Heart Queen. 2)Jacker durou 35 episódios. 3)Turboranger comemorou os 10 anos de Super Sentai.

A respeito de Gokaiger, um ponto interessante é o fato de ser o primeiro Sentai em que os heróis vem do espaço, e por consequência, não assumem a postura de terem a obrigação de defenderem à Terra e os humanos. Essa foi uma jogada do roteirista Naruhisa Arakawa, pelo fato do tema pirata estar mais relacionado à vilões do que heróis. Como disse o produtor Takaaki Ustsunomiya, explicar às crianças sobre “Piratas da Justiça” por si só, soa algo contraditório. Mas eles não são piratas por serem piratas, ou por tomarem atitudes de piratas, mas sim pelo modo pejorativo como são taxados pelo Império Zangyack. Sobre o filme, “Gokaiger Goseiger Sentai Hero 199 Dai Kessen”, será que tem tanto personagem assim, pra atingir esse número? No primeiro episódio, foram 182 guerreiros! A respeito dos Super Sentai se passarem no mesmo universo, originalmente, esse argumento foi idealizado pelo mangaka Yûichi Hasegawa (autor de Mobile Suit Crossborn Gundam), em 1997, no livro Sugoi Kagaku de Mamorimasu! (Protegerei com a Fantástica Ciência), no qual todas as séries estão interligadas.

Quanto ao comentário do Bruno Seidel, só não concordo de que o Gosei Red/Alata tenha sido o pior líder. Cada série exige um tipo de “Red” com personalidade diferente, e acredito que o ator Yûdai Chiba tenha desempenhado bem o seu papel, principalmente na reta final. A premissa de Goseiger era de que não haveria um líder, daí aquele episódio em que cada um lídera por um momento. Afinal, todos eram aprendizes de Gosei Tenshi em igualdade. Ser o “vermelho” não representa necessariamente liderança, casos como Megaranger (Mega Black), Kakuranger (Ninja White), Magiranger (Magi Green) etc.

Essa questão de que fãs nostálgicos assistiriam ou não Gokaiger, foi abordada pela revista Hyper Hobby, pelo fato de muitos fãs acomapanharem apenas o Rider e não o Sentai.

Alexandre Nagado disse...

Michel, valeu pelas observações. Os erros de digitação foram corrigidos.

Vamos ver até onde vai o espírito de fan service em Gokaiger. Talvez tragam alguns atores de volta, vamos aguardar.

PS: Ah, é Spade Ace (Ás de Espadas)

Rafael Kaen disse...

O Seidel aqui, nossa! :O
Gostei do texto, parabéns Alexandre!

Michel disse...

Corrigi e fui corrigido...rsrsrs! Digitei com muita pressa e nem percebi que troquei o “D” pelo “C”. Bom, nessa altura do campeonato, se eu não soubesse que era Spade Ace, tinha que aposentar as chuteiras!

Alexandre Nagado disse...

Acontece. Só assinalei para o caso de algum leitor usar como referência de nome.

Abs!