terça-feira, 20 de julho de 2010

Rumos do Mangá Nacional - HQs brasileiras, lidas ao modo japonês

Na semana passada, uma nota sobre novos mangás nacionais no site JBox.com.br chamou minha atenção. A Editora HQM lançou dois títulos que simulam totalmente mangás japoneses, os títulos Vitral e O Príncipe do Best Seller, criados, respectivamente, pelas gêmeas Shirubana e Soni, de Taubaté, que respondem pelo Futago Estúdio. Chama a atenção o trabalho de arte impecável e a apresentação gráfica. Ambos são totalmente produzidos em estilo mangá shojo (público feminino jovem), que não é a minha praia, mas vejo que foram feitos com muita competência e dedicação. 

Os títulos dialogam com o público que gosta de romances entre rapazes (ou BL - Boy´s Love), o gênero yaoi, que no Japão é popular, não entre gays ou GLS, mas entre moças heterossexuais (entender isso demanda muito estudo e não é o caso de analisar essa peculiaridade). Não irei aqui analisar estilo, arte, roteiro ou nada assim, até por quê eu não li nenhum dos dois trabalhos pois não me interesso por esse tipo de material. Mas houve um detalhe na notícia que mereceu reflexão.

A ordem de leitura de Vitral o O Príncipe do Best Seller segue o padrão japonês, da direita pra esquerda, forçando mais ainda a sensação de que se trata de um mangá original japonês. Isso me fez refletir sobre algumas questões sobre identidade cultural, que irei expor aqui, começando por uma pergunta que já ouvi inúmeras vezes:

"Mangá é gibi que se lê de trás pra frente?" 

Claro que não. A leitura no Japão é feita da direita pra esquerda (chamar isso de "ler de trás pra frente" é de uma pobreza cultural atroz, mas é assim que perguntam pra mim) e, para publicar mangás no ocidente, antigamente existiam duas opções:

1) Inverter as imagens, o que gerava o problema de prejudicar o visual, já que todos os destros viravam canhotos e vice-versa. Isso criava problemas de cicatrizes em lugar errado, entre outros detalhes que podiam ser relevantes a muitas histórias. Autores como o roteirista Kazuo Koike (Lobo Solitário e Crying Freeman) também não ficavam satisfeitos, pois isso deixava fechos de quimonos e movimentos de espada errados. Sem falar que muitos desenhos ficam estranhos quando invertidos.

2) Recortar e remontar os quadrinhos, o que nem sempre era possível por causa do arranjo da diagramação.

Os primeiros mangás traduzidos para o inglês (e depois para o português), na segunda metade da década de 1980, eram invertidos e, quando necessário, retocados, inclusive com a substituição de onomatopéias. Foi assim com a primeira publicação de Lobo Solitário, Mai, Crying Freeman, A Lenda de Kamui, Akira e alguns poucos que foram lançados antes da febre mais recente.

Foi no começo deste século que a indústria abraçou a publicação de mangás com o sentido original de leitura, preservando a arte e até as onomatopéias. O movimento aconteceu em vários países e, no Brasil, ponto pra Conrad, que conseguiu a façanha em parte graças ao sucesso dos Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball. Hoje, muitos mangás são publicados com a ordem de leitura preservada e o público já se acostumou a isso.

Já vi tentativas profissionais de se emular o estilo mangá com ordem de leitura e onomatopéias em japonês, todas frustradas. Em um caso, como o autor não conhecia o idioma e apenas copiava onomatopéias, o resultado foi desastroso, por conta de peculiaridades na forma de escrita japonesa.

Vitral e O Príncipe do Best Seller são talvez os primeiros a conseguir plenamente a façanha de emular totalmente material original japonês. Digo "talvez" pois não li o material e nem é esse o tema da discussão. Também quero ressaltar que a opção artística não se discute. Pode-se seguir tanto o caminho da pureza ou o da mistura de referências. Ambos são válidos. O papo aqui é sobre mercado nacional.

Para o leitor, só o que deve importar é se a história é boa, mas para profissionais e estudiosos, vale a pena refletir mais além.

Os autores podem conhecer perfeitamente o Japão e seus mangás pra produzir fielmente como se fosse um japonês. Podem usar nomes e onomatopéias corretamente e tecnicamente serem tão bons quanto os melhores do Japão. Mas se estão no Brasil, produzindo um gibi para brasileiros lerem em português, por quê não deixar em ordem de leitura ocidental algo originalmente escrito em português? 


Pra mim, importa, e não sou nem um pouco xenófobo. Mas também não sou xenófilo (nem nipófilo), do tipo que valoriza por princípio tudo o que vem do exterior. Sou brasileiro e ponto final. Mas esse é o problema de muitos que são nipófilos ou nipólatras.

Já há muita gente que lê somente mangá e, ao se deparar com um gibi que não seja japonês, vai direto pra última página, de tão condicionado (ou alienado?) que está a ler somente mangá. Para os mais radicais, a única chance de lerem materal de quadrinho nacional é se estiver vertido para o modo japonês e reproduzir totalmente o visual e clima de um mangá original, sem que a pessoa identifique nada de brasileiro na ambientação.

Mas, sinceramente, Vitral e O Príncipe poderiam ser igualmente competentes em suas propostas se fossem escritas respeitando o modo de leitura do nosso idioma. Não é questão de sermos xenófobos. Se nós não valorizarmos coisas tão nossas como nossa língua (e sua identidade), não devemos esperar que outros países o façam. Do modo como está, desconfio que o material pode ser um sucesso somente entre o gueto de leitores hardcore, sendo incapaz de atingir o público não-iniciado. O mercado tem caminhado cada vez mais para a segmentação, mas eu não considero isso algo positivo pois, cada vez mais, os quadrinhos vão se isolando do grande público.

ALGUMAS OPINIÕES
A seguir, convidei alguns colegas da área para darem suas opiniões, respondendo à seguinte pergunta:

- Para ser aceito como mangá, o trabalho nacional deve emular totalmente um mangá original japonês, incluindo ordem de leitura?

A questão é muito complexa. Porque se os autores nacionais não imitam um  mangá japonês, os leitores brasileiros dizem que é algo falso.  Mas, há casos que se um material for semelhante ao japonês, é falso, pura e simplesmente porque é de outro país. Vide caso de Três Espiãs Demais. A estética é de anime, mas os fãs ordotoxos não consideram anime porque elas têm características ocidentais. Ou seja, não aceitam porque é "cópia" ou porque não é "cópia". Difícil saber o que os brasileiros entendem por mangá/ anime...

Sandra Monte (jornalista)

Vendo os trabalhos mencionados via internet percebi que são de altíssima qualidade. Acho justo e válido que vários artistas assimilem estilos originários de outros lugares para produzir seu próprio material. Lógico que isso retira um pouco a originalidade dos produtos, porém, dentro da lógica de mercado, nem todas as obras precisam carregar personalidade própria. Isso poderá trazer boas vendas aos citados materiais, o que é bom para os quadrinhos nacionais. Essa é a parte boa. E quanto mais produção brasileira de qualidade em bancas, livrarias ou lojas especializadas, mais chance de aparecerem obras realmente de personalidade e estilos próprios. Lógico que temos o lado ruim.

A necessidade de ambientar histórias noutras paragens e com outras culturas, como se tivéssemos vergonha de usar nosso mundo surge como a principal delas. Usar o estilo NARRATIVO, de DESENHO e de construção de ROTEIROS dos mangás, não quer dizer obrigatoriamente que temos de copiar a cultura japonesa, apenas nos apropriar de alguns traços dessa cultura para produzir a nossa própria.

Quando os editores optam pela leitura oriental chegam num extremo que não deveria ser uma necessidade. Nossa forma de leitura é a ocidental. Publicar os mangás originais com a leitura oriental é uma atitude interessante, pra defender a integridade do material. Mas quando produzimos algo aqui no Brasil, o mínimo é optar pela nossa forma de leitura. Além disso, de fato nunca produziremos um MANGÁ, já que mangá são as histórias em quadrinhos japonesas. Faremos histórias em quadrinhos com o estilo deles. Assim como nunca produzimos COMICS só por tentar fazer quadrinhos baseados nos típicos super-heróis norte-americanos. Produzimos histórias em quadrinhos com o estilo deles. Independente de estilos adotados, tipos de história, gêneros, etc, temos que ter em mente que estamos produzindo histórias em quadrinhos brasileiras, pois é o mercado do qual fazemos parte. É com essa lógica que os grandes mercados se construíram.

Como exemplo nos quadrinhos nacionais dá pra citar a Turma da Mônica. Embora tenha influências de outros quadrinhos internacionais em sua constituição, é indiscutível que historicamente a Turma da Mônica possui grande identidade própria. Quando o Maurício resolveu colocar seu estúdio pra produzir algo em estilo “mangá”, mesmo que tenha sofrido influências de outras histórias, o fez tentando encontrar um modo próprio de produção. E isso tem a ver com os temas das histórias, as tramas, os desenhos, o estilo narrativo, a forma editorial. Mesmo nos quesitos onde vemos influências também observamos identidade. E essa identidade própria não fez os consumidores acostumados com os mangás se afastarem do material, já que a revista tem ótimas vendas.


Daniel Esteves (roteirista)
escola-hqemfoco.blogspot.com

Bom, sinceramente, mangá é um conjunto estético que se define em muitos aspectos mais por sua narrativa do que qualquer outra coisa. Os mangás coreanos, por mais que os chamem de manhwas, são, sim, mangás; nada perdem em relação aos japoneses em termos técnicos. E são feitos em seu próprio sentido de leitura, que é o mesmo que o nosso. Antes que o pessoal diga que "todo mundo lê mangá em sentido oriental", temos que dizer que não é "todo mundo" – o número de leitores de mangá no Brasil é ridículo perto do número potencial de leitores que poderíamos ter. E é bom lembrar que o mangá mais vendido, que é apenas "meio mangá" se pensarmos bem – o Turma da Mônica Jovem de Maurício de Sousa – opera no nosso sentido tradicional de leitura – e vende de seis a oito vezes mais do que um hit como Naruto. 

Eu acho que fazer mangá imitando o que o japonês faz, no Brasil, é falta de senso de realidade: quadrinho de banca tem que ser quadrinho de massa, seja mangá ou não, e para isso os autores tem que perceber o recurso narrativo que têm em mãos e olhar para fora dos fetiches do gueto – oferecer aquilo que o japonês não pode oferecer.

Alex Lancaster (jornalista)
www.interney.net/blogs/maximumcosmo

COM A PALAVRA, O FUTAGO ESTÚDIO

E para ser bem democrático, convidei as autoras dos mangás citados no começo do texto para comentarem sua opção de produzir com a ordem de leitura japonesa. A resposta foi enviada pela Soni em nome do estúdio.

- Por quê a opção de produzir no sentido de leitura oriental?

Essa opção veio depois que fizemos uma enquete em nossa comunidade no orkut sobre qual lado deveríamos fazer nossos mangás nacionais. A maioria votou no lado oriental por estarem acostumados com os mangás de banca. Queríamos desenhar do lado oriental e a votação (apesar de pequena) foi a nosso favor. Mas, sabemos que na época éramos independentes e na comu só tem amigos. Nunca uma enquete desse porte foi feita em revista nenhuma, em nível nacional, que eu saiba. 


Sabemos que muitos desenhistas sonham em desenhar no sentido oriental, inclusive nos enviaram e-mails e scraps apoiando a idéia. Nem todo mundo é contra. Na nossa opinião, o lado que se faz uma história não garante seu sucesso ou seu fracasso. O primeiro que tentou fracassou, assim como muitas que estavam do lado ocidental. Os editores entenderam que estávamos querendo competir diretamente com material que vem do Japão, sem distinção. Ficar na mesma prateleira e competir de igual. Como não tem nada nacional nas bancas, temos que competir com os colegas japoneses que estão há muito mais tempo que nós no mercado e já foram sucesso em seu próprio país e no resto do mundo. É Davi contra Golias. Como disse nosso editor, também não temos como competir com Mônica Jovem, visto que estamos mais parecidas com mangá e nosso público é bem diferente. Por este motivo também não podemos competir com os comics. Artisticamente falando, desenhar nesse sentido é mais fácil, mais rápido e psicologicamente funciona como algo motivador, vc se sente igual ao seus colegas do Japão. Parece estúpido, mas é verdade (rsrs). E como sempre competimos em concursos do Japão, acabamos gostando mais de desenhar desse lado. Acredito que tenha sido natural a escolha. No mais, não existe lei que proíba o artista de experimentar. A arte é livre e somos livres para escolher.  

Se foi uma boa opção ou não, saberemos em breve! Mas não é só isso que vai determinar o futuro dos nossos trabalhos, são vários outros fatores.


Site do Futago Estúdio

segunda-feira, 19 de julho de 2010

LEMBRANÇAS J-POP: KAHORU KOHIRUIMAKI


O ano devia ser 1991 e eu estava trabalhando com caricaturas em eventos (coisa que faço eventualmente até hoje). Lembro-me de ter ido trabalhar em um evento de cultura japonesa. A época era muito anterior à invasão japonesa que aconteceu com os Cavaleiros do Zodíaco, internet e tudo o mais. O contato que tinha com música japonesa (seja jovem ou tradicional) era através dos programas Imagens do Japão (TV Record) e Japan Pop Show (TV Bandeirantes e, depois, Gazeta), que mostravam clipes e programas musicais. 

Eu já gostava de músicas de animês e seriados tokusatsu e gostava dos clipes japoneses desses programas. Bom, mas voltando ao evento, eu estava olhando os stands na minha hora de descanso, quando vi uma caixa de papelão com alguns CDs e singles japoneses. Os singles, na época, vinham no formato mini-CD com duas músicas (às vezes, com uma terceira faixa de karaokê) e fiquei com vontade de comprar um, mais pela curiosidade. E era minha chance de ter um CD japonês original pra ouvir. Sem conhecer coisa alguma sobre o assunto, acabei escolhendo pela capa, uma bela e sorridente cantora que, só descobri depois, se chama Kahoru Kohiruimaki (ou Kohhy) e também é compositora. O single era o "Twilight Avenue", uma beleza de música pop simples, com boa melodia e uma voz vigorosa e agradável.

Tempos depois, vim a descobrir que ela também cantava a abertura do animê City Hunter, cujo mangá eu conhecia através de algumas edições de Shonen Jump que tinha comprado na Livraria Sol do meu bairro.

Recentemente, achei no Youtube uma versão ao vivo recente do tema de City Hunter, onde ela mostra que não perdeu o jeito de menina sapeca.

Nesta década, pouca coisa nova foi feita, ficando ela mais restrita a compilações e trabalhos feitos para seu fã clube.

O site oficial dela mostra uma mulher de 43 anos (ela nasceu em março de 1967) mais introspectiva, que está envelhecendo dignamente, com muita classe e ainda em atividade, criando e fazendo shows. Dentro do mercado fonográfico japonês, competitivo e de astros efêmeros, não é pouca coisa. 

quarta-feira, 14 de julho de 2010

LEMBRANÇAS DA SHONEN SUNDAY

O excelente blog Maximum Cosmo do Alex Lancaster publicou uma nota sobre a chegada da edição número 3.000 da revista japonesa semanal Shonen Sunday (Ed. Shogakukan), uma antologia voltada a rapazes adolescentes. Fundada em 1959, é a terceira grande de seu gênero (bem atrás da Shonen Jump Semanal, da Shonen Magazine Semanal e da Shonen Magazine Mensal) e vende atualmente perto de 700 mil exemplares. Parece muito se levar em conta as tiragens pífias daqui, mas é pouco para o mercado japonês, e até para a própria Sunday, que já teve picos de mais de um milhão de exemplares vendidos.

Mas o motivo desta postagem não é ficar reciclando e aproveitando informação de outro blog, mas sim registrar algumas memórias afetivas que foram resgatadas quando li a notícia.

O ano era 1984, eu tinha 13 anos e morava em Pinheiros (SP, capital). Perto de casa, na Rua Martim Carrasco, havia uma filial da Livraria Sol, tradicional importadora de publicações japonesas. Eu entrei uma vez pra ver se tinha livros de Ultraman (comprei dois na época) e parei na frente de uma estante com mangás. Eram vendidos, em pacotes de quatro, vários títulos de mangás semanais. A edição que me chamou a atenção tinha capa de Ryoichi Ikegami (Mai, Sanctuary, Crying Freeman), com uma arte fantástica. O preço era bem barato, se considerar que eu estaria levando 4 revistas de mais de 400 páginas pelo preço que eu pagava num gibi de 80 páginas daqui.

Eu não entendia absolutamente nada de japonês, mas isso não me impediu de acompanhar visualmente e entender muita coisa de várias histórias. A série de Ikegami, uma poderosa aventura espacial chamada Seiunji é uma série bastante obscura e desconhecida hoje em dia. Ainda tinha Urusei Yatsura (de Rumiko Takahashi), Green Grass (de Shotaro Ishinomori), Honô no Tenkôsei (de Kazuhiko Shimamoto), Touch (de Mitsuru Adachi) e vários outros trabalhos interessantes. Até os anúncios eram bacanas, o design geral, tudo era hipnótico e fascinante. Lembro-me de ficar copiando desenhos do Ikegami, Adachi e Shimamoto, os mais interessantes para mim. 

Infelizmente não tenho mais aquelas edições, que foram literalmente se esfarelando com o passar dos anos. Mas até hoje, lembro-me da sensação que aquelas edições causaram e da influência que tiveram em minha escolha profissional. Eu já era leitor de quadrinhos de longa data e continuei lendo todo tipo de HQ, mas o impacto que aqueles desenhos e narrativas envolventes tiveram em mim é sentido até hoje.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ENTREVISTA: TIBURCIO


O ilustrador e quadrinhista Marcelo Tiburcio Vanni, 47 anos, nasceu e vive em Niterói (RJ). Ex-colaborador da MAD e dono de um traço simpático e divertido, Tiburcio é o autor da serie de webcomics Meu Monarca Favorito, onde conta a história de um reino fictício governado por um monarca gente boa (inspirado em D. Pedro II), cujos dias no poder estão contados, graças ao movimento dos republicanos sedentos de poder.

O trabalho do Tiburcio eu conheci nos anos 1980, quando eu lia a MAD regularmente. Achava um traço muito agradável e inspirador. Anos depois, no Twitter, descobri por acaso a tira Meu Monarca Favorito, que logo chamou minha atenção. Fizemos contato e pude descobrir que, além de talentoso e extremamente culto, também é um sujeito muito legal, que dá gosto saber que é colega de ofício.

Então, sem mais delongas, a entrevista com o Tiburcio, que foi autorizada para publicação no acervo do site Bigorna.net, a grande referência sobre quadrinhos e autores brasileiros.


1) Como foi seu início profissional?
- Quando adolescente, eu enviava meus quadrinhos e cartuns para um suplemento infantil – o Pingo de Gente – que vinha encartado em um jornal aqui de Niterói, O Fluminense, onde publicava ainda de forma amadora meus desenhos. Mas foi nesse suplemento que um dia passei a ser remunerado – tive uma página dominical - e posteriormente trabalhei por cerca de um ano como ilustrador do Jornal. Depois dessa etapa eu estava com uns 20 anos e, desligado do Jornal, comecei a fazer meus primeiros freelas para house organs enquanto cursava a Belas Artes na UFRJ. 

2) E sua passagem na MAD, como foi? Tem algum trabalho favorito nessa fase? 
- A MAD foi bem assim: eu havia conseguido uma vaguinha como assistente de arte em uma boutique na área de estamparia, trabalhando com estampas em papel poliéster nanquim e talco... Tinha um portfólio pobre em estilo e acabamento, mas extenso por causa do jornal. Definia que eu era experiente, mas um tanto cru. E um dia comentei com alguém, se não seria uma boa ir à Mad mostrar meus desenhos, e encorajado pelos amigos lá fui eu.



Nesse dia eu conheci o Otacílio, o editor mais honesto – eu gosto de frisar essa qualidade dele, pois é muito mais forte para mim do que as demais – que conheci. Ele olhou meu portfólio e achou tudo horrível (risos). Quando achei que ele ia me expulsar de lá, ele abriu o arquivo dele e me deu um artigo para eu ilustrar a título de teste. E eu retruquei – um artigo inédito? – Ele respondeu: "Claro, pois se eu gostar publico e te pago, você não vai ter trabalhado à toa "– e esse foi o primeiro artigo que ilustrei. Do Ota – e por tabela da MAD e da Record - guardo lembranças muito boas. Um dia eu cheguei lá para pegar uma matéria para ilustrar e comentei que estava com o meu aluguel atrasado. Ele deu um pulo – “não atrase aluguel, é muito ruim!” – me deu assim, tipo três artigos de uma só vez para eu ilustrar e poder pagar minha dívida. Ao mesmo tempo recusava material quando não era bom o bastante, ou quando era ofensivo ou inofensivo demais. Um dia cheguei lá com uma página do tipo “Cenas que gostaríamos de ver” e ele olhou, virou pra mim e disse: "Isso é poesia, não dá pra publicar!". E minutos antes havia também recusado uma página de outro colega por ser muito baixo nível. Colaborei com a MAD por cerca de oito anos. Foi muito bom!

Mas te respondendo, o tipo de trabalho que eu fazia na MAD que era mais interessante era o jogo dos 20 erros, pois era uma enorme composição. Por causa de uma dessas páginas um autor de livro me chamou para ilustrar uma coleção de livros de inglês, o que me propiciou ilustrar muitos livros infantojuvenis também posteriormente.

3) Quando e como surgiu a ideia da série Meu Monarca Favorito?
- Olha, foi no Twitter. Como disse, já ilustrei diversos livros infantojuvenis e um deles, que acredito não chegou a ser publicado, tratava da proclamação da república. Na época – e isso tem tempo – a pesquisa feita para compor as ilustrações foi muito interessante. Deu para perceber uma série de nuances do episódio que não são muito claras nos livros escolares.

Bem, um dia estou ali, tweetando, e o
Laudo comunica que trabalhava em um quadrinho sobre a proclamação. Eu fiquei entusiasmadíssimo, enviei a ele até meus desenhos, pois conhecia o tema, e eis que ele me diz que sua história se passava toda na cidade de São Paulo. E eu entendi que ela era contada do prisma paulista. Entendi isso. E fiquei a pensar se poderia fazer diferente disso.

Na minha opinião, a figura de D. Pedro II é muito pouco reverenciada, aliás todo o II reinado assim o é. Ele é vinculado à escravatura,  à Guerra do Paraguai, ao atraso e “n” qualidades pouco lisonjeiras. Mas não é só isso. Eu moro no RJ e passei toda a minha infância e adolescência passando em frente ao Paço Imperial, que fica na Praça XV aqui no Rio, e só vim a saber que aquele prédio que abrigava uma agência dos Correios era o palácio do Imperador quando foi reformado e transformado em Centro Cultural nos anos 80.

Pouco se falava do II Reinado na escola e isso vim a perceber – coloco isso como uma opinião minha – porque desde a proclamação da República não havia o interesse de se falar bem do antigo regime. Isso se cristalizou em atitudes que nunca procuravam ver o lado bom desse período.
Daí que resolvi aproveitar que detinha algum conhecimento histórico e apreciava a figura e criar o Monarca, que é D. Pedro II sem ser D. Pedro II, pois ele é ficcional – de outra forma eu não poderia tomar as liberdades que tomo, como inventar a Liga Imperial de Football - mas é positivo e friso que nessa webcomic o Monarca é o herói. Os vilões são os conspiradores.  E sob essa ótica e salientando que é uma ficção, eu vou tocando a HQ, e procuro sempre dar uma pincelada em temas relevantes da nossa sociedade.  

4) Além do resgate histórico da figura de D. Pedro II, você também pretende mostrar com sua série uma visão positiva da monarquia enquanto sistema de governo? Como você se define politicamente? 
- Eu não sou monarquista. Se o fosse faria uma HQ sobre D. Pedro II mesmo, à vera. O que eu entendo é que tivemos um Imperador super gente boa e que ninguém sabe disso por causa de anos de abandono desse tema. Acredito que o Monarca possa gerar um debate e suscitar ao brasileiro à pesquisa sobre esse passado recente – a meu ver – e o esclarecimento, a dualidade de opiniões, ah!, ele era bom por causa disso, mas tem isso, nisso ele não era bom, mas todos os presidentes não foram assim?

Não compreendo por que parecemos não ter no nosso passado nada que não seja vergonhoso ou criticável. Só o futebol escapa disso, mas nós somos mais do que isso, senão não estaríamos aqui. O Brasil não seria um país continental se tivéssemos tido governos tão ruins como se tenta passar historicamente. O monarca visa uma reflexão e um olhar positivo sobre a nossa história, sobre a nossa sociedade, sobre o que fomos e podemos ser. Não se trata de uma visão positiva do sistema monárquico, mas sim de uma visão positiva do passado monárquico que todos temos. Não são os argentinos que vão valorizar nosso passado monárquico, isso tem de partir de nós mesmos. Auto Estima Histórica.

5) Como é o ritmo de produção de uma tira? 
- Levo cerca de 8 horas desenhando pintando e letreirando o Monarca. Já a idealização da tira é feita rapidamente, digitada e revisada – hoje pelo André Lasak (do blog Quimera Ufana)– e vou publicando na medida em que vou fazendo. Ou seja, o Monarca tem roteiro escrito, mesmo. 

6) Como você vê o mercado de quadrinhos hoje em dia?
- Eu tenho a impressão que a diversidade de temas pode ser um caminho bem interessante para o Quadrinho Nacional. Quanto mais diversificado melhor, pois não creio que seguir o modelo americano de super-heróis seja um caminho bom, isso já existe. Claro que pode ser explorado, mas não precisa ser prioridade. Eu defendo um quadrinho mais caretão, que o pai possa ler com o filho do lado, gerando novos leitores. Bem, é o que gosto de fazer. Gostaria que o Mercado me visse também, (risos), mas não creio muito que o Monarca venha a ser um artigo de consumo como uma Mônica, um Harry Potter. Ele é mais uma manifestação cultural sem grandes pretensões. Tanto o é que eu o publico, não guardo em gavetas esperando um editor. Quero publicá-lo e ponto.
 
 
7) Fale sobre suas influências em HQ, cartum e ilustração. Seria basicamente Disney e Tintim. - Um pouco de Asterix, um tanto de Escola Belga e Mortadelo e Salaminho. E eu tenho uma curiosidade: Até hoje eu ainda desenho espontaneamente mãos e pés com 4 dedos por causa da influência dos Gibis Disney, quem quiser procurar acha nos meus desenhos esses detalhes.

8) E sobre seus gostos culturais? Vale música, cinema, teatro, o que quiser.  
- Eu gosto de tudo que é antigo, carros, música, filmes de época são os meus favoritos. Mas hoje ouço Radio Mec (www.radiomec.com.br ), que toca clássicos, e é perfeita para se desenhar o Monarca.  

9) Gostaria de deixar uma mensagem?
- Nós temos um passado que não podemos mudar. Já passou. Não adianta olhar pra trás e ficar sentindo vergonha e frustração. Temos de, ao contrário, procurar através dele entender como e porque temos hoje a metade do copo que ainda está cheia e não se esvaziou. E tentar mudar o futuro, este nós podemos mudar, mas não vamos conseguir fazer isso reclamando desse passado, mas sim trabalhando.

E quanto aos jovens desenhistas, façam um blog, mostrem seus desenhos. Não se escondam! Mostem, mostrem e mostrem do que são capazes! E depois me convidem a visitar.

Obrigado, Tiburcio. Sucesso pra você e para o Monarca!


Tiburcio na web:


PRINT PAINT: www.printpaint.com.br
MEU MONARCA FAVORITO: meumonarcafavorito.blogspot.com

sexta-feira, 9 de julho de 2010

CLIPE MUSICAL: YOZORA NO MUKOU (SHIKAO SUGA, SMAP, CHAGE AND ASKA)


Uma canção japonesa que tenho ouvido muito é "Yozora no mukou" (ou "Além do céu noturno"), maravilhosa composição de Shikao Suga (letra) e Yuka Kawamura (melodia), lançada com muito sucesso pela banda SMAP em 1998. Regravada várias vezes, Yozora no mukou é um clássico do J-Pop e mostra que no Japão se faz música de qualidade, no nível dos melhores ocidentais. Aliás, quem gosta de Beatles e britpop em geral deve gostar da linha seguida por Shikao Suga, que diz ter influências de soul music, funk (o tradicional, não a aberração que se faz aqui) e também jazz e blues.

Aqui, a versão mais famosa de Yozora no mukou, numa performance ao vivo do SMAP. Ao violão, o integrante Takuya Kimura, que por acaso irá estrelar o filme da Patrulha Estelar, o qual comentei aqui no blog dias atrás.


Aqui, a versão autoral de Shikao Suga, em um clipe com tradução para o inglês:



Finalmente, pra quebrar tudo, uma arrepiante versão ao vivo do autor com dois convidados especiais: a dupla Chage and Aska.