Na semana passada, uma nota sobre novos mangás nacionais no site JBox.com.br chamou minha atenção. A Editora HQM lançou dois títulos que simulam totalmente mangás japoneses, os títulos Vitral e O Príncipe do Best Seller, criados, respectivamente, pelas gêmeas Shirubana e Soni, de Taubaté, que respondem pelo Futago Estúdio. Chama a atenção o trabalho de arte impecável e a apresentação gráfica. Ambos são totalmente produzidos em estilo mangá shojo (público feminino jovem), que não é a minha praia, mas vejo que foram feitos com muita competência e dedicação.
Os títulos dialogam com o público que gosta de romances entre rapazes (ou BL - Boy´s Love), o gênero yaoi, que no Japão é popular, não entre gays ou GLS, mas entre moças heterossexuais (entender isso demanda muito estudo e não é o caso de analisar essa peculiaridade). Não irei aqui analisar estilo, arte, roteiro ou nada assim, até por quê eu não li nenhum dos dois trabalhos pois não me interesso por esse tipo de material. Mas houve um detalhe na notícia que mereceu reflexão.
Os títulos dialogam com o público que gosta de romances entre rapazes (ou BL - Boy´s Love), o gênero yaoi, que no Japão é popular, não entre gays ou GLS, mas entre moças heterossexuais (entender isso demanda muito estudo e não é o caso de analisar essa peculiaridade). Não irei aqui analisar estilo, arte, roteiro ou nada assim, até por quê eu não li nenhum dos dois trabalhos pois não me interesso por esse tipo de material. Mas houve um detalhe na notícia que mereceu reflexão.
A ordem de leitura de Vitral o O Príncipe do Best Seller segue o padrão japonês, da direita pra esquerda, forçando mais ainda a sensação de que se trata de um mangá original japonês. Isso me fez refletir sobre algumas questões sobre identidade cultural, que irei expor aqui, começando por uma pergunta que já ouvi inúmeras vezes:
"Mangá é gibi que se lê de trás pra frente?"
Claro que não. A leitura no Japão é feita da direita pra esquerda (chamar isso de "ler de trás pra frente" é de uma pobreza cultural atroz, mas é assim que perguntam pra mim) e, para publicar mangás no ocidente, antigamente existiam duas opções:
1) Inverter as imagens, o que gerava o problema de prejudicar o visual, já que todos os destros viravam canhotos e vice-versa. Isso criava problemas de cicatrizes em lugar errado, entre outros detalhes que podiam ser relevantes a muitas histórias. Autores como o roteirista Kazuo Koike (Lobo Solitário e Crying Freeman) também não ficavam satisfeitos, pois isso deixava fechos de quimonos e movimentos de espada errados. Sem falar que muitos desenhos ficam estranhos quando invertidos.
2) Recortar e remontar os quadrinhos, o que nem sempre era possível por causa do arranjo da diagramação.
Os primeiros mangás traduzidos para o inglês (e depois para o português), na segunda metade da década de 1980, eram invertidos e, quando necessário, retocados, inclusive com a substituição de onomatopéias. Foi assim com a primeira publicação de Lobo Solitário, Mai, Crying Freeman, A Lenda de Kamui, Akira e alguns poucos que foram lançados antes da febre mais recente.
Foi no começo deste século que a indústria abraçou a publicação de mangás com o sentido original de leitura, preservando a arte e até as onomatopéias. O movimento aconteceu em vários países e, no Brasil, ponto pra Conrad, que conseguiu a façanha em parte graças ao sucesso dos Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball. Hoje, muitos mangás são publicados com a ordem de leitura preservada e o público já se acostumou a isso.
Já vi tentativas profissionais de se emular o estilo mangá com ordem de leitura e onomatopéias em japonês, todas frustradas. Em um caso, como o autor não conhecia o idioma e apenas copiava onomatopéias, o resultado foi desastroso, por conta de peculiaridades na forma de escrita japonesa.
Vitral e O Príncipe do Best Seller são talvez os primeiros a conseguir plenamente a façanha de emular totalmente material original japonês. Digo "talvez" pois não li o material e nem é esse o tema da discussão. Também quero ressaltar que a opção artística não se discute. Pode-se seguir tanto o caminho da pureza ou o da mistura de referências. Ambos são válidos. O papo aqui é sobre mercado nacional.
Para o leitor, só o que deve importar é se a história é boa, mas para profissionais e estudiosos, vale a pena refletir mais além.
Os autores podem conhecer perfeitamente o Japão e seus mangás pra produzir fielmente como se fosse um japonês. Podem usar nomes e onomatopéias corretamente e tecnicamente serem tão bons quanto os melhores do Japão. Mas se estão no Brasil, produzindo um gibi para brasileiros lerem em português, por quê não deixar em ordem de leitura ocidental algo originalmente escrito em português?
Pra mim, importa, e não sou nem um pouco xenófobo. Mas também não sou xenófilo (nem nipófilo), do tipo que valoriza por princípio tudo o que vem do exterior. Sou brasileiro e ponto final. Mas esse é o problema de muitos que são nipófilos ou nipólatras.
Os autores podem conhecer perfeitamente o Japão e seus mangás pra produzir fielmente como se fosse um japonês. Podem usar nomes e onomatopéias corretamente e tecnicamente serem tão bons quanto os melhores do Japão. Mas se estão no Brasil, produzindo um gibi para brasileiros lerem em português, por quê não deixar em ordem de leitura ocidental algo originalmente escrito em português?
Pra mim, importa, e não sou nem um pouco xenófobo. Mas também não sou xenófilo (nem nipófilo), do tipo que valoriza por princípio tudo o que vem do exterior. Sou brasileiro e ponto final. Mas esse é o problema de muitos que são nipófilos ou nipólatras.
Já há muita gente que lê somente mangá e, ao se deparar com um gibi que não seja japonês, vai direto pra última página, de tão condicionado (ou alienado?) que está a ler somente mangá. Para os mais radicais, a única chance de lerem materal de quadrinho nacional é se estiver vertido para o modo japonês e reproduzir totalmente o visual e clima de um mangá original, sem que a pessoa identifique nada de brasileiro na ambientação.
Mas, sinceramente, Vitral e O Príncipe poderiam ser igualmente competentes em suas propostas se fossem escritas respeitando o modo de leitura do nosso idioma. Não é questão de sermos xenófobos. Se nós não valorizarmos coisas tão nossas como nossa língua (e sua identidade), não devemos esperar que outros países o façam. Do modo como está, desconfio que o material pode ser um sucesso somente entre o gueto de leitores hardcore, sendo incapaz de atingir o público não-iniciado. O mercado tem caminhado cada vez mais para a segmentação, mas eu não considero isso algo positivo pois, cada vez mais, os quadrinhos vão se isolando do grande público.
ALGUMAS OPINIÕES
A seguir, convidei alguns colegas da área para darem suas opiniões, respondendo à seguinte pergunta:
- Para ser aceito como mangá, o trabalho nacional deve emular totalmente um mangá original japonês, incluindo ordem de leitura?
A questão é muito complexa. Porque se os autores nacionais não imitam um mangá japonês, os leitores brasileiros dizem que é algo falso. Mas, há casos que se um material for semelhante ao japonês, é falso, pura e simplesmente porque é de outro país. Vide caso de Três Espiãs Demais. A estética é de anime, mas os fãs ordotoxos não consideram anime porque elas têm características ocidentais. Ou seja, não aceitam porque é "cópia" ou porque não é "cópia". Difícil saber o que os brasileiros entendem por mangá/ anime...
Sandra Monte (jornalista)
Vendo os trabalhos mencionados via internet percebi que são de altíssima qualidade. Acho justo e válido que vários artistas assimilem estilos originários de outros lugares para produzir seu próprio material. Lógico que isso retira um pouco a originalidade dos produtos, porém, dentro da lógica de mercado, nem todas as obras precisam carregar personalidade própria. Isso poderá trazer boas vendas aos citados materiais, o que é bom para os quadrinhos nacionais. Essa é a parte boa. E quanto mais produção brasileira de qualidade em bancas, livrarias ou lojas especializadas, mais chance de aparecerem obras realmente de personalidade e estilos próprios. Lógico que temos o lado ruim.
A necessidade de ambientar histórias noutras paragens e com outras culturas, como se tivéssemos vergonha de usar nosso mundo surge como a principal delas. Usar o estilo NARRATIVO, de DESENHO e de construção de ROTEIROS dos mangás, não quer dizer obrigatoriamente que temos de copiar a cultura japonesa, apenas nos apropriar de alguns traços dessa cultura para produzir a nossa própria.
Quando os editores optam pela leitura oriental chegam num extremo que não deveria ser uma necessidade. Nossa forma de leitura é a ocidental. Publicar os mangás originais com a leitura oriental é uma atitude interessante, pra defender a integridade do material. Mas quando produzimos algo aqui no Brasil, o mínimo é optar pela nossa forma de leitura. Além disso, de fato nunca produziremos um MANGÁ, já que mangá são as histórias em quadrinhos japonesas. Faremos histórias em quadrinhos com o estilo deles. Assim como nunca produzimos COMICS só por tentar fazer quadrinhos baseados nos típicos super-heróis norte-americanos. Produzimos histórias em quadrinhos com o estilo deles. Independente de estilos adotados, tipos de história, gêneros, etc, temos que ter em mente que estamos produzindo histórias em quadrinhos brasileiras, pois é o mercado do qual fazemos parte. É com essa lógica que os grandes mercados se construíram.
Como exemplo nos quadrinhos nacionais dá pra citar a Turma da Mônica. Embora tenha influências de outros quadrinhos internacionais em sua constituição, é indiscutível que historicamente a Turma da Mônica possui grande identidade própria. Quando o Maurício resolveu colocar seu estúdio pra produzir algo em estilo “mangá”, mesmo que tenha sofrido influências de outras histórias, o fez tentando encontrar um modo próprio de produção. E isso tem a ver com os temas das histórias, as tramas, os desenhos, o estilo narrativo, a forma editorial. Mesmo nos quesitos onde vemos influências também observamos identidade. E essa identidade própria não fez os consumidores acostumados com os mangás se afastarem do material, já que a revista tem ótimas vendas.
Daniel Esteves (roteirista)
escola-hqemfoco.blogspot.com
A necessidade de ambientar histórias noutras paragens e com outras culturas, como se tivéssemos vergonha de usar nosso mundo surge como a principal delas. Usar o estilo NARRATIVO, de DESENHO e de construção de ROTEIROS dos mangás, não quer dizer obrigatoriamente que temos de copiar a cultura japonesa, apenas nos apropriar de alguns traços dessa cultura para produzir a nossa própria.
Quando os editores optam pela leitura oriental chegam num extremo que não deveria ser uma necessidade. Nossa forma de leitura é a ocidental. Publicar os mangás originais com a leitura oriental é uma atitude interessante, pra defender a integridade do material. Mas quando produzimos algo aqui no Brasil, o mínimo é optar pela nossa forma de leitura. Além disso, de fato nunca produziremos um MANGÁ, já que mangá são as histórias em quadrinhos japonesas. Faremos histórias em quadrinhos com o estilo deles. Assim como nunca produzimos COMICS só por tentar fazer quadrinhos baseados nos típicos super-heróis norte-americanos. Produzimos histórias em quadrinhos com o estilo deles. Independente de estilos adotados, tipos de história, gêneros, etc, temos que ter em mente que estamos produzindo histórias em quadrinhos brasileiras, pois é o mercado do qual fazemos parte. É com essa lógica que os grandes mercados se construíram.
Como exemplo nos quadrinhos nacionais dá pra citar a Turma da Mônica. Embora tenha influências de outros quadrinhos internacionais em sua constituição, é indiscutível que historicamente a Turma da Mônica possui grande identidade própria. Quando o Maurício resolveu colocar seu estúdio pra produzir algo em estilo “mangá”, mesmo que tenha sofrido influências de outras histórias, o fez tentando encontrar um modo próprio de produção. E isso tem a ver com os temas das histórias, as tramas, os desenhos, o estilo narrativo, a forma editorial. Mesmo nos quesitos onde vemos influências também observamos identidade. E essa identidade própria não fez os consumidores acostumados com os mangás se afastarem do material, já que a revista tem ótimas vendas.
Daniel Esteves (roteirista)
escola-hqemfoco.blogspot.com
Bom, sinceramente, mangá é um conjunto estético que se define em muitos aspectos mais por sua narrativa do que qualquer outra coisa. Os mangás coreanos, por mais que os chamem de manhwas, são, sim, mangás; nada perdem em relação aos japoneses em termos técnicos. E são feitos em seu próprio sentido de leitura, que é o mesmo que o nosso. Antes que o pessoal diga que "todo mundo lê mangá em sentido oriental", temos que dizer que não é "todo mundo" – o número de leitores de mangá no Brasil é ridículo perto do número potencial de leitores que poderíamos ter. E é bom lembrar que o mangá mais vendido, que é apenas "meio mangá" se pensarmos bem – o Turma da Mônica Jovem de Maurício de Sousa – opera no nosso sentido tradicional de leitura – e vende de seis a oito vezes mais do que um hit como Naruto.
Eu acho que fazer mangá imitando o que o japonês faz, no Brasil, é falta de senso de realidade: quadrinho de banca tem que ser quadrinho de massa, seja mangá ou não, e para isso os autores tem que perceber o recurso narrativo que têm em mãos e olhar para fora dos fetiches do gueto – oferecer aquilo que o japonês não pode oferecer.
Alex Lancaster (jornalista)
www.interney.net/blogs/maximumcosmo
COM A PALAVRA, O FUTAGO ESTÚDIO
E para ser bem democrático, convidei as autoras dos mangás citados no começo do texto para comentarem sua opção de produzir com a ordem de leitura japonesa. A resposta foi enviada pela Soni em nome do estúdio.
- Por quê a opção de produzir no sentido de leitura oriental?
Essa opção veio depois que fizemos uma enquete em nossa comunidade no orkut sobre qual lado deveríamos fazer nossos mangás nacionais. A maioria votou no lado oriental por estarem acostumados com os mangás de banca. Queríamos desenhar do lado oriental e a votação (apesar de pequena) foi a nosso favor. Mas, sabemos que na época éramos independentes e na comu só tem amigos. Nunca uma enquete desse porte foi feita em revista nenhuma, em nível nacional, que eu saiba.
Se foi uma boa opção ou não, saberemos em breve! Mas não é só isso que vai determinar o futuro dos nossos trabalhos, são vários outros fatores.
Site do Futago Estúdio
www.interney.net/blogs/maximumcosmo
COM A PALAVRA, O FUTAGO ESTÚDIO
E para ser bem democrático, convidei as autoras dos mangás citados no começo do texto para comentarem sua opção de produzir com a ordem de leitura japonesa. A resposta foi enviada pela Soni em nome do estúdio.
Essa opção veio depois que fizemos uma enquete em nossa comunidade no orkut sobre qual lado deveríamos fazer nossos mangás nacionais. A maioria votou no lado oriental por estarem acostumados com os mangás de banca. Queríamos desenhar do lado oriental e a votação (apesar de pequena) foi a nosso favor. Mas, sabemos que na época éramos independentes e na comu só tem amigos. Nunca uma enquete desse porte foi feita em revista nenhuma, em nível nacional, que eu saiba.
Sabemos que muitos desenhistas sonham em desenhar no sentido oriental, inclusive nos enviaram e-mails e scraps apoiando a idéia. Nem todo mundo é contra. Na nossa opinião, o lado que se faz uma história não garante seu sucesso ou seu fracasso. O primeiro que tentou fracassou, assim como muitas que estavam do lado ocidental. Os editores entenderam que estávamos querendo competir diretamente com material que vem do Japão, sem distinção. Ficar na mesma prateleira e competir de igual. Como não tem nada nacional nas bancas, temos que competir com os colegas japoneses que estão há muito mais tempo que nós no mercado e já foram sucesso em seu próprio país e no resto do mundo. É Davi contra Golias. Como disse nosso editor, também não temos como competir com Mônica Jovem, visto que estamos mais parecidas com mangá e nosso público é bem diferente. Por este motivo também não podemos competir com os comics. Artisticamente falando, desenhar nesse sentido é mais fácil, mais rápido e psicologicamente funciona como algo motivador, vc se sente igual ao seus colegas do Japão. Parece estúpido, mas é verdade (rsrs). E como sempre competimos em concursos do Japão, acabamos gostando mais de desenhar desse lado. Acredito que tenha sido natural a escolha. No mais, não existe lei que proíba o artista de experimentar. A arte é livre e somos livres para escolher.
Site do Futago Estúdio












