RECADO AOS VISITANTES:

Olá! O blog está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

PALESTRAS - DESCONSTRUINDO O MANGÁ

No dia 10 de março, estarei em SP (capital) para proferir uma palestra com o tema “O mangá brasileiro e o mercado editorial”. Nela, falarei sobre a presença de produções japonesas na mídia brasileira e a forma como ela tem influenciado gerações de desenhistas no estilo mangá. E, principalmente, falarei sobre as diferenças entre as realidades de mercado no Brasil e no Japão, contando um pouco sobre minha trajetória no mercado brasileiro.

A atividade é parte do evento DESCONSTRUINDO O MANGÁ E O ANIMÊ, que busca analisar e entender a presença do mangá e do animê no Brasil. A conceituada Professora Doutora Sonia Bibe-Luyten dará a outra palestra, com o tema “Arte sem fronteiras – Mangá no Brasil e mangá feito no Brasil”, com a participação dos autores Fred Hildebrand e Ana Recalde, do mangá nacional Patre Primordium. O peso da responsabilidade é grande e fico feliz e agradecido por ter essa oportunidade através da Fundação Japão e do Consulado Geral do Japão de SP.

Saiba mais: www.fjsp.org.br


Serviço

Desconstruindo o Mangá e o Animê
Data: 10 e 17 de março de 2010
- 10 de março: palestra com o desenhista Alexandre Nagado
- 17 de março: palestra com a Professora Doutora Sonia Luyten
Horário: 19h30~21h30
Local: Espaço Cultural – Fundação Japão em São Paulo
Endereço: Av. Paulista, 37 – 1º andar
Lotação máxima: 100 lugares
- É necessário fazer inscrição antecipada.
Inscrições: (11) 3254-0100 ramal 354 ou cgjcultural4@arcstar.com.br
- Acesso para portadores de necessidades especiais
- Entrada gratuita

Realização: Consulado Geral do Japão e Fundação Japão em São Paulo
Informações, fotos e contatos para imprensa:
Erico Marmiroli - (11) 9372 7774 / (11) 3865 0656 - erico.marmiroli@gmail.com
Sandra Keika Fujishiro - (11) 3141 0110 - kei@fjsp.org.br

*****
Desde que me mudei para Ilha Solteira (SP) em outubro do ano passado, é a segunda vez que volto à minha cidade natal. Será uma correria danada, como da outra vez e certamente ficarei devendo visitas para colocar muitos papos em dia. Não faltarão outras oportunidades.  

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MOTIVAÇÃO CRIATIVA

Recentemente, li uma entrevista de Bill Watterson, o autor de Calvin e Haroldo no qual ele respondeu mais uma vez a pergunta que todos lhe fazem. Passados quase 15 anos do final da tira, ele permanece firme em sua decisão sobre a aposentadoria como autor de quadrinhos, realizando apenas pinturas e eventuais textos. Disse que não tem mais nada a dizer através de seu trabalho com HQs e por isso, que não esperem dele novas tiras da serie que o consagrou e nem novos personagens.
Pra mim, ficou uma pergunta: Isso era tudo o que ele tinha a dizer? Ele criou uma serie  excepcional que provavelmente vai ser republicada por todo o sempre e que vai continuar na memória de todos os que apreciam quadrinhos e humor inteligente. Mas... era tudo? Eu sempre imaginei que um artista não aposentava seu talento, continuava criando sua arte até morrer.

Claro que a vida é dele e ninguém tem nada com isso. O que me fez escrever aqui foi pensar um pouco sobre o que motiva cada um que trabalha com criação e quando é o momento de parar, se é que existe isso para um artista.

Para um atleta, é bom parar no auge, pois evita constrangimentos e evita que as pessoas que antes o amavam passem a odiá-lo. Um exemplo desse tipo de situação aconteceu com o jogador Bebeto. Astro dos gramados e um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1994, teve um fim de carreira melancólico. Sem conseguir manter o pique conforme a idade avançava, continuou insistindo e pulando de clube em clube, sempre caindo fora com a torcida agradecendo aos céus. Os torcedores que antes se encantavam com suas jogadas, riam de seus tombos e xingavam sua escalação.

Com artistas, a situação pode ser parecida, mas não é igual, porque não se está entravando uma engrenagem da qual dependem outras pessoas em uma competição. O artista pode deixar de vender bem, pode cair financeiramente e perder conexão com o grande publico, mas ainda assim ele pode se comunicar com nichos de mercado, com um público que gosta do que ele produz.

Há os artistas que estão sempre mudando conforme os tempos e o mercado e aqueles que se fixam num estilo, numa proposta e a ela se mantêm fiéis. Uns claramente buscam sempre seguir a moda para estar em atividade, seja movido pelo dinheiro ou pelo ego. Uns dizem que evoluir faz parte da vida. Outros dizem que seus princípios não mudam conforme a época e conveniência. Não importa qual tipo nos agrada mais, o que importa para o artista é estar em atividade, criar, produzir. Ou deveria ser.

Me entristeço com a postura de Bill Watterson, mas obviamente a respeito. Numa coisa, ele está certo. As mesmas pessoas que lamentam sua ausência estariam jogando pedras e maldizendo ele (como no futebol) caso tivesse optado por continuar Calvin até hoje, reciclando as mesmas ideias e sendo auto condescendente. Mas outra coisa ele poderia igualmente fazer, caso não se importasse com o que as pessoas poderiam dizer ou comparar. 

Se Will Eisner tivesse dito, ao final de Spirit, que aquilo era tudo o que ele tinha a dizer, o mundo não teria visto O Edifício, Um Contrato com Deus e tantas obras de grande valor artístico. São obras que não tiveram nem de longe o sucesso do detetive mascarado, mas tinham qualidade soberba. E Eisner continuou criando histórias até morrer, como Charles Schulz ou os japoneses Osamu Tezuka e Shotaro Ishinomori. Precisar trabalhar, não precisavam mais e também nunca conseguiram superar, na velhice, os trabalhos que criaram no auge do vigor criativo. Mas isso não importava. Como não importa para Stan Lee, sempre agitando algo de novo, por mais auto-indulgente que soe muitas vezes.

Se cada um dos Beatles, ao final da banda, tivesse dito "Ok, melhor parar de criar música, que eu nunca vou conseguir superar os modelos que criamos juntos.", o mundo não teria conhecido "Imagine" de John Lennon. Ou inúmeras obras musicais que, se não foram sucessos de venda, encantaram muita gente pela qualidade e maturidade dos quatro músicos. Paul McCartney e Ringo Starr continuam aí até hoje, criando e fazendo boa música para seus fãs, sem querer competir com os garotos da vez. Bill Watterson poderia contar mais histórias se quisesse, mas não tem mais motivação.

Talvez, se houvesse necessidade financeira, se houvesse o desafio de criar uma nova série pra dela tirar seu sustento, será que ele encontraria sua perdida motivação criativa? Isso, provavelmente nós jamais saberemos. 

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- Leia a entrevista de Bill Watterson (em inglês) aqui.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Desvendando o fenômeno otaku

Em 2001, chegou ao Brasil pela Editora SENAC um livro muito interessante sobre o fenômeno social que existe no Japão e atende pelo nome OTAKU. Até hoje, é o melhor estudo já feito sobre essa dispersa tribo urbana japonesa, cujo nome é erroneamente atribuído no Brasil a fãs de mangá e animê. Tal definição reduz muito o significado da palavra, que não é vista com bons olhos por muitos japoneses. Numa postagem anterior, comentei que as palavras vão ganhando outro significado conforme são inseridas em um contexto diferente do qual foram criadas, mas achei que esse caso valia a pena abordar em separado. Até para indicar esse livro, que muita gente não deve conhecer e é uma excelente fonte de referência sobre o tema otaku.

A resenha abaixo, que dá uma boa ideia sobre a abordagem da obra, foi publicada em 17/04/2002 no portal Omelete. Leitura mais do que recomendada para quem gosta de cultura pop japonesa.

Otaku - Os Filhos do Virtual


Nos últimos anos, o fanatismo por desenhos japoneses tem criado uma grande tribo urbana que lota convenções e eventos que se espalham pelo país. São os otakus, que formam uma tribo tão hermética e com segmentos tão radicais quanto a dos trekkers, os fãs de Star Trek - Jornada nas Estrelas. A maioria deles não admite críticas ao que gostam e tratam de personagens com reverência quase religiosa. Sobre o tema, a editora Senac lançou o livro Otaku - Os Filhos do Virtual, do escritor francês Étienne Barral.

Nascido em 1964 e formado pelo Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais da França, o autor vive no Japão desde 1986 e realizou um importante estudo sobre o fenômeno otaku direto na fonte. Ao longo de mais de 250 páginas, a obra mostra vários aspectos desse fenômeno social representado pelos otakus. Segundo o autor, são pessoas que se fecham num mundo imaginário, vivendo numa concha de isolamento social. Mas os otakus não se restringem apenas a fãs de mangás. Existem otakus de todos os tipos; como os obcecados por filmes de monstros, jovens cantoras, games, pornografia virtual e uma infinidade de assuntos. Cada aspecto da cultura pop japonesa gera segmentos de otakus. Há casos de colecionadores de miniaturas que criam uma relação imaginária com pequenas bonecas, com quem conversam ao chegar em casa depois de um cansativo dia de trabalho.

Com uma abordagem séria e sintonizada com a realidade, o livro expõe o que leva uma pessoa a se isolar do mundo real, buscando no mundo da fantasia uma válvula de escape para suas angústias e sua incapacidade de convívio social e relacionamento humano.

Dos mais moderados aos seriamente perturbados, os genuínos otakus são geralmente diferentes dos nerds americanos, pois são resultantes de uma sociedade altamente opressiva como a do Japão e não necessariamente são ou foram bons alunos. O livro expõe um fenômeno que se faz presente no Brasil como uma tribo urbana e já foi tema de reportagens na grande imprensa. Na verdade, o livro mostra um cenário muito diferente daquele vivido pelos chamados otakus brasileiros. No Brasil, o termo otaku é usado apenas para denominar os fãs de mangás e desenhos japoneses. Aqui, até por questões culturais, os otakus são mais desencanados e gostam de coisas variadas, andam em turma, buscam um convívio social. Diferente do que ocorre no ambiente otaku japonês, o brasileiro gosta mais de andar em grupo, a presença feminina é grande e é comum ver casais de namorados em convenções. 


O otaku brasileiro tem na verdade pouco a ver com sua contraparte nipônica, apesar de aqui existirem também os que são radicais em busca de eterna auto-afirmação, exaltando os valores de seus desenhos preferidos e desdenhando o que vem de fora do Japão.

O livro é leitura obrigatória para interessados em quadrinhos, psicologia, sociologia, cultura pop e, principalmente, para quem se considera um otaku e nunca leu nada a respeito. Ou que pode ser um otaku e não faz idéia. Sobre isso, certa vez um jovem respondeu, ao ser questionado em um programa de TV, que um otaku não é muito diferente de um torcedor fanático de futebol. Existirá, em diferentes medidas, um pouco de otaku dentro de cada um de nós? Leia o livro e tire suas conclusões.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

EXERCITE-SE COM JETMAN

Jetman foi um bem sucedido seriado de 1991 da franquia Super Sentai, a mesma que deu origem aos Power Rangers. Assisti muitos episódios alugando fitas em uma locadora japonesa e a série logo se tornou uma das minhas favoritas. Na revista Herói, fiz um artigo rápido que acabou deixando muita gente com vontade de assistir também, mas Jetman nunca veio ao Brasil oficialmente, só através de colecionadores e grupos de fansubber (fãs que legendam e distribuem vídeos).


Percorrendo o Youtube, descobri um vídeo infantil bobinho e engraçado de Jetman onde a graciosa atriz Rika Kishida, que interpretou a heroína White Swan, puxa uma série de exercícios com os demais heróis transformados. 

A música de fundo é o tema de abertura, cantado por Hironobu Kageyama (de Changeman, Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco, Maskman...), um velho conhecido do público brasileiro. Aos 3m30s, o personagem de amarelo (Yellow Owl), de apelo mais cômico, apronta uma das suas. Não dá pra saber se foi uma gag ensaiada ou se aconteceu de verdade e deixaram assim. Pra quem precisa, uma boa opção pra queimar umas calorias. E rir um pouco, que este blog anda sisudo demais. ;-P


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- A seguir, uma postagem sobre o fenômeno otaku.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SOBRE FÃS E SEU VOCABULÁRIO

O sucesso dos Cavaleiros do Zodíaco na metade da década de 1990 e o advento da revista Herói (onde colaborei por anos) e suas muitas concorrentes marcaram o início da era da imprensa especializada em mangá, animê e cultura pop japonesa no Brasil. Desde o começo, é informal e amadora na maior parte dos casos, sem uma consultoria ou supervisão especializadas e é, basicamente, formada por fãs que escrevem. Foi o meu caso inclusive e devo dizer que cometi muitos erros até ir encontrando caminhos corretos, mas sem muita orientação e aprendendo na prática, no mercado de trabalho.  

Hoje, com blogs e fóruns, existe a divulgação tanto de informações corretas quanto equivocadas, dada a falta de critérios ou orientação. Isso tem ajudado a criar termos e definições equivocadas no Brasil que talvez até causem estranhamento em japoneses ao verem como sua cultura pop é filtrada aqui. Eis alguns exemplos:    

ANIMÊ e MANGÁ - Também no Brasil, por culpa da imprensa especializada, criou-se o hábito de falar "anime" ou invés de "animê", que seria uma pronúncia mais próxima do original. Animê é uma redução de "animation" e, por isso, eu e muitos colegas usamos um acento diferencial no "e" (falando nisso, como eu sinto falta do acento diferencial do "pára"). Como grande parte das pesquisas era feita em revistas americanas, lia-se "anime" simplesmente porque a romanização oficial não usa acentos. Não é errado, portanto, escrever anime sem acento tônico no "e", mas ele deveria ser lido sempre como palavra oxítona. Já com a palavra mangá, nunca houve problema. O termo também não existe ainda em dicionários de língua portuguesa e o acento diferencial sempre foi usado, para que ninguém nunca pensasse na fruta manga. Mérito provavelmente da professora Sonia Bibe-Luyten, autora da primeira tese de mestrado no Brasil (quiçá do mundo) sobre mangá, bem como diversos textos pioneiros na imprensa sobre o tema, sempre utilizando esse acento. Se não houvesse esse acento diferencial, já pensaram a dúvida que seria ler alguém declarar que "trabalha com manga"? Poderia ser um desenhista ou um fazendeiro a dizer tal frase...

OTAKU - Sinônimo de fã de mangá e animê? - Já escrevi diversas vezes que a palavra "otaku" tem no Japão um sentido bem diferente do usado no Brasil. Aqui, por culpa de grupos de fãs e de parte da imprensa especializada, convencionou-se chamar de otaku todo fã de mangá e animê. Mas a palavra não é lá bem vista no Japão e define gente sem vida social ou sexual (normalmente homens) que se atira a se especializar em alguma coisa, como bandas de rock, modelos, games e, obviamente, mangás, animê e tokusatsu. Também não é o similar nipônico de nerd, e sim algo bem pior, socialmente falando.

OVAs e afins - O termo OVA (Original Video Animation) - ou OAV (Original Animation Video) surgiu nos anos 1980, como uma prova do tamanho do mercado japonês. Com produção em geral melhor que a da TV e inferior ao cinema, os OVAs geraram obras de grande qualidade. Era a época das fitas VHS e Betamax (um padrão há muito esquecido). Aí, chegou o DVD (Digital Versatile Disc), com enorme ganho de qualidade e aos poucos foi se firmando como padrão, deixando de lado outra mídia digital que ainda engatinhava, o LD. Acontece que isso foi fazendo com que muitos fãs brasileiros tivessem o seguinte raciocínio: se OVA nasceu com as fitas de videocasssete, então com DVD deveria ser ODA, ou Original DVD Anime. Acontece que o raciocínio está errado. Um DVD Video é também um formato de vídeo. Não faz sentido mudar, já que VHS, Betamax, LD, DVD, Blu-ray, são todos formatos para visualizar um vídeo. No Japão, segundo meu amigo Michel Matsuda (do blog Universo Otaku), a sigla OAD é utilizada somente nos DVDs com animações originais oferecidas de brinde em alguns mangás. Ainda assim, um OAD não deixa de ser um vídeo, ou seja, um OVA. No Japão também existem os OV (Original Video), que designam qualquer produção feita para locadoras ou venda direta e existem muitos filmes tokusatsu nesse filão. Aí, os fãs deduzem que, se OVA é pra animê em vídeo, então quando é DVD com tokusatsu deve ser ODT. Acontece que isso também não existe.

TOKUSATSU - Entre fãs de tokusatsu (os filmes e seriados com efeitos especiais) é comum usarem apenas o termo "toku" para definir o que eles gostam. Muitos sites usam o "toku" como prefixo para seu nome e também ficam inventando palavras como "tokufan", "toku-comics", "toku-songs" e por aí vai, entre outros neologismos. Porém, tokusatsu já é uma abreviação. Vem de "tokushuu kouka satsuei", ou "filmagem de efeitos especiais". O "toku" de tokusatsu é uma contração de "tokushuu" (especial). Um fã brasileiro que conheça um fã japonês dizendo que gosta de "toku" talvez não seja compreendido, já que toku pode significar "resolver", "explicar" ou "diluir", dependendo de como for escrita em ideogramas. E há sites bons e sérios sobre heróis japoneses que usam conscientemente a palavra "toku" pra simplificar, codificando a comunicação com seu público.

Essas colocações não vão mudar em nada a ideia das pessoas, mas apenas quis registrar como palavras vão sendo alteradas, pronúncias deturpadas e seus sentidos originais esquecidos. Se a pronúncia ou sentido errado já foram incorporados à linguagem de milhares de pessoas, já não é mais questão de corrigir o que já está feito.

Certa vez, o professor Pasquale Cipro Neto disse que a língua é um instrumento dinâmico, que sofre mudanças com o tempo e de acordo com o seu uso. Não seria diferente com a cultura pop japonesa, que está cada vez mais presente em nosso país.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Resenha: STANDARD, de ASKA

Um dos grandes cantores japoneses interpreta novas versões de clássicos da música ocidental

Tendo praticamente encerrado sua longa parceria com o também cantor e compositor Chage, o versátil Aska se lançou em um ambicioso projeto solo: regravar clássicos da música popular dos EUA. O resultado foi o mini-álbum Standard, com apenas 5 faixas, lançado em novembro de 2009.


A primeira canção é "Smile", composição de Charles Chaplin. A introdução instrumental, no estilo das big bands americanas, deixa claro que o que vem a seguir é algo totalmente diferente do Aska roqueiro ou o das baladas românticas que fizeram história no mercado J-Pop. Num bom inglês, o astro interpreta a canção, criada originalmente como trilha instrumental para o filme Tempos Modernos, de 1936. Ganhou letra em 1954, numa versão cantada por Nat King Cole e também já foi regravada por Eric Clapton, Barbra Streisand e até Djavan, com sua versão em português "Sorria". A mais famosa interpretação de Smile foi feita por Michael Jackson em 1995. Divulgada como a canção favorita do Rei do Pop, Smile foi interpretada pelo irmão de Michael, Jermaine Jackson, no funeral do astro.


A cover seguinte é "The Christmas Song", lançada em 1944 por Mel Tormé, que co-escreveu a canção com Bob Wells. Outra canção muito regravada, ganhou interpretações de Nat King Cole (que cantou 4 versões entre 1946 e 1961), Al Jarreau, Aretha Franklin, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Air Supply, The Carpenters, The Jackson 5, N´Sync, Céline Dion, BoA, Whitney Houston, Gloria Estefan, Christina Aguilera, Stevie Wonder e outros. Aska canta com sentimento, pois é um grande apaixonado pelo Natal, não por acaso o tema de uma criação sua incluída em Standard.


"Sekai ni Merry X´mas" é a única canção original de Aska presente no tracklist e a única cantada em japonês. Ela foi lançada no álbum Guys, de Chage and Aska, em 1992. Seu estilo se encaixa perfeitamente no espírito do álbum, mas não acrescenta nada de novo em relação à versão original, exceto pela voz de ASKA ouvida sem a companhia de Chage dividindo versos e harmonias vocais.


"Stardust", a faixa seguinte, é uma antiga canção estadunidense dos anos 1920 que foi gravada pela primeira vez em 1930, por Isham Jones. A canção se tornaria um clássico popular, sendo regravada por Frank Sinatra, Bing Crosby, Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Willie Nelson, George Benson, Ringo Starr, Rod Stewart e outros. A edição de áudio deixou o começo da canção parecido com uma gravação muito antiga, o que aumentou o charme da versão de Aska.


O mini álbum fecha com "Good Night", uma pouco conhecida obra dos Beatles, escrita por John Lennon e cantada pelo baterista Ringo Starr no disco duplo The Beatles (de 1967), conhecido como Álbum Branco. A versão original é simpática e agradável, mas com a voz poderosa e de grande alcance de Aska, ganha uma outra dimensão e fecha o trabalho dignamente. Fortemente influenciado pelos Beatles em várias de suas composições, Aska presta sua homenagem aos ídolos resgatando uma música conhecida somente pelos aficionados.


Seja sussurrando os versos, entoando suavidade ou vibrando a voz poderosa com muita técnica, o cantor se alinha a grandes nomes da música mundial com essa coletânea refinada, infelizmente lançada somente no Japão (mas disponível em alguns sites).  A sonoridade do trabalho lembra muito as versões de "White Christmas" e "When You Wish Upon a Star", que Aska gravou com Chage em 1993. 

Chegando aos 52 anos em 24 de fevereiro e longe de seu tempo de grande exposição na mídia japonesa, Aska prossegue com um público fiel, interessado, como sempre, em boa música.

Ouça agora "Good Night" (Lennon-McCartney), na voz de Aska:




Leia também:
Chage ans Aska - 30 anos dos mestres do J-Pop - http://tiny.cc/ca30

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A ETERNA LUTA PELA VALORIZAÇÃO DOS QUADRINHOS

Esta postagem nasceu diretamente de uma discussão no Twitter. Primeiro, por uma indicação via e-mail do colega Bira Dantas, descobri tardiamente um velho texto do colunista Reinaldo Azevedo, publicado no site da revista VEJA. Ele comentava sobre a compra de novos caças para a Força Aérea Brasileira, defendida pelo Lula. (leia aqui)

Segundo sua visão, a compra equivocada dos caças a pretexto de proteger o petróleo do pré-sal só podia vir de alguém que não lia nada, ou melhor, lia gibis e vivia nesse universo mental. Concordei com sua percepção política da questão, mas notei uma boa carga de preconceito contra leitores de quadrinhos, que estavam sendo usados como exemplo de infantilidade ou mentalidade maniqueísta.

Repassei indignado via Twitter e muitos fizeram o mesmo. Daí, seguindo as repercussões, achei por bem comentar com um certo leitor alguns pontos. Ele expôs que a crítica era ao Lula e sua visão simplista das forças armadas e da política, e que isso parecia tirado de gibi, ou melhor, do "universo mental dos gibis", como o colunista escreveu. Diante da discussão que levantei, um twitteiro (não vem ao caso quem é) comentou o seguinte:

"Mas, francamente, HQs são simplistas. Eu não vejo nada demais em admitir isso." E prosseguiu:

"Por exemplo, tem uma versão em HQ de O Caminho da Servidão. É legal, mas perde muito pro livro original. Portanto, simplista demais."

Ele usou o argumento de comparar uma HQ inspirada num livro com o livro original e deu o veredito final contra toda uma mídia. É o mesmo que comparar um filme ou peça de teatro inspirados num livro com o livro em si. Em termos de profundidade, dificilmente dá pra competir, até pelo volume de texto de um livro. Mas aí, pra manter uma coerência, valeria atacar qualquer mídia. Acontece que teatro, cinema e HQ oferecem experiências sensoriais diferentes do que é oferecido pela literatura e cada mídia tem seu valor. A literatura utiliza unicamente a palavra escrita como elemento canalizador de ideias e histórias e não deve ser comparada com mídias visuais. Fazer isso é uma comparação simplista.

HQs podem ser tão simplistas quanto peças de teatro e filmes baseados em livros, mas somente quando comparados em profundidade com as obras originais, pois são mídias diferentes e mexem com sensações diferentes. Li Jurassic Park (de Michael Crichton) e considero muito mais profundo e coerente do que o filme. Mas ver o filme no cinema foi uma experiência fabulosa que, ainda assim, manteve intacta a mensagem básica da obra.

Já quadrinhos originais dessa mídia podem ter tanta profundidade quanto muitos livros. Vide Watchmen, Lobo Solitário, Maus, Gen Pés Descalços, Mafalda... O mangá Sanctuary, que ilustra esta postagem, tem uma densidade e profundidade que fazem entender realmente o que é uma HQ para adultos. Mas muita gente insiste em taxar TODAS as HQs de infantis, simplistas, maniqueístas... Talvez a maioria dos quadrinhos seja mesmo tudo isso, mas não TODAS. Há um vasto universo de trabalhos que é totalmente ignorado com esse pensamento.

Diferente do que fazem com as HQs, eu não vejo criticarem o cinema em geral taxando-o de simplista, pobre, infantil (não que infantil seja sinônimo de algo raso, muito pelo contrário!). Porque as pessoas sabem que, se de um lado tem as megaproduções dos grandes estúdios, do outro também existe cinema autoral, existem mensagens complexas em filmes de grande profundidade e impacto. Só a HQ precisa se auto afirmar toda hora como uma mídia que merece algum respeito e não comentários de desprezo por parte de gente arrogante que se acha intelectualmente superior, esses deslumbrados Dimensteins da vida. 

O mesmo acontece com games, RPG, animação... Parece que toda hora o pessoal ligado a essas áreas tem que dizer que "não é só pra criança" e defender que cada um desses assuntos tem sua relevância cultural.

E um último problema foi o comentário irônico no final. Vejam bem: eu não apóio o Lula e não pretendo votar em seu partido. Mas também me irrito com gente que chama o Lula de analfabeto e que nunca leu nada. Ele não tem diploma, e fala errado muitas vezes, mas garanto que ele já leu muito e de ignorante não tem nada. Até hoje recebo correntes de indignação contra a presença de um "analfabeto" na presidência da República. Bom, ao que me consta, ele não subiu ao poder por um golpe de Estado.

Muitos preconceitos estão tão enraizados na cabeça de uma certa elite formadora de opinião, que tendem a se perpetrar por muto tempo ainda. Certa vez, o André Forastieri (creio eu) escreveu que provavelmente ia passar o resto da vida justificando as HQs e explicando que não são apenas para crianças. 

Infelizmente, ele estava certo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Armadilhas de uma pesquisa

Manga Calendar: pioneiro como produção
seriada para TV

Fazer pesquisa sobre qualquer assunto sempre exige cuidado e atenção. Quando se lida com um assunto que poucos dominam, pior ainda. Hoje em dia, a Wikipedia e o Google, para o bem ou para o mal, tornaram as pesquisas muito práticas e as pessoas, preguiçosas. 


Em minha área, ligada à imprensa especializada em animê, mangá e cultura pop japonesa, é comum encontrar garotos em fóruns desdenhando o trabalho de gente da minha geração, ignorando que na época da explosão das revistas sobre animê e heróis japoneses, não existiam os sites que citei e a informação deveria ser garimpada com muito esforço. Pesquisando em revistas inglesas e americanas (Protoculture Addicts, Animerica, Sentai, Markalite, Oriental Cinema...) e também em publicações nipônicas (B-Club, Animetype, Animedia, Animage, Uchusen...) com a ajuda de professores do idioma e amigos, eu ia cavando informações para materias. Hoje, qualquer garoto acessa a Wikipedia e acha que já sabe de tudo. Realmente, a Wikipedia ajuda muito, mas tem muito erro também, visto que qualquer um pode escrever nela.

Também era comum ter que alugar fitas em locadoras da colônia japonesa, congelar a imagem na hora dos créditos e copiar as letras, para depois pedir ajuda ao professor de japonês. Era um trabalho árduo e que, por inexperiência ou pela dificuldade em saber exatamente qual das leituras possíveis o artista tinha escolhido para seu nome escrito em ideogramas, ocasionava alguns erros. Até professores e tradutores experientes têm dúvidas na hora de ler nomes de artistas, pois é normal que existam leituras diferentes para uma mesma escrita em kanji e um artista nem sempre vai escolher a leitura mais comum ou óbvia.

Hoje, é mais fácil cruzar referências, mesmo sem depender totalmente dos meios digitais. E, ainda assim, erros passam vez ou outra. Um antigo erro meu que o amigo Rodrigo de Goes apontou recentemente me levou a um grande esclarecimento sobre um fato da origem da indústria dos animês.

Consultando um guia de referência da revista Animedia, consta, na seção "Terebi anime" (Animês de TV), Manga Calendar como o primeiro seriado, com data de 25 de junho de 1962. Era uma série de vinhetas sobre datas comemorativas e fatos históricos, não uma aventura seriada como conhecemos hoje, sendo por muitos vista como um documentario em animação.  Porém, a serie começou com o título Instant History em primeiro de maio de 1961. Quando o título pelo qual a serie seria conhecida foi oficializado (em 25/06/1962), já haviam se passado 312 episódios. Houve também uma mudança de formato, com as vinhetas sendo expandidas de 3 para 5 minutos. Ao pé da letra, a primeira série foi mesmo Manga Calendar, já que o nome substituiu o anterior e se tornou o nome oficial da série toda. Mas por causa da mudança de nomes e uma confusão ao cruzar referências históricas, a informação da Animedia estava errada e eu repassei esse erro para o meu Almanaque da Cultura Pop Japonesa, mas já assinalei a correção para uma futura reimpressão.

Spectreman: Série mudou de
nome duas vezes
O caso foi semelhante ao que aconteceu com o seriado Spectreman. Ele estreou em 2 de janeiro de 1971 como Uchuu Enjin Gori (Homem Macaco Espacial Gori) - é isso mesmo, o astro era o malvado Dr. Gori. Bom, a serie mudou de nome duas vezes. Primeiro, a partir do episódio 21 virou U. E. Gori x Spectroman (no original é com "o" mesmo). E foi somente no episódio 40 que virou apenas Spectroman. Como Spectreman (nome ocidental) é uma serie cult, ninguém comete o erro de atribuir uma data errada para sua estreia, considerando a estreia de Gori como sendo a data de estreia de Spectreman. Já com Manga Calendar, cuja existencia só é relevante para pesquisadores, o erro passou batido até no Japão, em um guia de referência de uma revista especializada tradicional.


Esse tipo de erro já vi em livros de muitos pesquisadores daqui e de outros países, sem querer tirar minha grande parcela de culpa. Já vi tese acadêmica chamar o animê Evangelion de um tipo de Super Sentai, um disparate para quem conhece um pouco sobre animês e seriados japoneses. E erros menores, como datas e nomes trocados, não são absurdos de acontecer. Bem como cair em boatos e esquecer que fontes confiáveis e originais também estão sujeitas a erros humanos. Por mais critério que se tenha, alguma coisa sempre passa, ainda mais quando a carreira já acumula bons anos de estrada. Claro que ainda vou cometer erros, mas esse sobre o Manga Calendar, pelo menos, eu aprendi.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dica de leitura: Brincando de Matar Monstros

Durante o tempo em que colaborei bastante com o site Omelete, escrevi diversas resenhas sobre livros ligados a cultura pop. Pretendo resgatar alguns desses textos para oferecer boas dicas de leitura. 

O primeiro que vou republicar aqui é um texto sobre o livro Brincando de matar monstros, lançado no Brasil em 2004, que causou bastante polêmica na época. Ele lança um olhar diferente sobre a violência na mídia e suas consequências. Trabalhando com quadrinhos e personagens japoneses, já fui muito questionado sobre a violência em histórias infanto-juvenis. Mesmo reconhecendo que há sim excessos (do ponto de vista ocidental) no entretenimento nipônico, sempre defendi ideias bem parecidas com as que o livro abordou. Por isso sempre recomendo esse livro a amigos que têm filhos e a pessoas que, como eu, também lidam com HQs. 

Antes, porém, gostaria de deixar um registro sobre esse livro. Tempos atrás, fui procurado por uma pessoa pedindo autorização para republicar minha resenha que saiu no Omelete em seu site. O ato, extremamente simpático e ético (visto que muitos pirateiam na cara dura) obviamente me deixou propenso a autorizar logo de cara. Porém, uma olhada no site dele mostrou que era para um grupo que pedia liberdade ao porte de arma e defendia o direito de qualquer cidadão poder comprar uma arma de fogo para se defender. Tenho uma posição bastante definida sobre a questão das armas de fogo - sou contrário a elas e a favor de rigorosos mecanismos de controle.

Por isso, educadamente recusei autorizar e expliquei meus motivos. O senhor em questão - um professor - agradeceu minha franqueza e enaltecemos a importância da boa convivência entre ideias contrárias. Ele agradeceu, eu lhe desejei boa sorte e encerramos o assunto.

Agora, vamos à resenha. Leia e reflita.

BRINCANDO DE MATAR MONSTROS 


Uma antiga discussão sobre a violência na mídia e seus efeitos sobre os jovens vem à tona de modo inédito e revelador com o livro Brincando de matar monstros, lançado pela Conrad Editora.

A questão é analisada sob vários aspectos pelo roteirista de quadrinhos americano Gerard Jones, que publicou a obra nos EUA em 2002. Através de diversos exemplos, o autor apresenta argumentos sensatos e questiona pesquisas e relatórios que relacionam de modo tendencioso a violência na mídia com os índices de criminalidade. Segundo ele argumenta, a ausência de uma válvula de escape na forma um entretenimento de tema violento, pode contribuir para que a violência se manifeste na vida real.

Em diversos pontos, ele questiona se são os adultos ou as crianças que confundem realidade com ficção. Segundo sua interpretação, a maioria das crianças sabe que “matar de brincadeira” durante um jogo é apenas parte do faz-de-conta, sem que com isso esteja se preparando para matar de verdade quando crescer. E a preocupação externada de alguns adultos sobre isso pode causar desconforto às crianças, que podem ficar com medo de suas próprias reações ao ver adultos darem importância exagerada ao que deveria ser somente uma brincadeira.

Ele também coloca a importância de brincadeiras violentas sem excesso, presentes em qualquer cultura (incluindo as que não têm acesso à TV), para que as crianças saibam lidar de modo controlado com algo que no fundo as assusta. Para Gerard Jones, ao invés de insensibilidade em relação à violência, essas brincadeiras dão às crianças sensação de poder e controle, coisas que elas sentem que não têm na vida real.

Com amparo familiar, essas fantasias podem ajudar não apenas a extravasar medos e ansiedades, mas também a lidar de modo seguro com assuntos perigosos, tirando assim a necessidade de se lidar com eles na realidade. E tal necessidade, não de violência, mas de poder e controle, é sentida também em meninas, que em determinado momento, desejam se sentir femininas e poderosas.

Ao mencionar a adolescência como sendo uma época de questionamentos e transformações, Gerard Jones cita ídolos da música, como rappers de pose e letras agressivas, como sendo catalisadores de desejos de ousadia, poder e liberdade. Papel semelhante é encontrado em personagens de TV, quadrinhos, filmes e games.

REFERÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS

O livro é bem atual, com citações a Buffy, Pokémon, Britney Spears, Harry Potter, Star Wars, Superman, Power Rangers, Eminem, Ice-T, jogos como Doom e uma enorme variedade de produtos da cultura pop. E também cita eventos de grande repercussão, como o incidente do tiroteio na escola Columbine e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, analisando como tais fatos fizeram aumentar a ansiedade e a paranóia com relação à violência, afastando as discussões sérias. O livro também faz ver com outros olhos o que pessoas “cultas” e “maduras” classificam como mau gosto, mas que, inequivocamente, fazem sentido para as necessidades emocionais de certas pessoas.

Através de muitos exemplos e depoimentos, Jones traça um amplo painel de discussão sobre os possíveis efeitos benéficos do entretenimento sobre as pessoas em fase de desenvolvimento. Acima de tudo, ele frisa que não existe mídia com mais força que uma única conversa familiar e que os pais devem acompanhar o que o filho assiste, ouve ou joga, mas sem querer impor seu gosto pessoal.

Esse diálogo entre gerações é defendido em vários pontos do livro, com a ressalva de que o adulto sempre deve tentar se colocar no lugar do jovem, sem querer julgar e dar todas as respostas. Igualmente importante é saber ouvir e tentar entender o que motiva as ansiedades canalizadas no gosto por coisas que podem chocar adultos preocupados. Adultos que, como o autor faz questão de lembrar, já foram crianças também e já tiveram suas fantasias sobre violência sem terem se transformado em psicopatas. A raiz da criminalidade estaria tanto em tendências patológicas como em ambientes sociais e familiares problemáticos, mas jamais em peças de entretenimento.

Sobre a banalização da violência, ele afirma que as crianças de hoje, mesmo expostas a tantas cenas de crime como se diz, são mais sensíveis à violência por terem mais informação. Como exemplo, ele lembra que em sua infância era comum ver garotos brincarem matando pequenos animais ou cortando rabos de gatos, coisa impensável para a maioria crianças de hoje em dia.

UMA VISÃO CLARA E HONESTA

Tanto empenho e didatismo levaram Gerard Jones a debates, conferências e palestras, sendo visto como uma autoridade nos EUA sobre o tema mídia e seus efeitos sobre a sociedade.

Há também uma reflexão sobre a própria mentalidade norte-americana em relação ao mundo. Segundo o que Jones ouviu de um produtor da emissora BBC, a cultura católica é lírica, trabalhando com emoção, simbolismos e arte. Já a cultura protestante americana seria literal demais, buscando uma realidade única, racional e objetiva para o mundo, o que até faz lembrar a política externa da terra do Tio Sam. Esse literalismo é que entraria em conflito com o lado mais sonhador e inofensivo das brincadeiras infantis e fantasias escapistas.

O autor já é conhecido do público brasileiro leitor de quadrinhos. Nos anos 80, escrevia os diálogos hilariantes da série Liga da Justiça Europa, publicada no Brasil pela Abril Jovem. Também trabalhou com adaptações de mangás para o inglês, como Ranma ½ e vários outros títulos.

Em sua visão e experiência de trabalho como autor de quadrinhos na indústria americana, as HQs aparecem como sinônimo de super-heróis coloridos para adolescentes. Ele, inclusive, cita que alguns colegas de profissão vivem imersos e presos em mundos imaginários, sem amadurecer de fato. Não era o caso para esse livro, mas nem é mencionado o fato de que os quadrinhos, tal como o cinema, não se restringem apenas a fantasias de poder infanto-juvenil. E é o que pode parecer para quem ler o livro e não tiver acesso a outras informações sobre quadrinhos. Mas isso não atrapalha o desenvolvimento da obra, que trata da cultura pop consumida por crianças e adolescentes, e faz isso muito bem.

O livro deveria ser lido por pessoas que promovem ações inócuas e oportunistas como uma recente campanha de “desarmamento infantil”, que trocava armas de brinquedo por gibis com o argumento simplista de que brincadeiras violentas geram adultos violentos. O que é uma bobagem e uma hipocrisia, conforme uma leitura do livro de Gerard Jones pode mostrar. Nunca a questão da violência na mídia teve um tratamento tão inteligente, esclarecedor e honesto.

Brincando de matar monstros
Autor: Gerard Jones
Formato: 16 x 23cm (320 páginas)
Lançamento: Conrad Editora

- O livro é especialmente indicado para pais, psicólogos, educadores, professores e profissionais da área de quadrinhos, animação, RPG e comunicação em geral.