quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Desafios de um roteirista - Shozo Uehara e os super-heróis japoneses

Conheça melhor a carreira do homem que escreveu histórias para Jaspion, Ultraman, Kamen Rider Black e uma infinidade de seriados de tokusatsu
Shozo Uehara, em
foto de 2002.
Durante décadas, um roteirista deixou sua marca em todas as franquias de super-heróis de tokusatsu, escrevendo e criando com a rapidez que a TV exige. Shozo Uehara nasceu em 6 de fevereiro de 1937, em Okinawa, na parte sul do Japão.



Ele começou sua carreira na Tsuburaya Pro, participando das primeiras produções do estúdio criado pelo diretor de efeitos especiais Eiji Tsuburaya. Lá, além da série infantil do monstrinho Buusuka (1966), teve a chance de escrever dois episódios de Ultra Q (1966), mais dois em Ultraman (1966~67), onze em Ultraseven (1967~68) e consagrou-se com vinte episódios (de um total de 51) de O Regresso de Ultraman (1971~72), a obra mais marcante de seus primeiros anos de carreira.

REVIRAVOLTAS E DECISÕES DRÁSTICAS
Capa do DVD japonês de
Kaettekita Ultraman
(O Regresso de Ultraman)

Nessa série, ele chocou o público com uma violenta história que mudou os rumos da produção. O herói Hideki Goh era um personagem mais humano que seus antecessores, com direito a namorada e uma vida social fora das missões. Porém, surgem os vilões chamados Os Poderosos do Espaço, que descobrem sua identidade secreta e resolvem atacar sua parte humana no episódio 37. 


Agentes dos poderosos matam a namorada do herói, Akiko (Aki, no original) de modo brutal, espancando-a dentro de um carro e arrastando seu corpo pela rua. E depois atropelam o irmão mais velho dela, Sakata, que era deficiente físico e também morre no local. A brutalidade da sequência é impensável numa série atual, ainda mais infantil ou infanto-juvenil e só foi filmada porque não havia ainda o conceito de correção política ou de limites de violência visual. 


Desesperado e desequilibrado, Goh se transforma e é vencido pelos monstros, sendo levado ao espaço por naves para ser executado. No episódio seguinte, quando tudo parecia perdido, surgem Hayata (Ultraman) e Dan Moroboshi (Ultraseven), que se transformam e salvam o irmão do perigo. A gloriosa (embora rápida) aparição dos dois heróis de séries anteriores ao som de suas músicas-tema foi emocionante e teve um efeito catártico depois de toda a desgraça e desesperança vistas. "Ultraman morre ao entardecer" e "Quando brilha a Estrela de Ultra" (eps. 37 e 38, respectivamente) eram vistos e revistos com o coração na mão, por motivos diversos. 

A história por trás desse marcante episódio duplo remete a problemas acontecidos nos bastidores. Na época, os atores assinavam contratos por lotes de episódios, pois não se sabia se as séries fariam sucesso para ocupar um ano de programação. Claro que algumas séries são planejadas para um número limitado de episódios, mas a Tsuburaya pretendia uma série de um ano no canal TBS. E também tinha receio em arriscar seu orçamento limitado com contratos longos que talvez não pudesse cumprir. Por isso, as renovações normalmente eram feitas a cada 12 ou 13 episódios. Quatro lotes desses formariam um ano de episódios semanais – 51 ou 52 ao todo, a meta idealizada pelos produtores para uma série bem-sucedida. Nisso, a atriz Rumi Sakakibara (Aki) fora convidada para trabalhar em outra produção e, sem saber se renovaria com a Tsuburaya para mais um lote de episódios, acabou aceitando. Quando decidiram renovar seu contrato, já era tarde e a personagem dela deveria ser retirada da série. Não se sabe por qual motivo (se pelo mesmo ou não), Mori Kishida (o irmão dela na série, Sakata) também saiu e coube a Uehara dar um fim nos dois. 

No enredo, com o pretexto de observar melhor a extensão do poder do segundo Ultraman, os Poderosos enviam os monstros Marítimo (Seamons) e Estelar (Bemstar), que já haviam dado trabalho ao herói. O que se viu foi uma reciclagem de cenas antigas pra ganhar tempo, o que reforça a ideia de algo feito às pressas. Mas longe de ser uma aventura capenga, o que Uehara fez foi criar o mais impactante arco de histórias já feito numa produção de tokusatsu para TV até aquele momento, superando em drama a famosa crucificação de Ultraseven anos antes. Depois das trágicas mortes de dois personagens importantes, veio a catarse: Hayata (Ultraman) e Dan Moroboshi (Ultraseven) apareciam para ajudar o irmão a escapar da execução no espaço. Uehara criou um momento que ficou eternizado na mente de milhões de fãs. 


Depois de O Regresso, vieram sete episódios em Ultraman Ace (1972~73) e mais dois em Ultraman Taro (1973~74). Depois disso, sairia da Tsuburaya.


ESQUADRÕES COLORIDOS, HERÓIS METÁLICOS E OUTROS
Goranger, de Shotaro Ishinomori, o
início dos Super Sentai
.

Sem contrato de exclusividade, iria ganhar ainda mais destaque na Toei Company. Trabalhou na adaptação para seriado tokusatsu do mangá Goranger (1975), de Shotaro Ishinomori, que seria o embrião da franquia Super Sentai (e obviamente sua derivada Power Rangers), repetindo a dose com a série seguinte, JAQK (Jakkar, 1977). 


O escritor ainda adaptaria vários outros trabalhos de Ishinomori, como Inazuman (1973), o robozinho infantil Robocon (1974) e um herói já visto no Brasil, o Machine Man (1984). Sendo autor free-lancer, circulou por diferentes estúdios, como a lendária P-Productions (de Spectreman e Lion Man). Lá, escreveu, entre outros, Denjin Zavorger (1974), criação de Kazuo Koike, escritor dos mangás Lobo Solitário e Crying Freeman


Quando a Toei Company “se apropriou” das ideias de Ishinomori e estabeleceu o gênero Super Sentai com sua série Battle Fever J em 1979, chamaram Shozo Uehara para garantir o pique das histórias. Na franquia dos heróis coloridos, assinaria roteiros também em Denziman (1980), Sun Vulcan (1981) e Ohranger (1995).

Mas ele deixaria sua marca novamente com o icônico herói Uchuu Keiji Gavan (Policial do Espaço Gavan, de 1982), assinando 37 dos 44 episódios. Em Sharivan (1983), foram 41 de 51 e, em Sheider (1984), simplesmente todos os 48 episódios, sendo o responsável pela formatação e consagração do gênero Metal Hero.

Uehara assinou 42 das 46 aventuras de Jaspion (1985), onde mostrou muita versatilidade em histórias com desenvolvimento mais livre do que nas antecessoras, que obedeciam a uma estrutura mais rígida nas histórias. Se as séries eram divertidas, com heróis e vilões carismáticos, grande mérito é de Uehara. A série não foi um grande sucesso no Japão, ao contrário do Brasil, onde entrou pra História da TV e foi reprisado inúmeras vezes, estando hoje disponível em DVD. 
Boomerman, o amigo de Jaspion,
foi um autêntico herói "tapa-buraco".
Em Jaspion, Uehara teve que mostrar novamente jogo de cintura e reescrever histórias em cima da hora, antes das filmagens. Acontece que o ator principal, Seiki Kurosaki, estava envolvido com trabalhos no teatro quando foi escalado para a série. Com receio de prejudicar sua carreira (e conta bancária), Kurosaki conseguiu junto à Toei uma redução de sua carga de trabalho. Por alguns episódios, Jaspion deveria apenas aparecer transformado na maior parte do tempo, dispensando o ator de várias filmagens. Isso obrigou Uehara a criar um herói humano para ser coadjuvante e ajudar na condução dos enredos. 

Nascia então Boomerman (Boomerang), vivido pelo ator e dublê Hiroshi Watari. Mas o ator, que havia sofrido um acidente de moto num passeio, tinha pinos na perna que precisavam ser retirados até um certo prazo limite. Isso acabou fazendo a participação de Boomerman ser reduzida para apenas 6 episódios, retornando posteriormente para mais dois e fechar sua trama. Seiki Kurosaki acabou tendo que refazer seus planos para dedicar mais tempo a série e Uehara teve que reajustar vários episódios mais uma vez.

Também participou nos roteiros em Spielvan (1986) e Metalder (1987), mas seu outro grande destaque na década foi com os primeiros episódios de Kamen Rider Black (1987), especialmente o primeiro que, dirigido por Yoshiaki Kobayashi, apontou os rumos para a mais sombria série da franquia Kamen Rider até então. Em 1994, escreveu o especial de cinema que apresentou Kamen Rider J, herói capaz de ficar gigante, último personagem da franquia supervisionado por Shotaro Ishinomori, que faleceria em 1998.

DIMINUINDO O RITMO, MAS SEM PERDER A EMOÇÃO
O primeiro Ultraman
e Tiga: Encontro
de gerações.

Na segunda metade da década de 1990, Uehara já teria um ritmo de produção menor, já entrando em clima de aposentadoria. Em 1996, a série Ultraman Tiga fez renascer o interesse do grande público pela franquia Ultra e o clima era de total renovação. Passada em um universo paralelo, a saga de Tiga não fazia menção à existência dos Ultras clássicos, até o episódio 49 que teve Uehara como roteirista convidado. 


Em "A Estrela de Ultra", descobre-se que no mundo onde se passa a história de Tiga, Ultraman é um seriado de TV. Em uma aventura com viagem no tempo, o protagonista Daigo vai parar no próprio estúdio Tsuburaya na década de 60, que se preparava para uma nova produção envolvendo monstros e um novo tipo de super-herói. Com grandes sacadas, Shozo Uehara homenageou seus velhos amigos do início de carreira, especialmente o diretor Eiji Tsuburaya, que acreditou em seu trabalho. Depois, ainda faria um roteiro em Ultraman Dyna (1997).

Em 2007, a série filipina Zaido apresentou uma não-oficial, porém autorizada, continuação de Sheider, onde um descendente do herói luta contra o clã maligno Kuuma. Uehara participou da equipe de criação e roteiro dessa obscura produção, dando ao menos alguma fidelidade ao trabalho, já que Sheider foi um seriado que ele escreveu do início ao fim. Autor versátil, acabou também fazendo letras de algumas músicas, incluindo o segundo encerramento de Spielvan.

Praticamente aposentado, atualmente Shozo Uehara está afastado da mídia. Tendo escrito e formatado séries inteiras, nunca foi considerado um dos grandes criadores do mundo do tokusatsu e muito menos da cultura pop japonesa. Mas fica aqui uma homenagem a esse profissional do texto que divertiu gerações inteiras escrevendo e reescrevendo histórias ágeis e dinâmicas dentro de prazos curtos e com muito profissionalismo.

8 comentários:

Betarelli, Ivan D. disse...

Excelente postagem, Nagado. Se Jaspion é sinônimo de herói japonês no Brasil, grande parte desse feito deve-se ao Uehara. Foram muitos trabalhos magníficos no decorrer da carreira que marcaram a vida de muita gente. Confesso que não sabia de parte de seu passado, pra ser mais exato, anterior à Gavan.

Uma pena um roteirista ímpar deste nível estar praticamente aposentado.

Sonho um dia em conseguir ler uma entrevista com esse profissional, focado nos anos 80.

Mais uma vez, parabéns pelo texto.

Ricardo Cerdeira disse...

Parabéns pelo belo post, Nagado. Foi uma bela iniciativa homenagear o grande Shozo Uehara.

Eu costumo me deter bastante na análise de roteiristas - seja em tokusatsu, séries americanas, desenhos, etc...

No caso específico de tokusatsu, eu imagino como deve ser difícil o trabalho de conciliar a construção de um enredo com as várias exigências comerciais feitas por parceiros da Toei, como a Bandai. Isso sem contar com imprevistos, como os que você mencionou nesse post.

Na minha opinião, Uehara foi o mais importante roteirista de tokusatsu para a tevê, tendo passado por todos os gêneros com maestria.

Dá para argumentar que alguns de seus finais de séries não foram tão marcantes, ou que ele criou poucos vilões de peso, mas ninguém no gênero conseguiu uma regularidade tão grande por praticamente duas décadas ininterruptas.

Falando especificamente sobre "O Regresso": pode até ser polêmico, mas acho que o Sakata fez mais falta para a série do que a Aki.

Se formos analisar a lista de episódios da série, dá para perceber que os melhores momentos da Aki foram justamente em episódios escritos pelo Uehara. Dava a impressão que os outros roteiristas não sabiam o que fazer com ela.

Já o Sakata conseguiu ter um bom destaque em outros episódios - inclusive em um escrito pelo próprio ator que o interpretava, o de número 35.

Os episódios 37 e 38 foram os últimos de Uehara antes de uma longa estiagem - ele só voltaria a escrever o episódio final da série (não sei o motivo, mas, coincidência ou não, na altura dessa reta final de "O Regresso", Uehara também estava escrevendo vários episódios para Silver Kamen, da Senkosha).

Assim, como os episódios 39 a 50 não foram mesmo escritos por ele, acredito que a série não tenha perdido tanto com a falta da Aki, que foi substituída por uma espécie de genérico, a Rumiko.

Finalizando, vale lembrar que o ótimo filme 8 Irmãos Ultra fez uma bela homenagem à personagem, fazendo alusão àqueles que talvez tenham sido os seus melhores momentos na série, nos episódios 5 e 6 e no 37 de Ultraman Jack.

Alexandre Nagado disse...

Ricardo, acho que pouca gente se tocou o quanto ele foi importante para a construção dos gêneros do tokusatsu na TV, por isso quis homenageá-lo. E acho que pelo menos um grande vilão ele criou: MacGaren.

E falando em aliar criatividade às exigências das circunstâncias, dá pra dizer que a personagem Annie do Sheider ganhou toda a aquela presença porque a atriz Naomi Morinaga lutava bem, enquanto Hiroshi Tsuburaya não. Dar muitas cenas de ação de alto impacto a ela certamente fez com que fosse moldada uma personalidade mais forte para a personagem, compatível com uma lutadora de primeiro nível. Annie, como Boomerman, foi praticamente uma criação de Uehara tendo em vista o ator que interpretaria.

Sobre o longa dos 8 Irmão Ultra: fiz uma resenha sobre esse filme aqui no blog. A primeira metade é maravilhosa. Do meio pra frente, vai jogando a lógica pro espaço e por isso não é dos meus favoritos. Mas ver a Aki envelhecendo ao lado de Goh (mesmo em um universo paralelo) deu um sabor agridoce ao filme.

Abraços!

superd7br disse...

Excelente post. Realmente Shozo Uehara sabe contar histórias de super-heróis com maestria equilibrando ação e drama.
Agora quanto ao Regresso de Ultraman (que eu considero uma obra-prima), acho que reviravoltas dramáticas eram uma tendência na época: um ano antes, o anime clássico de vôlei Attack No 1 (alguém conhece?) chocou o público com a morte brutal do namorado da heroína Kozue num acidente de carro. A tragédia quase a fez largar o esporte.

Bruno Seidel disse...

Grande post, Nagado! Realmente, tenho um gosto bem similar ao do Cerdeira no que diz respeito a roteiros de Tokusatsu. É uma das coisas que eu mais aprecio no gênero. E algo interessante que particularmente me encanta no Tokusatsu é justamente esta capacidade que alguns roteiristas (o Uehara em especial) têm de adaptar suas histórias com as exigências comerciais normalmente visando venda de brinquedos. Hoje em dia isso é ainda mais influente do que nos anos 80. Na minha opinião, isso torna o trabalho do roteirista ainda mais desafiador Ed, desde que a produção não se torne excessivamente comercial, claro, pode dar rumos bem interessantes às histórias. É um desafio e tanto para a criatividade do autor. Tai uma particularidade do Tokusatsu com relação a outras mídias, como animes e mangás. Nos live action, existem diversos fatores externos que implicam no enredo da série, ou seja, o autor não tem total controle sobre a obra. Já nos animes e nos mangás, muitas vezes o roteirista (e, quando muito, o editor) são os donos da trama e podem fazer o que bem querem com seus personagens, afinal, eles não são atores da vida real, que podem vir a falecer/adoecer e colocar um pepino na mão do autor. Por isso eu admiro demais o trabalho de roteiristas como Shozo Uehara, que conseguiram criar histórias e personagens épicos em um universo repleto de limitações, exigências externas e desafios.

Marcelo Beat disse...

Oi, Nagado! Post excelente! Sinto muita falta de saber mais sobre o universo "por trás" dessas séries!
Os roteiros de tokusatsu são repletos de referências, releituras e metáforas, muitas delas, de ordem sexual. Escrevi um pouco sobre isso no meu blog. Pra quem se interessar, está no http://maisespertoqamaioriadosursos.wordpress.com/2010/11/26/sobre-monstros-robos-gigantes-e-a-primeira-menstruacao/
e http://maisespertoqamaioriadosursos.wordpress.com/2010/12/01/o-tokusatsu-visto-do-porta-malas-de-tarantino/
E continue com esse excelente trabalho, Nagado! É muito importante pra nós, fãs órfãos de informações!

Douglas disse...

Nagado, meow, isso reforça ainda mais o meu gosto por tokusatsu, é ver que o serviço não é mal feito, acho que isso acaba sendo um forma de respeito deste senhor para com o publico.

Rodrigo disse...

Oi, Nagado. Mais uma vez, me dando uma senhora aula!
Confesso que eu não conhecia o nome Uehara, sabia de que por trás da pena que escreveu meus episódios favoritos de Ultraseven e de Jaspion, mas sempre adiei o momento de pesquisar a fundo os nomes dos responsáveis criativos. Não há como negar o apelo dramático desses seriados que, apesar de voltados para o público infanto-juvenil, dispõem de uma implícita conotação que inclui diversos temas maduros, como o embate entre ética e moral.

Muito bom ler teu artigo, mas é uma pena refletir, também, que os seriados japoneses no formato em que nossa geração conheceu, não são muito "compatíveis" com a geração atual.
Abraço!