RECADO AOS VISITANTES:

Olá! O blog está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Autores sem rosto

Nos créditos de seriados como Jaspion, Changeman, Flashman, Jiraiya e outros, aparece como criador o nome de Saburo Yatsude. Autor de dezenas de super-heróis de sucesso, alguns podem estranhar como ele nunca aparece, nunca dá entrevistas e nunca foi fotografado. A resposta é simples: ele não existe. Saburo Yatsude é o pseudônimo do estúdio Toei Company, usado para dar um toque “pessoal” a criações corporativas. Na década de 1970, era o pseudônimo do produtor Toru Hirayama, responsável por grande impulso criativo no estúdio. Mas depois, passou a ser o nome de autor para qualquer 

Esses seriados do mundo do tokusatsu são produções que, comercialmente, sobrevivem como vitrine para brinquedos. Nesse aspecto, são os empresários de licenciamento que ditam muitos rumos das produções. Se o herói vai ter moto, espada, armadura, se vai ter formas variantes, acessórios, robôs gigantes, quantos inimigos, monstros, etc. Equacionando tudo isso e tentando fazer seu trabalho, entram os roteiristas e designers.
Jaspion, da Toei Company

No mundo mais infantilizado dos seriados Super Sentai (como Changeman e afins), muita gente vive apontando que os robôs gigantes parecem de brinquedo. O motivo, bastante óbvio, é que suas formas foram planejadas para que fossem usados moldes mais simples para a produção industrial dos brinquedos. Por isso a maioria dos robôs de Super Sentai tinha estrutura de blocos. Assim, o original e o bonequinho ficavam praticamente iguais, sem a necessidade de estruturas mais complexas. O mercado evoluiu e o uso de formas de blocos foi deixando de ser tão obrigatório (como robôs com formas de animais), mas nada muito inovador.

Tendo que conviver com todos os ganchos de marketing, entra o trabalho dos roteiristas. É a eles em geral que cabe a missão de fazer a série dar certo, criar empatia dos personagens com o público e fazer a trama fluir, incorporando as exigências dos patrocinadores. As equipes das séries são rotativas e vários criadores participam, mas geralmente um ou outro nome acaba tendo o trabalho mais centralizado na concepção e condução da série, como Shozo Uehara em Jaspion e Toshiki Inoue em Jetman



No caso da franquia Ultraman, não é apresentado um nome para a criação de nenhuma série. Eiji Tsuburaya, veterano dos efeitos especiais, supervisionou a criação de Ultra Q, Ultraman e Ultraseven na década de 1960, dando sugestões, aprovando e direcionando aspectos gerais das histórias e visuais. Mas não criou exatamente nenhum personagem da franquia, que é sempre apresentada como um conjunto de personagens corporativos da Tsuburaya Pro, sem um pseudônimo ou nome de fantasia para assumir a criação, que é sempre coletiva, com um produtor coordenando. 
Gundam, da Sunrise

Outro caso de autor fictício como Saburo Yatsude é o de Hajime Yatate, o pseudônimo do estúdio Sunrise (antiga Nippon Sunrise), que produziu clássicos como a saga Gundam e Cowboy Bebop

A Sunrise, que também realizou adaptações de mangás famosos como Inu-Yasha (de Rumiko Takahashi) e City Hunter (de Tsukasa Hojo), tem em sua extensa filmografia criações corporativas, como Samurai Warriors, Escaflowne e os já citados Gundam e Cowboy Bebop. Tanto a Sunrise quanto a Toei Company são submetidas à poderosa Bandai, gigante do entretenimento e maior fabricante de brinquedos e miniaturas ligadas às séries. 

Mesmo que os direitos comerciais pertençam à Sunrise, do ponto de vista autoral, no entanto, sempre foi dado o devido crédito a Yoshiyuki Tomino por ter idealizado o Gundam original (e várias sequências), além de Ideon, Xabungle, Dunbine, L-Gaim e vários outros animês com robôs gigantes, sua especialidade. Também já foi dado publicamente o crédito intelectual a Shinichiro Watanabe por Cowboy Bebop. Isso, até hoje, a Toei Company jamais fez por seus autores contratados. 

14 comentários:

Bruno Seidel disse...

Putz Nagado!!! Que post, cara!!

Eu acho muito interessante discutir esse tipo de assunto, até porque sempre quis saber quem eram os "gênios" criadores das séries de Tokusatsu e já há algum tempo sei que o tal do Saburo Yatsude sequer existiu.
* Parece que um exemplo mais conhecido de "personalidade fantasma" é o tal do Herbert Richards, né?

Mas enfim... é bem curioso essa observação. O que temos por trás de uma ideia de uma série ou um herói de Tokusatsu é, na verdade, um departamento de marketing com várias cabeças pensantes e vários interesses paralelos (merchandising, principalmente). Eu, particularmente, que sou um profissional de propaganda, considero isso bem interessante e bem oportuno (inclusive costumo citar bastante séries de Tokusatsu quando participo de conversas envolvendo Publicidade e Entretenimento).

Aliás, uma boa dica de leitura com relação a este assunto é o livro de Scott Donaton: "Publicidade + Entretenimento". Fica aí a dica e desculpe a empolgação, mas qndo eu falo de Tokusatsu é assim mesmo! huehuehuehuhe

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Opa, uma correção: Herbert Richers era uma pessoa, sim. Digo era porque já faleceu. Tem uma pequena biografia dele na Wikipedia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Herbert_Richers

Betarelli, Ivan D. disse...

Oi Nagado. Em alguns lugares o pseudônimo da Toei usado com frequencia aparece como Saburo Yatsude, outras vezes Saburo Hatte. Acredito que os Kanjis permitem a dupla leitura, como foi o caso no passado do Issei Hirota, que na verdade chama-se Kazunari Hirota.

Grande abraço.

Alexandre Nagado disse...

É isso mesmo, Ivan. Apareceu em algumas fontes como Saburo Hatte, mas, se não me engano, eram matérias ocidentais. Eu mesmo já fui por esse caminho, mas me convenci de que devia ser erro de leitura. A romanização oficial é (e acho que sempre foi) Saburo Yatsude.

Bruno Seidel disse...

Putz! Que vacilo o meu! HEuHEuHEHEue!

Ahhh... e quanto ao "Hatte" citado pelo Ivan, se não me engano, na lendária edição nº 10 da revista Herói, naquela matéria sobre Power Rangers X Super Sentai o nome aparecia como Saburo Hatte né??

Abraços

Alexandre Nagado disse...

Não me lembro, mas é bem provável. Foi um dos vários erros de leitura de kanji de nome que eu cometi.

Na verdade, meu professor de japonês, que era quem me ajudava, tinha dúvidas compreensíveis sobre a melhor pronúncia para os nomes que eu mostrava. Mesmo no Japão, tem muitos casos em que há dúvidas sobre qual das possíveis pronúncias a pessoa utiliza para seu nome.

Abraços!

Felipe disse...

"Mesmo que os direitos comerciais pertençam à Sunrise, do ponto de vista autoral, no entanto, sempre foi dado o devido crédito a Yoshiyuki Tomino por ter idealizado o Gundam original (e várias sequências) e a Shinichiro Watanabe por Cowboy Bebop. Isso, até hoje, a Toei Company jamais fez por seus autores."

Bem, a Toei nunca foi conhecida por ser ética. Ela toma decisões por si só que diversas vezes entram em conflito com os autores das séries que produz. Exemplo é o fato deles deliberadamente terem excluído o nome do Go Nagai como criador original de Gaiking, com a intenção de que ele não pudesse reivindicar direitos autorais. Ou o fato de Shotaro Ishinomori não figurar como o criador original em nenhum Sentai além de Goranger e JAKQ (e não há como negar, Denjiman e os demais estão muito mais próximos do conceito de Goranger do que aquele visto em Battle Fever J.). É claro que isso é mais raro quando se trata de autores veteranos de mangá, mas ela já cometeu esse tipo de coisa com quase todos seus principais colaboradores.

Alexandre Nagado disse...

É verdade, Felipe. E eu me lembro que a Toei só considerava "Super Sentai" de Battle Fever J pra frente por causa do uso de robôs gigantes. Mas nos anos 90 voltaram atrás e incluíram as equipes de Ishinomori no gênero. Claro que isso sem oferecer a ele a parte que lhe cabia como criador do conceito original.

Denziman e seus sucessores são plágios óbvios de Goranger, mas como Ishinomori ainda tinha os Kamen Riders em produção na Toei, deve ter sido orientado a não se queimar com a empresa.

Michel disse...

Na verdade, ambas as leituras, "Yatsude" e "Hatte" são cabíveis. Pela wikipédia, o correto parece ser mesmo Yatsude, mas a grafia Hatte, gramaticalmente falando, também existe. Hatte aparecia em alguns dos mangas publicados na revista Terebi Magazine. Mas agora fica a questão, quantas pessoas são esse "Yatsude"? Já que a tradução literal é "Oito mãos"...

Alexandre Nagado disse...

Eu aposto que não é um grupo fixo, mas sim equipes de criação rotatórias submetidas à supervisão de produtores executivos. No caso do Jaspion, acredito que é bem clara a importância do Shozo Uehara no montagem da saga e da dinâmica dos personagens.

E bem lembrado esse lance da romanização usado em mangás da Terebi Magazine. Peguei um do meu acervo com uma história do Zyuranger em que aparece assim mesmo. Mas na maioria das referências, aparece como Yatsude mesmo.

Abraço!

Guyferd disse...

Esqeucendo todos os entraves comerciais e decisões de empresas, eu como leitor, telespectador ou o que for, curto mais um projeto quando os nomes de seus autores é revelado ao mundo.

Quando soube que a Toei usa um nome fictício, fiquei meio com cara de besta, como se achasse (vendo como fã) que me acham inútil demais para saber os nomes dos roteiristas.

Que tem fábricas por trás, que tem um marketing gigante por trás, tudo bem. Mas não vejo no quê prejudicaria uma indústria colocar ali os nomes dos caras que ficarem o real papel de roteiristas (em cada série, em cada episódio, o que for).

Admiro o trabalho de Ziraldo e o mesmo vale para o trabalho dele. Pelo menos antigamente quando eu colecionava O Menino Maluquinho, suas revistas não tinham créditos, e sim do estúdio Zappin (conheci um dos desenhistas por sorte, o Miguel Mendes Reis).

E Turma da Mônica a mesmíssima coisa.

Talvez seja algo meu, mas eu curtiria mais que os nomes (reais) de todos os envolvidos aparecessem.

Alexandre Nagado disse...

No caso da Toei, os roteiristas de cada episódio recebem os devidos créditos. O que não é creditado é o papel desses autores (além de desenhistas e diretores) na concepção das personagens e suas personalidades.

E bem lembrado, o Mauricio poderia fazer o mesmo com seus profissionais, creditando eles em cada história.

Usys 222 disse...

O mercado é exatamente como foi descrito na matéria. Atualmente, uma equipe "boa" é aquela que consegue colocar com naturalidade os produtos no seriado e fazer com que eles pareçam atrativos.
Pelo menos, os designers têm liberdade para criar os vilões, que não têm muita procura. Por isso, os inimigos acabam tendo um visual muito mais elaborado que os heróis.
Tem mais uma "autora" para ser colocada nesta lista: Izumi Tôdô, usada com frequência em desenhos animados da Toei como Nadja, Ojamajo Doremi e Precure.

Ale Nagado disse...

Não sabia dessa Izumi Tôdô, certamente porque não acompanhei essas séries que mencionou. Boa informação, valeu.

Um dia ainda pretendo abordar os designers de animês e tokusatsu. O trabalho deles é diluído, ainda mais no caso de designers colaboradores. O nome deles não vai nos créditos e geralmente são personagens, naves ou máquinas secundários que eles desenham, mas que têm importância. São os heróis anônimos da gigantesca indústria pop japonesa.

Ainda volto a abordar esse tema.
Abraço!