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Olá! O blog ainda está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, Katokutai, Pinóquio de Osamu Tezuka, Danger 3, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Falando em público

Durante palestra sobre
cultura pop japonesa em Osasco/SP
Palestras sobre quadrinhos não são uma novidade, mas elas têm ganho mais espaço e vêm sendo feitas para plateias maiores do que há 15 anos atrás. Além de pesquisadores, é comum que quadrinhistas sejam convidados em eventos para falar sobre seu trabalho. O problema é que apenas chegar na frente de uma audiência, falar sobre si e responder perguntas não é uma palestra. Bate-papo e palestra são coisas que se confundem na cabeça de muita gente que assiste, que organiza e que vai em eventos de quadrinhos. O primeiro é mais informal, despojado. O segundo é uma proposta de transmitir informações de modo eficaz, com técnicas de oratória e comunicação.


No mundo empresarial, tudo é mais profissional e existem palestrantes  que cobram bem por suas apresentações.  Eu espero sinceramente que os eventos de quadrinhos e cultura pop japonesa caminhem também nessa direção. Isso passa pela remuneração das pessoas que se preparam para encarar uma platéia. Sou de uma época em que palestras de HQ ou de mangá atraíam 10 pessoas. E já enfrentei auditórios com mais de uma centena de pessoas. 15 anos atrás, ninguém falava em pagamento, tudo era divulgação. De alguns anos pra cá, já dei muitas palestras remuneradas e deixei de atender a convites de palestras "só pra divulgar e dar uma força". Há exceções, claro, e as pessoas que estão dentro dessas exceções sabem exatamente como me procurar. Falar em público é algo que faz parte da minha vida muito antes do lado profissional existir.


Quando estudei desenho, tive oportunidades de substituir o professor Ismael dos Santos e ele me deu valiosas dicas sobre como falar em público e driblar o nervosismo. No colegial, passado a maior parte no colégio Costa Manso, no Itaim Bibi (zona sul de SP, capital), o professor Falcão (Educação Artística) dava exercícios de teatro e sua aula era das mais interessantes. Em 1997, fui prestar uma consultoria de 3 meses (ampliada para 5) na empresa Goen3 Rainbow (atual Invel), onde trabalhei com o empresário Mario Hirata, um verdadeiro mestre em comunicação que me ensinou muito. Anos depois, meu interesse por música me levou a estudar karaokê, com o Ito-han, grande figuraça da colônia japonesa, que me ensinou muito e ajudou a soltar a voz. Depois, fui estudar uma temporada com a Daniella Alcarpe, cantora de MPB, que mistura o estudo de canto com teatro e dicas valiosas de dicção. O treino de uma respiração mais correta para o canto também deu mais fôlego para aulas e palestras. Tudo isso me ajudou enormemente a me comunicar bem verbalmente e já realizei dezenas de palestras e participei de mesas-redondas de assuntos ligados às minhas áreas de atuação.

Em 2008, ilustrei o livro Faça seu coração falar (Ed. Bushido), do empresário Cláudio Ayabe, onde técnicas de oratória eram apresentadas de modo didático. Material do Reinaldo Polito outros ajudaram com componentes teóricos, mas o contato com Ayabe foi fundamental para que eu visse palestras de outro modo, mais profissional.

Acredito que todo mundo deva aprender um pouco sobre comunicação verbal, seja para se portar bem em uma entrevista de emprego, seja para defender seu ponto de vista numa reunião ou negociar com um cliente. Professores deveriam ser obrigados a fazer curso de oratória, pois já tive muitos que nem sabiam falar direito.

Na minha área de quadrinhos e cultura pop japonesa, conheço alguns pesquisadores e autores extremamente bons para falar em público, mas também vi outros que, apesar do excelente currículo e conhecimento, não conseguem uma comunicação verbal eficaz com a platéia.


Nada substitui o carisma natural, mas depender só dele é, no mínimo, uma falta de profissionalismo quando o assunto envolve uma palestra (remunerada ou não, pois é compromisso assumido).


É certo cobrar para ir falar sobre um assunto. E também é certo oferecer algo mais que um bate-papo quando a proposta é uma palestra. Abaixo, organizei algumas dicas que considero essenciais em uma boa apresentação.


ALGUMAS DICAS PARA UMA BOA PALESTRA

1) Tenha certeza de dominar bem o assunto e faça anotações para montar um roteiro dos assuntos a abordar. Nada substitui o conhecimento. Faça perguntas a si mesmo, imagine-se respondendo perguntas difíceis ou embaraçosas. Jamais tente disfarçar seu desconhecimento. Se não souber, valorize a questão levantada e diga que vai pesquisar o assunto.


Com planejamento e preparo,
fica mais fácil encarar qualquer platéia.
- Ilustração extraída do livro Faça
Seu Coração Falar (
Ed. Bushido)
2) Apresente-se confiante, mas seja humilde 
Arrogância gera antipatia, mesmo que você seja um gênio. Boa educação cabe em qualquer lugar. Uma vez, num debate, um renomado autor que estava ao meu lado se levantou pra ir fumar quando foi minha vez de falar e anunciou isso. Seus fãs podem não ter ligado, mas foi uma tremenda falta de respeito, entre outras grosserias de artista mimado que ele cometeu por se achar o máximo. O mundo dá voltas. 


3) Controle os vícios de linguagem. 
Termos como "né?", "tipo assim" e outros são muletas de linguagem e, quase sempre, mostram insegurança. O mesmo vale pra vícios verbais como "vamos combinar", "saca só" e por aí vai. Entre jovens, é ótimo mostrar certo despojamento, mas melhor do que se igualar à plateia é despertar nela admiração.


4) Valorize seus ouvintes. 
Foi pouca gente ouvi-lo falar? Não mencione que "é uma pena ter vindo tão pouca gente". Da mesma forma, jamais comece se desculpando, exceto se for muito pertinente. Ao invés disso, valorize quem está lá e estabeleça com eles um diálogo mais próximo, impossível de acontecer num auditório lotado. Com uma palestra pequena, você pode criar não só admiradores, mas fãs. E sempre agradeça.


5) Você gosta de contar algo engraçado pra deixar o clima descontraído? Faça isso com moderação pra não virar bagunça. 
Ao falar algo engraçado e a platéia reagir rindo, deixe rirem um pouco e, quando o som dos risos começar a diminuir, retome o assunto com voz firme. É importante ter o controle da audiência, ter o público em suas mãoes.


6) Coloque os assuntos no contexto, não parta do pressuposto de que todo mundo na platéia conhece a fundo o assunto que vai abordar. É possível se aprofundar num assunto partindo de seu princípio. Colocar no contexto sempre ajuda a clarear o raciocínio e a conduzir melhor o assunto a seu desfecho.


7) Poupe a voz antes da palestra. 
Bebidas geladas e sorvetes podem irritar a garganta. Leite e alimentos que engrossam a saliva (como banana ou chocolate) não são recomendados antes de uma palestra. Seja profissional na preparação, sendo ou não pago para isso. Compromisso assumido é sagrado.


8) Tente conhecer o lugar da palestra antes, para se familiarizar com o espaço e o equipamento. Teste microfone, lousa, projetor de slides, o que for preciso. Não suba ao palco se sentindo perdido, olhando para os lados.


9) Pronuncie bem as palavras e treine variações no volume e intensidade da voz. Como numa canção, sua voz não pode parecer monótona e linear, para não dar sono nos ouvintes. Aprenda a colocar entusiasmo para valorizar alguns momentos, sem parecer forçado. O mesmo vale para gesticulação, que deve ser usada com moderação, mas que pode ajudar a enfatizar certos pontos. Treinar na frente de um espelho ajuda. 


10) Cuidado com a postura. 
Evite ombros caídos e posição corcunda. Uma postura ereta e com ombros relaxados (mas não caídos) ajuda até na respiração, algo essencial para o bom uso da voz. Se estiver em uma bancada e tiver que ficar sentado (como num debate), não se esparrame na cadeira. Você deve parecer relaxado (tranquilo) e não desleixado.

4 comentários:

Patrick (Matu) disse...

Ótimas dicas. Falar em público realmente requer prática e treino. Eu tive um professor de faculdade que, a cada frase, bebia um pouquinho de água. O curioso é que, quando a água acabou, ele continuou bebendo do copo vazio. Aquilo foi terrível. Todos começaram a reparar, e ele começou a perder o domínio da turma. Falar em público é uma das artes mais difíceis. Um amigo meu, muito tímido, apelou para lições de teatro para poder ser um bom orador. Eu também tenho um vexame. Eu publiquei um livro de poemas. Na noite de autógrafos, uma amiga minha e eu fomos recitar dois poemas. Ela foi brilhante e arrancou apalusos. Quando eu terminei, podia-se ouvir o cachorro do vizinho latindo. :)

Alexandre Nagado disse...

O copo de água era a muleta emocional. Não podemos deixar que o nervosismo nos faça buscar essas muletas, que só fazem destacar a insegurança. Quando se encara uma platéia com alguém hostil às suas ideias ou trabalhos, o cuidado é ainda maior.

Mas tudo isso se aprende.

Patrick (Matu) disse...

Eu suspeitei que fosse algo assim. Eu sentava na frente e fui o primeiro a perceber o copo vazio. Acabei por cochichar com o colega do lado, que falou com outro. Em pouco tempo todo mundo já tinha percebido. Ficou uma sensação muito estranha.Na semana seguinte, eu não sei o que pode ter acontecido, mas o professor era outro. Mudaram o professor.

caio lucas disse...

Obrigado pelas dicas! Falar em público em apresentações de trabalhos, mesmo numa roda de amigos, sempre foi uma das minhas atividades favoritas! No entanto não me dava bem toda vez. Lendo o texto me veio à memória algumas dessas vezes e o porque dessas falhas terem ocorrido!