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segunda-feira, 21 de junho de 2010

ENTREVISTA: CLÁUDIO DE OLIVEIRA

Cláudio de Oliveira é um dos mais competentes e criativos chargistas de sua geração. Capaz de retratar personalidades da política nacional com traços simples e precisos, Cláudio se destaca mesmo é com o conteúdo provocativo e reflexivo de suas charges, publicadas diariamente no jornal Agora São Paulo, do grupo Folha. É autor dos livros O que vier eu traço, Pittadas de Maluf, Lula Ano Um, Pizzaria Brasil e co-autor de Já Era Collor.

Conheci o Cláudio durante nossa participação como jurados e palestrantes no Salão de Humor de Paraguaçu Paulista, em 2008. O respeito foi imediato e nos tornamos amigos. Tomamos alguns cafés perto da redação do jornal onde ele trabalha, o Agora, que fica perto de onde eu morava, no bairro de Campos Elíseos, no centro de São Paulo.

Não costumo publicar muitas entrevistas aqui no blog, mas relendo o Pizzaria Brasil, tive ideias para algumas perguntas que resolvi compartilhar com os leitores. A mesma entrevista foi autorizada para publicação no Bigorna.net, a referência sobre HQ e humor gráfico brasileiro.

Conheça um pouco como pensa e trabalha o chargista Cláudio. 



Nagado: Em que momento você se decidiu a seguir a carreira de desenhista profissional?
Cláudio: Desde criança gostava de desenhar. Havia começado a publicar charges diárias em 1976, com 13 anos, no jornal natalense Tribuna do Norte. Em 1977, fui convidado por Henfil - que à época morava em Natal - a colaborar com o Pasquim. 

Em 1982, passei no vestibular de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Concluí o curso no final de 1985. Até então eu havia sido um autodidata de desenho de humor. Mas sentia necessidade de estudar artes gráficas. Em 1989, consegui uma bolsa para a Escola Superior de Artes Industriais de Praga, na antiga Tchecoslováquia. Lá, fiz uma especialização em artes gráficas e voltei ao Brasil em 1992.

No ano seguinte, vim para São Paulo e passei a publicar charges nos cadernos regionais da Folha de São Paulo, que circulavam no interior do estado. Naquele mesmo ano, fui convidado para fazer charges em outro jornal da empresa, a Folha da Tarde. Em 1999, o jornal se fundiu com o Notícias Populares, dando origem ao Agora São Paulo, jornal em que publico até hoje.

Nagado: Quais os maiores desafios intelectuais ou culturais para um chargista?
Cláudio: Ser politizado, ter cultura geral e conhecer um pouco de História. A charge não é uma gracinha, mas um comentário crítico da realidade. Para tanto, o chargista precisa ler muito, deve estar bem informado, ter opinião e capacidade de análise. A primeira dica que Henfil me deu foi: o cartunista deve ler tudo, até receita de bolo. E me deu de presente o livro Composições Infantis, de Millôr Fernandes.

Nagado: Como é seu método de trabalho? Você chega na redação já com uma ideia que foi passada pra você ou fica sabendo das manchetes em cima da hora? Qual o tempo médio para produzir uma charge?
Cláudio: Chego ao jornal por volta das 13 horas. Leio a Folha e o Agora. Às vezes, também folheio outros jornais. Dou uma olhada na pauta do jornal e no noticiário online. Vou fazendo anotações de possíveis temas a serem abordados. Às 16h30 participo da reunião de fechamento com os editores, quando fico sabendo quais notícias serão importantes para o jornal. Raramente entro na reunião com uma ideia pronta. Algumas vezes as ideias surgem durante a reunião, mas geralmente vêm depois. Por volta das 17h30, apresento o rascunho de uma ou duas propostas ao editor, que as aprova em quase 99% dos casos. Só então preparo o desenho. Tenho de finalizá-lo até as 20h30, quando o arquivo eletrônico da charge deve ir para a primeira página. O fato de estar na capa do jornal me obriga a fazer charges “quentes”, com o assunto do dia. Na charge, o desenho não é tão importante. O mais importante é a ideia. Levo mais tempo elaborando a ideia.

Nagado: A charge é sempre datada, já que reflete uma notícia, um momento. Mesmo assim, há alguma que você tenha feito que você recorda com orgulho ou carinho? Fale sobre ela.
Cláudio: A primeira charge que publiquei no Pasquim, em abril de 1977, aos 13 anos. Mostrei o exemplar para o meu pai, Lavanere Renovato, dono de uma loja de sapatos em um bairro popular de Natal, o Alecrim, uma espécie de Brás. Na mesma rua, havia mais de uma dezena de sapatarias. Ele foi de loja em loja com o jornal na mão mostrando o meu desenho aos seus amigos comerciantes.

Nagado: Como você vê o momento atual do humor gráfico brasileiro, especialmente a charge?
Cláudio: Fico surpreso com a profusão de talentos pelo Brasil afora. Por onde você vá, encontrará muita gente desenhando quadrinhos, cartuns, charges, tiras, caricaturas de boa qualidade. Na charge em especial, há três desafios. O primeiro, sair do lugar-comum na abordagem do humor. O segundo, é evitar que a computação gráfica leve a uma padronização do desenho. Outro desafio, é como incorporar ao mercado essa multidão de novos talentos. Espero que as novas mídias eletrônicas sejam capazes de abrir espaços para novos profissionais e remunerá-los dignamente. Vejo com muita esperança o movimento de grandes editoras em lançar publicações em quadrinhos.

Nagado: E politicamente, como você se posiciona? Um chargista pode ou deve ter uma posição política clara? Pergunto isso porque há comentaristas de futebol que falam abertamente para qual clube torcem, enquanto outros até escondem preferências para não serem taxados de parciais. E conheço chargistas que possuem posições políticas e ideologias bem definidas em seus trabalhos. Pode falar, cá entre nós. (risos)
Cláudio: Já fui um comunista ortodoxo. Hoje me sinto um socialista reformista. Creio que as experiências dos socialistas na Europa ocidental, que conseguiram construir sociedades democráticas com justiça social, são mais exitosas do que aquelas do socialismo de tipo soviético. Além de terem se tornado ditaduras odiadas por boa parte da população, os países do leste europeu não conseguiram propiciar aos seus cidadãos um padrão de vida comparável aos dos suecos, por exemplo.

O chargista pode ter uma posição política clara. Mas acho que ele deve separar sua posição política da sua simpatia partidária. Uma coisa é a posição política e outra é a posição partidária. O chargista deve estar acima dos partidos, deve ter o pensamento crítico e independente para criticar todo e qualquer governo.

Não fazer a crítica pela crítica, mas baseada em valores. Meu trabalho está calcado em valores que expressam minha posição política: os valores democráticos, republicanos e sociais.

Quando um governo tenta cooptar o apoio de deputados e senadores por meio de favores de diversos tipos, por exemplo, ele está enfraquecendo os partidos e o parlamento, instrumentos fundamentais da democracia. É anti-democrático. Na condição de chargista, sinto-me na obrigação de criticar esse governo. Quando usa a administração pública para favorecer interesses particulares, privados ou partidários, ele está sendo anti-republicano. Aqui também me sinto na obrigação de criticar. Quando não cuida bem da educação, por exemplo, ele está sendo anti-social num país de tanta desigualdade social. Mais uma vez, sinto a obrigação de criticar.

Segundo o filósofo e professor da UFRJ Leandro Konder, em seu livro “História das ideias socialistas no Brasil”, no país há diferentes partidos de orientação socialista ou social-democrata. E cita o PT, o PPS, o PSB, o PCdoB, o PDT e o PSDB. Concordo. E eu incluiria o PV. Posso votar em qualquer um deles. Como também faço um exercício diário de distanciamento, de tal modo que eu possa criticar tranquilamente qualquer um desses partidos, da mesma forma como critico partidos não socialistas com os quais não simpatizo, como o DEM, o PMDB, o PP, etc.

Aprendi com o francês Plantu, chargista do jornal de centro-esquerda Le Monde, a criticar governos socialistas ou social-democratas mesmo sendo um socialista. Quando o socialista François Miterrand foi eleito presidente da França em 1981 e posteriormente aplicou uma política econômica de austeridade e de arrocho salarial, Plantu não deixou de criticá-lo. Cumpriu sua obrigação de chargista.

Nagado: Quais seus autores favoritos? Depois de citar os chargistas, pode mencionar jornalistas, escritores, quadrinhistas, diretores, músicos, etc... Fale um pouco sobre suas preferências culturais.
Cláudio: Ao longo do tempo, absorvi influências de quem eu gostava. Quando criança, eu adorava os desenhos de Carl Barks, principalmente o Pato Donald do bico longo dos anos 40 que ele fazia. Sempre gostei dos desenhos das primeiras animações da Disney, ainda em preto e branco, do Ub Iwerks. Curtia o Zé Carioca desenhado por Canini.

Tive influências dos desenhistas de Natal, Emanoel Amaral, Aucides Sales e Edmar Viana. Minha grande influência foi Henfil, passei um tempo desenhando parecido com o desenho dele, com um traço caligráfico. Sou um filhote do Pasquim. Toda a patota do Pasquim desenhava daquele jeito. Era o traço da época, influência do pessoal do semanário de humor francês, o Charles Hebdo, em que se destacava Wolinsky. Gostava de outros franceses como Hoviv, Sempé, Siné e de uma francesa pouco lembrada, Claire Bretécher.

Ziraldo e Millôr tiveram outras inflências. Acho o desenho de Ziraldo maravilhoso. Seu livro O Pipoqueiro da Esquina é uma aula magistral de desenho. Carlos Estêvão, Quino, Mordillo, Aragonés, da MAD. Francisco Ibáñez, de Mortadelo e Salaminho. A minha geração teve influências dos irmãos Caruso. Especialmente pelas charges com poucas palavras.

Fico fascinado com o trabalho de J. Carlos. Passei um tempo tentando desenhar parecido com J. Carlos e suas caricaturas maravilhosas. Sempre preferi a caricatura síntese à caricatura retrato. A caricatura mais como a logomarca da cara do sujeito e menos como deformação fotográfica. Adoro Belmonte e acho Nássara fantástico no seu poder de síntese.

Foram essas as minhas principais influências.

Na infância e no início da adolescência, li muito quadrinho. De todo tipo. Quando aos 13 anos passei a frequentar a redação do jornal, no contato com os jornalistas, sentia-me um completo ignorante. Aconselhado por um deles, Emanoel Barreto, tratei de ler literatura. Li tudo o que estava ao meu alcance: Machado de Assis, José Alencar, Graciliano Ramos etc. Passei também a ler os jornais da imprensa alternativa, como Pasquim, Opinião, Movimento.

Virei frequentador assíduo das sessões de cinema de arte do Cine Clube lá de Natal. Adoro documentário, ficção científica e comédias. Charles Chaplin morreu no dia 25 de dezembro de 1977. Na semana seguinte, um cinema de Natal, o Cine Rio Grande, exibiu os principais filmes de Carlitos. Conheci o principal da obra de Chaplin em uma semana. Para mim, foi demais. O herói de Chaplin era um mendigo. Há alguém mais socialmente excluído do que um mendigo? Eu era politicamente ingênuo e achei naquela hora que o artista devia ser sempre o porta-voz dos excluídos.

Depois, passei a ler teoria política, especialmente literatura marxista. Li inclusive versões em quadrinhos tanto do Manifesto Comunista quanto de O Capital, de Karl Marx.

Nagado: Finalmente, gostaria de deixar uma mensagem?
Cláudio: Ter boas ideias é mais importante do que desenhar bem. Para ter boas ideias, isto é, para ter o que dizer aos seus contemporâneos, o artista precisa ter aquilo que se costuma chamar de bagagem. Ele precisa viver, conviver, prestar atenção à vida e ler bastante. 

Nagado: Cláudio, muito obrigado pela gentileza em conceder a entrevista. Sucesso pra você!



Crédito da foto: Rubens Cavallari

Não deixe de visitar o blog do Cláudio: Chargista Cláudio

3 comentários:

Caio Murdock disse...

A mensagem final me tocou. Parabéns ao Cláudio de Oliveira pelo seu trabalho!

Anônimo disse...

Essa entrevista com o Claudio é de leitura obrigatória para qualquer artista iniciante ou profissional já que esclarece prerrogativas necessárias a todos que vivem da arte. Quando ele evidência o estudo como construtor do artista diferencial ressalta a ideia como principal fator e não a ilustra em si, acho que muitos desenhistas deveriam ler isso!

Saulo de Brito (Griffin)

Alexandre Nagado disse...

Realmente, Caio, a entrevista do Cláudio ensina muita coisa e a mensagem final é uma lição de vida.

Saulo, tomei a liberdade de copiar o trecho da sua mensagem, postada em outro tópico, sobre a entrevista do Cláudio. Acho que assim fica mais no contexto. E o lance da importância da ideia, que ele enfatiza, é realmente para fazer refleti. E olha que o cara desenha absurdamente bem.

Abraços!