RECADO AOS VISITANTES:

Olá! O blog ainda está de férias, mas já estou trabalhando em novas postagens. O Sushi POP voltará a ser atualizado no dia 1 de agosto (terça), no período da tarde.

O que vem por aí:
- Ultraman Geed, Novo Lobo Solitário, Katokutai, Pinóquio de Osamu Tezuka, Danger 3, resultado da convocação para trabalhos acadêmicos e mais!

Esteja aqui para conferir. Até breve!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

OS NOVOS RUMOS DE ULTRAMAN


Criado em 1966 pela produtora Tsuburaya Pro, sob a supervisão do diretor de efeitos especiais Eiji Tsuburaya, o gigantesco combatente de monstros Ultraman se tornou um dos personagens mais importantes dentro da chamada cultura pop japonesa. Ação, humor e fantasia embalavam aventuras divertidas que culminavam com uma luta de Ultraman contra o "monstro da semana". Seu sucesso inspirou o estúdio a criar no ano seguinte uma produção mais séria e elaborada, Ultraseven. Reunindo conceitos de ambas as séries, O Regresso de Ultraman (Kaettekita Ultraman) estabeleceu, em 1971, a ideia do que seria a Irmandade ou Família Ultra

De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Vieram séries boas e outras nem tanto. Algumas, visceralmente ligadas à cronologia original, outras vagamente e outras ainda apontavam para direções completamente diferentes. Mas até hoje, para a surpresa de quem não acompanha esse universo, novas produções sempre dão as caras no Japão. E Ultraman e personagens derivados viraram uma infinidade de mangás, animês, games, brinquedos e são constantemente homenageados em inúmeras produções, de Pokémon a Dragon Ball.

Depois de muitas experiências tentando novos rumos pra franquia, a Tsuburaya lançou em 2006 Ultraman Moebius, a série mais ligada à cronologia do "universo clássico", com monstros que retornam, citações às equipes anti-monstro que existiram e participação dos Ultras clássicos e a maioria dos atores originais. Junto, saiu o longa Ultraman Moebius & Ultraman Brothers, que até já passou no Brasil, no canal pago HBO. Moebius teve alguns especiais feitos direto pra DVD e ainda participou do filme A grande batalha decisiva - Os 8 Super Irmãos Ultra (Daikessen! Chou Ultra Hachi Kyodai, 2008), que juntou Ultras de diferentes linhas de tempo em um universo alternativo. Mas a grande jogada viria somente em 2009, acompanhado por novos ares para a empresa, que mudaria de donos.

Os últimos anos têm sido bastante agitados para a Tsuburaya Pro, por conta de uma briga judicial - vencida por eles - em que um estúdio tailandês tentou se apropriar da marca com algumas falcatruas e manobras de tribunal motivadas por equivocados contratos de licenciamento feitos na década de 1970. Depois, a produtora foi comprada em 2007 pela gigante de comunicações TYO (51% das ações) e pela Bandai (49%), levando ao fim o conceito de empresa familiar, já que a empresa era administrada pelos descendentes do fundador. Além dos novos investimentos a marca passou a ser distribuída pela Warner Bros, o que já se refletiu no filme A Grande batalha dos monstros - A lenda da Galáxia Ultra (Dai Kaiju Battle - Ultra Ginga Densetsu, 2009), que foi precedida por dois especiais em DVD.

A qualidade da produção deu um salto enorme, com imagens épicas e um ritmo de ação capazes de surpreender quem acha que "tokusatsu" (os efeitos especiais japoneses) são sinônimo de produção capenga. O filme apresentou o filho de Ultraseven, o impulsivo e poderoso Ultraman Zero, o único capaz de enfrentar Ultraman Belial, o demoníaco vilão que derrota sozinho um batalhão inteiro de Ultras. 


O filme trouxe mais uma vez os veteranos Susumu Kurobe (Hayata) e Koji Moritsugu (Dan Moroboshi) vivendo as identidades humanas de Ultraman e Ultraseven, mais de 40 anos depois de suas estréias. Outros veteranos, como Jiro Dan (Hideki Goh - Ultraman Jack), Keiji Takamine (Seiji Hokuto - Ultraman Ace) e Ryu Manatsu (Gen Ootori - Ultraman Leo) participaram dublando as vozes dos heróis, garantindo muita fidelidade ao trabalho, que ainda teve Shunji Igarashi (Mirai Hibino - Ultraman Moebius), Takeshi Tsuruno (Shin Asuka - Ultraman Dyna) e Shota Minami (Rei, que assume a identidade de Reimon), da série derivada Dai Kaiju Battle.

Em março, a TYO vendeu sua parte para a Fields Corporation, do ramo de pachinko (jogo muito popular no Japão). Isso, no entanto, não mudou os rumos, pois foi anunciado um filme que dará sequência à saga de Zero contra Belial. Ultraman Zero The Movie: Cho Kessen! Belial Ginga Teikoku (Ultraman Zero - O Filme: O Império Galático de Belial) vai mostrar o herói fundindo-se a um hospedeiro humano (vivido pelo ator Yu Koyanagi) e seguindo os passos de seus antecessores na luta para salvar o universo. Agora chamado Kaiser Belial, o maior inimigo já criado para os Ultras é praticamente o Darth Vader da Tsuburaya, pois é um Ultra que passou para o "lado negro", tanto mencionado na saga Star Wars. Aliás, a influência da criação de George Lucas ficou óbvia desde o filme anterior, ao mostrar Dan e Hayata usando mantos que lembram muito os trajes dos Mestres Jedi. 

A história dos Ultras é muito anterior à de Star Wars, mas essa mistura de influências e mudança de donos no estúdio tem se refletido em aventuras novas e diferentes, mas com muito respeito pelo passado da franquia. A aventura estréia no Japão no dia 23 de dezembro de 2010 e antes disso, dois especiais em DVD serão lançados para preparar o terreno para o filme. O futuro parece promissor para a Estrela de Ultra.

Site oficial:
Ultraman Zero

segunda-feira, 28 de junho de 2010

SEMANA DA CULTURA JAPONESA EM CAMPO GRANDE - RELATO DO EVENTO

Entre 16 e 19 de junho, aconteceu em Campo Grande (MS) a Semana da Cultura Japonesa, organizada pela Associação Esportiva e Cultural Nipo Brasileira de lá, com apoio de diversas entidades e empresas. Estive lá entre 17 e 19, patrocinado pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo, para apresentar a palestra "Cultura pop japonesa - Os heróis do mangá, animê e tokusatsu."

A viagem de Ilha Solteira para lá foi longa, sendo que não há a opção de viagem aérea da minha cidade (ou alguma outra próxima) para lá. Primeiro, uma hora de ônibus até Três Lagoas (MS), onde eu deveria pegar outro ônibus. E ainda me atrapalhei lá, pois havia esquecido que nessa cidade já há um fuso horário de uma hora em relação a São Paulo. Depois de 3 horas de espera, viajei por mais 5 horas para Campo Grande, onde o vice-cônsul da área cultural Yusuke Takahashi e a assessora Junko Takara me aguardavam. Da rodoviária, segui para o Hotel Harbour e de lá fui conhecer o evento, que rolava na sede campestre da Associação Nipo. Infelizmente, eu perdi o show de Danilo Tomic, que fez uma apresentação de shakuhachi, a tradicional flauta japonesa, no dia anterior à minha chegada.

A presença da colônia japonesa em Campo Grande é significativa e já conta com 90 anos, sendo parte da cidade. Inclusive, uma das atrações gastronômicas do evento era o sobá de Campo Grande, uma variação local do tradicional prato da culinária japonesa.

O dia 17 começou cedo e corrido. Ás 7 da manhã, eu estava no estúdio da Rádio Blink 102, a mais badalada FM local, para o programa Café com Blink. O programa, conduzido pelos apresentadores Tostão, Guanari, Paulo Victor e Neiba Ota é bem animado e divertido. Lá, falei sobre minha participação no evento e divulguei a programação. Ao final, me pegaram de surpresa e pediram pra eu cantar alguma música ligada à minha especialidade. Ali, no susto e sem acompanhamento, mandei ver a música do Ultraman, que é fácil e dá menos chance de errar. Foi bem divertido, afinal de contas. E papeando com o jornalista Paulo Victor, que também é designer gráfico, descobri que colaboramos com a mesma revista um tempo atrás, a Paróquias e Casas Religiosas. (Mas que mundo pequeno!)

Depois, fui direto para o colégio Visconde de Cairu, criado e mantido pela Associação Nipo, para palestrar a um grupo de alunos. Como eram bem jovens, entre 11 e 14 anos, fiz uma abordagem mais simplificada e enfatizando coisas mais conhecidas. Depois da entrevista, ainda fiquei longamente dando uma entrevista para uma repórter do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Fiquei com a voz cansada e tive que me poupar para a palestra principal, no palco do evento. 

Já no evento, que estava bem cheio, pude fazer passagem de som e teste de microfone. Lá também estava o ator Kendi Yamai, que iria apresentar o concurso Miss Nikkey, que aconteceria depois da minha palestra. Acabei ajudando ele no teste de palco, que foi engraçado.

Assisti a uma bela apresentação do coral da Nipo. Aquele grupo de idosos frágeis na aparência e fortes na determinação cantou com vozes firmes e afinadas e foi impossível não sentir emoção quando eles encerraram cantando a tradicional "Furusato" ("Terra Natal"). Apresentações de dança bon-odori e karaokê continuaram animando o público, que já ia lotando as dependências do evento.

Finalmente, subi para minha palestra, onde falei sobre as origens do mangá, do animê e do tokusatsu, enfatizando o crescimento criativo que aconteceu após a segunda guerra mundial e a importância dos heróis - especialmente do mangá - num momento em que o Japão sofria com a dura reconstrução do país. Procurei dialogar com o público mais velho que ocupava o auditório e o resultado foi bastante positivo. Saindo do palco, ainda fui entrevistado para a TV Morena, a retransmissora local da Rede Globo. Eu estava com a voz bem desgastada já, mas o fôlego voltou. Estavam lá a Ana Recalde e o Fred Hildebrand, do mangá nacional Patre Primordium, que fariam palestra no último dia do evento e apareceram pra gente se conhecer. Jantamos e tomamos umas cervejinhas enquanto íamos trocando figurinhas.

Foi um dia perfeito e realmente bastante gratificante. Mas na correria em que eu e todos estávamos, não me despedi de quase ninguém da organização do evento. No dia seguinte, parti às 11 da manhã para retornar à minha cidade, com a sensação de dever cumprido.

Por isso, fica aqui o meu fraterno agradecimento ao pessoal do consulado, da Associação Nipo, ao público e a todas as pessoas legais que eu conheci e que tornaram minha estadia em Campo Grande ainda mais agradável e especial. Espero voltar lá um dia. 

quinta-feira, 24 de junho de 2010

KAORI (Prólogo) - "TÔ FALANDO COM VOCÊ!"

Crianças são uma fonte inesgotável de inspiração. Já usei a caricatura da minha garotinha em cartão de Natal e mostrei alguns esboços para algumas pessoas. E já faz um tempo que planejo relatar, em quadrinhos, algumas situações divertidas que aconteceram. O resultado, desenvolvido enquanto aguardava a aprovação de dois trabalhos, está aqui. 

Resolvi que as primeiras tiras iriam mostrar ela como um bebê de colo (de poucas semanas), para mostrar um pouco como a personalidade dela (que está com dois anos e meio) já começava a se desenvolver. Não sei quando publicarei uma segunda tira. Como não é trabalho e não depende de prazo, e sim de tempo livre e inspiração, não posso prometer nada. Por ora, espero que curta esse meu lado "pai babão". Eu me diverti, com certeza. Clique para ampliar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

VEM AÍ: PATRULHA ESTELAR - O FILME

No dia primeiro de dezembro de 2010, estreia no Japão a versão live-action de Space Battleship Yamato, ou Uchuu Senkan Yamato (Encouraçado Espacial Yamato), cuja série de TV ficou conhecida no Brasil como Patrulha Estelar. A saga espacial foi um divisor de águas na animação japonesa, aumentando a faixa etária dos fãs ao conquistar colegiais e universitários. As tramas épicas, personagens emocionalmente fortes e uma trilha belíssima criaram um clássico que persiste até hoje.

Recentemente, foi postado no YouTube um vídeo que mostra trechos do filme e também apresenta a campanha de lançamento, que inclui até merchandising com a Hello Kitty. O pessoal aqui pode estranhar - afinal a personagem é produto para garotinhas. Mas vale lembrar que muitas garotas crescidas e até adultas consomem itens da personagem, especialmente no Japão. E lá existe um público feminino que gosta do Yamato. Curta o vídeo e, se você faz parte da geração que assistia Patrulha Estelar na TV Manchete, diga se não é arrepiante.


O protagonista Susumu Kodai (ou Derek Wildstar, como é conhecido no ocidente) será vivido por Takuya Kimura, membro da banda SMAP e astro de primeira linha em seu país. Parece que no geral será fiel ao original, apesar de algumas mudanças anunciadas. Mas só por terem mantido o design original de Leiji Matsumoto e a trilha sonora de Hiroshi Miyagawa já vale o ingresso. Sim, Patrulha Estelar - O Filme será lançado no Brasil, no final deste ano.

Enquanto isso não acontece, vamos recordar a bela abertura original da terceira temporada da série:





E finalmente, veja (ou reveja) o incrível vozeirão de Isao Sasaki em uma das mais emocionantes versões ao vivo da música-tema do Yamato.




Leia mais:
Direto do site Omelete: Lembra desse? Patrulha Estelar

segunda-feira, 21 de junho de 2010

ENTREVISTA: CLÁUDIO DE OLIVEIRA

Cláudio de Oliveira é um dos mais competentes e criativos chargistas de sua geração. Capaz de retratar personalidades da política nacional com traços simples e precisos, Cláudio se destaca mesmo é com o conteúdo provocativo e reflexivo de suas charges, publicadas diariamente no jornal Agora São Paulo, do grupo Folha. É autor dos livros O que vier eu traço, Pittadas de Maluf, Lula Ano Um, Pizzaria Brasil e co-autor de Já Era Collor.

Conheci o Cláudio durante nossa participação como jurados e palestrantes no Salão de Humor de Paraguaçu Paulista, em 2008. O respeito foi imediato e nos tornamos amigos. Tomamos alguns cafés perto da redação do jornal onde ele trabalha, o Agora, que fica perto de onde eu morava, no bairro de Campos Elíseos, no centro de São Paulo.

Não costumo publicar muitas entrevistas aqui no blog, mas relendo o Pizzaria Brasil, tive ideias para algumas perguntas que resolvi compartilhar com os leitores. A mesma entrevista foi autorizada para publicação no Bigorna.net, a referência sobre HQ e humor gráfico brasileiro.

Conheça um pouco como pensa e trabalha o chargista Cláudio. 



Nagado: Em que momento você se decidiu a seguir a carreira de desenhista profissional?
Cláudio: Desde criança gostava de desenhar. Havia começado a publicar charges diárias em 1976, com 13 anos, no jornal natalense Tribuna do Norte. Em 1977, fui convidado por Henfil - que à época morava em Natal - a colaborar com o Pasquim. 

Em 1982, passei no vestibular de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Concluí o curso no final de 1985. Até então eu havia sido um autodidata de desenho de humor. Mas sentia necessidade de estudar artes gráficas. Em 1989, consegui uma bolsa para a Escola Superior de Artes Industriais de Praga, na antiga Tchecoslováquia. Lá, fiz uma especialização em artes gráficas e voltei ao Brasil em 1992.

No ano seguinte, vim para São Paulo e passei a publicar charges nos cadernos regionais da Folha de São Paulo, que circulavam no interior do estado. Naquele mesmo ano, fui convidado para fazer charges em outro jornal da empresa, a Folha da Tarde. Em 1999, o jornal se fundiu com o Notícias Populares, dando origem ao Agora São Paulo, jornal em que publico até hoje.

Nagado: Quais os maiores desafios intelectuais ou culturais para um chargista?
Cláudio: Ser politizado, ter cultura geral e conhecer um pouco de História. A charge não é uma gracinha, mas um comentário crítico da realidade. Para tanto, o chargista precisa ler muito, deve estar bem informado, ter opinião e capacidade de análise. A primeira dica que Henfil me deu foi: o cartunista deve ler tudo, até receita de bolo. E me deu de presente o livro Composições Infantis, de Millôr Fernandes.

Nagado: Como é seu método de trabalho? Você chega na redação já com uma ideia que foi passada pra você ou fica sabendo das manchetes em cima da hora? Qual o tempo médio para produzir uma charge?
Cláudio: Chego ao jornal por volta das 13 horas. Leio a Folha e o Agora. Às vezes, também folheio outros jornais. Dou uma olhada na pauta do jornal e no noticiário online. Vou fazendo anotações de possíveis temas a serem abordados. Às 16h30 participo da reunião de fechamento com os editores, quando fico sabendo quais notícias serão importantes para o jornal. Raramente entro na reunião com uma ideia pronta. Algumas vezes as ideias surgem durante a reunião, mas geralmente vêm depois. Por volta das 17h30, apresento o rascunho de uma ou duas propostas ao editor, que as aprova em quase 99% dos casos. Só então preparo o desenho. Tenho de finalizá-lo até as 20h30, quando o arquivo eletrônico da charge deve ir para a primeira página. O fato de estar na capa do jornal me obriga a fazer charges “quentes”, com o assunto do dia. Na charge, o desenho não é tão importante. O mais importante é a ideia. Levo mais tempo elaborando a ideia.

Nagado: A charge é sempre datada, já que reflete uma notícia, um momento. Mesmo assim, há alguma que você tenha feito que você recorda com orgulho ou carinho? Fale sobre ela.
Cláudio: A primeira charge que publiquei no Pasquim, em abril de 1977, aos 13 anos. Mostrei o exemplar para o meu pai, Lavanere Renovato, dono de uma loja de sapatos em um bairro popular de Natal, o Alecrim, uma espécie de Brás. Na mesma rua, havia mais de uma dezena de sapatarias. Ele foi de loja em loja com o jornal na mão mostrando o meu desenho aos seus amigos comerciantes.

Nagado: Como você vê o momento atual do humor gráfico brasileiro, especialmente a charge?
Cláudio: Fico surpreso com a profusão de talentos pelo Brasil afora. Por onde você vá, encontrará muita gente desenhando quadrinhos, cartuns, charges, tiras, caricaturas de boa qualidade. Na charge em especial, há três desafios. O primeiro, sair do lugar-comum na abordagem do humor. O segundo, é evitar que a computação gráfica leve a uma padronização do desenho. Outro desafio, é como incorporar ao mercado essa multidão de novos talentos. Espero que as novas mídias eletrônicas sejam capazes de abrir espaços para novos profissionais e remunerá-los dignamente. Vejo com muita esperança o movimento de grandes editoras em lançar publicações em quadrinhos.

Nagado: E politicamente, como você se posiciona? Um chargista pode ou deve ter uma posição política clara? Pergunto isso porque há comentaristas de futebol que falam abertamente para qual clube torcem, enquanto outros até escondem preferências para não serem taxados de parciais. E conheço chargistas que possuem posições políticas e ideologias bem definidas em seus trabalhos. Pode falar, cá entre nós. (risos)
Cláudio: Já fui um comunista ortodoxo. Hoje me sinto um socialista reformista. Creio que as experiências dos socialistas na Europa ocidental, que conseguiram construir sociedades democráticas com justiça social, são mais exitosas do que aquelas do socialismo de tipo soviético. Além de terem se tornado ditaduras odiadas por boa parte da população, os países do leste europeu não conseguiram propiciar aos seus cidadãos um padrão de vida comparável aos dos suecos, por exemplo.

O chargista pode ter uma posição política clara. Mas acho que ele deve separar sua posição política da sua simpatia partidária. Uma coisa é a posição política e outra é a posição partidária. O chargista deve estar acima dos partidos, deve ter o pensamento crítico e independente para criticar todo e qualquer governo.

Não fazer a crítica pela crítica, mas baseada em valores. Meu trabalho está calcado em valores que expressam minha posição política: os valores democráticos, republicanos e sociais.

Quando um governo tenta cooptar o apoio de deputados e senadores por meio de favores de diversos tipos, por exemplo, ele está enfraquecendo os partidos e o parlamento, instrumentos fundamentais da democracia. É anti-democrático. Na condição de chargista, sinto-me na obrigação de criticar esse governo. Quando usa a administração pública para favorecer interesses particulares, privados ou partidários, ele está sendo anti-republicano. Aqui também me sinto na obrigação de criticar. Quando não cuida bem da educação, por exemplo, ele está sendo anti-social num país de tanta desigualdade social. Mais uma vez, sinto a obrigação de criticar.

Segundo o filósofo e professor da UFRJ Leandro Konder, em seu livro “História das ideias socialistas no Brasil”, no país há diferentes partidos de orientação socialista ou social-democrata. E cita o PT, o PPS, o PSB, o PCdoB, o PDT e o PSDB. Concordo. E eu incluiria o PV. Posso votar em qualquer um deles. Como também faço um exercício diário de distanciamento, de tal modo que eu possa criticar tranquilamente qualquer um desses partidos, da mesma forma como critico partidos não socialistas com os quais não simpatizo, como o DEM, o PMDB, o PP, etc.

Aprendi com o francês Plantu, chargista do jornal de centro-esquerda Le Monde, a criticar governos socialistas ou social-democratas mesmo sendo um socialista. Quando o socialista François Miterrand foi eleito presidente da França em 1981 e posteriormente aplicou uma política econômica de austeridade e de arrocho salarial, Plantu não deixou de criticá-lo. Cumpriu sua obrigação de chargista.

Nagado: Quais seus autores favoritos? Depois de citar os chargistas, pode mencionar jornalistas, escritores, quadrinhistas, diretores, músicos, etc... Fale um pouco sobre suas preferências culturais.
Cláudio: Ao longo do tempo, absorvi influências de quem eu gostava. Quando criança, eu adorava os desenhos de Carl Barks, principalmente o Pato Donald do bico longo dos anos 40 que ele fazia. Sempre gostei dos desenhos das primeiras animações da Disney, ainda em preto e branco, do Ub Iwerks. Curtia o Zé Carioca desenhado por Canini.

Tive influências dos desenhistas de Natal, Emanoel Amaral, Aucides Sales e Edmar Viana. Minha grande influência foi Henfil, passei um tempo desenhando parecido com o desenho dele, com um traço caligráfico. Sou um filhote do Pasquim. Toda a patota do Pasquim desenhava daquele jeito. Era o traço da época, influência do pessoal do semanário de humor francês, o Charles Hebdo, em que se destacava Wolinsky. Gostava de outros franceses como Hoviv, Sempé, Siné e de uma francesa pouco lembrada, Claire Bretécher.

Ziraldo e Millôr tiveram outras inflências. Acho o desenho de Ziraldo maravilhoso. Seu livro O Pipoqueiro da Esquina é uma aula magistral de desenho. Carlos Estêvão, Quino, Mordillo, Aragonés, da MAD. Francisco Ibáñez, de Mortadelo e Salaminho. A minha geração teve influências dos irmãos Caruso. Especialmente pelas charges com poucas palavras.

Fico fascinado com o trabalho de J. Carlos. Passei um tempo tentando desenhar parecido com J. Carlos e suas caricaturas maravilhosas. Sempre preferi a caricatura síntese à caricatura retrato. A caricatura mais como a logomarca da cara do sujeito e menos como deformação fotográfica. Adoro Belmonte e acho Nássara fantástico no seu poder de síntese.

Foram essas as minhas principais influências.

Na infância e no início da adolescência, li muito quadrinho. De todo tipo. Quando aos 13 anos passei a frequentar a redação do jornal, no contato com os jornalistas, sentia-me um completo ignorante. Aconselhado por um deles, Emanoel Barreto, tratei de ler literatura. Li tudo o que estava ao meu alcance: Machado de Assis, José Alencar, Graciliano Ramos etc. Passei também a ler os jornais da imprensa alternativa, como Pasquim, Opinião, Movimento.

Virei frequentador assíduo das sessões de cinema de arte do Cine Clube lá de Natal. Adoro documentário, ficção científica e comédias. Charles Chaplin morreu no dia 25 de dezembro de 1977. Na semana seguinte, um cinema de Natal, o Cine Rio Grande, exibiu os principais filmes de Carlitos. Conheci o principal da obra de Chaplin em uma semana. Para mim, foi demais. O herói de Chaplin era um mendigo. Há alguém mais socialmente excluído do que um mendigo? Eu era politicamente ingênuo e achei naquela hora que o artista devia ser sempre o porta-voz dos excluídos.

Depois, passei a ler teoria política, especialmente literatura marxista. Li inclusive versões em quadrinhos tanto do Manifesto Comunista quanto de O Capital, de Karl Marx.

Nagado: Finalmente, gostaria de deixar uma mensagem?
Cláudio: Ter boas ideias é mais importante do que desenhar bem. Para ter boas ideias, isto é, para ter o que dizer aos seus contemporâneos, o artista precisa ter aquilo que se costuma chamar de bagagem. Ele precisa viver, conviver, prestar atenção à vida e ler bastante. 

Nagado: Cláudio, muito obrigado pela gentileza em conceder a entrevista. Sucesso pra você!



Crédito da foto: Rubens Cavallari

Não deixe de visitar o blog do Cláudio: Chargista Cláudio

quarta-feira, 16 de junho de 2010

SEMANA DA CULTURA JAPONESA EM CAMPO GRANDE

Nesta quinta (dia 17), sigo de Ilha Solteira (SP) pra Campo Grande (MS). Apesar de morar na divisa de São Paulo com o Mato Grosso do Sul, tenho uma hora de viagem até Três Lagoas e depois, mais cinco horas até Campo Grande. É um longo trajeto, mas irei por um bom motivo: participar da Semana da Cultura Japonesa em Campo Grande, promovida pela Associação Esportiva e Cultural Nipo Brasileira de lá. Estou indo patrocinado pelo Consulado Geral do Japão de São Paulo e farei duas palestras, uma em um colégio e a outra no local do evento, a sede campestre da associação.

Aqui está o cartaz com a programação completa do evento, que começa hoje e vai até o dia 19. Na área de mangá, atenção para a participação dos quadrinhistas Fred Hildebrand e Ana Recalde.

Devo atualizar o Twitter diretamente de Campo Grande durante minha estadia e, na semana que vem, o blog terá novas postagens, incluindo o relato da viagem. Até lá!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O PIRATA DO ESPAÇO - UM CLÁSSICO PRA RELEMBRAR




Em 1983, quase não havia animês em exibição na TV brasileira. Foi quando estreou a TV Manchete, que na época não era exibida todo o dia, com um modesto pacote de atrações em seu Clube da Criança, apresentado por uma estreante e desajeitada Xuxa. Uma das atrações era O Pirata do Espaço, nome dado aqui a Groizer X, um obscuro animê dos anos 1970, criação menor do estúdio Dynamic Pro, do lendário Go Nagai.

Muito cultuado em seu país, ele é o autor de Mazinger Z, o primeiro robô gigante pilotado e de uma infinidade de personagens marcantes. A animação, do estúdio Knack Pro era descuidada e o robô é pouco lembrado em seu país, mas os personagens eram fortes, com histórias violentas, dramáticas e intensas, ao estilo de Go Nagai. Fez sucesso no Brasil e muita gente na faixa dos 30 anos recorda com nostalgia essa série.

Entre as raridades postadas por fãs no Youtube, é possível encontrar a abertura original. Aqui, aparecia uma versão instrumental, sendo que a versão cantada da música só foi ouvida em um episódio. Curta o vídeo abaixo e, se quiser ler mais sobre o Pirata, veja um antigo texto meu que saiu no site Omelete:

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O PODER DE COMUNICAÇÃO DOS QUADRINHOS INSTITUCIONAIS

Por sua combinação de texto e imagem, os quadrinhos têm um grande poder de comunicação e podem ter sucesso onde extensos manuais técnicos nada conseguem. Quadrinhos institucionais são aquelas peças narrativas encomendadas por uma instituição para divulgar suas mensagens, sejam elas voltadas ao público geral ou ao público interno, ou seja, seus funcionários.

E é fazendo materiais assim que tenho me mantido na ativa como quadrinhista, apesar de meu último trabalho editorial ter sido o álbum Mangá Tropical (Ed. Via Lettera, 2003).
Enquanto trabalhava como roteirista de Street Fighter (Ed. Escala, 1993 ~ 95), tive minha primeira experiência com HQ institucional, lá no estúdio-escola Núcleo de Arte, onde estudei e depois virei colaborador. Foram duas HQs para o Projeto Tietê, um órgão governamental que estava empenhado na recuperação do rio Tietê, isso em 1994. Foram duas histórias, sendo uma destinada ao público infantil, desenhada pelo meu professor Ismael dos Santos e outra de apelo mais juvenil, desenhada pelo Emerson Abreu, que atualmente é um dos melhores roteiristas da Turma da Mônica.

Depois, houve trabalhos feitos para o Pão de Açúcar, Dersa e Bosch, todos com o pessoal do Núcleo. Logo comecei a pegar projetos inteiros, onde eu escrevia e desenhava tudo. Em alguns casos, até fazia a colorização. Foram trabalhos pra Votorantim, Depto. de Águas e Energia Elétrica (Gov. do Estado de SP), ABB, Santander Banespa e muitos outros. Abaixo, vou comentar dois trabalhos feitos nessa área institucional.
CASOS PAROQUIAIS - Publicada pela agência Promocat, a revista Paróquias e Casas Religiosas tem um foco bem específico: religiosos e administradores de instituições católicas. Nessa publicação, a convite de um amigo, criei uma tira chamada Casos Paroquiais, onde o humor servia a um convite à reflexão. Um dos personagens, um padre jovem e entusiasmado, mas inexperiente e inclinado a dar muitos foras. O outro, um padre mais velho, experiente e um tanto sarcástico. Eu tenho algum conhecimento sobre os assuntos abordados, o que facilitou a aprovação dos roteiros. O trabalho durou alguns meses, mas acabou ficando de fora numa reformulação pela qual o título passou. Foi uma experiência bem interessante, afinal.
OS OPERADORES - Criada para o call-center de uma administradora de cartões de crédito, essa série mostra situações reais de trabalho, com abordagens bem humoradas. Normalmente, não há aqui a estrutura clássica de roteiro, com uma apresentação de problema ou conflito, clímax e sua resolução. Em HQs de uma ou duas páginas, o que fiz muitas vezes foi mostrar diálogos cotidianos, onde o tema a ser abordado era desenvolvido conforme a necessidade do cliente. O importante é não fazer parecer sermão, mas sim mostrar a importância da conscientização. 

Um tema que tenho abordado é o da necessidade de cumprimento de metas e regras da empresa não para manter seu emprego ou buscar promoção, mas para ser um profissional melhor. Em alguns casos, como na abordagem de comprometimento e responsabilidade, para ser uma pessoa melhor. Numa recente produção, teve que ser abordado o problema de que alguns funcionários estavam deixando seus armarinhos (escaninhos) muito sujos e isso foi feito de forma bem divertida. Em outro, o tema "como se vestir no trabalho" foi mostrado como parte de um bate papo ocasional entre duas amigas. São trabalhos onde os diálogos assumem a linha de frente da história, sendo o ponto mais importante do roteiro. Mesmo seguindo as ideias do cliente, há obviamente toques autorais ao se redigir os diálogos.


Tem funcionado, e o que era para ser uma série de 4 folhetos já se estende há mais de um ano em meio e já gerou outros projetos ligados à empresa.

Cada vez mais empresas têm aderido à essa forma de comunicação em quadrinhos e isso acaba se constituindo em mais uma alternativa de trabalho para profissionais de quadrinhos. Mas nessa área, mais do em qualquer outra, o ego deve ficar do lado de fora e a abordagem deve ser focada na mensagem do cliente. Isso deve ser feito de maneira clara e com a técnica narrativa sendo usada para que a leitura seja prazerosa e o público absorva a mensagem com naturalidade. E isso pode ser feito com pequenos toques autorais que dão sabor à mensagem. Afinal, é para isso que o quadrinhista foi contratado.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

VOLTANDO AOS POUCOS PARA O MUNDO VIRTUAL...

Caros leitores, peço um pouco mais de paciência para que voltem a ler atualizações neste blog. Neste tempo afastado, experimentei o sistema Wordpress, bastante elogiado por muita gente que lida com blogs. Mas senti falta de algumas praticidades existentes no Blogger e ainda não fui convencido a mudar. Por enquanto, continua neste endereço o Sushi POP, mas ainda devo fazer um planejamento sobre a situação dele. Já tenho algumas ideias para atualizações, mas falta tempo. 

O momento mais crítico parece ter passado (e foi bom eu ter dado um tempo no mundo virutal), mas ainda estou bastante atarefado. Felizmente, estou conseguindo já me organizar melhor e resolvi encarar algumas atividades no mundo virtual, como blog e Twitter, como ferramentas de marketing pessoal, algo extremamente útil, ainda mais quando se trabalha sozinho como eu. Por isso, criei uma nova conta no Twitter, que é @ale_nagado. Na barra lateral, um aplicativo irá mostrar sempre as atualizações mais recentes. Assim, todo dia você poderá ler o que ando fazendo aqui mesmo, caso não tenha conta no Twitter.

Por enquanto, obrigado pela visita e aguarde que logo terei novidades.