quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sobre flatulências, humor gráfico japonês e as origens do mangá

Uma peculiar batalha gasosa,
no traço de um... monge.
A pitoresca imagem que vemos aqui vai nos ajudar a entender um pouco sobre o humor gráfico japonês e o próprio mangá. Esta cena, que retrata claramente um "concurso ou batalha de peidos", foi desenhada por volta do século XII por um sacerdote budista chamado Tôba (1053~1140). 


Eu conheço vários sacerdotes e religiosos e os mais brincalhões e bem-humorados jamais teriam coragem de registrar tamanha molecagem. Se hoje isso é impensável, imagine séculos atrás. 

Tôba (sem piadinhas com o nome, ok?) foi um homem à frente de seu tempo, sendo mais famoso pelo grande rolo de ilustrações sequenciais (quase uma HQ) de uma série chamada Chôjugiga (ou "desenhos humorísticos de animais"), sendo uma com 10 metros de comprimento, com um traço leve e dinâmico. (Nota: cheguei a ver essa maravilha pessoalmente, no Museu Internacional do Mangá de Kyoto, em 2008)

Há exemplos de humor gráfico japonês ainda mais antigos, datados do século VII, com caricaturas de autoria desconhecida. A estilização e o exagero sempre foram parte da tradição japonesa de artes visuais, incluindo aí seus itens de exportação mais conhecidos, o mangá e o animê. Nada de realismo ou hiper-realismo, a base do desenho japonês sempre foi o traço contornado e estilizado. E quando o assunto é humor (mesmo para adultos), o que se vê em geral é um humor escatológico, politicamente incorreto e beirando o infantil. Piadas sobre gases agradam adultos e crianças até hoje no Japão, bem como caretas exageradas. 

A simpática robô Arale brinca com
um... cocô!! (Cena de Dr. Slump)
No mangá Dr. Slump (de Akira Toriyama), é comum piadas com fezes. Em uma cena hilária, o Suupaaman (paródia do Superman) quer provar que é mais corajoso que a pequena e superforte Arale. Ele toca com o dedo num montinho de cocô que vê no chão e acha isso uma grande demonstração de valentia. E Arale coloca a merda inteira na cabeça, sobre seu boné, para desespero do frustrado herói. É grosseiro e nojento? Pra gente, é. Para o japonês, é uma diversão só. 

E humor sexual, bem chulo, é visto normalmente em revistas para adolescentes. Um famoso herói de mangá, Ryo Saeba, da série City Hunter (de Tsukasa Hojo), vivia aparecendo de "barraca armada" (descomunal, diga-se de passagem) cada vez que via uma garota bonita. Não há muito espaço para sutilezas quando o assunto é humor na Terra do Sol Nascente.

A ilustração mostrada no topo desta postagem eu não costumo chamar de mangá, mas é uma opinião bem pessoal. O significado da palavra mangá, que no começo definia cartuns e caricaturas conforme idealizado pelo mestre das xilogravuras Hokusai no século XIX, evoluiu ao longo do tempo. Há décadas a palavra é sinônimo tanto de histórias em quadrinhos quanto de revistas de quadrinhos no Japão. Por isso, prefiro me referir a esse material histórico como sendo parte da tradição de cartuns japoneses, para não confundir os leigos. Mas não deixa de ser mangá na concepção mais pura e ancestral da palavra, cuja tradução é "desenhos divertidos".

6 comentários:

JJ Marreiro disse...

O humor japonês é bem cru e primal e se contrapõe a rigidez de sua organização social. No Brasil temos uma inversão desse processo, enquanto o humor inteligente é realizado sob o clima de vigilancia constante (que o digam os comediantes de stand up), a organização social e o estado são regidos, na falta de um termo melhor, por uma extrema frouxidão de valores :)
Nagado, beleza de texto, faz a gente perceber um pouco mais sobre os fundamentos que costruíram a história do mangá.

Down and out of brazil disse...

Então a sociedade japonesa não é tão "quadrada" assim?
O que os japoneses dizem sobre a forma que os brasileiros comem sua comida? eles possuem a filosofia de comer como arte, e extritamente o necessário ?

Alexandre Nagado disse...

Fala, JJ! Excelentes observações, é por aí mesmo. O "politicamente correto" não existe no Japão. Lá, a válvula de escape para boa parte das tensões está no consumo de mídias. Aqui, essa válvula de escape acaba sendo a violência.

E a história do mangá é repleta de exemplos como o que mostrei na postagem. Numa outra ocasião, posso voltar ao tema, que é bastante rico.

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

O "controle social" no Japão é rigorosíssimo e a sociedade é conservadora, muito mais do que aqui. E talvez por isso mesmo, o entretenimento violento, sensual e o humor "politicamente incorreto" façam tanto sucesso, tendo uma função catártica.

E falando sobre comida, para eles a culinária é uma arte e em geral eles comem o suficiente para se saciar, evitando comer por gula.

Por isso lá o povo é em geral mais magro do que no ocidente. Muito da alimentação ocidental foi introduzida no Japão, mas com moderação.

Abraços!

pierrot disse...

Eu já havia visto isso em algum lugar mas achei que era algo como uma releitura moderna segundo os traços antigos.
Acredito que você saiba Alexandre, mas, além do monge, existe uma cidade japonesa também chamada Toba (fonte: Tonin, o ninja que veio da roça)
O mangá Golden boy usa e abusa dessa liberdade com piadas de cunho sexual também, como também o fato dos personagens possuirem uma liberdade sexual mais contemporânea. Vai muito do público. Aqui não funcionaria tanto pois ainda não se amadureceu o nível de classificação das coisas: a maioria ainda não consegue fazer uma separação de segmentos da animações, quadrinhos à sua respectiva classificação, por isso você vê pré adolescentes ae jogando GTAs, entre outros, além da nossa própria propensão do conservadorismo público.
Fico imaginando se isso não seria uma válvula de escape por conta do forte conservadorismo por lá.
Agora aqui com a libertinagem rolando solta, nós estamos querendo coisas mais comportadas.

Ale Nagado disse...

Fala, Pierrot.

Sim, muitos pesquisadores já apontaram essa característica mais liberal do entretenimento japonês como sendo uma válvula de escape da pressão à que os japoneses são submetidos desde tenra idade. É um lado catártico da cultura pop, que pra nós soa bem diferente, com outro peso.

Abraço!