segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre Flashman e a intensidade dos heróis japoneses

Comando Estelar Flashman, sucesso de 1986
Em termos de roteiro, muitas coisas diferenciam os seriados japoneses dos ocidentais, principalmente quando o assunto é contar uma aventura de heróis para crianças. Não é apenas a questão de ter um final, um encerramento definitivo para uma história, que é a regra geral em mangás, animês e seriados tokusatsu. Os heróis japoneses também sempre foram mais dramáticos, mais violentos e mais intensos que seus concorrentes estadunidenses. A ação sempre foi mais visceral e os resultados podem ser fatais até para o herói ou seus entes queridos, pois muitos heróis de seriados japoneses já morreram no último capítulo, sem contar pais, namoradas, irmãos, melhores amigos...

Mesmo no mundo em geral mais infantilizado dos seriados tokusatsu, por mais excitante que possa ser a ação, ela não é banalizada a ponto de ninguém se ferir e se acreditar que a violência não tem consequências. E uma vitória também pode ser amarga, como na vida real.

Flashman (de 1986) foi uma das séries exibidas no Brasil após a explosão de Jaspion e Changeman, na segunda metade da década de 1980. Fez sucesso, chegou a 50 episódios e conquistou muitos fãs no Brasil, mas nunca esteve entre as minhas favoritas. Achava os atores péssimos (especialmente os homens), os vilões sem carisma e o design também não fez minha cabeça. A história, entretanto, tinha mais nuances que Changeman. Além de enfrentar um império espacial que almejava dominar a Terra, eles buscavam encontrar seus pais verdadeiros, pois os cinco membros do grupo foram abduzidos quando crianças, vinte anos antes. 


Red Flash x Kaura: Batalha de samurais
Conforme a série foi avançando, foi ficando mais interessante. Novos vilões - os Caçadores Espaciais - foram introduzidos e as histórias começaram a ganhar um pique um pouco mais dramático. Isso culminou em uma das melhores batalhas que já vi em um seriado japonês, com os líderes dos grupos inimigos, Red Flash e Kaura (um personagem incrível), lutando com toda sua fúria.


Há um toque de filme de samurai, com dois rivais honrados lutando até a morte com suas lâminas ao entardecer. Tudo fazia lembrar outra batalha antológica filmada um ano antes, em Changeman, com a luta final entre Change Dragon e o Pirata Espacial Buba. Apesar de tudo, a filmagem de Flashman foi superior e a luta ganhou ares quase cinematográficos.

Nas versões americanizadas chamadas de Power Rangers, é impensável mostrar uma cena violenta como essa e com tal carga emocional. Recorde a belíssima batalha e, se você nunca viu, preste atenção na fotografia, trilha sonora e coreografia. Não se vê isso em seriados estadunidenses infantis.



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Se você é daqueles pais e professores que se preocupam e se incomodam com a violência das produções japonesas, volto a recomendar o livro Brincando de Matar Monstros.
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Bônus: O tema de Flashman, ao vivo!
Saindo do assunto sobre intensidade dramática, mas continuando a falar de Flashman, a série tinha uma canção tema muito legal, que grudava nos ouvidos. Abaixo, você pode conferir a performance ao vivo do cantor original, o figuraça Taku Kitahara, no evento Super Sentai Spirits, de 2004.
Choshinsei Flashman, com Taku Kitahara

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Flashman também tem um lugar especial na minha vida profissional. Vinte anos atrás, foi com uma HQ licenciada dessa série que fiz minha estreia como roteirista, na Ed. Abril. Mas isso é assunto para um outro dia.

17 comentários:

Joe de Lima disse...

Infelizmente, os produtores americanos, e alguns brasileiros também, tem um certo vício de não respeitar a inteligência do público infantil.
Álias, tem muita gente por aí que não respeita nem a inteligência dos adultos, quanto mais das crianças.

Caio Murdock disse...

É como disse o Joe, se subestima a inteligência das crianças e dos jovens, produzindo para esse público programações sem credibilidade e comprometimento.

Saulo de Brito (Griffin) disse...

Power Rangers é uma praga que faz com que os menos desavisados pense que todo seriado japonês tem aquelas mesmas bobagens. Flashman era uma série bastante emocionante em alguns episódios, tem um que o ator que fazia o Griffon(eu acho) nos Changeman participa, a Flashman rosa se apoixona por ele, mas o coitado se tranforma num monstro e ai já sabemos o fim! Criança na época, fiquei bastante chocado com a trama e curtia a série justamente por causa desse impacto que provocava.

Muito bom Nagado!

Guyferd disse...

Eu era criança quando assisti ao combate Jin versus Kaura, e apesar de hoje em dia poder analisar e curtir mais o drama do momento, assistir o trecho em japonês que você colocou foi ainda mais interessante.

Belas cenas, e realmente impossíveis de existirem em qualquer versão americanizada.

Vicente Cardoso disse...

"Não é apenas a questão de ter um final, um encerramento definitivo para uma história, que é a regra geral em mangás, animês e seriados tokusatsu."

Se é regra GERAL, como você explica Gundam, Macross, Cavaleiros do Zodiaco, Kamen Rider, Doraemon e Evangelion, entre muitos outros que continuam por aí até hoje?

Alexandre Nagado disse...

Olá, Vicente. Pra cada uma das séries "sem final definitivo" que citou, foram centenas a ter um final definitivo. Por isso digo que a regra geral (mais comum dentro de um grupo) é que haja um fim definitivo mesmo.

Quando uma serie termina, se a repercussão foi realmente grande, acabam aparecendo séries derivadas, continuações, especiais ou prequels.

Gundam, Macross e Kamen Rider eu considero franquias onde cada série tem seu final. O caso de Evangelion é diferente mas, como nas franquias, depende de fatores econômicos para sua continuidade. É outra exceção dentro de um universo de centenas e centenas de séries que se encerraram mesmo.

Porém, exceção mesmo, com uma mesma série contínua por décadas sem fim, acho que conta só o Doraemon e a Sazae-san, se não me falha e memória. E Pokémon talvez esteja indo para o mesmo caminho.

Espero ter esclarecido.
Abraços!

Betarelli, Ivan D. disse...

Flashman é épico. Excelente trilha sonora e ernredo, adicionados à dublagem impecável que recebeu no Brasil, transformou o seriado no que os experts chamam de "cult".

Fui um felizardo ao passar boa parte da minha infância na frente do televisor (com imagem não muito boa...) vendo os seriados da TV Manchete, e acredito que isso agregou muito na minha vida pessoal, sem me frustrar com mortes violentas ou batalhas infindáveis. Sempre soube a diferença entre ficção e realidade, embora quando pego algo pra assistir eu literalmente "entro" no contexto.

Logo teremos disponível essa série em DVD, que faço questão de adquirir na pré-venda e pela enésima vez acompanhar as aventuras do quinteto do Planeta Flash. Longa vida as produções japonesas.

jjmarreiro disse...

Que bom que repostou esse post via twitter, Nagado! Essa cena é daquelas marcantes. Na época por algum motivo perdi os episódios finais de Flashman que eu acompanhava com a mesma avidez que seguia Chengeman e Jaspion:)

Sobre seu trabalho na HTV com esses personagens, na minha humilde opinião marcaram época e fazem parte da História dos quadrinhos do Brasil.

Não vou nem dizer que fiquei fan do seu Blue Fighter quando o vi na Master Comics.

Anônimo disse...

flashman pra mim é udos melhores seriados japoneses,sou fã até hoje
e mato as saudades assistindo no youtube
mais tbm gosto muito de todas as outras séries tenho dvds de jaspion
oh saudade.

Stark disse...

Flashman,Changeman,Jaspion,
Ultraseven,UltramanJack
só pra citar algumas são
épicas! E seus finais um show
a parte! Comparar com power
rangers é até sacanagem pois
as séries rangers foram criadas para serem mediocres mesmo!
Podem até ter um ou outro episódio
legal mas não passam um milésimo
da emoção dessas que eu citei acima!

PS Frustrado! No ano em que a franquia dos Ultra completa 45 anos! A Tsuburaya não preparou
nem uma série inédita para os fãs
BAITA MANCADA!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Rodrigo disse...

Nagado, você é foda.
Acompanhei Flashman como fiz com Changeman e Jaspion, antes. Desnecessário dizer que me encantei com tudo na série - as BGMs, o estilo das roupas, o background e o plot principal dos heróis de encontrar seus pais...
Não esquecendo dos fabulosos vilões, figuras mais marcantes dos seriados japoneses: o design do Imperador Mez era um espetáculo por si só... e a chegada de Kaura, com seus lacaios, foi um dos episódios que mais me impressionou na época.

Mas, em especial, esta luta ao pôr do sol deixa o coração com o sabor amargo e vicioso da impressão que não se pode revisitar o passado em todo o seu contexto. Só no DVD, mesmo.

Corto de Malta disse...

Vc parou pra pensar quantas lutas fodas o Red Flash teve nessa série, inclusive sem estar transformado?

2 contra o Kaura
2 contra o Wandar
Uma contra o Monstro/Clone Jingal e uma contra os próprios amigos.

Alexandre Nagado disse...

Bem lembrado, foram vários quebras intensos. Somente a antológica batalha contra Kaura pra superar tudo isso.

Lagarto disse...

Junto com Spectreman é meu tokusatsu favorito, e saber que Flashman teve como arcabouço uma história real ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial só fez aumentar o que eu sinto pelo seriado.

Alexandre Nagado disse...

Ei, Lagarto. Não conheço essa referência, não. Se puder contar aqui, agradeço.

Abraço!

Lagarto disse...

Nagado, é com relação ao ocorrido com os orfãos de guerra japonses na China.
Os "órfãos de guerra" japoneses foram educados por famílias chinesas depois de seus pais morrerem ou fugirem da China. Eles só retornaram ao Japão na década de 80, quando começou um programa de repatriação.

No retorno, muitos tiveram problemas de adaptação, já que não entendiam a língua. Durante anos eles tiveram negado o direito de viver como cidadãos japoneses.

Alguns links:
http://ja.wikipedia.org/wiki/%E8%B6%85%E6%96%B0%E6%98%9F%E3%83%95%E3%83%A9%E3%83%83%E3%82%B7%E3%83%A5%E3%83%9E%E3%83%B3

http://ja.wikipedia.org/wiki/%E4%B8%AD%E5%9B%BD%E6%AE%8B%E7%95%99%E6%97%A5%E6%9C%AC%E4%BA%BA

http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2007/12/05/ult1807u42055.jhtm

Alexandre Nagado disse...

Ah, legal. Essa história é bastante triste e mostra o quão injusta é uma guerra.

Valeu.
Abraços!