segunda-feira, 29 de março de 2010

Simplicidade contra complexidade

Com seu baixo Hofner, Paul
McCartney faz mágica
com 4 cordas.
Certa vez, Paul McCartney foi indagado sobre qual tipo de cordas usava em seus lendários baixos Höfner e Rickenbacker. A resposta foi genial: "Sei lá. Finas e compridas?" Certamente ele sabe diferenciar tipos de encordoamento para os instrumentos que toca, mas a bem-humorada resposta eu considero uma brincadeira em cima do excesso de tecnicismo de muitos estudantes. Claro que o equipamento certo importa, mas não é isso que faz um artista ser bom ou facilmente imitável. E isso vale para qualquer ramo, incluindo o desenho, que é a área com a qual trabalho há mais de 20 anos. 


Uma vez, um aluno que estava fazendo faculdade de desenho industrial disse que um de seus professores falava que "artista de verdade não usa lapiseira". Tremendo equívoco de um docente preso a teorias e que provavelmente nunca trabalhou de fato na área em que leciona. 


Explicando: o que importa é o tipo de grafite que, em lapiseiras, vai do 2H (bem duro) ao 2B (bem macio), passando pelo HB, que é intermediário. Para esboços, recomendo o tipo B ou 2B. Para quem transpira muito pelas mãos, recomendo sempre um grafite HB (mais duro e que borra menos) e colocar lenços de papel embaixo da mão para não molhar a folha na qual se está desenhando. A espessura 0,5mm só funciona se a pessoa tiver a mão leve. Quem tem mão mais pesada ou prefere desenhar com uma sensação de firmeza maior, pode usar lapiseira 0,7 ou 0,9mm. Sendo com o grafite certo, tudo bem. 

E para os adeptos do lápis, os de valores acima do 2B não são recomendados para esboços que irão receber tinta. E há quem pense que os lápis 6B (usados somente para efeitos de sombreado) é que são os verdadeiros "lápis de artista".
 


Há uma crença enraizada na cabeça de muita gente de que é o equipamento que faz o profissional, o que nem sempre é verdadeiro. Há muitos designers e web designers incompetentes que apenas aprenderam a apertar botões e operar programas, mas que não sabem o básico sobre cores, equilíbrio e composição. Assim como há outros que mal sabem desenhar com lápis e arranham sofisticados tablets apenas para criar sua arte deficitária digitalmente.



Peanuts, de Schulz: Estilização e
poder de comunicação impecáveis
Conhecimento técnico é importante e sofisticadas elaborações podem ser fascinantes. Ou tudo isso pode maquiar idéias pobres. Detalhes obssessivos no traço e efeitos sofisticados na cor podem disfarçar desenhos cheios de falhas de construção e isso a maioria das pessoas não vai perceber. Em iniciantes, é comum gastar horas detalhando cabelos e olhos, mas evitar desenhar mãos (que vivem nos bolsos) e pés descalços. O pessoal de HQ pega no pé de Rob Liefeld, um dos maiores expoentes de desenho picareta disfarçado sob toneladas de hachuras, mas existem inúmeros outros menos famosos e tão incompletos quanto.

Na música, isso também acontece. Há estudantes e entusiastas de alguns artistas que têm orgasmos ao falar que tal guitarrista toca dezenas notas por minuto e que tal baterista bate tantas centenas de vezes nos tambores e pratos, deixando atônitos os pobres mortais. Mas há quem faça isso em músicas chatíssimas e herméticas, que só devem divertir mesmo quem toca ou admira virtuosismo em detrimento de melodias criativas. É como a pessoa preocupada demais com aparência, fofocas e futilidades, que apenas disfarçam sua falta de profundidade, cultura e conteúdo. Tire essa superfície e não sobra nada além de um vazio. 


A simplicidade pode revelar muita sofisticação e bom gosto, mas é preciso sensibilidade para perceber. Por isso, essa é uma virtude a ser conquistada, seja na arte ou na vida.

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"De que adianta usar todas as notas? Basta usar as melhores." - Miles Davis

"O ápice do aperfeiçoamento tende para a simplificação. O aperfeiçoamento incompleto tende para a ornamentação." - Bruce Lee

4 comentários:

Eric Ricardo disse...

Bela explanação, Nagado! Sempre acreditei que o que mais importa é o resultado, a arte final. Não importando o material usado.

Onçana disse...

Boas observações!!

Eu desenho usando luvas atoalhadas porque tenho uma doença que me faz transpirar o tempo todo -hiperhidrose - é muito incômodo derreter os papéis com a umidade das mãos. Começo a cogitar a possibilidade de ser uma X-men!*risos*

Tá cheio de iludidos tentando disfarçar desenhos malfeitos com um bom colorido,quando seria melhor se aprimorar na arte e fazer bonito independente do mateial.

Mas enfim,não adianta nada ter ferramentas maravilhosas,elas não trazem talento embutido!

Down and out of brazil disse...

Lindamente bem postado. Minha forma de pensamento lentamente convergiu para esta forma.

Alexandre Nagado disse...

Realmente, o efeito é o principal. Eu já comentei em algum momento no blog, mas vou repetir a historinha:

Uma vez, entreguei um lote de desenhos numa agência. O diretor de arte abriu os arquivos na minha frente, fez alguns comentários e soltou a seguinte pergunta: "Qual programa você usou pra fazer os traços?"

Respondi: "Foi usado o Nagado 3.3" Porque eu estava com 33 anos na época. Tudo fora traçado à mão livre e um colega coloriu. Sorte que ele não pediu pra copiar o programa pra agência. Aí eu ficava sem serviço. :-)