terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MOTIVAÇÃO CRIATIVA

Recentemente, li uma entrevista de Bill Watterson, o autor de Calvin e Haroldo no qual ele respondeu mais uma vez a pergunta que todos lhe fazem. Passados quase 15 anos do final da tira, ele permanece firme em sua decisão sobre a aposentadoria como autor de quadrinhos, realizando apenas pinturas e eventuais textos. Disse que não tem mais nada a dizer através de seu trabalho com HQs e por isso, que não esperem dele novas tiras da serie que o consagrou e nem novos personagens.
Pra mim, ficou uma pergunta: Isso era tudo o que ele tinha a dizer? Ele criou uma serie  excepcional que provavelmente vai ser republicada por todo o sempre e que vai continuar na memória de todos os que apreciam quadrinhos e humor inteligente. Mas... era tudo? Eu sempre imaginei que um artista não aposentava seu talento, continuava criando sua arte até morrer.

Claro que a vida é dele e ninguém tem nada com isso. O que me fez escrever aqui foi pensar um pouco sobre o que motiva cada um que trabalha com criação e quando é o momento de parar, se é que existe isso para um artista.

Para um atleta, é bom parar no auge, pois evita constrangimentos e evita que as pessoas que antes o amavam passem a odiá-lo. Um exemplo desse tipo de situação aconteceu com o jogador Bebeto. Astro dos gramados e um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1994, teve um fim de carreira melancólico. Sem conseguir manter o pique conforme a idade avançava, continuou insistindo e pulando de clube em clube, sempre caindo fora com a torcida agradecendo aos céus. Os torcedores que antes se encantavam com suas jogadas, riam de seus tombos e xingavam sua escalação.

Com artistas, a situação pode ser parecida, mas não é igual, porque não se está entravando uma engrenagem da qual dependem outras pessoas em uma competição. O artista pode deixar de vender bem, pode cair financeiramente e perder conexão com o grande publico, mas ainda assim ele pode se comunicar com nichos de mercado, com um público que gosta do que ele produz.

Há os artistas que estão sempre mudando conforme os tempos e o mercado e aqueles que se fixam num estilo, numa proposta e a ela se mantêm fiéis. Uns claramente buscam sempre seguir a moda para estar em atividade, seja movido pelo dinheiro ou pelo ego. Uns dizem que evoluir faz parte da vida. Outros dizem que seus princípios não mudam conforme a época e conveniência. Não importa qual tipo nos agrada mais, o que importa para o artista é estar em atividade, criar, produzir. Ou deveria ser.

Me entristeço com a postura de Bill Watterson, mas obviamente a respeito. Numa coisa, ele está certo. As mesmas pessoas que lamentam sua ausência estariam jogando pedras e maldizendo ele (como no futebol) caso tivesse optado por continuar Calvin até hoje, reciclando as mesmas ideias e sendo auto condescendente. Mas outra coisa ele poderia igualmente fazer, caso não se importasse com o que as pessoas poderiam dizer ou comparar. 

Se Will Eisner tivesse dito, ao final de Spirit, que aquilo era tudo o que ele tinha a dizer, o mundo não teria visto O Edifício, Um Contrato com Deus e tantas obras de grande valor artístico. São obras que não tiveram nem de longe o sucesso do detetive mascarado, mas tinham qualidade soberba. E Eisner continuou criando histórias até morrer, como Charles Schulz ou os japoneses Osamu Tezuka e Shotaro Ishinomori. Precisar trabalhar, não precisavam mais e também nunca conseguiram superar, na velhice, os trabalhos que criaram no auge do vigor criativo. Mas isso não importava. Como não importa para Stan Lee, sempre agitando algo de novo, por mais auto-indulgente que soe muitas vezes.

Se cada um dos Beatles, ao final da banda, tivesse dito "Ok, melhor parar de criar música, que eu nunca vou conseguir superar os modelos que criamos juntos.", o mundo não teria conhecido "Imagine" de John Lennon. Ou inúmeras obras musicais que, se não foram sucessos de venda, encantaram muita gente pela qualidade e maturidade dos quatro músicos. Paul McCartney e Ringo Starr continuam aí até hoje, criando e fazendo boa música para seus fãs, sem querer competir com os garotos da vez. Bill Watterson poderia contar mais histórias se quisesse, mas não tem mais motivação.

Talvez, se houvesse necessidade financeira, se houvesse o desafio de criar uma nova série pra dela tirar seu sustento, será que ele encontraria sua perdida motivação criativa? Isso, provavelmente nós jamais saberemos. 

*****

- Leia a entrevista de Bill Watterson (em inglês) aqui.

8 comentários:

Caio Murdock disse...

A ilustração foi perfeita pra postagem!

Alexandre Nagado disse...

Valeu, Caio. Na verdade, eu achei a ideia meio óbvia e não me surpreenderia se mais alguém pensou a mesma coisa em algum lugar do mundo.

Abraços!

Nick Farewell disse...

Eu discordo da sua observação. Aliás essa deve ser poucas vezes em que eu discordo de você. Primeiro creio que não se pode comparar outras carreiras com "carreiras" artísticas. Pois como você diz envolve criatividade e mais do que nunca motivações pessoais. De repente você tem um dado a menos sobre Eisner. Ele nunca ganhou dinheiro com HQ (leia-se Spirit). Foi convidado para fazer parte de uma comissão de uma empresa e daí ele ganhou muito dinheiro. Já com a vida ganha, "Contrato com Deus" surgiu da junção de ócio, perda do filho e também a necessidade de criar. Essa história quem me contou foi o Mauro da Devir que ouviu de Eisner pessoalmente. Fico pensando. O que é realmente importante? Continuar? Não continuar? A mim isso não parece uma pergunta fundamental. Como você sabe, a minha pergunta sempre é "isso é vida? isso não é vida?". Como julgar a decisão dos outros se a "arte" é uma visão estritamente pessoal (que por ora comunica com outras pessoas)? Observe que não estou limitando somente à vida da pessoa. É a crença (ou critério) dela que diz se deve produzir ou não. Se o ato de criar é um ato divino, quem somos nós para discordar se deve ou não criar? Bom post. Abraços.

Michele disse...

Talvez ele apenas tenha se cansado de bolar roteiros sobre as inumeras situaçoes q podem surgir a partir da ideia criança-com-uma- imaginaçao-enorme-e-q-não-foi-ainda-corrompida-pelos-adultos... eu acredito q criar sempre sobre os mesmos personagens... acaba caindo nas historias bestas, nao mais bizarras, de humor refinado...

Talvez ele até tenha tentado escrever mais, mas nenhum roteiro o satisfazia mais como artista....

Alexandre Nagado disse...

Fala, Nick!!

Realmente, não sabia essa do Eisner. Mas Tezuka e Ishinomori já eram mestres consagrados, tanto pelo público (comercialmente) quanto pela crítica e continuaram produzindo, porque eram, acima de tudo, contadores de histórias. Independente de fazerem ou não obras-primas o tempo todo. O julgamento da qualidade é posterior e subjetivo mesmo.

O ponto da minha reflexão foi discutir motivações. Cada um certamente tem as suas, e não há certo ou errado nisso. O que eu, como leitor, lamento, é que Bill Watterson não tenha mais motivação para contar histórias, quaisquer que sejam. Se a obra teria um toque de genialidade e vida ou não, aí é outra história, caímos na questão subjetiva, que não me cabe analisar.

O ponto é que o artista contador de histórias morreu dentro dele.

Voltando ao Eisner, ele tinha necessidade de criar. E eu, particularmente, gosto da postura de artistas que fazem da criação um ofício, algo a perseguir toda a vida, sem se dar por satisfeito, sem nunca dizer "É isso, minha missão enquanto artista acabou."

Por isso, sempre presto atenção em obras de artistas veteranos, pois a maturidade pode trazer compensações quando não há mais o vigor da juventude. Os pontos de vista mudam, até pela passagem do tempo.

Bill Watterson está sendo fiel a seus princípios, como sempre. E isso por si só já é um grande exemplo de vida. Por mais que eu ache uma pena que uma mente tão brilhante tenha decidido parar de criar histórias.

Lamento como leitor, mas como profissional de criação, reconheço a coragem que ele teve ao parar e manter isso.

Eu entendo seu ponto de vista e fico feliz que tenha vindo enriquecer a discussão.

Abraços.

PS: Ei, sinto falta de nossos papos. Vamos tentar marcar algo numa das minhas idas pra São Paulo.

Alexandre Nagado disse...

Oi, Michele. Acho que Calvin, como terminou, ficou uma obra irretocável que não deve ser mexida mesmo. Em momento algum eu insinuei que gostaria que ele continuasse fazendo Calvin. Nada disso.

Mas me recuso a acreditar que ele não conseguiria contar outras historias, outros mundos, outras realidades formadas a partir de sua sensibilidade. Algo totalmente diferente, mas com aquele traço agradável, aqueles diálogos bem construídos. Quem sabe?

Não lamento o fim do Calvin, mas o fim da carreira de um grande contador de histórias. Acho que todo mundo, no fundo, sentiu isso em maior ou menor grau.

Abraços!

Nick Farewell disse...

Me avisa quando você vai pintar por aqui.
Abraços.

Alexandre Nagado disse...

Vou pra Sampa dia 10 dar uma palestra e volto dia 11. Vai ser hipercorrido, mas vamos nos comunicando até lá.

Abraços!