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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dica de leitura: Brincando de Matar Monstros

Durante o tempo em que colaborei bastante com o site Omelete, escrevi diversas resenhas sobre livros ligados a cultura pop. Pretendo resgatar alguns desses textos para oferecer boas dicas de leitura. 

O primeiro que vou republicar aqui é um texto sobre o livro Brincando de matar monstros, lançado no Brasil em 2004, que causou bastante polêmica na época. Ele lança um olhar diferente sobre a violência na mídia e suas consequências. Trabalhando com quadrinhos e personagens japoneses, já fui muito questionado sobre a violência em histórias infanto-juvenis. Mesmo reconhecendo que há sim excessos (do ponto de vista ocidental) no entretenimento nipônico, sempre defendi ideias bem parecidas com as que o livro abordou. Por isso sempre recomendo esse livro a amigos que têm filhos e a pessoas que, como eu, também lidam com HQs. 

Antes, porém, gostaria de deixar um registro sobre esse livro. Tempos atrás, fui procurado por uma pessoa pedindo autorização para republicar minha resenha que saiu no Omelete em seu site. O ato, extremamente simpático e ético (visto que muitos pirateiam na cara dura) obviamente me deixou propenso a autorizar logo de cara. Porém, uma olhada no site dele mostrou que era para um grupo que pedia liberdade ao porte de arma e defendia o direito de qualquer cidadão poder comprar uma arma de fogo para se defender. Tenho uma posição bastante definida sobre a questão das armas de fogo - sou contrário a elas e a favor de rigorosos mecanismos de controle.

Por isso, educadamente recusei autorizar e expliquei meus motivos. O senhor em questão - um professor - agradeceu minha franqueza e enaltecemos a importância da boa convivência entre ideias contrárias. Ele agradeceu, eu lhe desejei boa sorte e encerramos o assunto.

Agora, vamos à resenha. Leia e reflita.

BRINCANDO DE MATAR MONSTROS 


Uma antiga discussão sobre a violência na mídia e seus efeitos sobre os jovens vem à tona de modo inédito e revelador com o livro Brincando de matar monstros, lançado pela Conrad Editora.

A questão é analisada sob vários aspectos pelo roteirista de quadrinhos americano Gerard Jones, que publicou a obra nos EUA em 2002. Através de diversos exemplos, o autor apresenta argumentos sensatos e questiona pesquisas e relatórios que relacionam de modo tendencioso a violência na mídia com os índices de criminalidade. Segundo ele argumenta, a ausência de uma válvula de escape na forma um entretenimento de tema violento, pode contribuir para que a violência se manifeste na vida real.

Em diversos pontos, ele questiona se são os adultos ou as crianças que confundem realidade com ficção. Segundo sua interpretação, a maioria das crianças sabe que “matar de brincadeira” durante um jogo é apenas parte do faz-de-conta, sem que com isso esteja se preparando para matar de verdade quando crescer. E a preocupação externada de alguns adultos sobre isso pode causar desconforto às crianças, que podem ficar com medo de suas próprias reações ao ver adultos darem importância exagerada ao que deveria ser somente uma brincadeira.

Ele também coloca a importância de brincadeiras violentas sem excesso, presentes em qualquer cultura (incluindo as que não têm acesso à TV), para que as crianças saibam lidar de modo controlado com algo que no fundo as assusta. Para Gerard Jones, ao invés de insensibilidade em relação à violência, essas brincadeiras dão às crianças sensação de poder e controle, coisas que elas sentem que não têm na vida real.

Com amparo familiar, essas fantasias podem ajudar não apenas a extravasar medos e ansiedades, mas também a lidar de modo seguro com assuntos perigosos, tirando assim a necessidade de se lidar com eles na realidade. E tal necessidade, não de violência, mas de poder e controle, é sentida também em meninas, que em determinado momento, desejam se sentir femininas e poderosas.

Ao mencionar a adolescência como sendo uma época de questionamentos e transformações, Gerard Jones cita ídolos da música, como rappers de pose e letras agressivas, como sendo catalisadores de desejos de ousadia, poder e liberdade. Papel semelhante é encontrado em personagens de TV, quadrinhos, filmes e games.

REFERÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS

O livro é bem atual, com citações a Buffy, Pokémon, Britney Spears, Harry Potter, Star Wars, Superman, Power Rangers, Eminem, Ice-T, jogos como Doom e uma enorme variedade de produtos da cultura pop. E também cita eventos de grande repercussão, como o incidente do tiroteio na escola Columbine e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, analisando como tais fatos fizeram aumentar a ansiedade e a paranóia com relação à violência, afastando as discussões sérias. O livro também faz ver com outros olhos o que pessoas “cultas” e “maduras” classificam como mau gosto, mas que, inequivocamente, fazem sentido para as necessidades emocionais de certas pessoas.

Através de muitos exemplos e depoimentos, Jones traça um amplo painel de discussão sobre os possíveis efeitos benéficos do entretenimento sobre as pessoas em fase de desenvolvimento. Acima de tudo, ele frisa que não existe mídia com mais força que uma única conversa familiar e que os pais devem acompanhar o que o filho assiste, ouve ou joga, mas sem querer impor seu gosto pessoal.

Esse diálogo entre gerações é defendido em vários pontos do livro, com a ressalva de que o adulto sempre deve tentar se colocar no lugar do jovem, sem querer julgar e dar todas as respostas. Igualmente importante é saber ouvir e tentar entender o que motiva as ansiedades canalizadas no gosto por coisas que podem chocar adultos preocupados. Adultos que, como o autor faz questão de lembrar, já foram crianças também e já tiveram suas fantasias sobre violência sem terem se transformado em psicopatas. A raiz da criminalidade estaria tanto em tendências patológicas como em ambientes sociais e familiares problemáticos, mas jamais em peças de entretenimento.

Sobre a banalização da violência, ele afirma que as crianças de hoje, mesmo expostas a tantas cenas de crime como se diz, são mais sensíveis à violência por terem mais informação. Como exemplo, ele lembra que em sua infância era comum ver garotos brincarem matando pequenos animais ou cortando rabos de gatos, coisa impensável para a maioria crianças de hoje em dia.

UMA VISÃO CLARA E HONESTA

Tanto empenho e didatismo levaram Gerard Jones a debates, conferências e palestras, sendo visto como uma autoridade nos EUA sobre o tema mídia e seus efeitos sobre a sociedade.

Há também uma reflexão sobre a própria mentalidade norte-americana em relação ao mundo. Segundo o que Jones ouviu de um produtor da emissora BBC, a cultura católica é lírica, trabalhando com emoção, simbolismos e arte. Já a cultura protestante americana seria literal demais, buscando uma realidade única, racional e objetiva para o mundo, o que até faz lembrar a política externa da terra do Tio Sam. Esse literalismo é que entraria em conflito com o lado mais sonhador e inofensivo das brincadeiras infantis e fantasias escapistas.

O autor já é conhecido do público brasileiro leitor de quadrinhos. Nos anos 80, escrevia os diálogos hilariantes da série Liga da Justiça Europa, publicada no Brasil pela Abril Jovem. Também trabalhou com adaptações de mangás para o inglês, como Ranma ½ e vários outros títulos.

Em sua visão e experiência de trabalho como autor de quadrinhos na indústria americana, as HQs aparecem como sinônimo de super-heróis coloridos para adolescentes. Ele, inclusive, cita que alguns colegas de profissão vivem imersos e presos em mundos imaginários, sem amadurecer de fato. Não era o caso para esse livro, mas nem é mencionado o fato de que os quadrinhos, tal como o cinema, não se restringem apenas a fantasias de poder infanto-juvenil. E é o que pode parecer para quem ler o livro e não tiver acesso a outras informações sobre quadrinhos. Mas isso não atrapalha o desenvolvimento da obra, que trata da cultura pop consumida por crianças e adolescentes, e faz isso muito bem.

O livro deveria ser lido por pessoas que promovem ações inócuas e oportunistas como uma recente campanha de “desarmamento infantil”, que trocava armas de brinquedo por gibis com o argumento simplista de que brincadeiras violentas geram adultos violentos. O que é uma bobagem e uma hipocrisia, conforme uma leitura do livro de Gerard Jones pode mostrar. Nunca a questão da violência na mídia teve um tratamento tão inteligente, esclarecedor e honesto.

Brincando de matar monstros
Autor: Gerard Jones
Formato: 16 x 23cm (320 páginas)
Lançamento: Conrad Editora

- O livro é especialmente indicado para pais, psicólogos, educadores, professores e profissionais da área de quadrinhos, animação, RPG e comunicação em geral. 

6 comentários:

Yatta disse...

EU havia lido isso antes no Omelete, e reli agora. Li o livro (baixado da internet mesmo, em 4shared poucos dias depois), e recomendei pra mais gente! Realmente, é muito bom! Compartilho das suas opiniões quanto á este assunto! ^^"

Até comentei sobre seu post lá no meu blog: http://djyatta.blogspot.com/2010/02/matando-monstros.html

Alexandre Nagado disse...

Legal, Yatta! Valeu pela divulgação.

Esse livro merece ser divulgado, pois é um assunto que, vira em mexe, volta à mídia.

Abraços!

suelen.18 disse...

Interesante, Obrigado pela dica!

Vou deixar uma tmb, minha ultima leitura foi o livro A Ordem é Amém de John Chelh e eu adorei é daquele tipo que vc não consegue para de ler sabe é muito bom mesmo, vale a pena ler vc vai se surpeender!

eu o achei no site: www.seteseveneditora.com.br

Stefano disse...

Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality

Stefano disse...

1 Qual sua opinião sobre o game GTA ?? Alguns acusam o jogo de estimular a criminalidade.

2 ah.. certos adultos tem suas "fantasias" também !!! Basta vermos... por exemplo... os adultos que se deixam levar por Edir Macedo e congêneres.

3 - o 11/9 foi obra da CIA e Mossad.

Ale Nagado disse...

Bom, não sou ligado em games, então minha opinião não teria muito embasamento.

No entanto, acredito que esse jogo se encaixe na categoria de entretenimento "válvula de escape", uma fantasia de poder que é canalizada em um jogo e não na vida real. Mas eu teria que conhecer bem o jogo pra dar uma opinião realmente embasada.

abraços!