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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

RECADO PARA OS ASPIRANTES A QUADRINHISTAS

Na condição de profissional da área de HQ, é comum que pessoas escrevam para mim pedindo dicas sobre a carreira ou opiniões sobre seu trabalho. Muitas e muitas vezes, falo aqui sobre valorização profissional, dificuldades do mercado, sobre o momento ruim pelo qual passa o mercado de trabalho de quadrinhos no Brasil, apesar do grande número de álbuns, fanzines e revistas independentes - que não dão grana, diga-se de passagem. 

Já falei no Twitter sobre "popstars" da HQ nacional que vendem 500 exemplares e tantas distorções semelhantes que criam falsas ilusões de grandeza na cabeça de muita gente, sempre apontando a necessidade de ser versátil para sobreviver no mercado. Mas pra muita gente, antes até de falar sobre trabalho, o que chama minha atenção é: a maioria desses garotos quer fazer HQ (mangá, principalmente) e só fica mandando desenhos de poses. Querem fazer HQ mas não fazem páginas de HQ. E muitos imaginam que a primeira história que fizerem será uma longa saga de 800 páginas. Não é por aí.



HQ é uma arte que dá MUITO trabalho. Nem vou falar de roteiro, vou me ater ao desenho por enquanto. O desenhista de HQ precisa ter amplo domínio de desenho de figuras. Deve conhecer estrutura, saber fazer movimentos, representar tipos físicos variados, roupas, expressões, rostos, mãos, pés, tudo. Precisa saber desenhar cenários, veículos, animais, máquinas... Tudo o que o roteiro possa exigir.


E a maioria manda close de rosto - de mangá, claro - com olhos brilhantes e emotivos. Poses de corpo inteiro, com o herói ou heroína parados e muitas vezes com as mãos no bolso (porque mão é difícil desenhar) e por aí vai. E se ele consegue desenhar um pouco de tudo com razoável desenvoltura, tem que ter diagramação, enquadramento, enfim, a narrativa visual, que é a habilidade de representar sequencialmente uma ação. Se a pessoa quer fazer HQ, precisa ter muita força de vontade e treinar muito. Não escrevo isso pra desanimar ninguém, mas pra mostrar algumas coisas que muitos não percebem, daí a quantidade de ilustrações soltas que recebo de gente querendo publicar HQs que ainda não fez.



Muitos são apenas leitores assíduos que têm algum jeito pra desenho e manifestam esse amor pelo seu hobby desenhando. Mas daí a conseguir se dedicar para treinar o que precisa, desenhando de tudo, vai uma distância enorme. Não há nada de errado nisso, mas antes de tentar o mercado brasileiro ou arriscar publicar fora do país, ou mesmo tentar virar um desenhista profissional, precisa saber que não basta desenhar carinhas e poses. Fazer HQ vai muito além disso.


8 comentários:

Gregório Moreira disse...

Olá Nagado, feliz 2010!

Uma dica que não tem nada a ver com o post... bom, acho que já deve ter visto. Yamato - The Movie:

http://www.youtube.com/watch?v=ZNaJVoYup_c

Abs

Alexandre Nagado disse...

Fala, Greg! Feliz 2010 pra ti também.

Ops, um "off-topic", mas você pode, é de casa.

Eu tinha visto e divulgado no Twitter o trailer. O filme parece que vai ser bem legal, pena que demora pra sair. Estou bem curioso pra assistir.

Abraços!

cadaovocomidoéumpintoperdido disse...

oi ale! achei muito bom seu post, concordo totalmente! quando eu era pequena, amava (e ainda amo) as historinhas da turma da Mônica.. e volta e meia tentava desenhar historinhas... foi aí que percebi o quanto é dificil, por tudo isso que vc citou!! não é pra qualquer um (pra mim, pelo menos não é, rs), tem que ter talento e força de vontade!!

Alexandre Nagado disse...

Oi, Arine-chan!!

É por aí mesmo. Tem que ralar muito pra fazer HQ direito. E força de vontade e vocação contam bem mais do que talento.

Abração!

Enivaldo disse...

Oi, Nagado!

Pois é... essa história parece que não muda... Mas o curioso é que eu passei a me interessar por HQ justamente pelo desafio da complexidade do meio e sua grande capacidade de comunicação. Sempre me dei bem em redação e vi nos quadrinhos a oportunidade de juntar o meu gosto por desenho com alguma habilidade para narrativa... Nessa época eu já era Desenhista Técnico e o trabalho na área de engenharia envolve planejamento, fluxo de atividades, concatenação de elementos e ações... Achei que poderia aplicar tudo isso na produção de HQs. É claro que depois descobri que eu não conseguia desenhar no ritmo e na velocidade necessária para produzir Quadrinhos. No entanto, os elementos dos quadrinhos podem ser utilizados em outros meios também, mas isso já é um outro assunto que você já abordou neste blog.

Abraço!

Enivaldo Pires

Alexandre Nagado disse...

É isso aí, Enivaldo. A maioria se concentra somente na parte divertida, que é criar o personagem e deixar ele numa pose pra saberem como ele é. Mas há tantos elementos envolvidos que não é à toa que muitos acham que HQ é uma das artes mais completas que existem.

Abraços!!

Onçana Khymato disse...

Fiz questão de retwittar seu post,muito bom! Mais uma vez vc traz à tona uma realidade que acontece a toda hora,com todo mundo que está iniciando no mundo das HQs.
Meus alunos me traziam pencas de desenhos (em sua maioria copiados)e apresentavam como sendo seus projetos de personagens,mas não escreviam sequer uma linha de texto!(afinal,escrever 'é chato'.)
Certa vez,uma aluna me apresentou exatos 30 personagens,todos em poses expressivas e cheios de firulas,mas quando pedi a ela que escrevesse sobre eles,ela me respondeu que 'tinha preguiça.'.
O incrível foi ela refazer todos eles com roupas diferentes!
Os iniciantes parece que tem 'purpurina nos olhos'; querem trabalhar com desenhos porque acreditam que é pura diversão. Ignoram o trabalho que dá fazer uma pesquisa pra um bom roteiro,a chatice que é desenvolver personagens secundários e situações que sirvam de ponte entre uma cena ineteressante e outra,ou a paciência e dedicação necessárias para refazer quando dá tudo errado... enfim, pra quem tá de fora é tudo festa!

Alexandre Nagado disse...

É, colega. Só quem é da área e leciona pra saber como os aspirantes em geral estão sem noção do que os espera.

Falando em roteiro, já vi muita história ambientada em Tóquio, com cenários bem falsos. E muitas HQs com leitura inversa, querendo imitar um mangá original traduzido. E com onomatopéias em japonês escritas errado, em 90% dos casos. O pessoal acha que é só olhar um mangá e copiar as letras, mas ignora as rígidas regras de construção das letras, onde pequenas mudanças transformam uma letra em outra e a pessoa não percebe. Enfim, vamos cumprindo nossa missão de ensinar.

Abraços!