segunda-feira, 21 de setembro de 2009

J-POP: O PODER DO POP-ROCK NIPÔNICO

Em 2008, em meio às comemorações e homenagens ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, até o São Paulo Fashion Week, badalado evento de moda, deu sua contribuição. Sua revista oficial, a ffw Mag! (Lumi 05), dedicou uma edição inteira ao Japão, com abordagens históricas, sociais, culturais das mais variadas com uma grande variedade de autores.

A mim, coube um texto sobre música jovem. Música é um assunto que me interessa tanto quanto HQ e foi bem divertido produzir o texto. Foi também muito gratificante participar da publicação, que coloca seu nome na capa, inclui biografia e foto no interior e - principalmente - remunera justamente seus colaboradores. Respeito artístico e profissional à toda prova.

O que segue abaixo é uma revisão do texto original, sendo que o que foi mostrado na revista passou por edição, ficando menor para se adequar tanto ao espaço disponível quanto às normas e padrões editoriais. Espero que goste.

J-Pop!

Música japonesa para o ocidente ouvir

O J-pop é o equivalente japonês da música pop internacional, mas o idioma é apenas uma das características que o distingue de outros segmentos da música. Do rock mais grandioso às baladinhas açucaradas, o J-pop movimenta uma indústria milionária e diversificada, que aos poucos vai se mostrando para o mundo. Mas muito antes do movimento atual, uma música japonesa fez o mundo todo assobiar.

IDENTIDADE PRÓPRIA X ARMAÇÕES DA MÍDIA

Na década de 1960, antes de definições e rótulos, a música "Ue wo muite arukou" (ou “Caminhando e olhando para cima”), deliciosa pérola pop do cantor Kyu Sakamoto, ganhou o mundo sob o título "Sukiyaki". O nome foi sugerido pelos executivos da gravadora que lançou a música no ocidente. Mesmo sem que a música em questão tivesse algo a ver com o prato, o
título foi escolhido por sua sonoridade oriental. O pop da época é chamado de "kayokyoku", um rótulo em geral associado às canções populares feitas até 1989, quando terminou a era "showa" e começou a era "heisei",  seguindo uma definição tradicional baseada no imperador que está no trono.

Sukiyaki fez sucesso na Europa, nos EUA e foi regravada várias vezes no Brasil: "Olhando para o céu" ganhou voz nos anos 60 pelo Trio Esperança, nos anos 80 pelo grupo Patotinha, nos anos 90 por Daniela Mercury e em 2008 por Jair Rodrigues. Sukiyaki representava um lado mais alegre e jovial da música japonesa, tradicionalmente mais formal, e pode ser considerada uma ancestral do J-pop. O rock e o pop começavam a ensaiar passos tímidos no Japão dos anos 60, quando a visita dos Beatles ao país em 1966 atraiu a atenção de toda a população e foi uma inspiração para gerações de artistas, que até hoje seguem influências ocidentais.

O J-pop representa mais um segmento de mercado do que um gênero musical, numa salada que mescla rock, música romântica, technopop, dance music, rap, reggae e o que mais aparecer pela frente. Isso em meio a inúmeros hits cuidadosamente planejados por produtores e empresários. Não faltam diversas boys bands e girls bands, seja na linha Backstreet Boys, Menudo ou Spice Girls. Com talento irregular e apoiados por coreografias ensaiadas e produção requintada, dezenas de novos ídolos são lançados anualmente. Muitos não passam do primeiro trabalho, num mercado sempre interessado em carinhas novas.

Mas além de estilos e armações, há uma marca sonora inconfundível presente em todo artista pop japonês, que é o uso sem cerimônias do idioma inglês misturado ao idioma local. Além de nomes de bandas e títulos de músicas, frases e palavras soltas em inglês – com eventuais erros gramaticais, aparecem em quase toda canção de J-pop, geralmente com uma pronúncia adaptada ao modo fonético japonês, onde a palavra “friend” vira “furendo”, por exemplo. Desde o começo foi assim, e essa característica ganhou força na década de 1980. Naquela década, ao lado de tantas armações de gravadoras com garotinhas de voz parecida e carinhas angelicais, alguns artistas de grande qualidade deixaram marcas autorais.

Nomes como Anzen Chitai, Chage and Aska, The Checkers, Seiko Matsuda, Mr. Children, Dreams Come True, Southern All Stars e outros consolidaram o espaço do pop honesto e de qualidade entre o público japonês.

Mas nenhum deles foi tão absoluto quanto Tetsuya Komuro. Líder da banda TM Network (ainda nos anos 80) e posteriormente da globe (escrita com minúscula mesmo), o tecladista, cantor e compositor Tetsuya Komuro se estabeleceu como o midas pop da mídia japonesa. Ele dominou quase toda a década de 1990 com sucessivos hits de technopop, escritos e produzidos para vozes femininas, como Namie Amuro, Tomomi Kahala, Ayumi Hamasaki e Ryoko Shinohara. Ainda, uma das protegidas de Tetsuya Komuro ajudou a revolucionar costumes e até a moda no Japão.

A cantora e dançarina Namie Amuro (foto ao lado) veio da região de Okinawa, no extremo sul do Japão, um reino independente anexado e depois transformado em província. Okinawa tem clima tropical, idioma, costumes e religiosidade próprios, além de um biotipo com pele morena e olhos maiores e com dobras nas pálpebras, o que os diferencia mais facilmente do resto do povo japonês. O estouro de Namie Amuro no começo nos anos 90 desencadeou uma explosão de astros pop de Okinawa. Na esteira dessa “invasão okinawana”, o bronzeamento artificial começou a ser feito por muitas jovens, a fim de conseguir uma pele mais morena.

Outras cantoras, como Ayumi Hamasaki, começaram a popularizar nas grandes cidades o tingimento de loiro entre muitas colegiais, bem como cirurgias para aumentar a abertura dos olhos, fora as dobras nas pálpebras (normalmente ausentes em olhos nipônicos).


As musas dos anos 90 trabalharam uma imagem próxima das estrelas internacionais, com uma postura mais forte e sensual que influenciou tanto a moda quanto o comportamento, em oposição às angelicais e pueris pop idols dos anos 80. Ainda na década de 1990, surgiu a cantora e compositora Hikaru Utada, na verdade uma estadunidense filha de uma ex-cantora japonesa. Garota-prodígio aos 16 anos, quando estourou com "First love "(9 milhões de singles vendidos desde 1999), ela ganhou fãs no mundo inteiro e até no Brasil a música foi tocada, através da rádio Antena 1. Assinando apenas Utada ou Cubic U, lançou alguns trabalhos nos EUA, mas ainda não vingou para a grande mídia ocidental, um desafio para muitos artistas japoneses.

RUMO AO OCIDENTE

 Influenciados por Beatles e música folk, a dupla Chage and Aska teve dois singles, "Say Yes" e "Yah Yah Yah" (de 1989 e 1993, respectivamente) entre os 10 mais vendidos da história no Japão, com vendas acima dos 3 milhões de cópias cada. Em 1994, gravaram a canção em inglês "Something there", tema de encerramento do filme Street Fighter – A última batalha, baseado na popular franquia de heróis dos games. Em 1996, gravaram um sofisticado MTV Unplugged em Londres, sendo os primeiros artistas japoneses a fazer isso. No mesmo ano, foram regravados por nomes como Alejandro Sans, Maxi Priest e Boy George para o álbum One Voice – The Songs of Chage and Aska. Com isso, ganharam algum reconhecimento no mercado europeu, mas não conseguiram levar isso ao resto do mundo, exceto no continente asiático, onde ainda são populares.

Outro que arriscou passos fora do oriente foi o já citado Tetsuya Komuro, que incluiu uma faixa no filme Velocidade Máxima 2 (Speed 2, de 1997), assinando apenas como TK. Também gravou com o tecladista francês Jean-Michel Jarre uma faixa para o álbum promoci
onal da Copa do Mundo de 1998 na França, iniciando uma produtiva parceria. Mas tanto para Chage & Aska como para TK, esses projetos ligados ao ocidente nunca foram prioridade, ao contrário da veterana banda Dreams Come True (ou DCT), que tentou com força uma entrada nos EUA. Primeiro, lançaram um belo álbum, o Sing or Die, de 1997, que trazia versões em inglês de vários sucessos. Depois, encararam uma miniturnê em solo estadunidense, que acabou não gerando muita repercussão, apesar da excelente voz da cantora e compositora Miwa Yoshida. Seus esforços lhe valeram um convite para participar do evento beneficente Live 8, realizado em 2005.

Correndo por fora, uma banda alternativa acabou ganhando mais prestígio que muitos medalhões e fez sucesso na MTV. Era o Pizzicato Five. Citado como referência do grupo Pato Fu, o P5 (como também é conhecido) surgiu nos anos 80, nas ruas do movimentado bairro de Shibuya, em Tóquio. Inicialmente um quinteto que se reduziu a uma dupla, o Pizzicato Five registrou canções divertidas e descompromissadas, até encerrar oficialmente as atividades em 2001. Fãs de música brasileira, eles até regravaram "Mas que nada," de Jorge Benjor, famosa mundialmente na interpretação de Sérgio Mendes.
De nomes de ponta do J-pop, a dupla Puffy AmiYumi foi mais longe que todos os seus conterrâneos. Primeiro, em 2003 elas cantaram (em inglês e japonês) o tema do desenho animado dos Jovens Titãs (Teen Titans), grupo de heróis da DC Comics, a editora do Superman. Depois, em 2004, o Cartoon Network apresentou ao mundo a série animada Hi Hi Puffy AmiYumi, que foi elaborada nos EUA e retratou, com um humor escrachado, a vida de duas estrelas do J-pop. Com diversos sucessos da carreira da dupla, o álbum com a trilha sonora da série teve lançamento mundial em 2005, inclusive no Brasil, onde o desenho foi visto tanto no Cartoon quanto no SBT. O lançamento brasileiro ainda contou com uma versão em português da música de abertura, cantada pela dupla com um sotaque indisfarçável. Uma outra investida do J-pop em solo ocidental veio também nesta década, com o selo Tofu Records, que lançou nos EUA o álbum J-Pop CD, com nomes expressivos do cenário musical japonês, como TM Revolution, Chemistry e Siam Shade. Outros títulos foram lançados, revelando um nicho de mercado com força para se manter.

AS VIBRANTES ANIME SONGS E O VISCERAL J-ROCK
 

Dependendo de muita exposição na mídia, uma lucrativa fonte de renda para muitos artistas no Japão é gravar músicas para comerciais de TV e novelas. Igualmente interessante é o mercado de canções para trilhas musicais de animês, seriados e até games, as chamadas anime songs ou anisongs. Essas trilhas não são uma subdivisão do J-pop, e sim um segmento de mercado independente que, com certa regularidade, tem músicas pop em suas fileiras. Existem anime songs, especialmente as mais antigas, que são mais relacionadas com as tradicionais canções enka, com marchas militares ou cantigas infantis, quase sempre com melodias e arranjos vibrantes. Mas o gênero também acompanha os tempos e capta as tendências de cada época. Com o pop em ascenção nos anos 80, não seria diferente.

O flerte do J-Pop com as anime songs se consolidou logo no começo dos anos 80, com o sucesso do animê Macross, em 1982. O desenho, uma saga espacial com robôs e espaçonaves, tinha muito romance e até uma personagem cantora, Lynn Minmey, a qual tinha a voz de Mari Iijima. Ganhando o coração dos fãs de animês e atraindo a atenção do grande público através do sucesso do tema "Ai – Oboeteimasu ka? " (ou "Você se lembra do amor?"), Macross abriu espaço para que as gravadoras vissem nos animês uma excelente vitrine. Também pianista e compositora, Mari Iijima conseguiu se manter no mercado depois do estrelato meteórico e conseguiu lançar trabalhos autorais no Japão e nos EUA, sempre procurando dissociar sua imagem da personagem que a lançou à fama.

Ela buscava, acima de tudo, um reconhecimento artístico que quase não existe no campo de músicas para animês, apesar de ser um segmen
to estabelecido, com muitos artistas focados nele, como Hironobu Kageyama, cantor de Dragon Ball Z, Changeman e Cavaleiros do Zodíaco. Ele, que já esteve várias vezes no Brasil, lidera a banda JAM Project, grupo vocal formado por cantores de anime songs. Desde 2005, conta com o brasileiro Ricardo Cruz como membro, selecionado através de uma audição internacional. Ele estreou em 2005 com Gong, tema de um jogo para PlayStation 2 chamado Super Robot Wars Alpha 3, música que também tem a participação do guitarrista português Nuno Bettencourt, da extinta banda Extreme, sucesso dos anos 80 com a música More than words. Kageyama e seu globalizado JAM Project buscam a essência das anisongs tradicionais, onde a música fala do enredo da série, coisa que normalmente é esquecida quando nomes do J-pop fazem anime songs.

Mas longe das marchinhas antigas, corre nas veias do JAM Project a variante mais pesada do J-pop: o J-rock, que bebe na fonte do hardcore, punk, glam, heavy metal e metal melódico.


Dentro do J-Rock, há aqueles de visual mais berrante, uma subdivisão que já foi chamada de Visual Rock, Visual Kei e Visual Shock. Seus artistas apostam em visuais exóticos, muitas vezes andrógino e atitudes mais agressivas, obviamente ensaiadas com seus empresários. Seus maiores expoentes foram o X Japan (ou apenas X - foto ao lado), Malice Mizer, Luna Sea e Kuroyume, entre outros. O X Japan, ícone do movimento visual kei, foi uma banda que marcou época com seu som pesado, agressivo e visceral, aliado a um visual extravagante (especialmente no começo da carreira). Também se celebrizaram com baladas românticas grandiosas, como "Forever love", não por acaso escolhida como tema do animê X, do estúdio Clamp. Cheio de variantes, o J-rock ainda abriga nomes como Glay, Asian Kung-Fu Generation, L´Arc~en~Ciel e outros. Os j-rockers, bem como seus colegas pop, têm legiões de fãs no Brasil, país que tem tido contato com a música japonesa há anos, graças à presença aqui da maior colônia japonesa do mundo.

O J-POP NO BRASIL
 

No Brasil, o J-pop se fez conhecido graças a iniciativas isoladas. Nos extintos programas Imagens do Japão e Japan Pop Show, clipes e shows japoneses começaram a ser vistos nos anos 80. No auge dos programas de TV da colônia japonesa, o cantor Kondo Masahiko veio ao Brasil, amparado apenas pelo público do Imagens do Japão. Também o programa Rádio Nikkey, da Imprensa FM, divulgou bastante o J-Pop, bandeira mantida hoje por algumas estações virtuais, como a Rádio Banzai.


Eventos ligados a mangá e animê também deram impulso à popularidade de músicas japonesas, a ponto de existirem diversas bandas amadoras e semi-profissionais especializadas em J-Pop, J-rock e anime songs. E vale citar também a música "Made in Japan" (de 1999, incluída no álbum Isopor), do Pato Fu, cantada pela descendente de japoneses Fernanda Takai. Uma composição original do guitarrista John Ulhoa, com letra vertida para o japonês pelo amigo Robinson Mioshi, Made in Japan captou o espírito do melhor do J-pop.
Com sons para todos os gostos, a eclética música pop japonesa tem buscado seu espaço no ocidente.

Seguindo os passos do mangá e do animê, o J-pop aos poucos vai sendo conhecido pelos fãs de cultura pop japonesa e vai ganhando seu espaço. Deixando o apelo visual de lado, no J-pop existe, como em qualquer gênero, música de boa qualidade que vale a pena ouvir.


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Essa matéria para a Mag! também rendeu, na época, uma entrevista com a cantora japonesa Mari Iijima, que não entrou na revista por causa do espaço, mas que foi aproveitada aqui no blog.

- Leia a entrevista na íntegra aqui.

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Meus agradecimentos ao pessoal da MAG!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DESENHANDO PROFISSIONALMENTE

É impossível falar do meu trabalho com HQ sem mencionar o  quadrinhista Arthur Garcia, autor de uma grande variedade de cursos de desenho publicados pela Editora Escala e premiado em 1990 com o Troféu O Mosquito (Festival de Amadora, Portugal) e duas vezes com o Troféu Angelo Agostini, sendo em 1994 como roteirista e em 95 como desenhista.

Trabalhamos juntos no começo dos anos 90, com ele desenhando roteiros meus para Maskman e Changeman, da Ed. Abril. Em 1993, começamos uma parceria com Street Fighter, para a Ed. Escala, que se tornou nosso trabalho mais popular. Em 1995, quando editei a revista Master Comics (Ed. Escala), convidei ele para produzir sua série Pulsar, da qual eu era grande admirador. Em 1997, ele desenhou a minisserie de meu personagem Blue Fighter, para a Trama Editorial. Em 2003, foi um dos primeiros nomes que chamei para o álbum Mangá Tropical (Via Lettera).

E até hoje sempre nos falamos, compartilhando nossas percepções sobre o mercado. Durante um de nossos papos, ele comentou que já pensou em montar um blog, mas que não teria tempo e paciência para atualizações regulares, mas que tinha alguns textos antigos e já utilizados que gostaria de compartilhar com uma nova geração de leitores. Então, atendendo a meu convite, ele enviou alguns textos e selecionei um para entrar aqui no Sushi POP, que tem um espaço para eventuais autores convidados. É um texto que eu gosto muito e fala sobre o maior desafio em ser um desenhista profissional. Para ler e refletir:


VOCÊ CONSEGUE DESENHAR ISTO?

Se eu tivesse ganhado mil reais por cada vez que ouvi esta pergunta nos últimos vinte e tantos anos, provavelmente já estaria rico e aposentado. Este, como vocês bem podem imaginar, não é o caso.

Toda vez que sou convidado a dar uma palestra em uma escola de desenho, a minha mente invariavelmente inicia uma viagem no tempo que me leva de volta a dois momentos distintos do passado. 

Em um deles, estou em 1989, na cidade de Angoulème, na França (onde anualmente se realiza uma das principais convenções de quadrinhos da Europa), mostrando o meu portfólio a dois artistas franco-canadenses que se espantavam com a diversidade de estilos nele contida. No outro, eu tenho dezesseis anos e, sendo um fã incondicional de John Byrne e quadrinhos de super-heróis, tento aprender a mecânica do desenho de Mônica e Cebolinha para produzir algumas amostras que possam ser apreciadas por um profissional do estúdio de Maurício de Sousa que eu acabara de conhecer. 

O motivo destas duas lembranças virem à minha mente, de algum modo interligadas, quando sou convidado a falar para aspirantes à profissão de quadrinhista, se explica pelo fato de que pela primeira vez, naquele ano de 1989 na França, me dei conta de ser um artista versátil. E que, mais do que uma escolha pessoal, isto se deu por uma imposição do mercado já na minha primeira exposição a ele. Como já disse anteriormente, desde a mais tenra idade sempre fui um fã dos quadrinhos de super-heróis, mas quando tentei adentrar ao mercado de trabalho como artista, descobri que ele era praticamente dominado pelo estilo infantil (ou “bonequinhos”, como muitos de nós o chamamos). Assim, sem ter muita escolha, fui a campo e aprendi a lidar com este tipo de desenho e, sem que me desse conta, me tornei um proletário das artes. 

No entanto, maravilhosa como possa parecer a idéia de se tornar um profissional do lápis e do pincel, esta traz embutida uma responsabilidade que muitos jovens artistas parecem não perceber: você vive do que produz; ou seja, se não tiver trabalho, não terá comida na mesa.
Esta idéia pode parecer aterradora num primeiro momento, mas é por isso mesmo, que toda vez que dou uma palestra em uma escola, sugiro aos jovens aspirantes que gastem um tempo ponderando a respeito da mesma. Isto evitará muitas desilusões. 

Foi por reconhecer o caráter comercial da nossa profissão que sempre estive pronto a travar conhecimento com novos editores, produtores e agentes, os quais, após uma consulta ao meu portfólio, invariavelmente me mostravam o tipo de trabalho que desejavam e sacavam contra mim a já referida pergunta: “Você consegue desenhar isto?” 

Como conseqüência, desenvolvi trabalhos para uma infinidade de meios: quadrinhos, publicidade, licenciamento, cartum, animação e ilustração, para o Brasil e o exterior, sempre alargando as fronteiras de estilos que pudessem ser de mim exigidos, nos prazos desejados e na qualidade requerida. 

Daí o meu conselho a todos os aspirantes a artista que encontro: tentem ser ecléticos. Independente de seus gostos pessoais (e eu não estou a pedir que os abandonem), tenham certeza que saberão desenhar tanto um pato de verdade quanto um Pato Donald. Num mercado instável como o nosso, quanto maior for a sua habilidade artística, menor será a chance de você ficar sem trabalho e ouvir uma outra pergunta muito desagradável sendo endereçada a você: “Quando vai pagar o que me deve?" 

P.S. : Anos atrás, durante minha estada em Portugal, descobri que Derib, um famoso desenhista suíço que realizou um ótimo faroeste realista (Buddy Longway), começou a sua carreira como desenhista no estúdio de Peyo, o criador dos Smurfs, o que lhe fez desenvolver uma versatilidade invejável.

P.S. 2: Vocês sabiam que um dos primeiros trabalhos de John Byrne foi a quadrinização da série “Carangos e Motocas” (Wheelie and the Chopper Bunch) da Hanna-Barbera, para a Charlton Comics?


- Arthur Garcia   

terça-feira, 8 de setembro de 2009

DIVULGAÇÃO X TRABALHO

Trabalhar por divulgação é uma das maiores roubadas e são pouquíssimos casos em que essa relação se revelou vantajosa. Em geral, a vantagem é sempre para quem vem fazer a proposta.

Quando alguém age empresarialmente e monta uma empreitada, seja uma confecção, editora, uma fábrica ou até um evento, faz uma planilha de custos. Vai pagar instalações, mão-de-obra, segurança, materiais, infra-estrutura, uniformes, sei lá. Vai cotar preços e fechar acordos e parcerias comerciais. E na hora de ver o ilustrador, designer ou desenhista, vai oferecer divulgação para ter o trabalho. Por quê não tem coragem de perguntar à empresa de segurança se pode mandar pessoas capacitadas em troca de poderem distribuir cartões da empresa? Ou por quê não pergunta aos faxineiros se podem limpar de graça pra ver se conseguem alguma casa pra fazer faxina entre os clientes?

O pensamento que vem é mais ou menos este: "Ah, mas artista não deve se preocupar com dinheiro, essas coisas. Pra esses basta divulgar muito e rezar para que o próximo cliente pague bem, porque eu não vou gastar e ainda vou ajudar esse coitado a ter seu nome conhecido por mais pessoas. Ele tem é que me agradecer."

Sempre lembro de um espertinho assessor de um político ambicioso que queria me convencer a ilustrar de graça para o cara. Primeiro, porque "seria um desafio pra mim" (isso é papo motivacional bem rasteiro...) e depois porque "seria fantástico saber que o desenho estaria circulando pela cidade em camisetas e adesivos de carro". Grande m*****. Alguém vê o desenho e pensa: "Oh, que desenho legal, vou perguntar quem fez e pedir pra fazer um pra minha camiseta. Se for por 10 reais, melhor ainda." Até parece...

Quem contrata serviços podendo pagar preços de mercado tem rede de contatos profissionais e não sai anotando nome de desenhista porque viu um desenho num folheto. Vai se informar e ver se é profissional ou "quebra-galhos", um pára-quedista sem grandes comprometimentos com o ofício. 


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SÓ POR DINHEIRO? TAMBÉM NÃO...


Não pense que eu chego ao extremo de dizer que não faço nada se não for pra receber. Há casos e casos.
Já colaborei com ONGs e já forneci desenhos para entidades filantrópicas sérias, igrejas e até um templo budista.

Uma entidade assistencial até perguntou humildemente quanto eu cobraria pra desenhar para uma camiseta deles. Preferi fazer o trabalho como doação mesmo, após tomar conhecimento das condições em que trabalhavam. E entrei na empreitada do álbum Mangá Tropical mesmo sabendo que ia render pouca grana e dar muita dor de cabeça movido por amor à arte. E apesar de ultimamente só ter aceito convites para palestras em troca de cachê, já falei muito pra ajudar eventos de conhecidos ou para promover algum trabalho que estava lançando.

Afinal, foi por gostar de desenhar e escrever que entrei nessa área. E fiz muito laboratório de palestras em eventos mais descomprometidos até ter segurança para cobrar pelo que eu digo e da forma como apresento.

Já fiz e faço coisas motivado por inspiração artística e por amizade, o que é bem diferente de atender a uma solicitação profissional de graça. Se o próprio artista não se valorizar enquanto profissional, não deve esperar que os outros façam isso por ele.


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UM BRILHANTE DEPOIMENTO DE HARLAN ELLISON

O ilustrador Montalvo Machado publicou com legendas em seu blog um trecho de uma entrevista do escritor Harlan Ellison onde ele esculhamba com essa mentalidade de fazer algo "só pra divulgar". Vale a pena assistir:

- Depoimento de Harlan Ellison


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Um pensamento de certos empresários ao olharem para um artista:
"Com seu talento e minha esperteza, você vai ficar famoso e eu vou ficar RICO!"


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

DANDO AQUELA FORÇA

Vira e mexe, chega alguém pedindo pra cobrar um preço camarada, que está querendo "dar uma força" pra gente. Em contrapartida, pedem que a gente "dê uma força pra eles" fazendo um trabalho profissional a baixos valores ou de graça. Depois chega um cliente de pequeno porte dizendo, "Não vai cobrar caro de mim porque minha firma é pequena, não é igual àquele cliente grande que você tem." Que, por acaso, pediu pra cobrar barato pra dar a tal força. Com que moral a pessoa que começa cobrando errado vai conseguir subir valores um dia?

Um amigo sempre diz que "quem faz preço de amigo, não faz serviço de amigo." Claro que negociar faz parte do jogo e há momentos em que pesa a amizade para se firmar um trabalho, mas nunca pode ser desvantajoso para ninguém, senão a amizade fica comprometida. O melhor é ser profissional.

Para quem é prestador de serviços, a situação em geral não é muito bem compreendida. Se um cara é dono de um pequeno mercado, nenhum conhecido ou parente tem coragem de chegar e falar "Deixa eu levar 1 kg de carne moída e uns pacotes de macarrão? Faz de graça ou um precinho bem em conta pra mim, vai, que eu falo bem de você por aí."

Já perante um desenhista, fica sempre aquele pensamento: "Pô, o que custa ele fazer um desenhinho pra mim? Tá sem fazer nada agora..."

Morar com os pais realmente impede que muita gente se preocupe com essas coisas mundanas. Ou o artista em questão tem um emprego fixo, que permite encarar todo o resto como "bico". Mas até um bico tem sua função e parece que a maioria dos artistas não se preocupa com isso. Daí, quem corre atrás e fica cobrando posição acaba parecendo o mercenário que muitas vezes irrita o contratante ou o funcionário que tem que responder pelo seu pagamento. Que por acaso tem seu salário, independente do que aconteça.

Se muita gente subvaloriza o trabalho artístico, é porque muitos artistas não se comportam profissionalmente na hora de receber o pagamento que, sempre digo, é uma das minhas partes favoritas em um trabalho. E não me envergonho de dizer isso.

Profissionalismo é uma via de mão dupla: de um lado, você cumpre uma tarefa no prazo e com a qualidade que o cliente precisa e, do outro, espera que o pagamento acordado e agendado seja recebido na data estipulada.Muitos clientes não esquentam a cabeça com isso porque muitos artista
s, infelizmente, não ligam muito para o próprio bolso ou têm vergonha de ficar cobrando algo que é seu por direito.


Amanhã, um texto sobre as armadilhas do trabalho em troca de divulgação.


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O tema de valorização do trabalho artístico é tema recorrente neste blog. Se perdeu, leia também:

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Criticando o Mercado de Quadrinhos


Falar sobre mercado de trabalho é um assunto recorrente para mim e rende longas conversas com alguns bons amigos da área. A questão que sempre colocamos é: o mercado de HQs atravessa um momento negro como atividade profissional.
Não estou falando sobre publicações ou divulgação. A internet propicia um meio democrático de divulgação e publicação virtual de trabalhos de qualquer um. Isso é indiscutível e tem permitido a muita gente expressar e divulgar sua arte como nunca acontecera antes.

No meio impresso, a grande proliferação de álbuns nacionais (notadamente com temas históricos ou adaptações literárias) e revistas independentes ganha espaço na mídia especializada e cria a ilusão de que vivemos uma era de ouro. Algumas andorinhas não fazem um verão. Há álbuns comercialmente bem sucedidos, mas ainda é cedo para indicar esse tipo de trabalho como o ganha-pão de muitos autores.

Estou um pouco cansado de ler gente inteligente dizendo asneiras sobre como o mercado de HQ no Brasil vive um momento fantástico. Pode ter alguns sinais promissores aqui e acolá, mas falta muita coisa pra ser viável economicamente pra quem faz. O mercado local só está fantástico pra quem não tem a pretensão de viver escrevendo ou desenhando histórias (ou colorindo, finalizando), fazendo isso em paralelo com outras atividades. E fantástico para quem é leitor e tem dinheiro pra gastar, pois HQ no Brasil virou um produto elitizado, fruto de um mercado na verdade fraco, que aposta no poder de compra de um número cada vez menor de leitores. Muito longe da imagem antiga do gibi como diversão popular. HQ agora é pra iniciados.
Analisando o aspecto criativo, vivemos tempos interessantes mesmo. Ecos das cultuadas séries Love and Rockets e Estranhos no Paraíso povoam muitas páginas de publicações alternativas ou independentes, mostrando que HQs de cotidiano têm força e algum público. E também super-heróis nacionais encontram espaço no mundo alternativo, alguns bastante nacionalistas e até com alguma xenofobia, por mais estranho que isso possa soar vindo de quem se inspira em modelos criativos estadunidenses.

Mas o mercado alternativo tem gerado, como já comentei no Twitter, vários "popstars" que vendem 500 exemplares em lojas especializadas - o que é ridículo em um mercado que já teve gibis nacionais vendendo milhares de exemplares em bancas. Como comentou o Nick Farewell, também no Twitter, o mercado de HQ independente é um mercado de subsistência. Quem compra é quem também faz. E não deveria ser tão limitado.

Veja bem: eu apoio totalmente a existência de um mercado alternativo e independente, que permita trabalhos autorais e experimentações. Eu mesmo venho tentando produzir algo assim. E muitos independentes não querem ficar à margem do mercado, querem buscar públicos cada vez maiores para fazer a transição para o quadrinho de alcance mais popular. O problema é que esse mercado repleto de publicações (entre álbuns, fanzines, fotologs, revistas independentes e afins) está sendo compreendido de forma equivocada. Mercado de publicações de quadrinhos é algo diferente de mercado de trabalho para quadrinhistas. Há muitos títulos, mas basta perguntar se esses autores estão tirando seu sustento dessas HQs ou se o dinheiro deles vem de outras fontes, como ilustração publicitária, aulas ou até um emprego fixo formal. Em geral, os que realmente vivem de HQ ou produzem para o Mauricio de Sousa ou trabalham para o mercado dos EUA. As opções são poucas.
Para os editores, tem sido, como sempre foi, um bom negócio publicar HQs traduzidas. Material japonês, estadunidense e coreano lota as bancas e lojas especializadas, ajudando naturalmente a sufocar a incipiente produção nacional que, em termos de mercado, se resume à Turma da Mônica e a algumas empreitadas isoladas. Eventualmente, Ziraldo ou algum outro, como Luluzinha Teen. Mas fica muito difícil competir em igualdade com o volume de produção e qualidade que vem de fora, pois ele já foi muito testado e aperfeiçoado em outras condições de mercado mais favoráveis ao desenvolvimento profissional.

Sou contra reservas de mercado, mas alguns incentivos fiscais do governo seriam bem vindas. Comprar álbuns de autores nacionais para suprir bibliotecas claro que é interessante, mas isso vai criando algumas amarras criativas, pois muita coisa acaba sendo feita para ser comprada pelo governo, e não para ser oferecida ao mercado.

Muitos autores de HQ que têm aparecido são também ilustradores publicitários. Basta perguntar a qualquer um deles se teria condições de largar tudo para se dedicar integralmente a produzir quadrinhos visando o mercado de bancas, se sujeitando aos preços que a maioria das editoras pode pagar. Lembrando que, se o gibi nacional ficar muito mais caro que o traduzido, aí é que a competição fica ainda pior para o lado mais fraco. Com tudo isso, fica realmente difícil formar uma geração de autores. Eu mesmo não posso largar minhas atividades profissionais para uma empreitada visando bancas. Já fiz muito disso quando era mais jovem e me preocupava mais com realização pessoal do que sobrevivência.

Uma vez, fui entrevistado por uma jornalista japonesa que me perguntou o que poderia ser feito para que os personagens japoneses fossem ainda mais populares no Brasil. Minha resposta talvez a tenha decepcionado. Eu disse que ao invés disso, preferia que os autores e editores daqui fizessem como os do Japão, valorizando mais a produção nacional e buscando uma maior identificação com o público local.

Ou seja, eu quero um mercado de trabalho para quadrinhistas. Um mercado de trabalho realista, sério, competitivo, desafiador, com menos oba-oba e mais volume de produção.