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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Criticando o Mercado de Quadrinhos


Falar sobre mercado de trabalho é um assunto recorrente para mim e rende longas conversas com alguns bons amigos da área. A questão que sempre colocamos é: o mercado de HQs atravessa um momento negro como atividade profissional.
Não estou falando sobre publicações ou divulgação. A internet propicia um meio democrático de divulgação e publicação virtual de trabalhos de qualquer um. Isso é indiscutível e tem permitido a muita gente expressar e divulgar sua arte como nunca acontecera antes.

No meio impresso, a grande proliferação de álbuns nacionais (notadamente com temas históricos ou adaptações literárias) e revistas independentes ganha espaço na mídia especializada e cria a ilusão de que vivemos uma era de ouro. Algumas andorinhas não fazem um verão. Há álbuns comercialmente bem sucedidos, mas ainda é cedo para indicar esse tipo de trabalho como o ganha-pão de muitos autores.

Estou um pouco cansado de ler gente inteligente dizendo asneiras sobre como o mercado de HQ no Brasil vive um momento fantástico. Pode ter alguns sinais promissores aqui e acolá, mas falta muita coisa pra ser viável economicamente pra quem faz. O mercado local só está fantástico pra quem não tem a pretensão de viver escrevendo ou desenhando histórias (ou colorindo, finalizando), fazendo isso em paralelo com outras atividades. E fantástico para quem é leitor e tem dinheiro pra gastar, pois HQ no Brasil virou um produto elitizado, fruto de um mercado na verdade fraco, que aposta no poder de compra de um número cada vez menor de leitores. Muito longe da imagem antiga do gibi como diversão popular. HQ agora é pra iniciados.
Analisando o aspecto criativo, vivemos tempos interessantes mesmo. Ecos das cultuadas séries Love and Rockets e Estranhos no Paraíso povoam muitas páginas de publicações alternativas ou independentes, mostrando que HQs de cotidiano têm força e algum público. E também super-heróis nacionais encontram espaço no mundo alternativo, alguns bastante nacionalistas e até com alguma xenofobia, por mais estranho que isso possa soar vindo de quem se inspira em modelos criativos estadunidenses.

Mas o mercado alternativo tem gerado, como já comentei no Twitter, vários "popstars" que vendem 500 exemplares em lojas especializadas - o que é ridículo em um mercado que já teve gibis nacionais vendendo milhares de exemplares em bancas. Como comentou o Nick Farewell, também no Twitter, o mercado de HQ independente é um mercado de subsistência. Quem compra é quem também faz. E não deveria ser tão limitado.

Veja bem: eu apoio totalmente a existência de um mercado alternativo e independente, que permita trabalhos autorais e experimentações. Eu mesmo venho tentando produzir algo assim. E muitos independentes não querem ficar à margem do mercado, querem buscar públicos cada vez maiores para fazer a transição para o quadrinho de alcance mais popular. O problema é que esse mercado repleto de publicações (entre álbuns, fanzines, fotologs, revistas independentes e afins) está sendo compreendido de forma equivocada. Mercado de publicações de quadrinhos é algo diferente de mercado de trabalho para quadrinhistas. Há muitos títulos, mas basta perguntar se esses autores estão tirando seu sustento dessas HQs ou se o dinheiro deles vem de outras fontes, como ilustração publicitária, aulas ou até um emprego fixo formal. Em geral, os que realmente vivem de HQ ou produzem para o Mauricio de Sousa ou trabalham para o mercado dos EUA. As opções são poucas.
Para os editores, tem sido, como sempre foi, um bom negócio publicar HQs traduzidas. Material japonês, estadunidense e coreano lota as bancas e lojas especializadas, ajudando naturalmente a sufocar a incipiente produção nacional que, em termos de mercado, se resume à Turma da Mônica e a algumas empreitadas isoladas. Eventualmente, Ziraldo ou algum outro, como Luluzinha Teen. Mas fica muito difícil competir em igualdade com o volume de produção e qualidade que vem de fora, pois ele já foi muito testado e aperfeiçoado em outras condições de mercado mais favoráveis ao desenvolvimento profissional.

Sou contra reservas de mercado, mas alguns incentivos fiscais do governo seriam bem vindas. Comprar álbuns de autores nacionais para suprir bibliotecas claro que é interessante, mas isso vai criando algumas amarras criativas, pois muita coisa acaba sendo feita para ser comprada pelo governo, e não para ser oferecida ao mercado.

Muitos autores de HQ que têm aparecido são também ilustradores publicitários. Basta perguntar a qualquer um deles se teria condições de largar tudo para se dedicar integralmente a produzir quadrinhos visando o mercado de bancas, se sujeitando aos preços que a maioria das editoras pode pagar. Lembrando que, se o gibi nacional ficar muito mais caro que o traduzido, aí é que a competição fica ainda pior para o lado mais fraco. Com tudo isso, fica realmente difícil formar uma geração de autores. Eu mesmo não posso largar minhas atividades profissionais para uma empreitada visando bancas. Já fiz muito disso quando era mais jovem e me preocupava mais com realização pessoal do que sobrevivência.

Uma vez, fui entrevistado por uma jornalista japonesa que me perguntou o que poderia ser feito para que os personagens japoneses fossem ainda mais populares no Brasil. Minha resposta talvez a tenha decepcionado. Eu disse que ao invés disso, preferia que os autores e editores daqui fizessem como os do Japão, valorizando mais a produção nacional e buscando uma maior identificação com o público local.

Ou seja, eu quero um mercado de trabalho para quadrinhistas. Um mercado de trabalho realista, sério, competitivo, desafiador, com menos oba-oba e mais volume de produção.

13 comentários:

[EMERSON ABREU] disse...

Vc disse tudo nessa matéria, rapaz! Mandou muito bem!

Parece que hoje em dia todo mundo quer ser "alternativo" e escrever histórias depressivas falando sobre o cotidiano só pra ganhar um prêmio no HQMix, que é a maior glorificação do mercado independente brasileiro (traduzindo, prêmio para fanzineiros). São artistas de uma história só, não conseguem produzir constantemente (mesmo porque eles fazem isso como hobby, não é a "profissão" deles).

E esse papo de HQs compradas pelo governo resultou apenas em diversas adaptações de autores antigos e de material escolar, parecem mais um livro de "História" apresentado em quadrinhos, nada muito relevante ou criativo...

Enquanto isso, o verdadeiro mercado de quadrinhos (banca) continua estagnado e a área de trabalho para quadrinistas brasileiros é quase inexistente...

Abração!

Octavio Aragão disse...

Concordo em tudo e por tudo, Nagado. Sem HQs de base, viveremos para sempre nessa ilusão dos álbums de luxo,

Entramos na Matrix das HQs brasileiras “bem sucedidas”. É tudo um jogo de sombras, e, como apontou muito bem, sob a égide de um falso naturalismo.

Agora, se eu vou publicar um álbum de luxo? Sim senhor... :-)

Alexandre Nagado disse...

Fala, Emerson! Que legal ter um leitor ilustre (e colega nuclear) como você!

Pois é, o que motivou a postagem foi constatar o tremendo oba-oba e falta de senso de realidade que imperam hoje em dia.

Eu gosto de HQs existencialistas (bom, nem todas), com um toque de melancolia. Minha personagem Dani se encaixa um pouco nesse perfil. Mas coisas mais alternativas deviam ser vistas como isso: alternativas ao mainstream. Mas cadê o mainstream da HQ nacional em banca, que é o que conta como mercado de trabalho? Tirando a Turma da Mônica, não existe.

O lance dos álbuns de História do Brasil e adaptações literárias é interessante, claro. Mas fica difícil alguém querer desenvolver algo mais crítico nessa área, temendo espantar os compradores governamentais.

Me lembro de um professor no colegial que tripudiava em cima das versões oficiais que os livros de História contam e que agora têm a cumplicidade dos quadrinhos para se fazerem perpetrar. São as tais amarras criativas que mencionei no texto.

Eu não aponto soluções (mesmo porque, se as tivesse, usaria), mas espero que identificar os problemas ajude o aparecimento de iniciativas mais objetivas e novas idéias para o mercado, e não para uma rodinha de amigos.

Abraços!

Lancaster disse...

Não tem muito o que dizer, cara.

E sinceramente, quadrinho de autor só tem razão de existir quando se vale de estruturas criadas para a difusão do quadrinho mainstream. Mas aqui, quadrinho mainstream é palavrão pra muita gente.

Rafael Rodrigues disse...

Bacana o texto, mas ele parece maisum desabafo do que uma análise, hehehe. Mas acredite, sei bem como é isso semana passada mesmo estava discutindo esse mesmo assunto. Eu já publiquei duas revistas em quadrinhos aqui na minha região, e cheguei perto de montar uma editora. O mais engraçado é que foram problemas logísticos e administrativos que impediram que ela fosse pra frente, e não o incentivo.

O problema é que, se você quer se dedicar aos quadrinhos de forma que ela A) seja de qualidade e B) seja produtiva/rentável, é necessário muito mais do que apenas boas histórias.

E aí que está o grande problema, os quadrinistas são apenas isso, quadrinistas. Faltam no mercado Editores, Publicitários, vendedores que entendam do produto que estão divulgando/vendendo/controlando. Para que um "mercado de HQs" exista e seja consistente aqui no Brasil, é necessário muito mais do que apenas força de vontade, criatividade e qualidade; é preciso também entender o segmento, como ele funciona aqui no Brasil, que nichos podem ser trabalhados, qual o perfil de público, como ele deve ser trabalho e como a promoção/publicidade tem que ser feita, sem desperdício de dinheiro.

Não adianta colocar a culpa nos "governos", que não incentivam. Leis de incentivo à cultura existe às pencas; o que falta é gente que saiba mostrar o quadrinho como PRODUTO.

Alexandre Nagado disse...

Octavio, bem lembrado esse lance da Matrix. :-)

Eu já trabalhei muito com HQs pra banca, produzindo pra Abril, Escala e EBAL. Era material infanto-juvenil, licenciado de produções japonesas, mas inteiramente criado aqui. O pessoal mais cabeça ignorava, mas era uma atividade profissional digna e desafiadora, pois exigia criação constante com prazos apertados.

O que é totalmente diferente de fazer produção alternativa.

Alguns podem pensar que estou criticando o mercado alternativo. O que não estou. Tenho muitos amigos publicando assim e tenho algumas idéias que só poderiam ser canalizadas em publicações alternativas. A minha crítica é contra a falsa percepção de mercado que se está espalhando cada vez mais.

E por isso, já estou contente com os comentários que têm chegado e com as várias retransmissões que estão acontecendo via Twitter.

Abraços!

Alexandre Nagado disse...

Rafael, o texto é mesmo um desabafo. Desabafo de alguém que tem lido muitos absurdos e que se preocupa com a valorização profissional (e não somente artística) dos profissionais de quadrinhos.

Os projetos culturais e as compras para bibliotecas que os governos fazem são interessantes, como eu sempre digo, mas limita muitas propostas politicamente incorretas. A liberdade artística e de expressão normalmente conflitam com as visões dos governos e nem devem se deixar contaminar com a aura "oficial". Por isso eu gostaria mais de ver incentivos fiscais para a produção de quadrinhos. Mas é claro também que não adianta ficar esperando mamar no governo igual faziam muitos cineastas da antiga Embrafilme.

Encarar a HQ como produto é o único caminho para ela ser vista com valor de mercado. O difícil, a esta altura, é concentrar esforços e investimentos para tal objetivo.

Abraços!

esteves-hqemfoco disse...

Grande Nagado,

Acho sua análise bacana, só faltou perceber, ou citar, que não necessariamente o "INDEPENDENTE" veste essa carapuça de ALTERNATIVO.
Pelo contrário, hoje vejo muitos quadrinistas independentes fazendo exatamente o que as editoras não estão fazendo [exceto o Maurício de Souza, que sempre fez e recentemente surpreendeu a todos com suas novas empreitadas], que é tentar formar público novo. É um trabalho de formiguinha? É! Mas acho que cada pequena iniciativa somada pode gerar algo interessante daqui um tempo. Nem é questão de copiar alguma fórmula já pronta, mas tentar alcançar novos leitores entre pessoas que consomem outros produtos culturais, mas não consumiram quadrinhos até hoje por não se identificarem com os estilos mais comuns publicados.
Digo por mim, não considero meu quadrinho alternativo. Quero mais é que todo o tipo de pessoa leia. Lógico que tenho minha linha de criação, minhas limitações e o fato de produzir com o próprio bolso, mas isso não quer dizer que queira fazer HQ pra poucas pessoas.
Enfim, como disse anteriormente, acho bacana suas considerações, só queria deixar aqui expressado que muitos independentes não querem ser alternativos, querem mesmo alcançar os leitores e estão tentando isso de alguma forma.

grande abraço!

E ainda te devo um roteiro pra uma HQ ou tirinha da Nanquim!

daniel esteves

Alexandre Nagado disse...

Fala, Daniel! Essa postagem está batendo o recorde de comentários ilustres.

Realmente, faltou diferenciar os termos "independente" e "alternativo", que nem sempre andam juntos. Vou ver se edito isso na postagem original.

Como eu disse, a crítica é mais quanto à visão de mercado que muita gente está formando. O caminho de muitos independentes (o seu, inclusive) é racional e coerente. E pelo que li, busca aquela clareza narrativa que atinge os não-iniciados. Essas iniciativas são mais do que louváveis, mas isso não tem sido bem interpretado pela mídia, criando a tal falsa visão de mercado.

O caminho independente é árduo, mas é um caminho válido, comercialmente inclusive. Principalmente quando busca ser popular, e não alternativo. Poder viabilizar comercialmente um trabalho visceralmente autoral é uma meta ambiciosa. Mas que vale a pena perseguir.

E finalmente, sim, o senhor está devendo um roteiro. Ficarei contente quando puder desenhar uma tira pra Nanquim. A gente se fala!

E obrigado pela visita e pelo registro.

Abraços!

sandra monte disse...

Olá Nagado,
Não vou dizer que discordo com você. Mas vou dizer que há alguns pontos importantes que percebi ao longo dos anos.

Um ponto: há muita porcaria em nosso mercado. Há títulos muito mal feitos, seja pelo roteiro, seja pelo desenho. Isso é fato. Não atrai ninguém.

Outro ponto: há alguns artistas que têm nome. Que poderiam estar fazendo seus próprios trabalhos e ganhando dinheiro. Mas, o que fazem? Preferem viver a sombra de grandes marcas, satisfazer-se por trabalhar para fulano, muitas vezes, sem ter os devidos créditos.

O que fazem? Nada. E o pior, sabe por que isso acontece? Porque quadrinhistas no Brasil não se atentam ao seu lado marketeiro. Acham que devem fazer somente a arte, e não atuar na divulgação.

Pergunto-te: quantos vão em eventos como Expolic, Abrin, Escolar... Quantos conhecem o Licensing Brasil, Diário do Comércio, a Abrin?

Olha, eu já dei muitas dicas nesse sentido no Papo de Budega. Ninguém, mas ninguém faz algo de qualidade e segue o caminho comercial.

Ou seja, o problema é generalizado. O povo quer que as editoras caiam do céu, mas os próprios artistas não se mexem para melhorar sua situação.

E potencial comercail... Muitos trabalhos têm!!!

Affe, acho que agora quem desabafou fui eu... O_O



Sandra Monte
www.papodebudega.com

Alexandre Nagado disse...

Oi, Sandra.

Olha, essa questão que levantou é importante. Eu acho que marketing pessoal tem até demais nessa área. Mas o mercado continua espantando grandes talentos que acabam produzindo para os EUA. Porque todos têm contas pra pagar e empreitadas pessoais custam caro e demoram pra pegar.

O mercado aqui não é como no Japão, infelizmente. Lá, um novo autor que estréia nas páginas de uma antologia que vende 4, 5 milhões de exemplares por semana tem uma vantagem enorme na hora de negociar merchandising. Há uma estrutura montada que capitaliza isso. Não vejo autores de mangá no Japão indo em feiras vender seus personagens. Há editores, agentes e representantes que fazem isso, porque eles têm que se concentrar em produzir - e bem - seu material.

Voltando à nossa realidade, imagine um novo autor com um personagem super bem elaborado procurando representantes de uma fábrica de brinquedos pra licenciar sua criação. Vão perguntar se está na TV, se já fez sucesso em outros países e quantos milhões de pessoas o conhecem. Porque estão acostumados com Batman, Dragon Ball, Naruto, Superman... Arriscar nenhum empresário gosta e os daqui são mais receosos ainda, pois sempre vai soar mais lucrativo investir em algo que está na TV e que é que já foi testado em outros países.

Como o mercado é inconstante, fica difícil também formar bons autores, que produzam material bom com regularidade. No exterior se faz muita porcaria, mas tem espaço para os geniais, os normais e até alguns fraquinhos tentarem por alguns anos. Aqui, tem que acertar sempre de primeira e assim fica difícil. Volta-se sempre ao fator sobrevivência e contas para pagar. Quem tem uma renda paralela ou mora com os pais pode se dar ao luxo de viver no vermelho, só investindo. Ainda assim, irá enfrentar todos os entraves já mencionados.

Parece que nunca vai mudar, mas conhecer e analisar os problemas vai ajudando a formar critérios e planos melhores a cada geração, creio eu.

Abraços!

Robinson Oliveira / X-JAPAN7 disse...

E aí Nagado beleza? Como sempre postando assuntos de grande influência em vários seguimentos deste país.
Como vc sabe eu adoro Mangás, principalmente os com personagens de Samurais: Lobo Solitário, A Lenda de Kamui, Samurai X e o Samurai Executor. Mas acredito que em nosso país tem maravilhosos e inteligentes artistas, como vc. E poderia as editoras aproveitar e valorizar os nacionais. Quem sabe m dias isto aconteça.

Nick disse...

Só tenho uma coisa a dizer. Para formar um mercado precisa de trabalho de qualidade. E para ter trabalho de qualidade precisa ter quantidade (mesmo para poder selecionar). O que eu vejo sinceramente nem um nem outro. Uma outra constatação estranha. Parece até que o mercado dito independente faz uma reseva de mercado. Sempre mesmas pessoas. Mas posso estar errado. Abraços.