terça-feira, 8 de setembro de 2009

DIVULGAÇÃO X TRABALHO

Trabalhar por divulgação é uma das maiores roubadas e são pouquíssimos casos em que essa relação se revelou vantajosa. Em geral, a vantagem é sempre para quem vem fazer a proposta.

Quando alguém age empresarialmente e monta uma empreitada, seja uma confecção, editora, uma fábrica ou até um evento, faz uma planilha de custos. Vai pagar instalações, mão-de-obra, segurança, materiais, infra-estrutura, uniformes, sei lá. Vai cotar preços e fechar acordos e parcerias comerciais. E na hora de ver o ilustrador, designer ou desenhista, vai oferecer divulgação para ter o trabalho. Por quê não tem coragem de perguntar à empresa de segurança se pode mandar pessoas capacitadas em troca de poderem distribuir cartões da empresa? Ou por quê não pergunta aos faxineiros se podem limpar de graça pra ver se conseguem alguma casa pra fazer faxina entre os clientes?

O pensamento que vem é mais ou menos este: "Ah, mas artista não deve se preocupar com dinheiro, essas coisas. Pra esses basta divulgar muito e rezar para que o próximo cliente pague bem, porque eu não vou gastar e ainda vou ajudar esse coitado a ter seu nome conhecido por mais pessoas. Ele tem é que me agradecer."

Sempre lembro de um espertinho assessor de um político ambicioso que queria me convencer a ilustrar de graça para o cara. Primeiro, porque "seria um desafio pra mim" (isso é papo motivacional bem rasteiro...) e depois porque "seria fantástico saber que o desenho estaria circulando pela cidade em camisetas e adesivos de carro". Grande m*****. Alguém vê o desenho e pensa: "Oh, que desenho legal, vou perguntar quem fez e pedir pra fazer um pra minha camiseta. Se for por 10 reais, melhor ainda." Até parece...

Quem contrata serviços podendo pagar preços de mercado tem rede de contatos profissionais e não sai anotando nome de desenhista porque viu um desenho num folheto. Vai se informar e ver se é profissional ou "quebra-galhos", um pára-quedista sem grandes comprometimentos com o ofício. 


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SÓ POR DINHEIRO? TAMBÉM NÃO...


Não pense que eu chego ao extremo de dizer que não faço nada se não for pra receber. Há casos e casos.
Já colaborei com ONGs e já forneci desenhos para entidades filantrópicas sérias, igrejas e até um templo budista.

Uma entidade assistencial até perguntou humildemente quanto eu cobraria pra desenhar para uma camiseta deles. Preferi fazer o trabalho como doação mesmo, após tomar conhecimento das condições em que trabalhavam. E entrei na empreitada do álbum Mangá Tropical mesmo sabendo que ia render pouca grana e dar muita dor de cabeça movido por amor à arte. E apesar de ultimamente só ter aceito convites para palestras em troca de cachê, já falei muito pra ajudar eventos de conhecidos ou para promover algum trabalho que estava lançando.

Afinal, foi por gostar de desenhar e escrever que entrei nessa área. E fiz muito laboratório de palestras em eventos mais descomprometidos até ter segurança para cobrar pelo que eu digo e da forma como apresento.

Já fiz e faço coisas motivado por inspiração artística e por amizade, o que é bem diferente de atender a uma solicitação profissional de graça. Se o próprio artista não se valorizar enquanto profissional, não deve esperar que os outros façam isso por ele.

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UM BRILHANTE DEPOIMENTO DE HARLAN ELLISON

O ilustrador Montalvo Machado publicou com legendas em seu blog um trecho de uma entrevista do escritor Harlan Ellison onde ele esculhamba com essa mentalidade de fazer algo "só pra divulgar". Vale a pena assistir:

- Depoimento de Harlan Ellison


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Um pensamento de certos empresários ao olharem para um artista:
"Com seu talento e minha esperteza, você vai ficar famoso e eu vou ficar RICO!"

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